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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Manuais - análise

Pensar é Preciso, Adília Maia Gaspar, Lisboa Editora
Classificação: **
Adília Gaspar apresenta o objecto da filosofia deste modo: «podemos começar por dizer que a filosofia não tem um objecto específico de estudo, tem vários, ou, se se quiser, o seu objecto é o Todo. Isto é, tudo quanto existe, o que quer que seja, pode tornar-se objecto de reflexão filosófica, dependendo apenas da perspectiva em que é encarado e dos processos utilizados para o abordar. É nesse sentido que se diz que o objecto da reflexão filosófica é o Ser, conceito que engloba tudo quanto existe, desde os mais simples e vulgares objectos materiais até às mais complexas e refinadas criações do espírito humano. A arte, a religião, o comportamento do ser humano e os valores por que se orienta, a própria ciência, a linguagem, o domínio da acção política, são campos que a filosofia explora» (p. 9). Quando um aluno ao iniciar o estudo da filosofia se confrontar com uma definição desta natureza, o que ficará a pensar da filosofia? Cremos que o mais provável será mesmo fechar o manual e não voltar a abrir coisa tão aborrecida. Na verdade esta é uma ideia confusa e errada do que seja o objecto da filosofia. Claro está que o objecto da filosofia é a realidade. Mas será toda a realidade? Será objecto da filosofia saber como se desenvolve um cancro? Ou será objecto da filosofia saber se amanhã vai ou não chover? Ou quantos anos vai durar a torradeira nova? Que vantagem tem dar este tipo de explicação aos alunos? Mais adiante, a autora define Epistemologia do seguinte modo: «a reflexão, não já sobre o conhecimento em geral, mas mais especificamente sobre o conhecimento científico é o objecto da epistemologia; em grego, episteme, significa conhecimento científico (…)» (p. 24) Este é um erro elementar que infelizmente aparece com frequência nos manuais. A epistemologia trata da natureza do conhecimento em geral, distinguindo-se da filosofia da ciência que trata especificamente do conhecimento científico. Nem todas as questões sobre a natureza do conhecimento são questões científicas. Uma das limitações, também infelizmente habitual nos manuais de filosofia, é não apresentar as objecções às teorias limitando-se a exposição dogmática das mesmas. As teorias são banalizadas fazendo com que o manual se assemelhe a um caderno de apontamentos. O manual impõe uma ideia de que pensar é preciso sem mostrar como é que precisamos de pensar. Uma má opção.
 
