Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

“Sócrates era grego” é uma proposição universal?

Um leitor chamou-me atenção daquilo que considera ser um erro. Passo a citar: “Deixo-lhe um desafio: no seu comentário "Os autores referem - o que está certo - que a segunda premissa é particular" tem um erro muito feio... sim... o Rolando, o crítico dos outros, ao correr da pena, disse uma daquelas asneiras que nem a um aluno do 11.º ano se admite.”. Ora bem, estou em crer que o leitor se refere a uma proposição que é particular, mas que na lógica aristotélica, ou naquilo que dela fizeram, se considera (artificialmente) universal.
Rolando Almeida

A proposição é algo como esta: “ Sócrates era grego”. Na lógica de Aristóteles, revista pelos medievais, toma-se esta proposição como universal. A verdade é que ela é particular, tal como a nossa intuição nos diz. No caso toma-se por universal para que ela possa encaixar na lógica aristotélica, mas isso não passa de um artificialismo que nos vem a causar problemas. Basta pensar em como realizaríamos a sua contraditória. Ficaria qualquer coisa como “Sócrates não era grego”, isto porque não vou lá colocar o quantificador, uma vez que ele não existe na proposição. Faz isto algum sentido lógico? Com efeito se lá colocar o “alguns” a quantificar estou a fazer batota e quando tal a lógica tornar-se-ia num amontoado de regras que aplicamos quando nos convém, ou seja, não podiam ser regras. Agora vem uma explicação para que isto aconteça: acontece porque nos disseram que é assim, porque aparece em quase todos os manuais e a verdade é que nunca pensamos muito no assunto. E apercebemo-nos disto quando, por exemplo, colocamos estes problemas aos colegas, por exemplo, num fórum de discussão de filosofia. Podemos passar uma vida inteira a cometer estes erros, acriticamente, sem nos apercebermos, ou então podemos aperceber-nos se pensarmos pela própria cabeça e colocarmos em dúvida sempre que as coisas não nos pareçam claras. Se o fizermos vamos perceber que grande parte da lógica aristotélica que ensinamos no secundário não faz sentido ensinar, a não ser como conhecimento histórico e isto porque ela não tem as aplicações da lógica proposicional que, precisamente, ultrapassa a silogística aristotélica. Ensinar a silogística sem ensinar a lógica proposicional é como estar a ensinar às crianças o Ptolomeu sem falar em Plutarco de Samos e, mais tarde, Copérnico.
Para concluir gostaria de referir que não vejo qualquer problema se eu errar. Um dos motivos do blog (e não de uma revista profissional como a Crítica, por exemplo), é escrever, propor, discutir, errar. Aqui há espaço para o erro e perdi um certo pudor ganho nos tempos de universidade, em expor as minhas ideias. Conheci muitas pessoas que dizem ter boas ideias mas sentem pudor em as revelar. Bom, resolvi dar um passo em frente. Mas isso não implica que não cometa erros. Devo cometê-los por certo. Só que não sinto qualquer vergonha por isso, ao contrário do que refere o colega no seu comentário à minha crítica ao manual Este Amor Pelo Saber. Este blog é um espaço onde se procura evitar o erro, mas onde ele acontece ainda muitas vezes. E ainda bem. Só me resta agradecer ao leitor ter chamado a atenção para o que poderia ser um erro, mas não é. E nem o manual em causa estava errado ao considerar a proposição particular.


publicado por rolandoa às 23:14

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35 comentários:
De Conceição Sousa a 11 de Abril de 2008 às 18:44
Caro Rolando

Talvez eu não tenha explicado assim tão bem o modo como interpreto Aristóteles. Eu não disse que “Sócrates é homem” não é uma proposição de tipo A. O que disse foi que essa proposição era constituída por um termo singular (Socrates) que não foi pensada por Aristóteles na sua classificação das proposições. Mas Aristóteles classificou os termos!
Uma coisa são os termos isolados, que Aristóteles classificou ora como universais (homens) ora como singulares (Socrates) e outra coisa é a proposição que só pode ser considerada universal ou particular, consoante o papel que o termo sujeito desempenha na proposição. A classificação da proposição está dependente do tipo de predicação (da relação entre os termos sujeito e predicado) e não dos termos de forma isolada. Caso contrário, não podiamos dizer que na proposição “Sócrates é mortal” o termo mortal é particular pois está a ser tomado apenas numa parte da sua extensão (dado que isoladamente seria um termo universal). Daí que, para Aristóteles, só exista (quanto à quantidade) dois tipos de predicação:
1. A universal: aquela em que o predicado é atribuído ao sujeito todo, à totalidade da classe.
2. A particular: aquela em que o predicado é atribuído a uma parte da classe sujeito.
Sendo assim, “Sócrates é homem” deve, no meu entendimento (limitado) de Aristóteles, ser classificada como proposição universal de tipo A, pois o predicado “homem” está a ser atribuído à totalidade da classe que o sujeito representa (ao Sócrates todo, à totalidade da classe que, por mero acaso, é constituída por um só elemento).
Considero que não poderá ser classificada como particular de tipo I porque, nesse caso, estariamos a admitir que o predicado “homem” só é atribuído a uma parte de Sócrates (o que seria incoerente).

Sendo assim, independentemente dos termos, isoladamente, poderem ser singulares ou universais, cada um deles, dentro de uma proposição só podem ser universais ou particulares. Aristóteles diría, assim, que a proposição cujo sujeito for singular só pode ser de tipo A. Não o disse, é verdade, mas o que não falta na história da filosofia são exemplos de filósofos que não aplicaram as suas categorias de pensamento a todas as situações possíveis e continuamos a poder, a posteriori, pensar alguns temas à luz das mesmas. Por exemplo, as filosofias morais de Kant ou Stuart Mill não pensaram sobre todos os problemas morais que estão hoje em debate, e, apesar disso, somos capazes de aplicar a categorização de um e de outro e perceber como é que cada filósofo responderia a essas situações.

Até breve
De rolandoa a 11 de Abril de 2008 às 19:04
Olá Conceição,
De acordo. O problema permanece. Eu não digo que não se possa transformar a proposição "Sócrates é homem" em universal (no caso de não o ser). O que me parece - posso estar redondamente errado - é que esse tipo de proposições não tem sequer lugar na lógica proposta por Aristóteles. não se consegue trabalhar bem com esse tipo de proposições porque, partindo dessa proposição, estaremos a violar regras e a torná-las arbitrárias. De resto, claro que pode existir discussão em torno da universalidade dos termos e, por conseguinte, das proposições. Mas esse é um problema metafísico que eu não sei se tenho referências para discutir. Em relação ao exemplo dado da aplicação das teorias a situações, estou completamnete de acordo. Acontece que a lógica é uma ferramenta básica para raciocinar e sofreu evolução, tal como uma gramática sofre. Creio que é melhor aplicar a lógica proposicional (pelo menos ao nível do secundário, que eu pouco sei de outras lógicas, como as modais, por exemplo) do que a Aristotélica, mas isso não invalida o estudo da Aristotélica.
Até breve e obrigado

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Rolando Almeida


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