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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

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Empregabilidade em filosofia II - Porque é que certos países recrutam filósofos para as empresas?

Recentemente tem chegado algumas notícias, mesmo na imprensa portuguesa, de fenómenos para nós verdadeiramente bizarros. De repente, grandes empresas recrutam para os seus quadros, pasme-se, licenciados em filosofia! A formação filosófica que se tem em Portugal só permite apreciar um fenómeno destes quase como um delírio. Mas que vai a gente da filosofia fazer numa empresa? Talvez possam citar Heidegger a plenos pulmões entre secretárias e amontoados de papéis com planos financeiros, recibos, fichas de cliente, etc… Pode ser que saiba sempre bem ouvir “dasein” enquanto se trabalha para o lucro financeiro. Ou, quem sabe, talvez os filósofos sejam contratados para mostrar aos instrumentalizados funcionários que as suas existências vão muito mais além do trabalho que produzem.
Rolando Almeida

Numa vertente pós moderna, o filósofo poderia, numa empresa, mostrar aos trabalhadores o vazio em que caíram as suas existências. Bem, numa última hipótese o filósofo na empresa poderia, enfim, partilhar um pouco do seu conhecimento com os outros funcionários. Em Portugal até temos por princípio que, como ninguém percebe muito bem os filósofos, eles devem dizer coisas interessantes. Quem sabe se os empresários pagam aos filósofos para dizer coisas interessantes! Mas será mesmo isto o que se passa? Se não é, então para que paga uma empresa um salário a um licenciado em filosofia? A resposta é simples. Paga ao licenciado em filosofia para fazer exactamente a mesma coisa do que qualquer outro seu funcionário a executar qualquer tarefa. Paga-lhe para que produza e ponha a empresa a produzir. Mas como vai o desgraçado do licenciado em filosofia contribuir para que a empresa a produza? A resposta aqui também é simples: fazendo aquilo que melhor deve saber fazer porque foi preparado para isso: pensar criticamente. As empresas vão buscar à filosofia o seu próprio produto, que é pensar criticamente. Esta é a potencialidade da licenciatura em filosofia. A relação até nem é difícil de compreender: sem conhecimento não há produção de riqueza e sem pensamento crítico não há progresso no conhecimento. Dúvidas? Claro! Com a formação que em terras lusas temos da filosofia, isto deve ser muito confuso. A realidade é que a maioria dos cursos de filosofia tal como são ministrados em Portugal para pouco servem. E ainda há quem se gabe disto como se a filosofia não pudesse ou não devesse produzir riqueza. Mas isto é falso por duas razões: 1º a filosofia pode e deve produzir conhecimento e riqueza, 2º sem riqueza torna-se muito difícil produzir filosofia. Talvez seja esse o nosso caso. Somos um país que não produzimos filosofia alguma a não ser muito pouca para consumo interno. Saídos das nossas universidades, dos nossos cursos de filosofia, quantos filósofos temos a publicar nas maiores revistas de filosofia da actualidade? Quantos temos que publiquem com alguma assiduidade obras de filosofia? Bem, poderíamos ter ainda uma produção razoável de obras de divulgação para o público geral, mas nem isso. Claro que não posso olvidar os esforços individuais, mas esses não conseguem sequer criar um corpo consistente de trabalho que possa projectar um trabalho em filosofia para o exterior. E porque os cursos de filosofia em Portugal não servem para nada, é natural que andem às moscas, uma vez que a maioria das pessoas não se pode dar ao luxo de tirar um curso só por gosto pessoal, sem o usarem para uma qualquer profissão. Ser licenciado em filosofia em Portugal pode até ser má onda. Eu próprio já vivi a experiência de ter de pedir emprego a um empresário, que olhou para mim com um ar irónico e me perguntou: “Mas você é de filosofia, o que é que sabe fazer?”. Ora, nos países de expressão de língua inglesa parece que ser licenciado em filosofia pode constituir uma vantagem, para, por exemplo, pedir emprego numa empresa. Mas isto acontece precisamente porque os alunos à saída dos cursos sabem pensar e argumentar. E acontece também porque as licenciaturas desenvolvem nos estudantes uma competência própria da filosofia, que é o pensamento crítico. Ora, o método do pensamento crítico, quando bem explorado, pode servir múltiplos fins. Ao contrário de nós que estudamos na maioria dos casos história da filosofia e, noutros, umas obscuridades heideggerianas, estes estudantes pensam sobre os argumentos clássicos da filosofia. Pensam  exactamente com o mesmo método que Sócrates pensou, o analítico baseado no pensamento crítico. Ao passo que em Portugal temos horror em estudar lógica e quando o fazemos dá a ideia que aquilo não passa de um conjunto de símbolos sem qualquer aplicação prática, os estudantes americanos, por exemplo, dos cursos de filosofia, estudam lógica durante o curso todo e aplicam-na aos argumentos, aprendem a, com ela, argument. Em suma, aprendem a pensar consequentemente, que é coisa que nós não aprendemos a fazer nos cursos de filosofia em Portugal. E é esta a realidade que explica que em determinados países ser licenciado em filosofia pode significar que se tem uma intervenção activa na vida social e do trabalho e, em Portugal, a realidade é a oposta. Ser licenciado em filosofia implica, mais vezes que as desejáveis, ser obscuro, ter uma suposta superioridade intelectual, não porque se pense melhor que um gestor ou um economista, mas porque se tem o estatuto adquirido num diploma de filosofia e, numa boa parte das vezes, ser licenciado em filosofia em Portugal, implica dar-se um ar ridículo mostrando que se está afastado da realidade mundana, dispensando as misérias do mundo, porque se vive numa penetrante relação com o ser. A hipocrisia é que há sempre alguém a sustentar estas palermices.
Se queremos fazer guerras com o mundo, é errado procurar na filosofia uma arma de arremesso. Já escrevi anteriormente sobre isso (ver aqui). Ainda que as lutas nos possam fazer todo o sentido, não faz sentido matar a filosofia fazendo dela uma forma de exprimir a nossa guerra. Também é certo que não vamos filosofar para dentro das empresas multinacionais. Mas quem passa por um curso de filosofia, passa fundamentalmente para se treinar a pensar pela sua própria cabeça. A filosofia é por excelência o espaço de discussão crítica de problemas a priori. É o mesmo que estudar matemática para aprender a resolver equações. E quem passa por essa experiência na filosofia, é natural que possa aplicar a sua mente treinada criticamente ao que muito bem lhe aprouver. É esta a razão que explica que uma licenciatura em filosofia possa ser aplicada a muitos ramos da vida actual. E deveria também ser uma razão semelhante a esta que explica que, no ensino secundário português, a filosofia seja uma disciplina de formação geral. Ela aparece nos currículos como formação geral não para ensinar história da filosofia, não porque tenha sido decretado pela Papa, mas precisamente porque cabe à filosofia oferecer ao estudante a ferramenta do pensamento crítico. Essa ferramenta tem um nome, Lógica. Espero que agora se compreenda melhor porque é que um licenciado em filosofia, nos EUA, por exemplo, consegue com relativa facilidade – se souber argumentar, pensar criticamente – emprego numa empresa.


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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