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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Filosofia Moral: David Hume versus Immanuel Kant

Daqui decorre, por exemplo ( e este é um argumento fundamental no Tratado da Natureza Humana, Livro III), que, na medida em que a moral nos move à acção (Hume pensa que ela excita paixões e produz ou impede acções), ela não pode ser derivada da Razão. Na prática isto significa que para Hume nem as “regras” da moral são conclusões da Razão nem a “virtude” é concebível como conformidade com esta.
 
p.109
 
     Por mais vilipendiada que a posição humeana seja, nomeadamente devido ao que parece ser a sua natural associação com o relativismo moral, é preciso notar que a tese central de Hume segundo a qual só uma paixão contraria, equilibra ou suporta outra paixão não é assim tão invulgar no pensamento ético.
 
p.111
 
     Mas por que razão necessitará Kant de afastar os desejos para ter uma boa teoria da motivação para a acção? A razão é que Kant considera todos os desejos como sendo, precisamente, “sensíveis” e “contaminados” e fá-lo em grande parte porque os vê como sendo não apenas individuais mas também egoístas, i. e., desejos de prazer pessoal.
 
     Para Kant, os desejos são basicamente desejo de prazer pessoal e é precisamente isso que há de errado com eles. É por isso que para Kant uma coisa é a motivação por desejos, outra coisa totalmente diferente e muito mais importante, é a motivação pela Razão, que merecerá o nome mais nobre de “vontade”.
 
     Assim, para Kant, não importa, por exemplo, que as inclinações empíricas dos agentes, os seus desejos, sejam generosos ou não, não importa a diferença entre o desejo de fazer algo de amável a alguém e o desejo de matar essa pessoa. Ambos são inclinações subjectivas, logo não podem ser fonte de lei. Um sentimento que inclina é uma mola motivacional de natureza totalmente diferente da boa mola motivacional que é a Razão.
 
p.112-113
 
 
 
Sofia Miguens, Racionalidade, Campo das Letras, col. Campo da Filosofia, Porto, 2004

A Filosofia analisa o desastre no ensino da matemática

Recomendo a leitura deste livro por duas razões principais:

1ª - O problema no ensino e insucesso a matemática prepassa todo o sistema educativo português.

2ª - Este livro é uma súmula de ensaios de especialistas de formações diversas. O primeiro ensaio é de Anthony O`Hear, filósofo da Universidade de Buckingham.

Quando estão em análise problemas como os educativos reclama-se a presença da filosofia como base de sustento de argumentos que possam indicar soluções mais eficazes. O mais curioso é que, de todos os especialistas requisitados para esta obra coordenada por Nuno Crato, somente o filósofo não é português. Razão para questionar onde param os filósofos portugueses e onde está a interdisciplinaridade da filosofia em portugal? Não terão os filósofos portugueses um argumento sobre o assunto? E assuntos como o ambiente, aborto, eutanásia, direitos dos animais, distribuição da riqueza? Há na verdade um deserto de intervenção no espaço público em Portugal dos filósofos nas questões que são, essencialmente, de natureza filosófica. É urgente mudar esta tendência para prestigiar a disciplina com o seu lugar próprio, tal como Sócrates o fez na sociedade grega.


Nuno Crato (coord.), Desastre no Ensino da Matemática, Como Recuperar o Tempo Perdido, Gradiva, 2006

 

