Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Ao correr da pena

Recebo dezenas de mails devido ao blog. Uns mais insultuosos, outros mais elogiosos. Já escrevi uma vez sobre isso aqui no blog. Hoje mesmo recebi um, creio que de uma leitora do Brasil, que achei especial pela forma curiosa com que colocou as questões. Resolvi publicar aqui o mail recebido, mais a minha resposta omitindo, claro, a identidade da leitora. Resolvi publicar face a alguns comentários reaccionários que defendem que eu tenho interesses comerciais ou ideológicos em defender o manual X e não o Y. Pura e simplesmente nunca me interessei por manuais enquanto eles eram todos maus. No meu estágio profissional, vão já lá uns 12 anos, praticamente não usei manual. Acontece que hoje em dia há bons manuais no mercado e outros razoáveis, mas com alguns erros de evitar e há manuais que são manifestamente maus e que não servem o ensino da filosofia nem a sua dignidade enquanto disciplina. E acontece também que nunca apreciei a tradicional boca “a filosofia não serve para nada”. No dia em que me retirarem a filosofia como profissão, é provável que deixe de falar dela, não sei. Para já, cumpre o meu dever profissional de me interessar pela minha disciplina e defender aquilo que penso ser o mais justo para o seu ensino. Estou disposto ao debate racional e justo e aceito que as críticas recaiam sobre aspectos dos manuais que refiro como os melhores, mas não sobre teorias da conspiração. Já o tenho dito neste blog que acho muito bem que os autores de manuais ganhem muito dinheiro com o seu trabalho, assim como qualquer bom profissional merece ser bem recompensado. Também eu me dedicaria ainda mais ao blog se fosse pago. Mas sou pago para ensinar filosofia. É um luxo que existe, infelizmente, em poucos países do mundo e eu tenho plena consciência disso. Por essa razão talvez me custe deixar que a minha disciplina seja tantas vezes ignorada nos próprios manuais que a devem ensinar aos jovens estudantes. As minhas ideias estão, pois, sujeitas ao contraditório.
Rolando Almeida

