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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Empregabilidade em filosofia

Aproveitei a interrupção de festas para, sem qualquer devoção religiosa, comer mais um pouco que o habitual e encontrar amigos e familiares que só tenho a oportunidade de os ver nesta altura nataleira. Em conversa com uma jovem familiar de um amigo, estudante, no curso de engenharia informática, descobri que no currículo do curso tem duas disciplinas que nos são, a nós, da filosofia, muito familiares: lógica e retórica e comunicação. Quando interpelei a jovem sobre o programa das disciplinas, em ambas, me disse que eram uma chatice, uma conversa engraçada que pode ser, por exemplo, sobre futebol ou religião, mas que não via grande viabilidade daquelas disciplinas no curso uma vez tratando-se de disciplinas demasiado teóricas. Se, por um lado, há uma falta de reconhecimento cultural da utilidade de uma teoria, por outro, há aqui algo de muito estranho: é que ambos os professores destas disciplinas não possuem qualquer formação em filosofia, muito menos no pensamento crítico (que é só uma das derivações mais transversais da filosofia), isto segundo a jovem. Cabe então perguntar sobre o que andam os filósofos e a filosofia a fazer em Portugal?
Rolando Almeida

É que, em muitas universidades do mundo, estas disciplinas são asseguradas pelos departamentos de filosofia e é precisamente por esta razão que as empresas recrutam cada vez mais licenciados em filosofia. Enquanto andamos em Portugal preocupados com o dasein, como se a filosofia se esgotasse no seu estudo, noutros países, a filosofia não deixa sobrar o seu terreno para outras disciplinas que mais não podem fazer que remediar um ensino correcto e rigoroso da lógica e da argumentação. E é lamentável que tal não aconteça em Portugal. Não quero tomar a posição do “8 ou 80”, muito à portuguesa, e, do nada, pensar que o mal académico da filosofia está em que toda a gente é heideggeriana. Creio que filósofos como Heidegger devem ser estudados e é desejável que muitos estudos sobre o autor sejam lançados. O que é estranho é que a filosofia em Portugal parece esgotar-se aí, quando as suas possibilidades de actuação são muito mais amplas. Perante esta realidade, o que é desejável acontecer na filosofia académica em Portugal? É desejável alterar significativamente os currículos dos cursos universitários, que estes possam elaborar os seus currículos mais direccionados para uma cultura de base ampla da filosofia. Quem desejar estudar um conceito específico de um filósofo, para tal, tem a continuação de estudos, tanto em mestrados, como em pós graduações ou doutoramentos. Os próprios professores não tem de ensinar as suas investigações particulares no conceito X ou Y, mas o currículo tem de obedecer a dois ou três objectivos amplos. Não faz qualquer sentido formar um aluno em filosofia a ouvir a história do dasein durante 3 ou 4 anos, quando não se ensina a este a reconhecer um modus tollens num argumento, ou a distinguir um modus tollens dum ponens. Queremos ter altos especialistas quando não temos o meio termo, que é a formação base de apoio que desperta outras potencialidades para a licenciatura em filosofia. Outro dos factores que me parece importante relacionado com os currículos dos cursos das universidades é que ainda se ensina muita história da filosofia em desproveito da discussão activa dos argumentos clássicos. A discussão activa de argumentos, implica a leitura activa e o treino intensivo do raciocínio. Mas os nossos cursos potenciam muito mais o decoranço e copianço do que o raciocínio. Mais uma vez saliento que não defendo que um currículo com a estrutura que aqui aponto constituísse a salvação da filosofia, uma espécie de mito sebastiânico. O que aqui defendo é que não vale a pena insistir numa formação específica, em conceitos muito especializados quando a base não é sequer encorajada a ser estudada. O relato que aqui faço baseia-se no meu conhecimento experiencial do meio académico e da realidade que aprecio nas escolas da formação de ex alunos de filosofia. Quando estudei lógica, a disciplina ostentava orgulhosamente cerca de 200 alunos num anfiteatro, muitos deles, que andavam há anos para fazer a disciplina. Mas muitos destes alunos tinham boas notas noutras disciplinas. Quer isto dizer que se pode, em Portugal, saber muita filosofia, sem saber as regras mínimas da lógica o que, para mim e para o que hoje em dia se faz em filosofia, é paradoxal. Saber filosofia sem saber as bases da lógica, repito, as bases, é passar ao lado da gramática do pensamento e do raciocínio. E é injusta a acusação que esta é a tendência da filosofia analítica e que não é representativa da toda a filosofia. A lógica só não foi importante no período a seguir á idade média, em que pouco se desenvolveu até aos estudos de Frege, Whitehead, Russell e outros. A lógica desde sempre foi central na filosofia, precisamente porque é a ferramenta que lhe oferece a consistência argumentativa. Em Portugal também por ignorarmos grandemente este aspecto central da filosofia, continuamos a perder empregos.
Nota: reconheço que uso o filósofo alemão Heidegger como exemplo irónico. Não é tanto por culpa do filósofo (que ainda assim não reúne muito consenso quanto à ideia de que seja o maior pensador do Século XX), mas mais pela linguagem obscura do mesmo que depois é frequentemente usada como arma de arremesso pelos académicos.


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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