Rolando Almeida

O Modelo do Pensamento Consequente

O pensamento consequente é o pensamento fundamentado. Um pensamento é consequente quando se baseia em razões e retira correctamente consequências das razões em que se baseia. Por exemplo, uma pessoa pode pensar que Deus existe por achar que, se não existisse, a vida não faria sentido. Ou pode pensar que o aborto é um mal por achar que matar um feto é um assassínio. Esta actividade de retirar consequências de ideias pode ser bem ou mal executada.
    A lógica permite determinar que consequências se retiram correctamente das nossas ideias, e que consequências só aparentemente se retiram delas. Uma demonstração lógica é um modelo abstracto e simplificado do pensamento consequente, como veremos. Ao tomar consciência das diversas formas através das quais se pode errar ao pensar mesmo nos casos simplificados da lógica, adquire-se não apenas rigor mas também cautela e maturidade. Aprende-se a não aceitar as nossas ideias e os nossos argumentos sem uma reflexão ponderada, pois percebemos que nos podemos enganar e pensar, retirando consequências que não podem ser retiradas, ou não nos dando conta de que das nossas ideias se podem retirar consequências falsas – o que mostra que as nossas ideias são falsas.
        Por exemplo, alguém poderá defender a seguinte ideia, hoje em dia muito popular: «Todas as verdades são relativas». Sem formação lógica, acontece duas coisas a essa pessoa. Em primeiro lugar, não se percebe que a sua ideia é auto-refutante – isto é, não se percebe que a verdade da sua ideia implica a sua falsidade. Se todas as verdades são relativas, também esta é uma verdade relativa; mas ser uma verdade relativa significa que para algumas pessoas, ou em algumas circunstâncias, ou para algumas comunidades, esta ideia é falsa. Logo, se for verdade que todas as verdades são relativas, é falso em algumas circunstâncias que todas as verdades são relativas. Em segundo lugar, não só essa pessoa não se apercebe desta dificuldade lógica elementar a que tem de responder, como sente que quem lhe apresenta este contra-argumento a está a enganar. Como o contra-argumento se baseia num raciocínio ligeiramente complexo e a pessoa em causa não tem instrumentos para avaliar a sua correcção, sente que está a ser enganada. O resultado desta situação é que essa pessoa não está equipada para discutir ideias filosóficas – tudo o que consegue fazer é dar voz aos preconceitos do seu tempo, sem ter capacidade crítica para se distanciar das suas próprias ideias e procurar responder aos argumentos que se levantam contra elas. Nestas circunstâncias, o estudo da filosofia deixa de conduzir à liberdade do pensamento crítico, e torna-se apenas um meio para sustentar preconceitos com nomes sonantes de filósofos e palavras complicadas.
 
Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia, Plátano p.30-31

Aborto? Que argumentos pensar? Que decidir?

Numa altura em que vai a referendo Nacional a questão do aborto, nada melhor que estar um pouco informado sobre um problema que, antes de ser político, prepassa a moralidade. Para tal deixo duas referências que, certamente, colocarão à prova todos os nossos argumentos sobre a questão.
 
O embrião, o feto subsequente, a criança gravemente deficiente mental e até mesmo o recém-nascido, todos eles são indiscutivelmente membros da espécie Homo Sapiens, mas nenhum deles é autoconsciente nem possui um sentido do futuro ou a capacidade de se relacionar com os outros. Logo, a escolha entre os dois sentidos pode ter implicações importantes para a forma como respondemos a perguntas como «será que o feto é um ser humano?»
 
Peter Singer, Ética Prática, Gradiva
 
 
Será que abortar um feto é como assassinar um de nós? Este é o problema ético do aborto. Esta obra reúne seis ensaios não seguindo uma só resposta possível. Nele há argumentos contra e a favor do aborto.
 
A Ética do Aborto, org. e tradução de Pedro Galvão, Dinalivro, 2005
 
Incluí:
 
Uma defesa do aborto – Judith Jarvis Thomson
O direito da mulher a controlar o seu corpo? – Stephen D. Schwarz
Aborto e infanticídio – Michael Tooley
O argumento da regra de ouro contra o aborto – Harry Gensler
A razão da imoralidade do aborto – Don Marquis
O argumento do futuro-como-o-nosso – David Boonin

O que é a validade?

  Dizemos frequentemente que uma ideia, uma pessoa ou uma iniciativa são válidas. Com isso queremos dizer que tal pessoa, tal ideia ou tal iniciativa são boas ou úteis, ou que têm um certo valor. Isso é o que acontece na linguagem comum. Em lógica e filosofia, porém, o termo «validade» tem um significado diferente e muito preciso, que já veremos qual é. Antes disso, há uma ideia que tem de ficar bem clara. Essa ideia é a da distinção entre verdade e validade; distinção fundamental em lógica e filosofia.

