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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Valores e racionalidade

Frequentemente ouço falar que não há valores ou que os valores estão em crise. Neste pequeno texto proponho-me defender que a análise dos valores enquanto crise ou não crise não é da competência da filosofia. Do ponto de vista filosófico a análise que deverá ser feita é a racional. Deste modo distancio-me do discurso pseudo filosófico pessimista que defende que o mundo está em crise porque não existem valores. Que razões tenho para pensar assim? Por regra entendo que, quando uma pessoa afirma que os valores estão em crise, significa que houve um tempo mais ou menos recente em que não estiveram em crise. O mesmo acontece com a economia. A economia está em crise em comparação com tempos recentes e só aí é que faz sentido falar de crise. De muitos outros pontos de vista a economia ocidental não está em crise alguma.
Rolando Almeida

E para perceber este elemento basta pensar que se contássemos a vida que temos em Portugal à maior parte da população dos países do 3º mundo, essas pessoas olhariam para Portugal como o El Dourado. Por muito que nos custe admitir esta verdade, é uma boa forma de compreendermos de que é que falamos quando dizemos que atravessamos uma crise económica. Ora, se concordo facilmente que atravessamos uma crise económica comparando com os tempos passados recentes, tenho maior dificuldade em assentir gratuitamente que atravessamos uma crise de valores comparando com um passado recente e até menos recente. Em síntese, não me parece que o mundo, hoje, seja substancialmente pior do que o era há uns 50 anos atrás. Mas este é o discurso da sociologia, o de fazer esta análise da suposta crise de valores. É um discurso muito útil para compreender o sentido e orientação das sociedades, mas quando aplicado à filosofia transforma a filosofia em pseudo filosofia, ainda por cima se o usamos por conveniência para mostrar que temos sentido crítico apurado e faro para detectar problemas. Por que razão, então, sucede do modo como aqui refiro? Tomemos um exemplo prático. Muitas vezes ouvimos este argumento: “hoje em dia não existem valores. Há mais crime, pedofilia….”
há mais crime e mais pedofilia
logo, não existem valores
Quando problemas como o crime e a pedofilia são analisados do ponto de vista filosófico, não podemos inferir que eles existem porque a sociedade não tem valores. Ainda que a premissa seja verdadeira (parece muito discutível, uma vez que temos a noção que há mais crime e pedofilia porque tal nos é quotidianamente contado pelos meios de comunicação), a conclusão não é necessariamente verdadeira. Para tal dou um contra exemplo: existem sociedades primitivas nas quais a pedofilia é uma prática em tudo condizente com os valores defendidos e não constitui em si qualquer ataque aos valores. Existem sociedades que tem no quadro de referências dos seus valores religiosos apedrejar publicamente mulheres infiéis até à morte. Não podemos afirmar que essas sociedades não possuem valores, entendendo que valor é a capacidade de agregar as diversas vontades humanas. Para um radical islâmico é um valor fundamental consagrado no texto bíblico fazer a guerra santa e por essa razão é um herói quando se faz homem bomba, em nome de Maomé. A bíblia dos cristãos afirma que se deve matar os infiéis, só que, para os cristãos ocidentais esse já não é um valor (provavelmente porque desconhecemos a bíblia ou porque estamos protegidos pelos caças americanos que se encarregam da matança). Do ponto de vista da filosofia moral este discurso dos valores não possui qualquer relevância. Ao filósofo moral interessa saber se a pedofilia, por exemplo, é moralmente aceitável ou não. Se a guerra é moralmente aceitável ou não. E o filósofo moral o que busca na sua investigação é a verdade. Claro que o filósofo moral se depara com uma dificuldade de base, que é a de saber se existem ou não verdades morais universais, mas o sentido da sua busca é precisamente esse, que é o mesmo sentido da busca que existe em qualquer tipo de investigação racional. Para o filósofo o problema da pedofilia é um problema moral e não um problema de valores. Por esta razão também não faz qualquer sentido o cliché da sociologia sistematicamente usado em muitos manuais de filosofia para o ensino secundário. Para além de darem uma noção completamente errada do que é a análise filosófica, cometem o desastre de formal mal os alunos. É muito fácil seduzir alguém com o discurso de catequese de que se existissem valores, estaríamos todos em terra firme, em porto seguro e que andamos todos à pedrada porque já não há valores. Este discurso é ilusionismo puro, uma vez que o que temos de mais chocante no mundo é a matança em nome de valores que se defendem irracionalmente, como o caso dos valores religiosos. Portanto, toda esta conversa dos valores, que se inicia com conversa da treta em programas escolares, não só de filosofia como de todas as outras disciplinas, conversas onde se promove um infantil e inocente “we are the world”, não passa de propaganda escolar que nada tem que ver com racionalidade e cultura do saber e conhecimento. É um discurso mais apoiado na fé do que na razão. Inacreditavelmente, o programa de filosofia tem sido um alvo particularmente vulnerável a estes ataques irracionais e propagandísticos. Numa cultura de ensino democratizada e livre, preparam-se os jovens para a autonomia de pensar racionalmente sobre os problemas e não impingindo propaganda, orientando pelo medo. Se desejamos uma cultura emancipada, antes de tudo, temos de ensinar as pessoas a pensar com a sua cabeça, o mesmo é dizer, racionalmente.


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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