Ciência do dia-a-dia
Rolando Almeida
O que Nuno Crato propõe neste seu mais recente livro é uma viagem que não vai da ciência ao mundo, mas vai do próprio mundo à ciência. Afinal, desde a luz que ligamos quando chegamos a casa, até ao telemóvel, tudo é cultura científica. Mas descanse o leitor. Não pense que se vai tornar cientista só porque tem um telemóvel. Não é disso que se trata. Trata-se, antes, de mostrar o quanto a ciência nos é próxima, mesmo que, por falta de conhecimento, não nos apercebamos de tal. Muitas das explicações dadas por Nuno Crato neste livro fazem-me pensar em Cosmos de Carl Sagan, esse grande mestre da divulgação científica e que não me canso de referir. Passeio aleatório pela ciência do dia-a-dia, é uma colecção – boa q.b. – de crónicas que o autor escreveu para o semanário Expresso e que são aqui melhoradas e compiladas neste volume da Ciência Aberta da Gradiva. É um livro de leitura muito acessível (por vezes é espantoso como somos capazes de compreender alguma coisa de ciência) e que nos desperta a curiosidade porque nos dá um pequeno abanão. E, como dizia Kafka, se “ao lermos um livro se ele não nos abrir a cabeça com um murro, para quê lê-lo?”. Este género de obras dão razão a Kafka: deixam-nos a pensar. E deixam-nos a pensar com o modo mais precioso que temos para compreender o mundo, a ciência. É uma boa prenda de final de ano e um exemplo que deveria ser tomado por outros professores universitários, para deixar a ciência onde ela também deve estar, nas bocas do mundo, no interesse generalizado das pessoas. E na filosofia, não há nenhum investigador capaz de escrever uma coisa assim? Só teríamos todos a ganhar. E muito.
Nuno Crato, Passeio aleatório, pela ciência do dia-a-dia, Gradiva, Ciência Aberta, 2007