De Catarina Pires a 15 de Abril de 2008 às 23:38
Caro Rolando
Parece-me que começa a fazer as coisas com alguma precipitação e esta, diz a sabedoria popular, é inimiga da perfeição. Acontece… Diz o Rolando: “Este é um manual que precisará sempre de algumas notas complementares do professor como, por exemplo, que um argumento pode ter premissas e conclusão falsas e ser válido, que pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido ou ainda que pode ter premissas e conclusão verdadeiras e ser inválido.” Dizemos nós: “Estes exemplos mostram-nos, portanto, que um mau argumento pode ter premissas e conclusão verdadeiras, tal como um bom argumento pode ser constituído por premissas e conclusão falsas.” (pp. 10-11) E acrescentamos: “Não precisamos sequer de saber o que as premissas e a conclusão querem significar para podermos determinar a validade de um argumento.” (pág. 11) Continua o Rolando: “Creio também que é altura de muitos manuais abandonarem a ideia feita (por acaso muito devedora de Platão) que os Sofistas eram uns vendedores da verdade, relativistas e simplistas. Basta pensar que 1) os sofistas escreveram textos filosoficamente sofisticados e 2) que o próprio Sócrates foi muitas vezes acusado de Sofista.” Se há manual para o qual tal acusação é simplesmente leviana é este. Recomendo-lhe uma leitura mais cuidada e respeitosa do trabalho dos outros para que não deixe escapar que: “Os sofistas respondem às necessidades e exigências do novo regime democrático. A revolução pedagógica que transportam tem um carácter mais técnico do que político. Elaboram uma técnica nova, um ensino mais completo, mais ambicioso e mais eficaz do que aquele que existia.” (pág. 85) “Contudo, da sofística não há que registar apenas os defeitos, mas também as virtudes. Para além da visão negativa da retórica, que chega até nós, fundamentalmente através de Platão, temos também de ver nela a dimensão de liberdade que a palavra concede a quem a domina.” (pág. 88)
“Podemos reconhecer aos sofistas os seguintes méritos:
Iniciaram uma reflexão sistemática sobre os problemas antropológicos;
Desenvolveram a discussão crítica sobre as limitações e o valor do conhecimento;
Destacaram o carácter diverso e relativo das leis, próprias de cada cidade;
Defenderam o conceito de natureza comum a todos os homens, o que serviu para fundamentar a lei de modo mais igualitário e universalista;
Incrementaram princípios educativos para o ensino da gramática e da retórica; Protágoras considerava-se um mestre da sabedoria e da virtude política (politike arete), formando os jovens para o debate público e o governo do Estado.Deram início à ciência pedagógica e à formação humanista na antiguidade, através do ideal sofístico de uma natureza humana que pode ser educada e constantemente aperfeiçoada.” (pág. 88)
“A oposição platónica à retórica e ao relativismo dos sofistas é também uma reacção contra o regime democrático e é clara e explícita.” (102)
Catarina Pires
De Catarina Pires a 16 de Abril de 2008 às 00:06
Afirma o Rolando: “O capítulo final, A filosofia na cidade, é a história da vida de Sócrates contada em algumas páginas.” Ups… Bastava ter passado os olhos pelo Índice para ter percebido que não se trata do “capítulo final”. Há mais. Verifique porque há. Quanto à sua afirmação “E este é o único tema problema proposto pelo manual. Todo o tema problema é passado sem citar um único filósofo.” Acho que lhe escapou também qualquer coisa… (Tantas vezes o cântaro vai à fonte…) Verifique se quiser. Fico-me por aqui.
