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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Porque é que não se traduz?

Uma das áreas de maior investimento no que respeita a uma política educativa que privilegia a transversalidade é a do critical thinking. Em Portugal esta área é praticamente inexistente, com honra de excepção ao curso da Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências e Tecnologias. Como refere Luiz Moniz Pereira, um dos professores responsáveis pelo curso:
Paradoxalmente, o ensino da aptidão de pensamento crítico é raro, se não mesmo ausente dos cursos de Ciência ou de Engenharia em Portugal. Será excepção a cadeira de Pensamento Crítico que criámos na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Nova, seguindo recomendações de Bolonha de introdução de “Soft Skills” no Ensino Superior.”
Quer isto dizer que, mais dia menos dia, o Critical Thinking entra como disciplina obrigatória dos mais diversos currículos.
Em poucas palavras, em que consiste o ensino do critical thinking?
Rolando Almeida


Como explica Alec Fisher na sua obra introdutória e de referência, Critical Thinking, an introduction, (5th printing, 2004), a necessidade decorre dos professores de vários níveis de ensino se terem deparado que os estudantes até podiam assimilar bem as matérias das mais variadas disciplinas, mas não sabem pensar sobre elas. Muitos dos estudantes não eram mais do que uma espécie de analfabetos funcionais, com muita erudição, mas sem perceber qual a relação que o seu conhecimento possui com a vida humana. Curiosamente esta é uma das realidades muito presente no ensino português. Regra geral, os melhores alunos, ou com notas mais elevadas, são aqueles que reproduzem literalmente o que os professores ensinam, uma espécie de papagaios com boa memória e pouco mais. Curiosamente, esta tendência no sistema educativo português tende a agudizar-se. Ou temos o aluno “marrão” que desenvolve a sua memória , mas pouco a sua capacidade crítica, sendo que mais tarde, este aluno será um profissional que não sabe pensar quando em estado de perplexidade perante várias opções de solução. Ou, então, temos o aluno que queremos profissionalizar, dotando-o de muitos conhecimentos técnicos, mas nenhum teórico. Ainda há pouco tempo eu próprio falava com uma responsável pelo ensino profissional numa escola e a mesma desvalorizava completamente a formação teórica - científica dos alunos, chegando a confessar-me que alterava programas de disciplinas como Área de Integração, tornando-os completamente práticos. Estas confusões têm como resultado um mau ensino, de má qualidade e uma cultura de princípios falsos. Com estes princípios, o que vamos ter são técnicos mal formados que sabem usar uma ferramenta mas não percebem a relação do que estão a fazer com o mundo ou, num outro extremo, doutores dotados de muitos títulos académicos, mas sem qualquer capacidade de perceber o mais elementar dado da vida, sem saber relacionar o seu saber com a vida comum. É no que dá tomar posições extremas em matéria de educação. E bastaria olhar para os outros países para percebermos os erros e os exemplos. Acontece que muitas das vezes não dominamos a língua em que tais modelos são expostos e explicados. Se os livros de critical thinking começarem a ser traduzidos em Portugal daqui a 20 anos, vamos, nessa altura, pensar que se trata do último grito no que respeita à educação, tal como pensamos actualmente que o último grito se chama ensino profissional e computadores para todos.
Tal como explica Alec Fisher (2004), existe a necessidade de ensinar capacidades de pensamento crítico directamente e transversalmente, uma vez que uma das dificuldades mais comuns encontradas nos estudantes é a incapacidade na estruturação lógica do raciocínio e a falta de conhecimento das regras que conduzem a esse processo. O pensamento crítico envolve muito mais que isto, mas esta razão é por si só esclarecedora da necessidade do seu ensino desde cedo.
Numa altura em que cada vez mais países desenvolvidos investem no critical thinking, apostando em edições e estudos de qualidade, Portugal dá mostras da vontade de dar um passo atrás, ao querer impor novas possibilidades de ensino nas quais pura e simplesmente desaparece a disciplina que mais directamente está relacionada com o pensamento crítico, que é a filosofia. Ter a filosofia como obrigatória no ensino secundário é a melhor oportunidade para explorar as potencialidades do critical thinking e, até, de proporcionar o desenvolvimento das capacidades críticas de pensamento a outros níveis de ensino. Com efeito, insisto, assistimos à ideia ignorante de que um técnico de qualquer área não precisa de saber pensar. Esta discussão deveria ser absurda, mas está na ordem do dia em matérias pedagógicas.
Em síntese no pensamento crítico aprende-se a:
- Identificar argumentos
- Identificar premissas e conclusão nos argumentos.
- Compreender a validade do argumento.
- Identificar premissas cujo valor de verdade é ainda discutível.
- Negar proposições (afirmações), mostrando quando um argumento não pode ser válido e abrindo a possibilidade de refutar argumentos.
- Pensar com analogias, causa e efeito, etc……
- Saber pensar.
- etc…
O pensar criticamente é das maiores necessidades do nosso tempo. Muitas das vezes ouvimos falar no discurso político e empresarial ou económico de empreendedorismo . Mas como é que alguém pode ser empreendedor se não for autónomo a pensar? E esta relação é que muitas vezes parece não ser estabelecida. A tradução dos dois livros aqui em análise poderia constituir um importante avanço nesta matéria, até porque, no mercado português, pura e simplesmente não existe estudo algum publicado sobre critical thinking, o que é imperdoável.
Uma pequena nota final para a versão de bolso (a única que tenho disponível) de Richard Epstein, the pocket guide to critical Thinking, Second Edt.2003. Trata-se de uma ferramenta muito útil com a exploração das melhores e habituais regras para pensar com rigor, sendo uma obra muito mais curta que a de Alec Fisher, sem o enquadramento explicativo do que é e em que consiste o critical thinking. Ainda assim, o pequeno livro está cheio de bons exemplos e esquemas síntese no final de cada capítulo.
Em Portugal usamos muitas vezes uma expressão que é: “deve-se pensar duas vezes antes de agir ou optar”. O Critical thinking ensina como pensar duas vezes.
Fica aqui o apelo aos editores portugueses de uma área que é nova, comercialmente mais viável que muitas das áreas publicadas entre nós e com uma aplicabilidade prática que na nossa cultura raramente se atribui a saberes desenvolvidos pela filosofia e pelos filósofos.
 
 
Alec Fisher, critical thinking, an introduction, Cambridge University Press, 2001 (First published, reprinted 2004)
Richard L. Epstein, The pocket guide to critical thinking, Second Ed. , Wadsworth, 2003

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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