Mail: “Caro prof. Rolando
Vejo q andas muito ocupado, mas gostaria  muito q me elucidasse algo
Sou leitora e admiradora  de seu blog, e de outros blogs de
companheiros seus de trabalho.
Como sou relativamente nova por essas andanças, e tenho acompanhado seus
comentários sobre os manuais de filosofia e as respectivas respostas à
eles, gostaria de saber de ti, por qual  motivos fazes essas
avaliações?
É pra saber como andam os manuais e comparar com o Arte?
Em seu trabalho é obrigatória essa avaliação?
Pra ser mais direta , é um trabalho q fazes por tua conta ou é
obrigatório fazê-lo sempre q há um novo manual no mercado?
Agradeço muito sua atenção e parabéns por tão grandioso trabalho.
Bom dia.”
RESPOSTA:
Cara ……..
Vejo que é do Brasil e compreendo a sua curiosidade. Porque faço esta avaliação pública? O que ganho com isso? Materialmente não ganho absolutamente nada. A resposta mais sintética que lhe posso dar é que o faço por puro “amor à camisola” como se diz em Portugal, sem qualquer ganho material. Não sou pago para o fazer. Se é obrigatório? Ora bem, em Portugal temos um sistema de adopções de manuais muito peculiar: de 4 em 4 anos saem novos manuais para cada nível de ensino e, de todos, os professores tem que adoptar em cada escola somente um. Dou-lhe o exemplo da minha escola: somos nove professores de filosofia e temos cerca de 11 manuais para escolher um. Como o fazemos: reunimos, discutimos qual o melhor manual e lá teremos de ficar com ele durante os próximos 4 anos sem hipótese de escolher outro, mesmo que o que escolhemos se venha a revelar desagradável. Como as vendas de livros em Portugal se devem muito aos manuais escolares, os editores apertam muito os professores com campanhas gigantescas de marketing. Por exemplo, por regra, os maiores editores apresentam os seus manuais num hotel de luxo e alguns chegam até a oferecer o jantar, mas todos oferecem um lanche. Se um autor fizer um manual e ele vender bem, ganha um bom dinheiro. Isto levou a que muita gente sem qualquer competência entrasse na corrida para fazer manuais incompetentes, mas que possam vender. Eu nunca usava manuais de tão maus que eram e isto causou-me sempre muito embaraço pois os alunos são obrigados a comprá-lo. Quando o ano lectivo começa os alunos todos já compraram o manual e olhe que os amnuais de escola em Portugal não são propriamente baratos. Com um mau manual aparecem enormes problemas: os pais exigem que os professores usem o manual porque gastaram dinheiro nele, mas um professor competente v~e-se aflito para leccionar com rigor com um mau manual. Qual a postura do Ministério sobre isto? Deu inteira liberdade para que esta situação se instalasse. Recentemente quer certificar manuais, mas tudo não passa de mais publicidade. Os editores passaram a pagar um bom dinheiro a professores universitários que vivem mais do nome do que do trabalho, para assinarem os manuais como revisores científicos e eles somente emprestam o nome para por na capa do manual. Como está a ver há um jogo de interesses muito grande nisto tudo. Ora , aqui há uns anos apareceu um manual bem feito que veio perturbar a paz instalada que contribuía para matar a filosofia numa morte lenta. Esse manual foi o Arte de Pensar. Eu não conhecia os autores, não sabia da editora, nada… só que me aconteceu uma coisa espantosa: li o manual e pensei como desejava ter 16 anos e aprender filosofia com ele. A partir de então achei que a experiência que tive com o Arte deve e merece ser divulgada.
Ainda há um aspecto que considero importante dizer: por regra os editores entregam os manuais com 1 mês de antecedência aos professores. Como são muitos os professores não tem possibilidade de os avaliar com rigor de modo que a sua escolha acaba por surgir um pouco apressada. O meu trabalho aparece como um guia útil para muitos professores. O reverso da moeda é que, face aos interesses instalados e também por uma questão de mentalidade pouco receptiva à crítica pública, muita gente reage mal e daí os insultos. Ainda existe mais um aspecto: em Portugal fala-se que a filosofia vai desaparecer do ensino para breve. Qual a melhor forma de evitar que tal aconteça? Defender um ensino útil e rigoroso da disciplina. E é simples compreender: os maus manuais não beneficiam um bom ensino e os bons beneficiam.
Creio que respondi à sua questão.
Rolando Almeida


publicado por rolandoa às 18:19

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6 comentários:
De Anónimo a 17 de Abril de 2008 às 19:07
Olá Rolando,

Só uma entrada breve para sublinhar o trabalho excepcional que tens feito na crítica aos manuais. Parece-me importante que esse esforço te seja reconhecido por nós teus colegas. Admiro a tua dedicação e invejo a gestão inteligente que fazes do teu tempo. (como é que consegues?)
Em relação aos últimos comentários que tenho lido, perguntei-me já algumas vezes até que ponto o insulto e a difamação deverão figurar junto ao trabalho sério. Sempre que alguém se destaca pela sua competência, erguem-se dezenas de outros prontos a fuzila-lo. Restam os argumentos para quem quiser ver e tudo o resto são tretas. Parabéns.

Um abraço, Cátia
De rolandoa a 18 de Abril de 2008 às 00:03
Olá Cátia,
Obrigado pelas tuas palavras. Como arranjo tempo? Roubo-o à vida :-) Tenho de gerir realmente muito bem o tempo. Como tenho um filhote de 5 meses, é mais complicado. Habituei-me a dormir menos. Penso que vale a pena o esforço com este trabalho dos manuais. Alguém, algum dia, teria de o fazer. Estou neste momento a trabalhar noutro manual para publicar ainda hoje ou amanhã.
Abraço e mais uma vez obrigado

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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