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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Formiga Z versus Sócrates. Qual o melhor filósofo?

No artigo recente que publiquei sobre a proposta do manual de filosofia Pensar Azul para trabalhar a partir do filme da Formiza Z, surgiram alguns comentários, bem como mails pessoais que leitores me enviaram e que merecem aqui uma explicação. Antes disso gostaria de dizer que, por regra, quando publico um texto a defender a tese x ou y sobre determinado problema  da filosofia, raramente recebo comentários ou mails, mas quando se trata de colocar em causa determinada opção do manual x ou y, eis que enfrento um verdadeiro batalhão de mensagens, o que prova que as questões editoriais e, porventura, pedagógicas estão no centro de atenção dos meus leitores.
Rolando Almeida

Dos comentários recebidos arrisco em dividi-los em 3 espécies principais, alguns, pelas razões que vou expor, a merecerem mais discussão que outros:
1ª espécie – os que não são assinados e se resumem a tentar mostrar que eu não passo de um funcionário da editora x ou y e que estou a vender livros.
2ª espécie – os que vem assinados e somente pretendem elogiar, sem mais, os meus textos e ideias.
3ª espécie -  os que vem assinados e que discutem as minhas ideias, muitas das vezes, nem sequer concordando com elas, mostrando, para tal, as principais objecções que se podem fazer ao que defendo.
Os comentários mais desejáveis são os da terceira espécie. Os da 1º são absolutamente dispensáveis. De todo o modo evidenciam um facto que eu gostaria de compreender se fosse da área técnica que estuda estes fenómenos, a psicologia. É que quase sempre estes comentários não vem assinados. Do meu ponto de vista - nada técnico (sou da filosofia e não da psicologia e não trabalho para uma editora), - os leitores que fazem comentários como os da 1ª espécie não os assinam porque não estão interessados em discutir o que quer que seja, mas somente em fazer ataques pessoais. De todo o modo não reúno elementos suficientes para dar uma explicação cogente deste facto. Com efeito, creio que os psicólogos têm aqui um bom ponto de partida para uma investigação séria sobre os comportamentos humanos.
Quanto aos comentários da 2ª espécie eles são simpáticos porque, penso, pretendem reforçar o meu empenho e trabalho (ainda que modesto) neste blog. Só tenho a agradecer.
Finalmente, os da 3ª espécie são aqueles que acabam por constituir uma abordagem séria dos problemas e ainda bem que eles vão aparecendo se bem que em número muito inferior aos dos seus congéneres da 1ª e 2ª espécie. E é em virtude de aparecerem comentários da 3ª espécie que escrevo este texto que pretende constituir uma síntese do que defendi no artigo da formiga. Parte substancial destes mails e comentários defendiam que não existe qualquer problema em exibir um filme como a Formiga Z para ensinar a metodologia da filosofia e é até uma forma aliciante de cativar os alunos para a filosofia. É uma argumentação discutível e daí merece a minha resposta. Neste pequeno texto vou argumentar que ensinar filosofia com esse pressuposto é errado e que essa argumentação incorre em várias falácias. Mas, para isso, vou ter de dar outras explicações que enquadram a minha defesa.
Ponto 1
Não defendi no texto, ao contrário do que pensaram alguns leitores, que não se possa ensinar filosofia a partir de um filme, de uma música, peça de teatro, ou da minha unha do dedo grande do pé direito. Aquilo que defendi foi que a opção dos autores resulta de uma concepção vaga do que é ensinar filosofia. Em primeiro lugar defendi-o porque a metodologia da filosofia, desde Aristóteles, passando pelos filósofos medievais, Kant e até à actualidade tem um nome: Lógica. Se no ensino da filosofia em Portugal a lógica aparece somente no 11º ano é porque é um erro grosseiro do programa de filosofia (como já tenho vindo a defender faz algum tempo e em diversas ocasiões) e não dos manuais. Se algum manual propõe que ensine algumas noções de lógica logo no 10º ano (e o manual Pensar Azul até o faz, numa relação híbrida com outras metodologias, não se percebe porquê), essa é a opção correcta. Se observarmos, os problemas filosóficos possuem a sua base na discussão e argumentação racional, pelo que é desejável que se ensine logo no início do percurso as ferramentas básicas da argumentação. E essas ferramentas consistem em saber o que é um argumento, distinguir premissas de conclusão, saber o que é uma proposição, argumentos sólidos, cogentes, etc… Não dar estas ferramentas base aos alunos é como se lhes pedir para fazerem uma sopa sem sequer lhes ter ensinado a ligar o fogão. Ora, no programa de filosofia a lógica aparece a meio do percurso. Mas é a lógica que possibilita a qualquer aprendiz de filosofia, mais tarde, ler e interpretar um texto argumentativo ou filosófico. Como se quer que um aluno saiba fazer esse trabalho se nem sequer sabe distinguir num argumento entre premissas e conclusão? Qualquer professor de filosofia tem como obrigação ter aquilo que mais repete nas suas aulas, atitude crítica. E a atitude crítica começa logo pelos reparos que o programa da disciplina merece. Quero também deixar claro que mantenho o maior respeito pelo enorme trabalho que os autores do programa tiveram na sua concepção, mas também nunca pensei que o meu respeito tenha de ser de reverência total, nem creio que os seus autores sejam omniscientes, pelo que parto do princípio que o programa tem aspectos a melhorar. E cabe aqui, como professor de filosofia, assumir uma atitude crítica dentro dos parâmetros da espécie 3 que acima falei.
 