 Pensar Azul, Fátima Alves, José Arêdes, José carvalho, Texto Editores
Classificação: **
Pensar Azul é mais um exemplo de um manual híbrido entre a tentativa de apresentar a filosofia como uma actividade de discussão racional de problemas e argumentos e uma ideia de que a filosofia trata de tudo e de todos «sem rei nem rock». Quando assim é, os erros aparecem. Por exemplo,  os autores elaboram a questão:
«em que se distingue a filosofia das outras ciências?» (p. 36).
Mas onde foram os autores buscar tal ideia? A filosofia é, agora, uma ciência? Com que base podemos afirmar tal coisa? Mas o manual segue com confusões que em nada beneficiam o gosto de aprender filosofia. Por exemplo, na unidade da Dimensão Religiosa, os autores começam por expor os argumentos sobre a existência de Deus. Expõem o argumento cosmológico, o argumento do desígnio e, depois, surge a “Posição de Kant sobre a existência de Deus” (p. 249). Não se entende se Kant tem ou não argumentos sobre a existência de Deus. E também não se perceber porque é que antes se falou em argumentos (mesmo que a opção dos autores seja a de não explorar todos os argumentos, como o ontológico, por exemplo) para logo a seguir se falar em posição em vez de argumento. Esta mistura de vocabulário cria confusões desnecessárias. Também não se entende a opção de apresentar determinadas unidades como problemas, teorias e objecções, se o método proposto na unidade inicial vai além dos problemas e objecções. Se não se ensina ao aluno algo tão básico como negar proposições, qual o sentido de lhe pedir, mais tarde, que objecte a certos argumentos? Quando, num manual, optamos por mostrar as objecções a uma determinada teoria, é para mostrar ao aluno como ele próprio pode objectar. Mas para que o aluno o chegue a fazer, é necessário dotá-lo da ferramenta que é a lógica. Se não fizermos isto, então das duas uma: ou vamos pedir ao aluno que faça aquilo que não lhe ensinámos a fazer ou, caso contrário, somente expomos objecções para o aluno decorar e repetir acriticamente. O Pensar Azul comete esta falha, o que faz dele uma má opção para ensinar filosofia. Pode tratar-se de um manual engraçado para informar o aluno sobre alguns aspectos da filosofia, mesmo cometendo erros e incoerências, mas é um mau manual para ajudar o aluno a desenvolver as suas competências críticas. Por exemplo, um lugar-comum nos manuais é o recurso às famosas características da filosofia: universalidade, radicalidade, historicidade e autonomia. Em que é que esta informação contribui para desenvolver o espírito crítico do aluno? Não será melhor expor os instrumentos para pensar e entrar directamente no conhecimento dos problemas, nas suas teorias e consequente discussão? Os autores do Pensar Azul têm opções muito discutíveis como, entre outras, afirmar que Stuart Mill propôs a felicidade global. Até se percebe a intenção dos autores, mas, em rigor, Mill não falou de tal coisa. Existe, em Pensar Azul, uma tentativa clara de aproximação à filosofia como actividade crítica, mas ainda falta apurar o manual. E isso consegue-se abandonando, sem reservas, alguns clichés habituais na concepção de manuais de filosofia e que não merecem mais a insistência dos autores porque foram esses clichés que transformaram a filosofia numa disciplina muitas das vezes aborrecida para os alunos. Um desses clichés presente no Pensar Azul é a infrutífera distinção entre ética e moral que não produz qualquer efeito para o desenvolvimento do pensamento crítico dos alunos. Sobre a questão dos Valores e Cultura, o Pensar Azul é completamente acrítico e mais se assemelha a um manual de sociologia. Não expõe o problema do relativismo cultural, nem o trata filosoficamente. Fica-se com a ideia que se deu ali uma qualquer informação sobre o assunto e nem sequer se percebe se se trata ou não de um problema da filosofia. Os alunos merecem mais e podem pensar com a cor que quiserem, mas com o rigor que a filosofia possui. Graficamente, o manual é de um gosto muito discutível, com imagens por vezes a roçar o piroso. Os esquemas-sínteses são pouco claros e podem conduzir à dispersão. De referir que os autores abusaram de textos que retiraram de sites, muitas vezes em português do Brasil. Não se vê particular vantagem nesta opção se podemos recorrer aos textos dos filósofos, onde os problemas são expostos. O manual é pouco rigoroso e dá uma ideia muito vulgar da filosofia. Explora problemas sem citar um único texto dos filósofos, a menos que exista tradução portuguesa de recurso.
 
 Um Outro Olhar Sobre o Mundo, Maria Antónia Abrunhosa e Miguel Leitão
Classificação: *
O manual de filosofia da Asa é uma opção errada a todos os níveis, desde o grafismo ao preço. Mas vamos ao conteúdo, ainda que em linhas muito breves. Folheando o manual da Asa dificilmente percebemos que estamos perante um manual de filosofia. Mais parece um qualquer livro confuso com informações avulso do que propriamente um manual. É escusado tecer aqui qualquer comentário elaborado sobre os esquemas-síntese, que mais parecem um novelo de fio completamente enrodilhado, sem modo de desfazer tanto enrodilho. Se um esquema serve para simplificar, com que intenção se apresentam esquemas que ainda confundem mais? Depois há uma série de opções que, talvez ao pretenderem a diferença, mergulharam no universo do fútil e do disparate. Vamos começar pelo fim. O manual não dá o direito de opção dos temas e problemas da filosofia. Os autores reduziram a escolha à imposição do tema “os direitos das mulheres como direitos humanos”. Basta folhear o manual para fazer logo uma pergunta: como é possível tratar um tema inteiro não abordando um único texto de filosofia ou de um filósofo? Ainda por cima, saiu em tradução portuguesa recentemente o livro de Stuart Mill, A Sujeição das Mulheres (Almedina, 2006). Temos razões de sobra para afirmar que não estamos perante um manual de filosofia. Qualquer jornalista faria melhor. Que interesse filosófico tem explorar um problema ignorando pura e simplesmente os textos dos filósofos? É uma opção desastrosa que em nada dignifica a filosofia. Mas há mais, infelizmente! Logo no início do manual, os autores apresentam a metodologia do pensamento crítico. Logo aqui deveriam apresentar a metodologia do pensamento filosófico, até porque há pensamento crítico que não é necessariamente filosófico. Referindo-se à lógica, os autores citam outros:
«quando pensamos, lidamos com uma série de conceitos que se combinam uns com os outros. Se os conceitos se coordenam entre si e fazem sentido, o pensamento é lógico. Se não se apoiam uns nos outros, se se contradizem e não fazem sentido, então não há lógica nenhuma.» (p. 9).
Daqui não se retira ideia alguma a não ser uma ideia completamente absurda do que é a lógica. A lógica não é uma relação entre conceitos, mas sim uma relação entre proposições. Repare-se a confusão:
«todavia, nem todas as proposições são argumentos. Uma proposição isolada não é um argumento. Só o é se, de facto, se relacionar e estiver a apoiar numa tese.» (p. 22)
Dá a ideia falsa de que uma proposição pode ser um argumento, quando sabemos que um argumento é um CONJUNTO de proposições. Isto é como pensar que uma pessoa pode ser uma nação porque um conjunto de pessoas pode ser uma nação. Se na metodologia do pensamento crítico apresentada no início do manual não se fala uma única vez de teses e argumentos, já nos elementos essenciais do discurso argumentativo (p. 37) se aborda a filosofia em termos de tema, tese, corpo argumentativo e conclusão. Nem vou tecer mais qualquer comentário relativamente ao que se diz sobre cada um destes elementos. É que no que vem a seguir não se fala mais nem em problemas, nem em argumentos. Maria Abrunhosa e Miguel Leitão fizeram um trabalho filosoficamente intratável, conseguindo, em 303 páginas, não apresentar um único problema filosófico relevante. Não se trata de um manual minimamente sério, nem de um manual de filosofia e qualquer pessoa com formação que não seja filosófica, perante este manual, é perfeitamente capaz de se questionar que relação tem o livro com a filosofia. O manual é um outro olhar sobre o mundo, mas não é um olhar filosófico de certeza.
 
