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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

O comércio do conhecimento nas escolas

 playstation-2reading1 Aproveitando um momento de descanso numa aula de filosofia que durou 4 horas (em virtude das permutas feitas para formação), falava com os meus alunos sobre a utilidade da leitura e do conhecimento em geral para a vida dos seres humanos. Um aluno alegou o argumento de que não lê livros e prefere a playstation à leitura porque nunca foi estimulado para a leitura. Ele tem parcialmente razão no argumento que usou. Na verdade somos socialmente mais estimulados para o futebol do que para a ciência, por exemplo. De todo o modo não me parece que o aluno tenha sido estimulado, pelo menos pelos pais, a jogar horas a fio na consola. Creio que a explicação reside mais nas neurociências, já que se trata de perceber como funcionam os nossos canais reagentes a estímulos.

É também verdade que uma aluna abordou a questão da responsabilidade na auto motivação. Foi uma conversa e troca de argumentos interessante e nenhum aluno ousou pensar que a leitura de livros de filosofia ou ciência não serve para nada. Isso eles compreendem. O mais interessante talvez (e já não é a primeira vez que acontece) é que um dos alunos referiu que uma das causas da falta de estímulos à leitura é que os seus professores não lhes falam de livros. E rematou dizendo que é a primeira vez que um professor levava livros para a sala de aula e lhes falava insistentemente dos livros. Ora bem, convivo nas escolas desde que me conheço e prefiro não acreditar que o aluno tem toda a razão e que se trata de uma versão radical da realidade escolar. Mas talvez a minha crença seja uma crença falsa. A única coisa que me cumpre aqui assumir como factual é que todos os anos tenho alunos que vão às livrarias comprar livros como os de Nagel, Daniel Kolak e Raymond Martin ou Nigel Warburton, já que maioritariamente as minhas “demonstrações” de livros recaem nesses autores, que escreveram livros adequados ao estado cognitivo dos estudantes do ensino secundário. Ocasionalmente alunos meus compram livros da Ciência Aberta ou de colecções similares que se dedicam a divulgar a ciência ao público em geral.

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Formação

Sem título Após o meu post sobre a formação, alguns leitores amavelmente tem partilhado informações que podem ser úteis a todos nós. Para os colegas residentes na área do grande Porto, a FLUP oferece uma interessante formação creditada, aos Sábados pela manhã. Vou contactar os serviços da faculdade a propor esta formação on line com exame final de aprovação, ou pelo menos semi presencial, em regime de b learning. Clicar na imagem para mais informações. E obrigado aos leitores e colegas.

Formação em filosofia. Procura-se! Viva ou morta!

6a00d8341c4e6153ef00e54f23203c8833-800wi Ando com algumas dúvidas e nada melhor do que as partilhar com o objectivo de melhor as esclarecer. São dúvidas de cariz meramente profissional. Esta semana vou iniciar uma formação que me ocupará até ao final da tarde do próximo sábado numa área que nada tem a ver com a filosofia. Para ser sincero nem sei se ou como vou progredir na carreira, mas, por via das dúvidas, vou fazendo formação. É curioso que os colegas de educação física ou artes tem formação para dar e vender, mas os colegas das áreas científicas já não podem gozar de circunstância igual, o que me parece manifestamente injusto. Mas é o que faz encarar os professores como estando todos na mesma circunstância, posição que sempre me pareceu muito discutível já que encaro que o meu trabalho como professor de filosofia tem de ser ajuizado por uma bitola diferente de um colega que leccione trabalhos manuais, por exemplo. Mas a minha dúvida neste momento é outra. Vendo-me forçado a fazer formação noutras áreas, mas tendo em atenção que terei sempre de fazer 1/3 da formação na minha área de especialidade, onde é que se arranja tal formação? Ou seja, onde é que os colegas de filosofia andam a fazer formação. Tenho sabido destas formações do Centro Diálogos mas pouco mais. E depois do semi fecho do CEF, não encontro mais formação em filosofia. Onde fazê-la é a minha questão? Obrigado aos colegas que queiram aqui partilhar esta solidão. Há uma solução que tenho já no forno: eu próprio preparar a formação. Mas para tal preciso de tempo para a preparar, e tempo é a coisa que nós professores menos temos tido já que o nosso ministério nos obriga a gastá-lo em inutilidades dentro das escolas. Agradeço as vossas sugestões.

As consequências de levar a sério o relativismo cultural

RachelsJames Mesmo que o argumento das diferenças culturais seja inválido, o relativismo cultural pode ser verdadeiro. Como seria se fosse verdadeiro?

Na passagem citada, William Graham Sumner resume a essência do relativismo cultural. Sumner afirma que não há uma medida de certo e errado, além dos padrões de uma sociedade: «A noção de certo está nos hábitos da população. Não reside além deles, não provém de origem independente, para os pôr à prova. O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo». Suponha-se que tomávamos isto a sério. Quais seriam algumas das consequências?

