Uma actividade possui sentido se possuir uma finalidade. Se eu estiver à procura de uma esferográfica, escrever é a finalidade da minha procura. Uma actividade tem valor intrínseco se tiver valor por si mesma. Tem valor instrumental se tem valor em função de ser um meio para alcançar o que tem valor por si. Assim posso dizer que o dinheiro tem valor instrumental para poder comprar uma camisola nova e comprar uma camisola nova tem valor instrumental para ser feliz. E qual é o valor instrumental de ser feliz? A felicidade parece não depender de nenhum outro valor, pois possui valor por si mesma, isto se a felicidade for uma finalidade ultima. Em conclusão: o sentido de uma actividade é dado pela finalidade com valor.
Rolando Almeida
Um exemplo para explorar: o sistema educativo.
Recentemente ouvimos rumores chegados de personalidades do Ministério da Educação que os alunos não devem chumbar de ano. Por comparação usou-se o sistema educativo finlandês. Vou defender que estes dois sistemas educativos não podem ser comparados, não somente por razões sociais, mas muito mais por razões de princípio e de valor. Segundo sei pela leitura de várias publicações, um casal finlandês pode passar 2 horas diárias a ensinar os seus filhos a ler. O casal médio português passa diariamente 4 horas com os filhos em frente à TV a ver novelas e futebol. Já daqui se pode vislumbrar a solidez de um sistema educativo em relação a outro. Mas vamos mais longe! O aluno de classe média em Portugal (a maioria) tem interiorizada socialmente a ideia de que frequentam a escola para “um dia ter uma vida boa”. Ora, “ter uma vida boa” significa ter um emprego seguro, com um bom ordenado ao final do mês. Quer isto dizer que se a escola não garantir emprego (tal como começa a ser verdade, até para as licenciaturas) perde grandemente o seu valor. E o valor atribuído à escola é duramente instrumental. Seria, claro, interessante fazer um estudo sobre as razões por que os nossos jovens frequentam a escola. Os resultados não deveriam andar longe daquilo que aqui estou a dizer. O jovem médio finlandês não atribui à escola somente valor instrumental pois desde cedo aprendeu a reconhecer que a escola e o conhecimento têm um valor intrínseco. O jovem finlandês porque adquiriu conhecimento, aplica-o mais tarde para fazer os Nokias. Mas os nossos jovens, mais habituados ao futebol e às novelas, vão ter de comprar os Nokias aos jovens finlandeses, porque não os sabem fazer. Se eu souber fazer limonadas e chegar a um sítio onde ninguém as sabe fazer, posso facilmente especular o preço das limonadas. Pelo contrário, se nesse sitio os seus habitantes souberem fazer limonadas, se eu as quiser vender, vou ter de baixar o preço e, além do mais, tentar inovar no produto, por exemplo, adicionando açúcar amarelo anunciando às pessoas que assim as minhas limonadas não fazem mal à saúde. Os americanos construíram os seus Fords que eram autênticas banheiras para além de consumirem muito combustível, mas eram impecáveis para circular no infindável território americano. Os Japoneses tem um país pequeno e tiveram de investir em conhecimento para fazer carros para circular no seu pequeno país. Além do mais os Japoneses não possuem as relações de proximidade com os árabes produtores de petróleo que os americanos têm. Logo, tiveram de investir em conhecimento para construírem carros que consumissem pouco combustível. A alternativa ao conhecimento era ter de comprar os carros aos americanos, se conseguissem uma boa economia para isso. Muitas vezes ouço dizer que Portugal é um país pequeno e que não consegue produzir senão para a sua subsistência. Acontece que há países em África que são gigantes e são muito pobres. A produção – de produtos agrícolas por exemplo – pouco tem que ver, nos nossos dias, com a grandeza ou pequenez do território, mas mais com o conhecimento e capacidade tecnológica. Claro que o Português médio não vê isso assim. Vivo na Madeira e 80% dos madeirenses dizem-me que a Madeira não pode ser independente porque não tem geografia para produzir produtos alimentares e agrícolas. Enganam-se! O que a Madeira, como Portugal inteiro não tem, é conhecimento, pois os seus habitantes não são habituados a ver o valor intrínseco da escola e educação, mas somente o seu valor instrumental. Pensa-se que a forma de realizar riqueza é ver na escola um meio para atingir uma finalidade. Por essa razão é que os sucessivos ministérios da educação desprezam cada vez mais o saber e o conhecimento e o substituem pelo discurso da facilidade educativa. Retira-se exames a disciplinas como a filosofia, acaba-se com ela no 12º ano, mas impõe-se disciplinas como área de integração ou área de projecto, com uma ocupação horária acima da média nos currículos escolares. E esta é claramente uma falta de visão grosseira do valor intrínseco da escola, do conhecimento e do saber. Este erro já outros países cometeram, até que acordaram de vez para a realidade. Só o conhecimento produz riqueza, bem-estar e felicidade e desprezá-lo não conduz uma comunidade à sua realização. A escola enquanto não se tornar exigente em saber e conhecer, enquanto embalada no discurso da facilidade e da estatística à pressão, jamais pode impor-se como um valor intrínseco. Apesar de o ser sempre, as pessoas são cegadas para o ver.
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