 
Phi, Agostinho Franklin, Isabel Gomes, Texto
Classificação - *
Mais um manual que dá uma ideia errada e aborrecida do que é a filosofia. Se alguns autores seguem os bons exemplos, outros insistem teimosamente num modelo que já mostrou as suas insuficiências. Repare-se no disparate que um aluno de 15 anos vai ler logo na unidade inicial:
«A Filosofia é, pois, a disciplina onde vamos ter a oportunidade de ganhar consciência sobre as coisas; a filosofia vai permitir reflectir sobre o que já sabemos e, até, ajudar a criar pensamentos, ter ideias e ter consciência de que produzimos essas ideias e opiniões.
Temos então que:
- até ao 9º ano, esperava-se que se soubesse a matéria;
- até ao 9º ano, esperava-se que se tivesse um saber técnico sobre as diferentes matérias.
Agora, com a filosofia, espera-se mais. Espera-se:
- que se comece a pensar sobre essas coisas;
- que se comece a reflectir pessoalmente.
(…)
- começa-se, por isso, a construir uma personalidade própria, (re) analisando o que nos ensinaram na infância, olhando as coisas de outra maneira, encontrando novas soluções para aquilo que agora não está claro e reconhecendo os preconceitos do mundo em que vivemos.» (p. 17)
 
É impressionante como é que um manual pode dizer semelhantes disparates. Parece que agora sim, o aluno vai ser salvo da sua estupidez pela varinha mágica que é a filosofia. No módulo inicial, o manual pura e simplesmente ignora os instrumentos para pensar filosoficamente. Em vez disso, apresenta uma conversa fiada completamente inoperacional para a filosofia. Nem se percebe o que se pretende que o aluno saiba. Dá a ideia que o aluno deve ler e ficar muito sensibilizado para a filosofia! Um disparate que não augura resultados positivos. Colocam-se aqui sérias questões: o que beneficia um manual assim a disciplina? Como avaliar objectivamente os alunos se o que se lhes está a propor não tem nada de objectivo? Os autores nem sequer têm em consideração que estão a escrever um livro para alunos de 15 anos. Mas a ideia é: «a partir de agora estás salvo que tens filosofia» — e repete-se esta tolice das mais variadas formas até que o aluno se convença. Como sabemos, os resultados deste tipo de ensino da filosofia são manifestamente maus, sendo talvez esta a forma de abordagem da disciplina que fez com que a disciplina tivesse perdido praticamente todos os alunos no 12.º ano. O manual propõe exercícios que não passam de tolices, pedindo que se analise letras de canções, filmes, etc. O capítulo da acção humana começa com uma página com recortes de notícias de casos no futebol. Motivo para pensar que o apito dourado também é matéria filosófica. Qualquer pai minimamente sério que pegue neste manual é perfeitamente capaz de se questionar sobre que valor tem esta disciplina para a formação do seu filho. Desde José Mourinho aos Radiohead e Boss Ac, tudo cá cabe... menos a filosofia! É verdadeiramente intratável, este manual. Como é possível, sequer, tecermos aqui um comentário elaborado, se o manual parte de uma concepção de filosofia sem pés nem cabeça? Quem perde com manuais assim é a disciplina de filosofia que se mostra completamente esvaziada dos seus conteúdos. Graficamente, o manual acompanha o conteúdo e mais se assemelha a uma revista da moda. O manual tem um formato diferente da maioria dos manuais. É quadrado. O mais grave é que é também quadrado no conteúdo. Serve-se da ideia da barra lateral com indicações para o professor explorar as aulas, no caso, indicações completamente fúteis. O manual encerra com uma pequena história da filosofia que não consegue, sequer, captar o essencial. Termina com um glossário e nem aí o disparate é evitado. Neste pequeno glossário, que se pensava ser um glossário de filosofia, podemos encontrar palavras como “sub-reptício”, “encarnar” ou “ergonomia”. Já agora, por que não vender um dicionário de sinónimos como anexo ao manual? O phi não passa de Pulp Fiction.
 