1. Deixaríamos de poder afirmar que os costumes de outras sociedades são moralmente inferiores aos nossos. Isto, é claro, é um dos principais aspectos sublinhados pelo relativismo cultural. Teríamos de deixar de condenar outras sociedades simplesmente por serem «diferentes». Enquanto nos concentrarmos apenas em certos exemplos, como as práticas funerárias dos gregos e calatinos isto pode parecer uma atitude sofisticada e esclarecida.

No entanto, seríamos também impedidos de criticar outras práticas menos benignas. Suponha-se que uma sociedade declarava guerra aos seus vizinhos com o intuito de fazer escravos. Ou suponha que uma sociedade era violentamente anti-semita e os seus líderes se propunham destruir os judeus. O relativismo cultural iria impedir-nos de dizer que qualquer destas práticas estava errada. (Nem sequer poderíamos dizer que uma sociedade tolerante em relação aos judeus é melhor que uma sociedade anti-semita, pois isso implicaria um tipo qualquer de padrão transcultural de comparação.) A incapacidade de condenar estas práticas não parece muito esclarecida; pelo contrário, a escravatura e o anti-semitismo afiguram-se erradas onde quer que ocorram. No entanto, se tomássemos a sério o relativismo cultural teríamos de encarar estas práticas sociais como algo imune à crítica.

James Rachels, elementos de filosofia moral, Gradiva, p.40

Ministério Mágico da Educação.

Coelho da cartola Um aspecto que não me agrada na cultura portuguesa é que ainda não se libertou do peso e do poder do Estado. Para tudo o Estado é pai e chamado. As pessoas não tem praticamente cultura de liberdade de chamar a si as responsabilidades e poder de decisão e actuação, com todos os riscos que tal implica. Um exemplo muito simples, mas particular da filosofia, pode ser dado com a definição de Platão de conhecimento enquanto crença verdadeira justificada. Durante alguns anos alguns professores ensinaram a definição CVJ e falavam dela aos colegas. Somente um manual teve a coragem de apresentar essa definição, que apesar de correcta, remava contra a maré do tal erro que de tanto se insistir era tomado como verdade. Até à homologação por parte do Ministério da Educação de um documento que ajustava conteúdos ao programa, as Orientações de Leccionação do Programa de Filosofia, a classe docente de filosofia não acreditava muito na coisa, a não ser uma minoria. Após a homologação desse documento, toda a gente passou a estudar e aceitar essa definição ao ponto dela se tornar tão vulgar que até o mais fraco dos manuais a aborda. E isto tratando-se da classe de professores de filosofia. Imaginemos o resto. Se o Ministério manda, é porque é verdade, ainda que a malta conteste e tal.

Não sei o que seria das aulas de matemática se para lá fossem os docentes ensinar numerologia. Mas é verdade que veio ao conhecimento público o recente caso da homologação pela parte do Ministério de uma formação de professores na treta das crianças índigo. Depois do jogo do pau e da pintura de azulejos só faltava mesmo os professores terem formação em crianças índigo, ao mesmo tempo que temos um ensino macaco, formal, desmotivador e pouco rigoroso. Ao mesmo tempo que o Ministério actual acentua avaliações e reformas avulsas em educação sem sequer tocar na falta de rigor científico com que os programas de ensino são aplicados. Recentemente um colega quando ouviu estes meus argumentos respondeu que essas formações servem para aumentar a cultura geral. Mas para quê aumentar a cultura geral quando a cultura científica do que ensinamos nem sequer possui solidez? Não me importaria nada de fazer uma greve às avaliações a reivindicar rigor científico nos programas curriculares. Mas nada disto importa para se ser professor que é afinal a única coisa que deveria importar.

O que concluo daqui é que este ensino formal e apático, mais baseado na repetição acrítica do que na aprendizagem activa (exceptuando os novos cursos que ensinam a descascar batatas com certificação final equivalente ao 12º ano), é a expressão directa da ideologia. Não se trata de uma ideologia facilmente identificável, como nos estados fascistas em que sabemos o que pensa o ditador. Esta é a ideologia dos brandos costumes, a ideologia da mentalidade imposta do deixa estar, do não te incomodes, do o outro que trabalhe, do tenho que me safar enquanto é tempo. Esta ideologia assenta nos princípios mais elementares do egoísmo tacanho que defende que já que toda a gente se lixa, também tenho de estar a atento e não me deixar lixar, lixando-os eu também. Pensa-se assim que há uma protecção da felicidade. Pura ilusão: é com esta magia do querer mostrar a falsidade como sendo a verdade que todos nos encontramos no lugar certo que é a infelicidade.

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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