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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

O mais útil de 2006!

No tópico anterior pretendi revelar o livro de filosofia escrito por um português que não deveria cair em esquecimento. Neste tópico pretendo mostrar o livro de filosofia mais útil também publicado em 2006.
Textos e Problemas de Filosofia, organizado por Aires Almeida e Desidério Murcho, edição Plátano, 2006, é útil a vários níveis, quer para professores, quer para alunos ou até público em geral interessado em conhecer os principais problemas de que se ocupa a filosofia, sendo que é com obras desta natureza que enriquecemos o ensino de uma disciplina.
Em Setembro de 2005 o Ministério da Educação homologou o documento Orientações Para a leccionação do Programa de Filosofia (OLPF), documento que visava harmonizar a nível nacional os conteúdos da disciplina de filosofia para os 10.º e 11.º anos do ensino secundário. Quem conhece o programa da disciplina e o operacionalizou com as OLPF, comparando os dois documentos, programa e OLPF, não pode negar a mais valia das OLPF para a qualidade do ensino da filosofia que vinha a dar consistência à balbúrdia presente no programa da disciplina. As OLPF visaram aquilo que o programa não propõe: conteúdos especificamente filosóficos tocando, para o efeito, os textos e problemas essenciais da filosofia clássica e contemporânea.
     Para além dos clássicos, outros excertos de obras foram traduzidos expressamente para esta obra pela primeira vez em Portugal. As traduções já existentes dos textos clássicos foram todas revistas pelos organizadores. Em cerca de 250 páginas resume-se a biblioteca básica para o professor ou aluno transportar consigo durante os dois anos de ensino obrigatório de filosofia. No livro encontramos os textos centrais em referência nas OLPF, para além de outros tantos que complementam e diversificam o estudo dos diversos problemas filosóficos. Infelizmente o Ministério da Educação parece não ver qualquer sentido onde precisamente ele mais se cultiva para garantia de um ensino de qualidade, que é a tradução e edição de textos adequados e inteligíveis, articulação de conteúdos dos programas, e suspendeu a obrigatoriedade das OLPF em Agosto de 2006, de modo claramente irresponsável. Seria errado afirmar que, dado este acontecimento, a obra Textos e problemas de Filosofia perdeu a sua utilidade. Bem pelo contrário! Apesar da ingenuidade ignorante de quem governa, a questão é que os professores que entretanto contactaram com as OLPF dificilmente as abandonam e a utilidade aparece já não pela via da obrigatoriedade legal, mas pela via da coerência e seriedade do estudo feito com as OLPF e dos autores que o documento propõe (que, curiosamente são os filósofos, coisa que o programa da disciplina inexplicavelmente não propõe – imagine-se o que seria fazer um programa de física em que a proposta é que o professor ensine a lei da física que lhe parecer mais adequada ao contexto? É mais ou menos isto que se passa no programa de filosofia).
     Mas a utilidade deste livro não se fica por aqui. Se ele é útil para o professor, poupando-lhe até alguns esforços, também o é para o estudo e cultura filosófica do aluno.
Numa altura em que o Ministério da Educação pretende higienizar os manuais escolares certificando-os com o selo da qualidade (quando não o consegue fazer com os programas) e, mesmo não sendo o livro aqui em destaque um manual escolar, que diria o organismo público desta obra? Posso sem dificuldade adivinhar a resposta mas, como professor de filosofia no ensino secundário, gostaria de gozar a liberdade de adoptar o Textos e Problemas de Filosofia para os meus alunos. É que a preocupação aqui tem um nome: “Excelência do ensino”. Com qualidade.
 