Ponto 2
Opções como a da formiga Z, muitas das vezes (não tenho provas empíricas de que o que vou falar neste momento fosse o que estivesse na mente dos autores do Pensar Azul), seguem uma linha educativa muito próxima do eduquês. E aqui as intenções podem ser as melhores, de tornar a filosofia mais apelativa, de pegar nas referências mais directas, etc… mas existe também aqui um efeito perverso nesta concepção de educação, o eduquês, que é necessário esclarecer. É que ao baixar o nível não se está a possibilitar mais conhecimento aos alunos, mas precisamente a roubar-lhes essa possibilidade, a do conhecimento e da cultura. Claro que a tendência do eduquês vem já da 1ª escola e não é no 10º ano que conseguimos contrariar esta tendência. Mas há que enfrentar o problema de forma honesta: ao tomarmos estas opções não estaremos a desviar daquilo que é próprio da nossa disciplina e a resvalar para outros campos? É que têm sido, infelizmente, estas opções que fizeram com que a filosofia, por exemplo em Espanha tivesse desaparecido do ensino secundário. Corremos o risco de descaracterizar a nossa disciplina, segurando-se, dela, somente o nome. Não há ciência nem conhecimento algum que possa ser ensinado nas escolas que não possua disciplina. E por disciplina entendemos somente o método. O método da filosofia é a lógica. Que outro existe? Ainda que me proponham o método hermenêutico, como até o manual que mais aprecio, o Arte de Pensar, erradamente propôs, esse só é possível após os conhecimentos mais elementares da lógica. Como é que é possível proceder a uma análise interpretativa do texto filosófico sem o conhecimento elementar das regras da lógica? Poderia também aqui invocar um argumento de autoridade referindo que muitos dos melhores manuais que conheço de filosofia de outros países e que neste blog tenho divulgado, começam a ensinar filosofia, todos eles, pelas regras elementares da argumentação. Todos os manuais que não o fazem chegam-me de países onde o ensino da filosofia é moribundo ou até já acabou ou é muito pouco sólido.
Curiosamente há aqui um outro aspecto interessante: um leitor confrontou-me com este facto: então estou a contestar a opção pela Formiga Z e divulgo livros de filosofia e os Mettallica e super heroís? (já tenho mais para ler e divulgar brevemente) Mas que tamanha incoerência! Ora bem, não existe aqui incoerência alguma e isto porque, primeiro, uma coisa são livros de divulgação de filosofia, outra, manuais de filosofia para o ensino. Depois, em segundo lugar, porque, todos os livros de divulgação da filosofia que falei no meu blog, seja o dos Metallica ou do Urso Mau, começam precisamente por divulgá-la ensinando as regras elementares do pensamento racional ou argumentativo. Mas não é isso que acontece no exemplo da Formiga Z e é precisamente isso que contesto, para além de que o filme em causa, como mostrei no meu primeiro texto, é filosoficamente frágil ou mesmo irrelevante.
Estou convencido que as maiores falhas do manual que refiro são precisamente essas. Perde em coerência precisamente por misturar métodos, dar opções de liberdade ao professor confundindo liberdade com o vale tudo, ainda que, mais uma vez o sublinho para que não cause mal entendidos, não se está a falar do pior manual que existe no mercado. Mas este é um erro comum na educação em Portugal, pensar que dar liberdade é deixar cada um fazer o que quer. E até é! Só que existe um passo que altera o processo todo: como é que alguém pode ter a liberdade de, por exemplo, apreciar mais Aristóteles ou Platão se nunca ninguém lhe ensinou esses filósofos? Como pode um adolescente optar entre a obra de Vitor Hugo ou Tolstoi se nunca ouviu falar em tais nomes? Isto já para não questionar como pode uma criança compreender de onde vem o leite se nunca lhe mostraram o ordenhar da vaquinha? Já cheguei a conhecer gente licenciada que, quando em visita à ilha da Madeira, ficavam admirados com o aspecto das bananeiras porque pensavam que as bananas vinham das Palmeiras. Explore-se então assim a filosofia e pasme-se que após dois anos de estudo um adolescente não tenha bem noção do que seja a filosofia e pense que as aulas de filosofia é um lugar onde cada um exprime a sua opinião como quer. Se assim fosse para que precisávamos de escola e aulas de filosofia se isso é o que podemos fazer todos os dias a beber uma limonada em frente ao mar? O facto de possuirmos, no sistema de ensino português, um programa de filosofia temático e aberto, não é para dar azo ao à sorte pós moderno, mas precisamente para que cada um, responsavelmente, possa trabalhar os conteúdos filosóficos com rigor e à medida da compreensão dos seus alunos. Mas aqui há ainda uma palavra em favor do ensino da lógica: é que a lógica é a única unidade que não exige que os alunos venham já com background de conhecimentos. A lógica exige somente uma cabeça e vontade de raciocinar. Na lógica formal raciocina-se com A e B e não com conhecimentos profundos de Português ou Física e, por essa razão, é das matérias que os alunos mais apreciam, principalmente os alunos que não tem a possibilidade do background que vem de casa. Até nesse sentido o ensino da lógica é menos discriminatório que uma interpretação de texto que destaca, logo à partida, os filhos de pais que tiveram formação suficiente para ensinar os seus filhos. Mas não serve a escola para ensinar, dar conhecimento, precisamente àqueles que de outro modo não o poderiam ter? É que - para terminar - um sistema de ensino que não cuidar deste aspecto vê ameaçada a sua cultura científico tecnológica e humana. E é este o principal efeito brutal do eduquês que afecta de forma fulminante a forma como são concebidos os manuais escolares, entre os quais, muitos de filosofia.


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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