  De uma proposição dizemos que é verdadeira ou falsa. Mas de um argumento, que é formado por várias proposições, já não podemos dizer que é verdadeiro ou falso. Isso seria um erro enorme. Algumas pessoas pensam que se um argumento é um conjunto de proposições e como as proposições são verdadeiras ou falsas, assim também os argumentos podem ser verdadeiros ou falsos. Isso seria o mesmo que dizer que um conjunto de pessoas é alto porque é formado por pessoas altas. As pessoas podem ser altas ou baixas, mas os conjuntos (sejam eles de pessoas ou de outra coisa qualquer) não são altos nem baixos. Se, como se verá, o mesmo argumento pode conter proposições verdadeiras e falsas, por que razão afirmaríamos que esse argumento é verdadeiro em vez de falso, ou vice-versa? Aquilo que, primeiramente, nos interessa num argumento é saber se a conclusão se segue das premissas. No caso de isso acontecer estamos perante um argumento válido. Caso contrário, estamos perante um argumento inválido. O seguinte argumento é claramente válido:

Todos os espanhóis são toureiros.
Bill Clinton é espanhol.
Logo, Bill Clinton é toureiro.

  Ao analisar este argumento, a diferença entre verdade e validade torna-se clara. É fácil verificar que tanto as premissas como a conclusão são falsas. Contudo, a conclusão segue-se das premissas. Por isso o argumento é válido. Falamos de verdade e falsidade quando referimos as premissas e a conclusão e falamos de validade ou invalidade quando referimos o próprio argumento. Veja-se agora o seguinte argumento claramente inválido:

Todos os portugueses são europeus.
Luís Figo é europeu.
Logo, Luís Figo é português.

  É muito fácil verificar que se trata de um argumento inválido, bastando substituir o nome de Luís Figo por outro nome como, digamos, Tony Blair, mas mantendo tudo o resto. E, apesar de ser um argumento inválido, todas as proposições que o constituem são verdadeiras. Só que a conclusão não é sustentada pelas premissas.

  Mais uma vez se diz que um argumento é válido ou inválido consoante a sua conclusão se segue ou não das premissas, sejam elas verdadeiras ou falsas. Mas esta é ainda uma forma imprecisa de dizer o que é a validade. Existe, contudo, uma definição explícita de «argumento válido». Assim, diz-se que «um argumento é válido se, e só se, é logicamente impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa». Sabemos agora exactamente o que procurar num argumento para saber se é válido ou não. Tudo pode acontecer com um argumento válido, menos uma coisa: ter premissas verdadeiras e conclusão falsa. Mas isto não significa que o argumento é válido desde que não tenha premissas verdadeiras e conclusão falsa. Não basta que não tenha as premissas verdadeiras e a conclusão falsa; é necessário que isso seja impossível de acontecer. Repare-se no meu último exemplo: não acontece ele ter as premissas verdadeiras e a conclusão falsa, até porque premissas e conclusão são todas verdadeiras. Mas se no mesmo argumento substituirmos, como atrás sugeri, o nome de Luís Figo pelo de Tony Blair, o que acontece? Acontece que as premissas continuam verdadeiras mas a conclusão é falsa. E essa é a única coisa que não pode acontecer num argumento válido. Portanto, é inválido.

  Para tornar mais clara a noção de validade, podemos mesmo prescindir de qualquer nome, seja ele Luís Figo ou Tony Blair, e construir um argumento com a seguinte forma:

Todo o A é B.
c é A.
Logo, c é B.

  Seja o que for que A, B e c signifiquem, este argumento é claramente válido. Admitindo que as premissas são verdadeiras, a sua conclusão não pode ser falsa. Mas como sabemos que este argumento é válido se não sabemos ainda o que significam A, B e c? Sabemos isso porque a validade de um argumento não depende daquilo que nele se afirma, isto é, do seu conteúdo, mas da sua forma lógica. Para sabermos se um argumento é válido nada mais temos de fazer senão atender à forma como está estruturado. É por isso que um argumento pode ser válido mesmo que nele se afirmem as coisas mais inverosímeis do mundo. Um bom exemplo disso é o seguinte:

Se as bananas têm asas, o ouro é um fruto seco.
Acontece que as bananas têm asas.
Logo, o ouro é um fruto seco.

  Também aqui a conclusão terá de ser verdadeira, caso as premissas o sejam. Contudo, dificilmente alguém estaria disposto a aceitar um argumento destes. O que acontece é que não é suficiente um argumento ser válido para termos de o aceitar, mostrando assim que nem todos os argumentos válidos são bons. Não estamos interessados em aceitar a conclusão de um argumento válido quando essa conclusão é inferida de falsidades. Queremos também que um argumento seja sólido. Ou seja, que, além de ser válido, tenha premissas verdadeiras. Assim, se um argumento for válido e tiver premissas verdadeiras, somos, racionalmente, obrigados a aceitar a sua conclusão. Se não quisermos aceitar a conclusão de um argumento válido, só nos resta, então, mostrar que alguma das premissas é falsa.

