Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Por que é que se chumba mais a português e matemática?

orelhas-de-burro Ensino na loja dos 300

Para tentar responder a este problema vou arriscar uma hipótese: porque o português e a matemática são disciplinas que não sofrem ameaças de desaparecimento do sistema de ensino e seja qual for a variante de formação, são disciplinas sempre presentes. Mas o mesmo não acontece com disciplinas como química, física, biologia, história (esta menos) ou filosofia.

Uma das dominantes das recentes políticas educativas é minimizar o peso de exigência das disciplinas. O caso recente dos exames de matemática é disso bom exemplo. Se os alunos chumbam, não se lhes exija mais, faça-se-lhes uma concessão e torne-se o exame um exame, vá lá, da treta. No caso da filosofia, acaba-se com o exame que ninguém vai dar por isso e muita gente agradece. No caso da física, substitui-se a carga horária pelas TIC ou áreas de projecto, que a física não é necessária para se ter um bom emprego e além do mais os cursos de física estão às moscas. O melhor mesmo era começar a dar licenciaturas e salários a profissões pouco exigentes em termos intelectuais: aumentava-se o rendimento das famílias e tratava-nos por Drs o que implica mais respeitinho.

Para a filosofia temos bom remédio: propõe-se cursos muito mais fáceis, mas sem filosofia. Gradualmente damos cabo da filosofia. Que se lixe a filosofia. Recentemente perguntava aos meus alunos num teste de filosofia, “se é verdade que a terra é redonda e se eu acredito nisso, então é porque sei que a terra é redonda”. Pedia que os alunos me respondessem se concordam com a afirmação e porquê? A esmagadora maioria dos alunos responderam que sim, que concordam já que sabemos que a terra é redonda através do conhecimento. Não é necessário muito mais que uma pergunta simples para perceber uma dura realidade: a escola não sabe ensinar a pensar. E se os estudantes não sabem pensar para que lhes impor física, química, biologia ou filosofia, que são disciplinas que exigem saber pensar? É o mesmo que cortar as pernas aos estudantes e impor-lhes a educação física com provas de corrida. Será expectável que a maioria dos alunos não consigam realizar tal prova e que 1) ou todos chumbam ou 2) passa-se os alunos mesmo sem terem conseguido realizar um terço da prova. A solução educativa em relação ao ensino é pura e simplesmente acabar com a educação física e, em seu lugar, inventar algo como “exercícios práticos de desporto” onde os alunos mais não tem de fazer do que mexer o dedo pequeno ou, vá lá, o grande ou o médio ou, na pior das hipóteses, se o aluno não tiver dedos, que mexa qualquer coisa de acordo com o que pensa que é adequado à sua realidade.

Ciência? Conhecimento? Artes? Para o caraças com isso. Coisas de ricos. A nossa população não aprende isso, não quer saber, nem precisa disso.

É por estas razões (muitas das vezes com o silêncio aprovador de milhares de professores e dezenas de sindicatos) que desaparecem sem se saber bem como disciplinas como filosofia ou física e em seu proveito aparecem as novas oportunidades e todo o tipo de oportunidades saloias para que os nossos estudantes passem do 7 ao 17. E passam mesmo, razão pela qual, há 8 anos que trabalho com o ensino profissional e todos os anos ouço alunos dizer que eram alunos de 7, mas que agora conseguem 17 sem terem de estudar mais. Isto são factos e não considerações.

Claro que nada tenho contra modelos alternativos de ensino, só não compreendo a razão pela qual esses modelos alternativos são exemplos dramáticos de desprezo completo pelo saber, pelo conhecimento e pela ciência. Um destes dias questionei taxativamente um director de um curso profissional se colocaria os seus filhos a estudar nesses cursos. A resposta foi que não já que esperava como todo o bom pai que os filhos fossem para a universidade. Expliquei a esse director que a entrada na universidade estaria garantida frequentando os cursos profissionais e que até poderiam tirar melhores classificações no ensino profissional já que as classificações são inflacionadas. Fiquei sem resposta. Mas não é necessária. Compreende-se perfeitamente por que este pai, director de um curso profissional, prefere que os filhos estudem nos cursos gerais. Porque, apesar de tudo, nos cursos gerais, os filhos podem estudar física, biologia e filosofia que são disciplinas que melhor os preparam para os futuros cursos e para a vida. Para os filhos dos outros, o profissional serve e as novas oportunidades também.

Estas são razões que parecem explicar porque se chumba mais a português e a matemática do que a filosofia, por exemplo. Em termos práticos, um aluno que chumbe a filosofia pode fugir da filosofia optando pelas novas oportunidades ou pelos cursos profissionais, evitando desse modo a disciplina a que chumba. Mas o mesmo não pode fazer com o português ou a matemática. Ao mesmo tempo o professor de filosofia ao chumbar o aluno está a convidá-lo a abandonar a disciplina já que tem outras possibilidades, muito mais fáceis, menos trabalhosas e com garantia de melhores médias e, muito subtilmente, o professor de filosofia está a dar cabo da sua disciplina contribuindo para o sua gradual menor importância nos currículos da nova massa de estudantes. Pelo contrário o professor de matemática pode enviar o aluno para o profissional ou as novas oportunidades sem ameaçar o seu posto de trabalho.

6 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Arquivo

  1. 2009
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2008
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2007
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2006
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D