Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

O argumento de S. Anselmo

Ao reflectir sobre o conceito de Deus, Santo Anselmo define-o como aquele «ser maior do que o qual nada pode ser pensado». Daqui, Santo Anselmo conclui que Deus existe, uma vez que se não existisse, não seria aquele ser maior do que o qual nada pode ser pensado. Este é um argumento por redução ao absurdo. Vejamos em mais pormenor como funciona.

 

            A primeira distinção importante a ter em conta para compreender o argumento é a diferença entre existir no pensamento e existir na realidade. Exactamente o que significa dizer que algo existe no pensamento? Todas aquelas coisas que podem ser por nós pensadas existem, num certo sentido, no pensamento: existem enquanto objectos do pensamento. Por exemplo, quando pensamos no Pai Natal, ele é o objecto do nosso pensamento e, nesse sentido, o Pai Natal existe, mesmo que não exista na realidade. Deste modo, há coisas que existem apenas no pensamento, pois são objecto do nosso pensamento, sem existirem de facto.

 

 

·         Uma coisa existe no pensamento quando pensamos nela.

·         Uma coisa existe unicamente no pensamento quando pensamos nela e não existe na realidade.

 

            Há coisas que, além de existirem no pensamento, existem também na realidade. Por exemplo, o escritor português José Saramago tanto existe no pensamento como na realidade.

            Vejamos agora o segundo aspecto importante do argumento ontológico. S. Anselmo define Deus como «o ser maior do que o qual nada pode ser pensado». Mas em que sentido é um ser ou um objecto maior do que outro? O que conta aqui não é a grandeza física, mas se um ser possui ou não mais qualidades do que outro. Por exemplo, o edifício Amoreiras é fisicamente maior do que a Torre de Belém, mas daí não se segue que este seja maior, no sentido de ter mais qualidades, do que a Torre de Belém. Qualidades que conferem grandeza a algo são coisas como a antiguidade, o valor histórico, a beleza, etc. No caso de pessoas, as qualidades que conferem grandeza são, segundo S. Anselmo, coisas como a bondade e a sabedoria. Uma pessoa mais bondosa e sábia do que outra é, neste sentido, maior ou superior à outra.

 

·         Um ser é maior do que outro se tem mais qualidades.

 

            Dizer que Deus é «o ser maior do que o qual nada pode ser pensado» é dizer que Deus é supremamente perfeito, ou seja, possui todas as qualidades.

            Vejamos agora como funciona o argumento ontológico. O argumento tem a seguinte estrutura:

 

Premissa 1:           Deus é o ser maior do que o qual nada pode ser pensado.

Premissa 2:           Deus existe apenas no pensamento.

Premissa 3:           Se Deus existe apenas no pensamento, então podemos conceber um ser maior do que o qual nada pode ser pensado, nomeadamente, um ser que exista também na realidade.

Conclusão:            Logo, é falso que Deus exista apenas no pensamento. Isto é, Deus existe também na realidade. Ou seja, Deus existe.

 

            A premissa 1 dá-nos a definição de Deus. A premissa 2 é a hipótese a ser refutada. Se fosse verdade que Deus existisse apenas no pensamento, como nos diz a premissa 2, então haveria algo maior que Deus, o que contraria a premissa 1. A ideia é que a existência é uma perfeição. Ou seja, um ser que existe na realidade é mais perfeito ou maior do que um ser que não existe na realidade. Por exemplo, imagine-se duas casas igualmente perfeitas. Imagine-se que uma existe apenas na cabeça do arquitecto e que a outra existe também na realidade. A que existe na realidade é por isso melhor do que a que existe apenas no pensamento do arquitecto. Assim, dado que Deus é supremamente perfeito, tem igualmente de existir na realidade. Logo, Deus existe.

            Será que este argumento estabelece a existência de Deus?

 

V/A, A Arte de pensar, 10º Ano, 2007, Didactica

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Arquivo

  1. 2009
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2008
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2007
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2006
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D