Rolando Almeida

O livro que não deve ser esquecido em 2006

Findo o ano de 2006, eis que surgem as listas, umas mais especializadas que outras, sobre o que de melhor tivemos no plano editorial em 2006. Nas áreas mais específicas o mercado editorial português é muito debilitado. Normalmente as obras mais especializadas acabam por ser vendidas só a meia dúzia de especialistas que, numa boa parte dos casos, nem necessitam delas uma vez que recorrem aos originais, no caso das traduções. Precisamente por essa razão é que é urgente planificar o mercado editorial tendo em vista um público mais alargado. Os especialistas publicam as suas teorias e teses em revistas da especialidade, mas também podem publicar para um público mais alargado cumprindo com a democratização do conhecimento. Esse foi o legado do pioneiro Carl Sagan, no que à ciência respeita. No campo da filosofia este é um terreno marcadamente novo em Portugal, mas muito bem visto em territórios como os de língua francófona, inglesa ou alemã. Publicam-se boas introduções à filosofia, rigorosas e de grande proveito para o público em geral. Esta é também uma tarefa educativa, a de que os especialistas possam ensinar e formar os menos especialistas, desvendando-lhe os segredos das suas áreas, despertando assim interesses nos leitores que, de outro modo, dificilmente teriam acesso. É o que acontece com o livro de Desidério Murcho, Pensar outra vez, Filosofia, valor e verdade, ed. Quasi, Janeiro de 2006. De um modo muito rigoroso e informativo o autor revê alguns ensaios anteriormente redigidos e colige-os neste livro revestindo-os de interesse e actualidade. O problema do relativismo, da incerteza, sentido da vida, direitos dos animais não humanos, importância da argumentação na nossa sociedade, são temas discutidos amplamente nos circuitos mais especializados em departamentos altamente sofisticados de filosofia em diversas universidades e Desidério Murcho fá-los “descer à rua”, revelando-os matéria da preocupação de todos. A um determinado nível também os problemas da física ou da matemática são problemas de todos os seres humanos, porque não o mesmo para os problemas da filosofia?
Este é o melhor livro de filosofia escrito e pensado por um autor português no ano de 2006 e lamentável é que seja ainda um caso algo isolado. O saber em geral faz sentido se tiver importância na vida das pessoas. A sua solidificação só é possível numa sociedade culta e a possibilidade de uma sociedade culta é precisamente a de poder comunicar esse saber e não fechá-lo em copas, erro do passado que não vale mais a pena repetir, sob pena de condenarmos o próprio saber e revelá-lo sem interesse para a vida mais comum.
A filosofia é de todos e a todos pertence. Venham mais livros assim em 2007.
 
Rolando Almeida
 
Desidério Murcho, Pensar outra vez, Filosofia, Valor e Verdade, Ed. Quasi, 2006

Espíritos Curiosos, Como uma criança se torna cientista

John Brockman organizou este fantástico volume com depoimentos de nomes sonantes da ciência e conhecimento, sobre como os mesmos despertaram para a ciência. Trata-se de um livro curiosíssimo no qual os cientistas, pela mão do organizador, relatam algo das suas vidas pessoais e procuram as razões que os conduziram à ciência e ao saber. Ao contrário do que possamos pensar, o primeiro encontro com a ciência não obedece a regras muito estritas. Se alguns homens de conhecimento começaram a sua aventura pelas leituras, outros tiveram até bastantes resistência que foram superando com o passar dos anos e com a persistência habitual nestas coisas. O filósofo escolhido pelo organizador para contar a sua aventura de homem do conhecimento, Daniel C. Dennett, começa o seu relato desta forma: “Tive muitas aventuras quando era criança, mas nenhuma que me preparasse para uma vida no limiar da ciência”.
Trata-se de um livro muito interessante, especialmente para jovens estudantes do secundário e do ensino superior. Passamos a compreender melhor que as nossas vidas comuns são, em absoluto, compatíveis com o universo da criação e investigação científica. Na maior parte das vezes só nos falta o impulso inicial, tal como ler um bom livro, como o que aqui apresento.
Resta deixar a indicação que se trata de um belíssima edição e a um preço acessível, tal como a Gradiva nos tem habituado.
Rolando Almeida
 
John Brockman (org.), Espíritos Curiosos, Como uma criança se torna cientista, Gradiva, 2006