 
 
 Filosofia 10, Maria Margarida Moreira, Areal Editores
Classificação - *
Quando lemos o manual Filosofia 10, ficamos com a impressão que o manual foi feito por uma aluna adolescente. Mais parece um conjunto de apontamentos dispersos sem qualquer ligação entre eles e com grandes imagens coladas para os decorar. Há imagens que ocupam uma página inteira. O texto é reduzidíssimo. Numa parte significativa das páginas, o texto mão ocupa mais do que um ou dois parágrafos. Mas vamos ao texto: «O que acabámos de aprender foi a identificar quais os problemas fundamentais que a filosofia coloca e que estes se situam na área da lógica. E isto porque a lógica se ocupa da investigação das regras que tornam o pensamento coerente, não do ponto de vista material, mas do ponto de vista formal.» (p. 20) Este é o omnipresente disparate de confundir validade com verdade, pois a idiotice da validade material é apenas palavreado caro para a verdade. E é também o disparate de pensar que a validade é a mesma coisa que a coerência, ignorando que as falácias são raciocínios perfeitamente coerentes. O resto da página é ocupado com uma imagem enorme (as imagens neste manual não possuem qualquer identificação), para, logo na página seguinte se ler o que a seguir citamos:
«Para já ficámos a saber que a filosofia coloca problemas de ordem lógica (…)» (p. 21).
Mais abaixo, seguindo uma outra imagem sem qualquer referência, pode-se ler:
 «Mas os problemas da filosofia não se restringem ao campo da lógica. Muito pelo contrário: a resolução dos problemas lógicos é fundamental, constitui os alicerces, as bases para a correcta formulação dos outros problemas, que são a essência da filosofia. Queremos com isto dizer que o pensamento filosófico se debruça sobre outras áreas, questiona, analisa, organiza e tenta responder a problemas que levanta.» (p. 21)
Pelo exposto ficamos sem saber se a filosofia é lógica e qual a relação entre a lógica e a filosofia. Ao longo de todo o manual é frequente os problemas nem sequer serem analisados. A ideia de que qualquer um pode fazer um manual dá estes resultados. Este não é apenas um mau manual. É inaceitavelmente mau. A última unidade, Temas e Problemas do Mundo Contemporâneo, nem sequer tem uma linha escrita pela autora. Resume-se a uma série de páginas com textos avulsos sem qualquer interesse filosófico ou outro. Não se compreende sequer como é que uma editora chega a publicar um manual com tão fraca qualidade e seria uma questão de respeito próprio e pela disciplina não apresentar publicamente um trabalho desta natureza. Mas o Filosofia 10 revela o valetudo em que está voltada a concepção de manuais escolares. O manual leva ainda o certificado científico de Álvaro dos Penedos, um professor jubilado da Universidade do Porto, Departamento de Filosofia, o que prova o estado em que a filosofia se encontra no nível superior.
 
