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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Para que serve um manual?

Em tempo de muitas matérias em discussão sobre educação, os manuais escolares ocupam um lugar central. Isto acontece porque os manuais são a ferramenta, o instrumento usado para transmissão de conhecimentos. Na minha prática de professor, um mau manual pode contribuir, por vezes de forma decisiva, para a degradação do ensino e das aulas. Por outro lado, os manuais são a referência de estudo para os alunos, na maior parte das vezes, a única referência. No nosso país chegou-se a um estado deplorável com manuais que incluem fotografias que vão desde as personagens dos morangos com açúcar, a shows televisivos, etc… Os manuais do ensino secundário português são, com raras excepções, um autêntico desfile carnavalesco de figuras famosas ou alusões ao supérfluo. Curiosamente são muito mal cuidados do ponto de vista dos conteúdos. Pensa-se, fruto do «eduquês», que os alunos vão estudar mais porque o manual faz referência ao seu herói preferido. O mais grave ainda é que este estado em que se encontram grande parte dos manuais, é uma consequência directa da falta de rigor e conteúdos dos programas das diferentes disciplinas. Como os programas partem do pressuposto de um ensino centrado no aluno, então subestima-se os jovens e há que dar azo à imaginação mercantil com o vale tudo nos manuais para cativar os nossos alunos. Curiosamente a minha experiência de ensino é já suficiente para provar que não é isto que cativa os alunos. O aluno médio está-se “nas tintas” que o manual traga uma fotografia do seu herói televisivo ou que apresente um texto simplório sobre um diálogo qualquer de café. O que fascina os neófitos é precisamente o rigor e clareza com que os conteúdos de conhecimento são apresentados. Se são apresentados de forma clara e rigorosa, os alunos gostam, se não o é, os alunos nem sequer se incomodam em abrir o manual. Qualquer aluno meu interessa-se mais com um texto que possa levar sacado a um qualquer livro da colecção Ciência Aberta ou Filosofia Aberta, ambas da Gradiva. Costumo até ter alunos ou que acabam a comprar os livros ou pedem-mos de empréstimo. Mas estes são os mesmos alunos que, com efeito, não abrem os manuais da escola. Recentemente levei um livrinho pequeno, que não possui qualquer imagem ou desenho, para as minhas aulas. Chama-se, A mais bela história do Mundo, os segredos das nossas origens, de Huebert Reeves, Joel De Rosnay, Yves Coppens e Dominique Simonnet, ed. Gradiva, um livro de entrevistas aos cientistas autores do livro. Abri-o numa página à sorte e lancei a pergunta aos alunos que lá vem no livro: “- Como se formam os planetas?”. Pude passar uns belíssimos momentos de aula com os meus alunos a tentar descortinar o universo e o conhecimento.
 
Pobres com mentalidade de ricos
Recentemente chegou-me às mãos um manual inglês de filosofia. Chama-se Philosophy in practice, an introduction to the main questions, de Adam Morton. Qual o meu espanto! Afinal o manual chega-me de um país rico, mas não possui uma única cor a não ser o negro das letras em contraste com o branco do papel. Mas o que se seguiu foi ainda mais perplexo: o manual é claro e rigoroso, explica a filosofia com uma suavidade como se estivéssemos dentro de uma nave a percorrer as principais obras da história da filosofia. Desenganem-se aqueles que pensem, pelo que acabei de afirmar, que se trata de uma história da filosofia. Não! Trata-se de um livro que nos introduz directamente aos problemas centrais da filosofia. De repente senti uma revolta enorme. Apeteceu-me traduzir o livro de fio a pavio e baldar-me para as leis de adopção dos manuais. Imprimia uns quantos exemplares em minha casa e levava-o para as minhas aulas. A filosofia, quando é tratada assim, tem uma vitalidade tão grande, que dispensa qualquer adorno porque está a jogar em casa, confrontando o aprendiz com os seus problemas, de forma directa, clara e apetecível. Estou certo que os meus alunos agradeciam a minha tradução e dispensariam de boa vontade o manual português, feito com papel de qualidade, com fotografias impressas com todas as tonalidades que a fotografia actualmente possibilita, com os seus múltiplos cadernos de actividades que ninguém usa nem pega, com os seus poemas a tomar o lugar onde deveriam estar os textos e problemas filosóficos, com as suas alusões patetas de que filosofia é escrever muito e dar muita “palha”, com os seus conteúdos expostos em bloco e de modo somente histórico fazendo confundir a filosofia com a história, com a sua conversa de café transformada numa espécie de sociologia barata para a qual um adolescente não tem paciência, com sua linguagem confusa e ininteligível para um adolescente, com… com… com…. Enfim, com um manual que, afinal de contas, é uma evidente perda de tempo e com o qual nada se pode aprender de realmente significativo e atraente, um manual que apenas promove a estupidez dos mais jovens. Eles merecem mais! Todos precisamos do conhecimento.
Mas há sinais de esperança! No caso concreto da filosofia, o manual A Arte de Pensar, Didáctica Editora de Aires Almeida, António Paulo Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus e Pedro Galvão é uma pérola. E para prová-lo convido o leitor leigo em filosofia ao seguinte exercício: compre o manual A Arte de Pensar, leve-o para casa. Leia-o. Depois diga-me se a filosofia é ou não atraente! Afinal, por vezes, tinham-nos contado uma má história. Mas ela pode ser bem contada.
 
Adam Morton, Philosophy in practice, an introduction to the main questions, Blackwell (first published 1996; reprinted 1996, 1998, 1999)
 
Aires Almeida, António Paulo Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus e Pedro Galvão, A Arte de Pensar 10 e 11, Didáctica Editora, 2003
Rolando Almeida

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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