ZarcoSofia - Revista de Filosofia da E. Gonçalves Zarco - Funchal

Aguarda-se para breve a publicação do primeiro número da Revista ZarcoSofia, a revista de Filosofia da Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco. Em pré edição deste primeiro número, deixo aqui o editorial.
ZarcoSofia
REVISTA DE FILOSOFIA
Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco. Grupo de Filosofia. Ano Lectivo 2006/2007. Edição nº 1 – Janeiro de 2007

 

Editorial
 
Gostaríamos de iniciar o primeiro número da Revista de Filosofia – ZARCOSOFIA , da Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco, organizada pelo Grupo de Filosofia, agradecendo a participação activa dos alunos das turmas:11º2, 4, 5 e 12º7.
Sem a sua colaboração a nossa revista não ficaria tão completa.
A cultura, a filosofia e a arte só serão realmente importantes se forem entendidas pelo homem comum. È nisso que acreditamos e empenhamo-nos por orientar a nossa prática lectiva sob este lema.
Esperamos que continuem a apostar na colaboração da revista e apelar para outras colaborações, que serão sempre bem vindas.
Um agradecimento muito especial ao Conselho Executivo por acreditar no Projecto “Filosofia para Crianças”, e aos alunos envolvidos que tanto se dedicaram para o sucesso alcançado na primeira sessão. Parabéns! Valeu o esforço e dedicação. Quando acreditamos em nós, somos capazes de acariciar as estrelas.
Professora Fátima Aveiro

A lei de todas as coisas, uma explicação de quase tudo

Fruto da democratização e globalização da comunicação e informação, assistimos no mercado editorial, ao boom de edições de divulgação a um público mais alargado das mais diversas temáticas, incluindo a ciência. Sabemos que a ciência está na ordem do dia e todas as grandes modificações no mundo moderno, a ela se devem. Informar um público mais amplo numa linguagem mais acessível e pouco técnica é uma das ambições de todo o plano educativo. Claro está que todos os dias conhecemos más edições e pouco precisas. Outras mais precisas e outras ainda mais ou menos precisas, mas escritas com bom humor. É o caso da edição datada de Março de 2006 de A lei de todas as coisas, uma explicação de quase tudo, de Richard Robinson, pela Verso da Kapa. Em Portugal este mercado de edições aparece ainda de forma muito modesto, recaindo grande mérito no esforço feito pela Gradiva com a colecção pioneira Ciência Aberta. Outras editoras vão procurando os seus títulos e autores neste mercado que lentamente vai disponibilizando alguns títulos curiosos. Em A lei de todas as coisas, Richard Robinson parte do postulado da lei de Murphy para nos deixar uma mensagem simples, mas altamente útil para as nossas vidas: que 99,9% das coisas que pensamos, vemos e ouvimos estão erradas e que um pouco de ciência nos basta para percebermos isso mesmo. A realidade é assim apresentada como um imenso puzzle, cuja configuração das peças se altera a cada milésimo de segundo, pelo que reconstruir a realidade é um processo moroso e altamente complexo. Como sofremos do comodismo de estacionar nas ideias mais básicas, facilmente perdemos o comboio do movimento e acabámos com ideias completamente erradas sobre o que à nossa volta se passa. O exemplo dos capítulo dedicado aos sentidos é disso prova, fazendo-nos regressar a René Descartes e ao papel da dúvida na construção do conhecimento racional.
Uma das vantagens deste género de leituras é partir de exemplos que nos estão completamente próximos nas nossas vivências, por exemplo, porque é que se segue sempre pelo atalho errado? Porque não nos sai da cabeça aquela música que detestamos? Porque é que, quando se perde alguma coisa, continua a procurá-la, uma série de vezes, no mesmo sítio? E porque será que ela aparece, de repente, no sítio ao qual já foi quatro ou cinco vezes?
O mundo pode ter mudado muito nos últimos milénios, mas os nossos cérebros nem por isso. Será que temos de ficar pela consolação da lei de Murphy?
Richard Robinson, A lei de todas as coisas, Uma explicação para quase tudo, Verso da Kapa, 2006
 
Rolando Almeida

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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