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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

É a Formiga Z filósofa?

Não é talvez de muito bom gosto escrever no blog descrevendo aspectos da minha vida privada. Mas este que a seguir relato reveste-se de particular interesse para o ensino da filosofia no ensino secundário. Esta sexta feira, passei de visita por casa de um amigo que é colega de filosofia. Na escola onde trabalha, o manual que tem adoptado recomenda, para o módulo inicial, «Abordagem introdutória à Filosofia e ao filosofar», a exibição do filme de 1998, de Eric Darnell e Tim Johnson, A formiga Z. Como nunca tinha visto o filme perguntei ao meu amigo e colega se o tinha e se mo emprestava para o visionar e perceber, então, o que dali poderia retirar para a minha disciplina. 
Rolando Almeida
Por hábito não exibo filmes nas aulas de filosofia, mas, quem sabe, não me escapava um filme que tivesse relevância filosófica, ao levantar tão bem os problemas, mostrando-os de forma problemática e discutível, como por exemplo, acontece na primeira saga do Matrix (Warner, 1999). Bem, quando saí da casa do amigo, a minha esposa, cuja formação académica anda algo distante da reflexão filosófica, questionou-me: “já vi esse filme no cinema assim que saiu e não entendo o que é que possa ter a ver com a filosofia”. Poderia ter-lhe oferecido daquelas respostas muito típicas e tópicas que aparecem nos manuais e que muitas vezes resultam das aulas de filosofia, “a filosofia tem a ver com tudo, com a totalidade do real”. A experiência mostra-me que as pessoas, regra geral, não se satisfazem com este tipo de respostas. O raciocínio mostra-me, sem grande esforço, que este tipo de respostas são absolutamente imbecis e em nada dignificam a filosofia. De repente uma pessoa pode pôr-se a pensar que a filosofia tem tanto a ver com as batatas que estou a preparar para o jantar, como com o novo telemóvel que comprei. Porque, afinal, tem a ver com tudo o que existe de real, com a totalidade do real. Neste sentido é pois verdade que a filosofia tem a ver com a formiga Z, com as consolas de jogos e com os iogurtes de banana. Ok! Obrigado professor de filosofia. Agora sei que a filosofia é uma grande treta. Tem a ver com tudo, é radical e tudo. Basta-me ver a Formiga Z e já estou mesmo a ver com toda a nitidez os grandes problemas filosóficos.
Como comecei a ver a história da formiguinha herói um pouco tarde, a minha esposa acabou por adormecer. Mas eu vi o filme até ao fim, até porque é um filme muito simpático e doutrinário q.b. Hoje mesmo, pela manhã, a minha esposa questionando-me sobre se tinha visto o filme até ao fim, mostrou curiosidade em saber o que raio tinha a ver o filme com a filosofia? Tive de lhe responder que ela tinha feito um bom reparo, que o filme não tem nada a ver com os principais e mais gerais problemas da filosofia (quanto mais com os mais específicos, a menos que alguém se revele capaz de estudar o Dasein na colónia de formiguinhas do filme). Mas a minha esposa, que até nem é de filosofia, questionou-me qual a razão de um manual recomendar um filme que não tem nada a ver com a filosofia? Pois é! É mesmo muito difícil explicar tudo num minuto. Lá teria de explicar uma série de problemas complicados:
1º o que permite o sistema educativo baseado no eduquês.
2º a forma como se concebem manuais escolares.
3º a própria má concepção do que possa ser a filosofia, que por aí anda.
Neste sentido é bem verdade que o filme levanta uma série de problemas, mas não problemas filosóficos.
Mas, voltando ao filme. Vamos lá tentar perceber o que é o que o filme tem a ver com os problemas da filosofia. No referido manual, é exposta a ficha técnica do filme e dá-se uma explicação que tem tanto de breve como de confusa e vaga, de que podemos reflectir a partir do visionamento de um quadro, uma música, peça de teatro, etc… não esqueçamos que se está a escrever e comunicar com jovens de 15 anos (o manual é para o 10º ano). Diz-se que, através do visionamento do filme vamos simultaneamente:
“ aprofundar a nossa compreensão da natureza da filosofia” (p.30)
Fazer a iniciação do trabalho filosófico, treinando a metodologia” (p.30)
Garanto que a única coisa que o filme me despertou foi:
- A voz fantástica e sui generis de Woody Allen na Formiga Z;
- Dançar o «Guantanamera, Maria Guantanemera».
Pelo filme não aprofundei a minha visão da filosofia, nem me iniciei no trabalho filosófico. Isso faço-o com os textos filosóficos e com os seus problemas. Para que preciso da formiga Z? Mas tenho de confessar que não descarto a possibilidade de se aprender muita filosofia com o Gato Fedorento. Pelo menos a reflectir sobre a postura que às vezes mantemos sobre o mundo, os outros, nós mesmos e a educação que proporcionamos aos nossos jovens. Talvez seja por essa razão que em Portugal se fazem manuais escolares de filosofia que mais se assemelham a livros de poesia (má poesia, por sinal) e listas de referências de melhores filmes, melhores livros de literatura, melhores pintores, associações de defesa disto e daquilo, etc… tenho visto coisas de arrepiar. E o pior de tudo é que estas listas aparecem onde deviam aparecer os problemas da filosofia. Imagine lá o leitor que abria um livro de Física e via que os autores sugerem que se veja o filme x para ver como as coisas às vezes caem, que é para se iniciar no estudo da lei da gravidade, mas ao mesmo tempo não lhe mostra qualquer calculo que indique e prove o que se está a dizer? Pois este absurdo acontece nos livros de filosofia para o ensino secundário. Qualquer pai sério, se abrir determinados manuais de filosofia do secundário, ficará abismado com o que o filho anda (ou não anda) a estudar. Tudo isto a somar com o que de pouco filosófico ainda aparece, numa boa parte das vezes, aparece com erros e resta então perguntar se não vale mesmo a pena acabar com a disciplina de uma vez por todas?
Mas voltando à simpática formiga filósofa. O mais hilariante de tudo é o guião proposto pelos autores do manual que, resumidamente, nos dá estas indicações:
 