Catarina Pires
De
rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 00:14
Cara Catarina,
Agradeço o seu comentário, mas diz algumas falsidades que espero esclarecer:
“Estes exemplos mostram-nos, portanto, que um mau argumento pode ter premissas e conclusão verdadeiras, tal como um bom argumento pode ser constituído por premissas e conclusão falsas.” (pp. 10-11)
Acontece que um argumento pode ser válido e nem por isso ser um bom argumento. E um bom argumento jamais poderá ter premissas e conclusão falsas, porque nem é sólido, muito menos cogente. Portanto,. Catarina, não estamos a falar da mesma coisa e o seu manual tem isto errado. A validade por si só não garante que um argumento seja bom. Um argumento é bom quando convence. A validade é uma condição necessária, mas não suficiente para um argumento ser bom. Olhe lá: Lisboa é a capital de Espanha. A Espanha faz parte da Itália. Logo, Lisboa faz parte da Itália.Acha que alguém é capaz de aceitar este argumento como bom?Logo, um bom argumento não pode ser constituído por premissas e conclusão falsas, como refere no seu manual.
Em relação aos Sofistas. O seu manual aborda esta questão em muitas páginas. Em muitas páginas creio que diz mais verdades que falsidades, mas essa não é a razão pela qual 30 verdades eliminam uma falsidade. Isto é como dizer uma mentira e depois andar a tentar mostrar que se diz muitas verdades para tentar esquecer a mentira.
Em relação à pressa ser inimiga da perfeição eu não me preocupo com isso por uma razão: porque não sou obrigado a ler tudo no tempo que tenho e uma afirmação falsa não deixa de ser falsa por ler tudo.
Abraço
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 00:52
Mas Rolando o que você diz é e cito "Este é um manual que precisará sempre de algumas notas complementares do professor como, por exemplo, que um argumento pode ter premissas e conclusão falsas e ser válido, que pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido ou ainda que pode ter premissas e conclusão verdadeiras e ser inválido." Permita-me a franqueza, mas não há aqui qualquer consideração sobre a bondade ou a cogência do argumento. O Rolando está a referir-se SEMPRE à validade. Mais uma vez errou, mas isso não interessa nada, pois, como já reconheceu que erra, está absoltuamente legitimado para expor os erros (ou pseudo-erros?) dos outros.
De
rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 01:23
Caro Anónimo,
O que eu aformei é que é errado confundir validade com argumentos bons ou cogentes e isso é o que aparece no manual. Isto não é um pseudo erro e demonstrei-o na minha resposta à Catarina. Venha-me lá agora dizer que o manual tem muita coisa certa!!! Pois tem. Isso também eu o disse no meu texto. Eu disse que a afirmação P é falsa e o anónimo está a querer dizer, tal como a Catarina, que estão lá as afirmações Q, R, S que são verdadeiras. E isso invalida que P continue falsa? É um pseudo erro?
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 01:32
Não estou a querer dizer o que quer que seja. Estou a dizer que você disse "Este é um manual que precisará sempre de algumas notas complementares do professor como, por exemplo, que um argumento pode ter premissas e conclusão falsas e ser válido, que pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido ou ainda que pode ter premissas e conclusão verdadeiras e ser inválido." Portanto, disse referindo-se APENAS à validade. Não se refere à solidez nem à cogência. Disse até que "pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido" e isso em qualquer parte do mundo é uma palermice. Mas isso agora não interessa nada, pois,não?
De
rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 01:38
Caro anónimo,
Estou com algumas dificuldades em compreender o que pretende. Pretende dizer que é palerma afirmar que um argumento pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido, por exemplo? Não, não é palerma e dou-lhe um exemplo: Sócrates era alemão ou Platão era grego, logo Platão era grego. tem premissa V e conclusão F e é dedutivamente válido. O que eu disse está claramente correcto e qualquer boa introdução à lógica explica isso.
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 01:41
Irra! Você disse "um argumento pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido", O que é que isso tem que ver com "era alemão ou Platão era grego, logo Platão era grego. tem premissa V e conclusão F e é dedutivamente válido"?!
De
rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 02:17
Pois enganei-me, mas você não topou que o argumento é dedutivamente válido só que tem é premissa F e conclusão V. Obviamente o contrário não seria possível. Mas diga-me lá, qual é o problema disto? Não sabe que isto é perfeitamente possível na validade? Irra digo eu, homem.
