Terça-feira, 29 de Abril de 2008

A família a manchar um excelente manual

Na verdade estava mesmo a ver que teria de concluir a minha análise aos manuais com apenas dois manuais consistentes que constituem boas opões. Felizmente há mais, até para apaziguar as dezenas de vozes que, para diminuir um manual, afirmam simplesmente “não é o único! Mas há mais”. Não fossem os manuais como o Criticamente e gostaria de saber quais são os “mais” que temos. Ainda não tive acesso ao Logos, o projecto da Santillana, mas este da Porto Editora, Criticamente, é uma opção certa. Aliás, devo dizer que a edição do 11º ano está melhor e mais consistente que a do 10º ano. Não encontrei erros das partes lidas deste manual, o que o coloca desde logo numa situação privilegiada em relação aos seus congéneres. À pergunta, se eu voto a adopção deste manual, a minha resposta é claramente sim. 
Rolando Almeida

Graficamente o trabalho da editora não será, porventura, o último grito, mas agrada-me bastante uma vez que os manuais cheios de fotografias idiotas conseguem cansar os estudantes muito mais rapidamente do que pensamos. O Criticamente é servido por uma bibliografia sofisticada e filosoficamente actual, para além de adequada. Em relação à organização do manual, pode-se apontar pequenos reparos. Por exemplo, no ponto 4 da unidade “Estatuto do conhecimento científico” dá-se algumas orientações bibliográficas, mas esta ordem não é mais seguida ao longo das outras unidades, o que revela algum desacerto na concepção do manual que pouco afectam a qualidade conjunta. Mas há um ponto neste manual que, incompreensivelmente, o mancha pela negativa. É uma espécie de nódoa no bom trabalho desenvolvido. Estou a referir-me à opção dos temas e problemas da cultura científico tecnológica, o tema 7 – «Podem as tecnologias reprodutivas pôr em risco aquilo que valorizamos na família?» Bem em primeiro lugar a “família” não me parece uma questão central dos problemas científico tecnológicos. Em segundo lugar toda a unidade deixa transparecer um certo discurso sobre a família como valor fundamental. Considera-se que a família oferece cuidados, afectos, pertença, etc. de modo insubstituível. Mas tal só é verdade dentro de um quadro social de referência, o que não invalida a possibilidade de argumentar em favor de outros quadros de referência. Ainda bem que se trata de um problema em opção.
É pena este senão deste capítulo, porque este é um manual de filosofia que qualquer professor se orgulhará de ter para os seus alunos. Lê-se com prazer, não encontrei nele os erros comuns nos manuais. Não tenho ideia de como a linguagem do manual funcionará com os alunos, mas estou convencido que funcionará com a clareza exigida. Trata-se, portanto, de uma das melhores opções, rivalizando entre os melhores.
Em termos comparativos com um manual que rivaliza directamente, O Arte de Pensar é mais fluido que o Criticamente, para além de mais acessível e atraente, provavelmente fruto da experiência dos autores. Claro que só adoptamos um manual, mas este Criticamente seria a minha opção certeira se o Arte tivesse esgotado e as adopções fossem livres, como deveriam ser. Portanto, caros leitores, quando me disserem que “há outros” aqui está o “outros” da minha preferência juntando ao pacote do Filosofia 11 da Plátano e o Arte de Pensar e na expectativa do Logos, que ainda não conheço.
Uma palavra também para o formato do livro: ele é pesado (a qualidade do papel obriga a que os manuais sejam excessivamente pesados), mas tem um formato que particularmente me agrada. Nada daqueles exageros quadrados a que as editoras muitas vezes nos sujeitam.
Artur Polónio, Faustino Vaz, Teresa Cristovão, Criticamente, Porto Editora, 2008

 
publicado por rolandoa às 12:22

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36 comentários:
De Carlos Silva a 1 de Maio de 2008 às 16:07
Rolando,

"Um exemplo de uma forma silogística válida mas “redundante” é a seguinte:
Todo o B é C.
Todo o A é B.
Logo, algum A é C."

Em relação ao modo referido (1.ª figura, modo AAI), quero referir o seguinte:

1- Normalmente não consta dos modos válidos da primeira figura: AAA; EAE; AII; EIO;
2- No entanto, se tivermos em consideração a chamada lei da transitividade do silogismo passa a ser válido na quarta figura:

Todo A é B
Todo B é C
Logo, algum A é C.

Com efeito, a 4.ª figura contempla o modo BRAMANTIP no seu seio.
Veja-se, a este propósito, Javier Sádaba, Filosofia Para Um Jovem, Editorial Presença, (págs. 46 e 47)

Abraço,
Carlos JC Silva
De Anónimo a 1 de Maio de 2008 às 16:22
Carlos Silva: A forma referida não consta das 19 formas silogísticas válidas não redundantes (AAI da 1.ª figura é redundante em relação a AAA da mesma figura, tal como EAO é redundante em relação a EAE). Afirmar que uma forma é redundante não significa negar que seja válida, mas apenas afirmar que é inútil (retira uma conclusão particular, quando a universal é possível). O problema que mais acima e no artigo "A Insustentável Leveza do Arte" se discutiu não foi esse, mas a questão das falácias existenciais, que o seu segundo exemplo não elimina.
De Carlos Silva a 1 de Maio de 2008 às 16:37
Rolando:

Só para acrescentar/corrigir o seguinte:

"Todo A é B
Todo B é C
Logo, algum A é C."

Talvez a conclusão mais correcta fosse:

Logo, algum C é A (conversão simples)

Não se pode enunciar Todo C é A, caso contrário estaríamos a infringir a regra que refere que nenhum termo pode ser mais extenso na conclusão do que nas premissas (C).
Note-se, no entanto, que a figura mais perfeita é a primeira, e dentro desta, particularmente o modo BARBARA. Precisamente por isso se reduzem as restantes figuras à primeira. A quarta é a chamada figura de Galeno e não é mais do que um modo indirecto da primeira.

Carlos JC Silva
De Carlos Silva a 1 de Maio de 2008 às 16:49

Ao Anónimo do comentário anterior:

"Carlos Silva: A forma referida não consta das 19 formas silogísticas válidas não redundantes (AAI da 1.ª figura é redundante em relação a AAA da mesma figura, tal como EAO é redundante em relação a EAE). Afirmar que uma forma é redundante não significa negar que seja válida, mas apenas afirmar que é inútil (retira uma conclusão particular, quando a universal é possível). O problema que mais acima e no artigo "A Insustentável Leveza do Arte" se discutiu não foi esse, mas a questão das falácias existenciais, que o seu segundo exemplo não elimina."

Concordo. É, de facto, inútil e até "forçado" retirar uma conclusão particular quando se pode/deve concluir universalmente. Pelos Diagramas de Venn pode constatar-se isso.

Carlos JC Silva

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Rolando Almeida


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