 
Introdução… Carlos Sousa, Manuela Amoedo, Texto Editora
Classificação - *
Um aspecto difícil de compreender na concepção de manuais é o seguinte: se temos textos tão ricos em toda a história da filosofia, porque razão se apresenta sistematicamente a filosofia por textos que não são de filósofos? Um manual de filosofia não tem necessariamente de ser inovador e original. Se o for ainda melhor, mas o que exige num manual de filosofia é clareza e exposição dos problemas da filosofia e da filosofia como uma actividade crítica. O Introdução… arrisca-se ao propor explorar os autores portugueses e que escreveram em português. Ora nem que fôssemos alemães, que têm uma tradição em filosofia muito rica, não faria qualquer sentido fazer um manual de filosofia preferindo quase exclusivamente os autores que tivessem escrito em alemão. E tal não faz sentido porque um manual não pode propor-se fazer aquilo que a filosofia séria nunca pode fazer: defender uma qualquer causa com critérios arbitrários. Curiosamente o primeiro texto do manual é de Matthew Lipman, Pimpa e foi escrito para ensinar filosofia a crianças e não a adolescentes. Mas este Introdução… não traz qualquer novidade em relação a outros que aqui temos comentado e cose-se exactamente com as mesmas linhas, cometendo, por essa razão, os erros do costume. Os erros passam em desfile, não muito longe do habitual. No último ponto do programa, onde os autores poderiam livremente propor a exploração de um problema de modo filosófico, trata-se somente um problema sem o direito do professor optar, e remete-se para textos de bispos e padres no lugar dos textos dos filósofos. Isto acontece porque se confunde a filosofia com a antropologia, com a sociologia, o direito, etc. Por vezes chama-se erradamente a isto interdisciplinaridade. O Introdução… em quase todo o manual não introduz o aluno à filosofia e aos seus problemas nem estimula o sentido crítico do aluno. É, portanto, uma péssima opção. Graficamente não se distancia da maioria dos manuais. As imagens não produzem qualquer efeito senão o enfeite.
 
 
 Este Amor pelo Saber, Amândio Foutoura, Mafalda Afonso, A Folha Cultural Editora
Classificação - *
Este Amor pelo Saber é um manual pesado, caro e opta claramente pela linha hermenêutica para ensinar filosofia. O que temos aqui é mais do mesmo. Acriticamente, começa por apresentar ao aluno a filosofia como sendo o Logos, o argumento, a ironia e as ideias. Trata-se de uma lista pronta a ser decorada pelo aluno e repetida até à exaustão num exercício que, na melhor das hipóteses, desenvolve a memória do aluno, mas não a sua capacidade crítica. E é um desfilar de ideias comuns mas que já não se usam na bibliografia mais actualizada da filosofia que se faz hoje em dia, como por exemplo, Gnoseologia como teoria do conhecimento e epistemologia como reflexão sobre o conhecimento científico (p. 42). Se abrirmos o manual no tema dos valores, podemos confundir o manual com um qualquer manual de sociologia, dada a abordagem pouco ou nada filosófica proposta pelos autores. Inacreditavelmente a unidade sobre os temas e problemas do mundo contemporâneo, são 3 páginas (uma delas encerra o livro) com vários contactos e endereços electrónicos de diversas instituições. Nada mais. Nem um texto. Nem uma explicação. Nada. Mais valia apresentar uma lista telefónica como manual de filosofia. Se o aluno quiser saber, que consulte a lista, que contacte as instituições e as pessoas e que pergunte. Esta opção deve resultar da falta de espaço no manual. Mas tal acontece porque os autores ao longo das outras unidades abusaram dos textos sem qualquer interesse. Por exemplo na unidade da acção Humana, no final, aparecem 14 textos, fora os que aparecem na própria exposição. Ora isto conduz à dispersão. Além de tudo trata-se de uma ideia obviamente errada de como se deve fazer um manual. Nem um manual é uma antologia de textos, nem uma lista telefónica.  Este manual está chumbado.
 
 Filosofia, Marcello Fernandes, Nazaré Barros, Lisboa Editora
Classificação - *
Infelizmente para a filosofia e o seu ensino, esta proposta da Lisboa Editora não apresenta nada de novo. As limitações são as mesmas de sempre, os erros os mais comuns. Opta-se pelo recurso a novas traduções que vão saindo no mercado como as de Thomas Nagel e Nigel Warburton. São bons textos e bons autores, mas esses autores o que fizeram foram os seus manuais e para apresentarem os problemas não se citam uns aos outros. Pelo contrário citam os textos dos filósofos.
Podemos encontrar os erros comuns como:
 «a dedução é um raciocínio que conclui um facto particular de uma lei geral, apresentando-se sob a forma “se… então”». (p. 35)
Esta definição de dedução está errada e mais tarde vai conduzir a confusões, nomeadamente no 11º ano. E está duplamente errada. Primeiro, é errado afirmar que a dedução é concluir um facto particular de uma lei geral; e depois a dedução não se apresenta sob a forma da condicional. Fica a pergunta: se não se dominam as noções mais elementares da lógica, como é que se faz um manual de filosofia? Graficamente é um manual muito mau, com os títulos num amarelo que faz doer os olhos para ler. O manual termina de uma forma brusca e nem uma bibliografia possui. Não apresenta um único problema filosófico e não se percebe a opção de colocar indicações do grau de dificuldade dos textos no início dos mesmos. Não produz qualquer resultado. Perfeitamente dispensável.
Rolando Almeida
 

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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