Seria Hume ateu?
A sua doutrina oficial era o cepticismo moderado, uma forma suavizada de cepticismo que nada aceita que não tenha sido verificado previamente, mas que não chega ao absurdo dos cépticos que tentam viver como se absolutamente nada pudesse ter sido como certo. O cepticismo moderado aplicado a questões religiosas aponta na direcção do ateísmo, mas não é equivalente a ele. O céptico moderado não aceitaria o Argumento do Desígnio como prova da existência e dos atributos do Deus cristão. Contudo, afirmar que não existem provas suficientes sobre as quais se possa fundamentar a crença na existência de Deus não é o mesmo que asseverar que Deus definitivamente não existe. Hume pode ter considerado o próprio ateísmo uma posição dogmática, isto é, uma posição para a defesa da qual não existem provas suficientes. Talvez, então, Hume acreditasse, de facto, tal como acontecia com Fílon, que o universo tinha tido um criador inteligente. No entanto, o filósofo acreditava evidentemente que a razão humana era insuficiente para permitir um conhecimento detalhado da natureza exacta desse criador, se é que existia um.
Hume faleceu sem possuir qualquer esperança numa vida para além da morte.
Nigel Warburton, Grandes Livros de Filosofia, Ed. 70, 2001, p.113-114
Obs: existe em português duas traduções da obra de David Hume, Diálogos Sobre Religião Natural, ambas de 2005. Uma é publicada pelas Ed. 70 e outra pela FCG, sendo que esta última inclui também a História Natural da Religião.