  Pelo que disse até aqui, dir-se-ia que apenas existem argumentos válidos e inválidos. E que os inválidos, ao contrário dos válidos, apresentam uma forma que não permite preservar sempre na conclusão a verdade das premissas. Assim, a lógica seria apenas o estudo da forma dos argumentos, ocupando-se exclusivamente dos argumentos válidos. Só que isso não corresponde à verdade. Há outros tipos de argumentos cuja aceitabilidade não depende da forma que apresentam. Tais argumentos fazem, por isso, parte da chamada «lógica informal».

Aires Almeida

Nota: este texto foi publicado com autorização do autor e é um excerto de um artigo mais extenso que pode ser lido em www.criticanarede.com , secção da Lógica.

Zarcosofia - Dicionário de Filosofia

Alunos,

Está a ser concebido o nosso Dicionário de Filosofia no espaço Zarcosofia http://www01.madeira-edu.pt/estabensino/ebsgz/zarcosofia/zarcosofia.htm . Com este dicionário minimizamos as dúvidas que aparecem relativamente a muitos conceitos e filósofos estudados. A ideia é que sejam os alunos a realizar as descobertas para se incluirem no dicionário. Já tem chegado muitos conceitos que vão ser o mais rapidamente remetidos para o dicionário. Ainda assim lembro que toda a vossa colaboração, empenho e trabalho é indispensável. O trabalho de um só não permite engrandecer esta pequenina obra que, quem sabe, com uns melhoramentos, até dará origem a uma publicação em papel para os futuros alunos usarem.

Lembro que se quiserem ver trabalhos vossos publicados neste blog, enviem-nos para mim.

Está lançado o desafio.

Fico à espera da vossa colaboração espontânea.

Todos os trabalhos devem ser enviados para rolandoa@netmadeira.com

Rolando Almeida

Política Educativa e Filosofia

A nova página da Sociedade Portuguesa de Filosofia sobre as políticas educativas:

Toda a documentação relevante sobre os programas, as orientações de leccionação, a avaliação das aprendizagens, a formação de professores, os manuais escolares e a legislação mais recente que enquadra o ensino da Filosofia.

Inclui os dados estatísticos relativos aos exames nacionais de Filosofia de 2006.

LINK: http://www.spfil.pt/poledu.html

Hannah Arendt - As Origens do Totalitarismo

Escrita em 1951, esta obra trouxe um contributo fundamental para a compreensão do totalitarismo, tanto no caso soviético com a luta de classes, como no nazismo com a luta de raças. Hannah Arendt apresenta um quadro completo da organização totalitária, a sua implantação, a propaganda, o modo como manipula as massas e se apropria do Estado com vista à dominação total. A sua crítica da razão governamental totalitária ainda hoje é pertinente, numa época onde vigoram regimes com estas características e, mais do que isso, num terreno onde a democracia liberal não afastou por completo os vestígios de uma ideologia de terror que torna o homem supérfluo. Com a sua lúcida análise, percebemos por que motivo o campo [de concentração] se encontra no âmago do totalitarismo.
No final Arendt deixa uma «profecia» desconcertante: «As soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda dos regimes totalitários sob a forma de forte tentação que surgirá sempre que pareça impossível aliviar a miséria política, social ou económica de um modo digno do homem.»
O último cap. da segunda parte intitulado “O declínio do Estado-nação e o fim dos Direitos do Homem” mantém toda a actualidade ao tratar do problema dos apátridas e dos refugiados, dos «povos sem Estado», fora de todo o sistema legal e expostos à arbitrariedade da polícia. São estes princípios de exclusão da comunidade que, aliados a uma subordinação obrigatória à vontade de um Chefe, tornaram possível o totalitarismo. Num presente como o nosso, com genocídios e acumulação de refugiados, é a Arendt que teremos ainda de voltar como fonte esclarecedora dos grandes fenómenos da filosofia política. Esta reedição que acaba de sair com a chancela da D. Quixote tem a vantagem de reunir os 3 volumes num só.
José Caselas
Professor de Filosofia - Lisboa

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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