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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Pop Philosophy

Já ouvi gente da filosofia defender que a filosofia só pode ser ensinada a pessoas intelectualmente maduras. Nada mais tolo. Como é que alguém chega a ser intelectualmente maduro sem ser previamente estimulado? E, se esta possibilidade existir, quem lhe dará resposta não será provavelmente alguém da filosofia, ainda que seja alguém com formação em filosofia que possa testar a capacidade de raciocínio crítico. Ainda assim será que alguém que até nem é muito maduro intelectualmente, enquanto jovem, não pode ser estimulado ao pensamento crítico e à filosofia? Claro que pode e deve. Por essa razão é que a filosofia aparece nos currículos do ensino de muitos países, desde as crianças, até adolescentes e adultos.
Rolando Almeida
Claro está que, como em Portugal gostamos de ser originais, desde há uns bons anos que temos filosofia no ensino secundário como disciplina obrigatória e agora que ela possui um sucesso nunca visto noutros países, nós por cá vamos dando cabo dela. Mas esta falta de conhecimento de um determinado ramo do conhecimento acontece porque muitas das vezes os editores não cumprem com o seu papel de divulgação do que mais interessante se vai publicando no mundo, traduzindo boas obras de interesse público. Pelo contrário optam por um plano de edições muito duvidoso: ou publicam o altamente especializado que só os especialistas leriam, mas esses compram o original e dispensam a tradução – logo, não se vende; ou então, publicam o ridiculamente estúpido, literatura de trazer por mão que vende à imensa comunidade das tias deste país, regra geral, livros sobre filhas de actores famosos que comunicaram com o divino, ou de mestres astrólogos a fazerem previsões altamente previsíveis. Claro está que este mercado existe e os editores enchem os bolsos. Contra isso nada. A estupidez faz parte da natureza humana e não acabamos com ela sem educação. Mas é isto mesmo que está em causa: não acabamos com a estupidez sem educação, até porque não é por a estupidez existir que se torna desejável. E também é apostando em boas estratégias de divulgação do saber que estimulamos as pessoas à tal maturidade intelectual. Por essa razão, a escolha de livros criteriosos sobre as mais variadas áreas do saber - e que sejam, ao mesmo tempo, didacticamente poderosos - é uma tarefa à qual os editores portugueses não podem estar de costas voltadas. Claro está que poderíamos aqui pensar que os portugueses devem escrever os seus livros. Mas existe uma razão pela qual não podemos fazer essa exigência: é que, em Portugal muito dificilmente alguém consegue viver da venda de livros. Quem os escreve tem de conciliar o seu trabalho com a escrita. Ao contrário, em países como Inglaterra, por exemplo, as pessoas que estudam são desde cedo estimuladas a escrever porque, se o fizerem e obtiverem algum sucesso, podem dedicar-se, por inteiro, à escrita de livros. Pode-se viver disso. Em Portugal só muito excepcionalmente é que encontramos alguém que nos diz: “eu vivo do dinheiro que ganho com os livros que escrevo”, isto para não dizer já que raramente encontramos alguém que escreva (excepção feita à poesia, área que inexplicavelmente – ou nem tanto – produzimos todos bastante). Ainda a agravar esta situação existe uma paranóia quase colectiva nos portugueses (sim, porque só mesmo de paranóia se pode tratar) de que a cultura é algo que deve vir até nós, bater-nos nas costas o tempo todo enquanto bebemos umas cervejolas e pagar-nos bem para lermos. Possuímos uma falsa noção de que a cultura é a borlix. É desta forma que encontro muitos jovens, muitos deles licenciados, que me dizem que não compram livros porque são muito caros. O que é completamente falso. Caros são os telemóveis que usam, os automóveis que dirigem e as casas de 10 assoalhadas que compram mal arranjam o 1º emprego. Não podemos dizer que comprar As cidades e as Serras de Eça de Queiroz por uns míseros 5€ seja, nos dias que correm, uma exorbitância.
Tudo isto somado (e mais cerca de 400 mil razões à vista de todos e fáceis de resolver não fosse a preguiça aguda que por vezes nos assola), explica porque é que vivemos uma situação algo caricata no mercado livreiro: todos os dias vemos nas livrarias 5 ou 6 novidades, mas raramente encontramos novidades boas de áreas centrais do conhecimento e da cultura que saem às centenas em outros países. E isto coloca-nos fora do conhecimento, abrindo portas de forma escandalosa à iliteracia científica, artística, filosófica, mas colocando-nos a par do que se passa no universo da magia negra e da cartomancia. Esta especialização popular nas artes da adivinhação são o nosso cartão de visita em matéria de educação, uns incompetentes ao lado dos nossos congéneres europeus. E há responsabilidades claras nos editores.
Por estas razões, seria muito bom, uma grande felicidade para nós que, está bem, admitamos, se traduzisse as cartomancias bestas céleres…, mas que se traduzisse, pelo menos em igual número, os bons livros populares de ciência, filosofia, artes, matemática ou outras áreas centrais do conhecimento.
Uma colecção como a Popular Culture and Philosophy Series, provocaria de imediato um duplo efeito no meio editorial português:
1 – vendia bem porque os temas são populares.
2 – porque são temas populares, mas com tratamento filosófico enriqueceria e muito a média cultural dos nossos jovens (principalmente estes uma vez que a colecção é mais propicia para eles), reduzindo a iliteracia científica.
De resto, só espero que este texto acabe por produzir algum efeito. Caso contrário, mais vale estar calado e aprender inglês.
Nota final: Existe, com efeito, um esforço por parte de alguns editores. A esses este texto não é dirigido.
 

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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