De
rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 11:06
Caro anónimo,
Até me enganei outra vez. É o que faz responder a tantos comentários seguidos. Se tivermos a premissa “Sócrates é grego e Aristóteles alemão” e a conclusão “logo, Sócrates é grego”, o argumento é dedutivamente válido apesar de ter a premissa falsa e a conclusão verdadeira. A regra da validade dedutiva não é violada pois se a premissa fosse verdadeira, a verdade da conclusão seria preservada. Agradeço ao anónimo que se tiver algo a corrigir, faça-o. Não atire os dados ao ar, pois a minha vida é muito mais coisas do que estar a adivinhar o que os anónimos querem dizer no blog.
De
rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 00:17
Tem razão Catarina. Não é o capítulo final. É a unidade final.
De Anónimo a 7 de Maio de 2010 às 20:07
Concordo inteiramente com os comentários, de facto o manual Percursos é miserável, é um atentado à Filosofia, o rigor devia ser uma palavra de ordem aquando da construção de um manual, infelizmente nos tempos que correm qualquer badameco se atreve a elaborar manuais...
Assinado: Pedro Silva
De Pedro Lopes a 16 de Abril de 2008 às 01:38
Cara Catarina, em primeiro lugar desejo-lhe sucesso para este manual.
Este não será um manual pelo qual debaterei a sua adopção, pelas seguintes razões:
- Unidade "Argumentação e Retórica"
O programa indica 3 aulas para esta unidade. Os autores do "Percursos" imbuídos de um espírito historiográfico que se manterá por todo o manual, deveriam ser mais sucintos na distinção entre argumentação e demonstração. Sem se formular correctamente o problema a tratar, iniciam este tema com um texto de P. Breton e alt. que nenhuma relevância tem para uma aproximação a técnicas de argumentação e mobilização de competências filosóficas que pretendem saber distinguir argumentos não dedutivos de falácias. Na página 58 é escusada a explanação histórica do desenvolvimento da retórica. A estrutura da retórica, apresentada na p. 62, é irrelevante para o que queremos trabalhar com alunos. O que pretendem que eles saibam? A estrutura de um discurso argumentativo tão complexa e pouco usada? Porque não ser-se mais simples e apresentar regras para a redacção de discursos argumentativos filosóficos mais aproximados ao nível etário dos alunos? Sobre a distinção entre argumentos nao dedutivos e falácias informais existem bons exercicios.
- O capítulo Argumentação e Retórica (5 aulas)
Contém muita informação que auxilia os alunos a confundirem filosofia com historia. O percurso feito: Sofistas, Platão e Aristóteles não está mal pensado, mas é muito insistente na história em detrimento da reflexão filosófica. Veja-se, a este título, as actividades propostas. Foi uma ideia infeliz, terminar este tema com a solução aristotélica no que toca ao problema da relação entre argumentação filosófica e verdade. Porque não uma aproximação às democracias actuais e a que concepção de verdade nos pode o discurso filosófico conduzir nos dias de hoje. Este capítulo tem interesse para um ensino centrado na história das ideias em vez de se pensar em exercitar o trabalho filosófico com os alunos.
- Os problemas do conhecimento
Não percebo a necessidade de relacionar a teoria da CVJ com o "arquipélado do conhecimento no séculoXX". Com esta teoria, os exercícios poderiam ter sido mais criativos, exigindo dos alunos uma tomada de posição.
Dão uma liberdade parcial aos professores para decidirem entre confrontar Descartes e Hume, Descartes e Kant, Hume e Kant. No entanto, os professores que optarem pela primeira possibilidade vêem-se seriamente comprometidos quando a apresentação de Hume é finalizada pelo problema: "Como ultrapassar este abismo?". Regressamos à historia da filosofia e não ao exercício do filosofar. Por outro lado, quase que se está a impor que os professores tenham de leccionar Kant, pois se não o fizeram a curiosidade dos alunos, apos a evidência desta pergunta, fica insatisfeita.
- Conhecimento científico
É dos temas mais bem conseguidos. Os diálogos do Carlos Café podem ser uteis aos alunos no início deste tema. Além disso, a apresentação do falsificacionismo e da filosofia da ciência de Kuhn estão redigidas de uma forma aceitavel.