“1- prestar atenção às características da Formiga Z:
- atitude perante a vida (acomodado/satisfeito/conformado/revoltado/submisso/irreverente/inseguro)”
Mais à frente, pede para:
 
2. Caracterização do general Mandible (se é honesto, ambicioso, etc….) (…)
5. qual o significado da afirmação da AntZ no final do filme: «encontrei o meu lugar. É exactamente o mesmo. Mas desta vez fui eu que escolhi».
 
E passa-se à leitura filosófica do filme (dizem os autores do manual):
 
a) identificar o tema;
b) identificar o problema;
c) identificar a tese ou teses do autor” (que autor, pergunto eu? Que teses?)
“d) identificar os argumentos em confronto” (que argumentos, pergunto eu???)
 
Mas o mais interessante está para vir, quando, no ponto b) (p.31), os autores abordam o problema do filme. Repare-se:
 
Podemos formular vários problemas:
- o problema da possibilidade do indivíduo transformar a sociedade” (nota minha: e este é um problema da filosofia? Ou da sociologia?)
“- o problema da liberdade individual
- o problema da relação indivíduo / sociedade
- o problema da guerra e da paz
 
O que é que há de interessante nisto? É que o único indício de problema filosófico que o filme pode apresentar, os autores do manual nem sequer referem, que é precisamente o problema filosófico do sentido da vida. Claro que os autores poderiam justificar-se com aquilo que referi no início deste texto, que perguntar pela relação entre o indivíduo e a sociedade é perguntar pelo sentido da vida, etc… mas nesse caso estaríamos de novo num terreno que é muito escorregadio para aprender filosofia, que aquele onde o vale tudo é a regra dominante. Isto é pura invenção do que é a filosofia. E a minha esposa tem razão na sua inquietação. O filme nem levanta problemas filosóficos nem é possível aprender filosofia com o visionamento deste filme. Com tanta preocupação no tempo que um professor tem disponível para cumprir o programa da disciplina, ganha o professor que pura e simplesmente ignora a sugestão do manual. Ela é uma pura perda de tempo para a disciplina e não exige nem treino intelectual nem o que quer que seja que se pareça com a filosofia. E o mais interessante é que este é o tipo de exercícios proposto no manual de filosofia mais adoptado no país.
De salientar que a proposta de exploração do filme aparece em opção.
O manual referido é o Pensar Azul (Texto Editores, 2007)
 

 

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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