Acontecimento do ano na divulgação científica e filosofia
Aquele que considero o melhor momento de 2007 em matéria de divulgação da ciência e do conhecimento em geral, é o blog De Rerum Natura. Se existissem pelo menos mais uns 10 blogs semelhantes a este realizados por filósofos, físicos, matemáticos e outros, era sintoma que o país ia bem melhor em matéria de divulgação. O debate de problemas da filosofia e da ciência deve ser público.
Rolando Almeida
Seria ideal que as televisões em vez de exibirem telenovelas nos horários nobres, exibissem debates, por exemplo, sobre a moralidade do aborto, sobre o criacionismo vs evolucionismo, etc… Claro que estes debates acontecem, mas, na maioria das vezes, não para se debater racionalmente o problema X, mas antes para dar voz a tendências partidárias ou religiosas, não passando de um oportunismo mediático de propaganda e ideologia. De vez em quando é verdade que existem tentativas de fazer debates sérios, mas resta questionar onde param os especialistas para debater o problema X ou Y? Recordo, durante o ano de 2007, a RTP ter feito a “Grande Entrevista” sobre a problemática do aborto a Alexandre Quintanilha, um cientista. Quando a entrevistadora faz a primeira pergunta ao cientista, quando começa a vida, o cientista fez a entrevistadora engolir em seco quando lhe responde, “não sei”. E mais: o cientista saiu literalmente da ciência para discutir o certo e o errado no problema moral do aborto. Ao mesmo tempo, para Pedro Galvão, que publicou em 2005 o documento filosófico mais importante em língua portuguesa sobre a ética do aborto, teve direito a pouco mais que 5 minutos, num canal por cabo. Dou este exemplo porque parece-me que ele expressa bem a falta que nos faz o debate público, com gente especializada a entrar no debate, sem medo e com a coragem intelectual necessária para inteligentemente saber discutir sem ganhar inimizades. Mas esta realidade é quase inexistente em Portugal, ou pelo menos, muito mais apagada do que seria necessária. À falta disso, a alternativa é ouvir um convidado, opinion maker, semanalmente na TV (Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel de Sousa Tavares) que, na maioria das vezes, mais não fazem do que dar a sua opinião subjectiva, infundada, valendo-se somente do nome firmado na praça, mas sem qualquer sustentação intelectual que seja mais do que a expressão dos seus odiozinhos de estimação anti ou pró poder. Discursos inflamados, portanto, mas com pouca acuidade racional. O De Rerum Natura é uma lufada de ar fresco. Neste blog participam vários nomes das universidades portuguesas, de áreas diferentes e todos com o propósito comum e nobre de divulgar e debater. Por essa razão, temos numa linguagem clara e acessível a oportunidade de discutir e aprender com os próprios autores. Claro que, muitas das vezes, a maioria mesmo, os problemas em análise são pouco pacíficos, mas na ciência ou filosofia a realidade é mesmo essa. A ciência e a filosofia são, antes de tudo, espaço de debate e é com a dose certa de cepticismo que se deve entrar nesse mundo, que é o nosso mundo. Claro está também que o reaccionarismo é uma consequência imediata, como se pode observar nas centenas de comentários, a maioria dos quais, anónimos. Mas esse reaccionarismo só revela que a atitude dos autores do De Rerum Natura é ainda e infelizmente, muito invulgar no nosso país, de brandos costumes e ideias feitas. A maioria dos comentadores revela pouco à vontade na discussão racional de ideias e problemas, muito provavelmente por falta de hábito de leitura, debate e discussão dos problemas que começam e chocam nas nossas crenças mais básicas. Mas na ciência e muito menos na filosofia, existe o hábito de dar palmadinhas nas costas. Na ciência e na filosofia lida-se com a verdade, quando ela se afigura como a realidade esperada. E a verdade é implacável com as nossas emoções. Pode, muitas vezes, estar muito para além das nossas emoções e das nossas crenças. O Rerum Natura tem o mérito de lançar a discussão, a polémica da vida e de nos mostrar, em língua portuguesa, que quando lidamos com ideias e razões, nada é confortável e pacífico como no habitual rebanho.
Obrigado aos autores pela oportunidade em os ler.
Rolando Almeida