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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

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A desilusão de deus

Uma das discussões mais actuais é a do criacionismo versus evolucionismo. Tradicionalmente as religiões pretendem transformar em indiscutível os problemas que são, pela sua natureza, racionalmente discutíveis, como o problema da existência de Deus. Uma das diferenças entre a filosofia e a religião é que ao passo que a filosofia discute o problema, a religião não o faz. E somente em épocas de falta de liberdade do pensamento é que os filósofos não se puderam dedicar ao problema de forma intelectualmente honesta. Não creio que Richard Dawkins pretenda discutir filosoficamente o problema, até porque se assume como um ateu convicto.
Rolando Almeida

O que é facto é que Dawkins, desde há umas décadas a este tempo, tem sido uma das vozes mais combativas anti criacionismo. O seu último livro, The god delusion, acaba de ser publicado em tradução portuguesa e promete, assim o espero, trazer a polémica para o circulo português. Esta discussão é bem necessária. Com efeito, em falta, está a tradução de uma boa introdução à filosofia da religião que, inacreditavelmente, não existe na nossa língua, o que nos deixa completamente coxos para discutir o problema, a menos que possamos ler noutra língua onde esses livros são publicados às centenas. A desilusão de deus é somente uma face da moeda, o ateísmo, ao passo que uma introdução à filosofia da religião nos apresentaria as duas faces da moeda. Depois porque Dawkins é biólogo e não filósofo, o que empobrece a discussão em torno dos argumentos mais clássicos da filosofia. Ainda assim esta tradução merece todo o destaque, seguida de uma outra, O fim da fé, obra do norte americano Sam Harris (Tinta da China, 2006), este sim, proveniente da filosofia, embora nos ofereça tal como Dawkins somente uma face da moeda. O que se perde a começar a compreender o problema a partir da obra de Dawkins ou Harris é precisamente o essencial do problema, que é a sua discutibilidade. Por essa razão, ler Dawkins ou Harris merece muito mais a nossa atenção se tivéssemos lido antes uma boa introdução ao problema. E não é por falta deste tipo de obras, principalmente em língua inglesa. Aparte este apontamento, a obra de Dawkins é recomendável. Fazendo uso de um discurso claro, Dawkins expõe no seu livro como é que é possível ser ateu e ao mesmo tempo feliz. Seguindo o in memoriam no início do livro, «Não basta ver que um jardim é belo sem ter de acreditar que lá no fundo também esconde fadas?» Entre muitos outros aspectos, o biólogo mostra-nos também porque é que uma criança não tem liberdade religiosa, mas sim doutrinação. O livro é fulminante, principalmente para um crente. Claro está que o criacionismo jamais admite deixar a sua posição à liberdade da discussão intelectual e, por essa razão, penso, fica sempre em desvantagem.
A Desilusão de Deus é uma leitura urgente e ainda bem que foi publicado na nossa língua. De salientar que a Gradiva tem publicado outras obras do biólogo inglês, este combatente do criacionismo, um dos maiores obstáculos ao progresso científico e cultural.
Richard Dawkins, A desilusão de deus, Casa das Letras, 2007 (trad. De Lígia Rodrigues e Maria João Camilo)
Nota Final: sem querer meter-me por territórios em que não reuno grandes competências, penso que a melhor tradução seria , A delusão de deus, sendo que delusão significa logro, mentira. Ainda assim o autor faz uma nota sobre o termo no prefácio à obra e provavelmente a opção em português por Desilusão pode prender-se por razões comerciais, visto que a palavra delusão não é tão comum.


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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