- Temas-problemas da cultura científico-tecnológica
Muito pobre. O objectivo deste tema é permitir que os alunos redijam um ensaio filosófico. Como o poderão fazer se não são apresentados de uma forma clara argumentos e objecções. E, pior que tudo, o problema não chega a ser formulado. E repare-se que no final do 11 ano exige-se que os alunos saibam distinguir problemas filosoficos de pseudo-problemas.
As páginas 218-222 são pura historia, nada relevante para a consecução dos objectivos deste tema.
- Filosofia e outros saberes
A questão de Galileu tem interesse para a disciplina de História, mais até do que para a filosofia. Como relacionar logicamente o processo de Galileu com o problema da relação entre a filosofia e outros saberes?
Mais uma vez, argumentos filosóficos são completamente descartados para que as informações historicas possam brilhar.
As últimas páginas deste livro parecem seguir uma voracidade historiográfica em detrimento do filosofar.
- Filosofia na cidade
A acusação de Sócrates pode ser uma situação-problema interessante como ponto de partida para a discussão deste tema. Mas em nada cumpre os requisitos programáticos.
Esta é a minha opinião e vale como tal.
Um abraço
-
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 02:35
Caro Pedro
Agradeço-lhe, especialmente a forma como a expõe.
Catarina Pires
De Catarina Pires a 16 de Abril de 2008 às 03:11
Caro Pedro
Agradeço-lhe, especialmente a forma como a expõe.
Catarina Pires
PS: post repetido porque, por qualquer razão irritante, o anterior aparece como anónimo.
De Pedro Lopes a 16 de Abril de 2008 às 12:25
Olá Catarina! Eu é que lhe agradeço a atenção prestada!
Um abraço
De Marta Isidoro a 16 de Abril de 2008 às 13:54
" após um excerto vago e claro de Nigel Warburton"? Em que ficamos? Vago ou claro?
De
rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 14:34
Cara Marta,
Apesar de vago, é claro, o que é difícil conseguir, mas perfeitamente possível. Do mesmo modo há textos profundos, mas obscuros. Há alguma incompatibilidade nisto?
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 14:54
Vagueza e claridade são incompatíveis. Será que não queria dizer superficial?
De
rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 15:13
Talvez não tivesse expressado a ideia com clareza suficiente :-) O texto que ali aparece de Warbuton é vago para o problema em questão a tratar-se no manual, mas expressa uma ideia clara. Naquele contexto é vago. Aceito que não o possa ter expresso com clareza. Mas também não vejo que daí decorra grandes problemas para o que pretendi dizer.
Obrigado
De Marta Isidoro a 17 de Abril de 2008 às 12:55
Diz o dicionário:
Vago - aquilo que é indefinido ou indeciso; falta de clareza;
confusão; incerteza;
Claro - que não apresenta dúvida, certo; compreensível, fácil de entender;
Parece haver incompatibilidade, não? Quanto ao exemplo que dá (que neste como nestes casos baralha mais do que explica), voltemos ao dicionário:
Profundo - muito intenso; que vem do íntimo, entranhado;
que é difícil de compreender ou de expor;
Obscuro - sombrio; tenebroso; confuso; difícil de entender;
enigmático; secreto; oculto;
E aqui qual é a confusão? Precisamente nenhuma, daí o exemplo ser o que é....
De Marta Isidoro a 17 de Abril de 2008 às 12:55
* "que nestes como noutros"...
De
rolandoa a 17 de Abril de 2008 às 13:55
Cara Marta,
Agradeço o seu reparo que para o que queria dizer no exemplo, é mesmo relevante. Com efeito, é escusado citar os dicionários uma vez que já lhe respondi. Talvez não tenha lido a resposta, mas faço copy para que a leia:
"Talvez não tivesse expressado a ideia com clareza suficiente :-) O texto que ali aparece de Warbuton é vago para o problema em questão a tratar-se no manual, mas expressa uma ideia clara. Naquele contexto é vago. Aceito que não o possa ter expresso com clareza. Mas também não vejo que daí decorra grandes problemas para o que pretendi dizer.
Obrigado"
Mas já agora tente lá mostrar que o claro e vagoreferido por mim invalida a questão em análise.
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