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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Para debater

teaching Proponho aqui uma pequena troca de ideias no sentido de tornar mais ampla e pública a discussão profissional das avaliações, uma vez que esta semana decorre em quase todas as escolas do país as avaliações de final de 1º período. É frequente nesta época ouvir dizer pela grande maioria dos professores que os alunos possuem muitas dificuldades em termos de conhecimentos. E eu subscrevo por inteiro essa opinião. Na verdade cada vez mais os alunos chegam ao ensino secundário com imensas ausências de conhecimentos básicos, tanto do ponto de vista científico, como no domínio da língua mãe ou no desembaraço do raciocínio, revelando dificuldades em organizar um pensamento consistente e claro. O que eu não compreendo, como profissional do ensino e não me sinto à vontade com esta situação, é que, as constatações destas dificuldades são em número muito maior que o de alunos que acabam por chumbar de ano. Na verdade a maioria dos alunos passa de ano no final. Ora por que razão não me sinto bem com esta situação? Porque parece que estou a compactuar com uma fantasia, uma aldrabice que prego a mim mesmo. Os alunos tem realmente muitas dificuldades, aprendem pouco, mas, no final, quase todos transitam. Temos então aqui dois problemas:

1) Como resolver este impasse da auto mentira

2) Será que chumbar estes alunos é a solução

Rolando Almeida

Tenho mais dificuldades em responder a 1) do que a 2). Não se resolve com golpes de mágica o impasse de 1). Bem, podemos considerar que os alunos passam automaticamente, que a escola exige que apenas a frequentem e que cada um leve o que quiser e puder da escola, mesmo correndo o grave risco de desaproveitar os melhores.

Em relação a 2) vejo as coisas mais claras, embora possa estar errado (e agradeço aos leitores que troquem ideias comigo nos comentários ou até enviando textos sobre o assunto que terei gosto em publicar). Na verdade chumbar alunos nunca me pareceu ser a solução para resolver o problema já que o objectivo é conseguir com que eles passem de ano, apesar que só por essa razão também não me pareça que os deva passar automaticamente ou com níveis muito residuais de exigência. Este problema não se resolve de um momento para o outro mas pode limar-se com uma reforma gradual dos programas de ensino. O que há então, grosso modo, para reformar já? Uma das tendências da nossa escola é valorizar as competências em relação aos conteúdos das disciplinas. O que proponho é que se passe a valorizar mais os conteúdos e encarar as competências como consequência das aprendizagens de conteúdos e não o contrário. Por outras palavras o que defendo são programas directivos, que apontam o conhecimento naquilo que ele é. As pedagogias, essas sim, podem ser regionalizadas já que os contextos de ensino são muito diversos. Não pode existir uma matemática para o contexto x e outra para o contexto y. A diferença está no modo como se decide ensinar essa matemática. E não é a mesma coisa ensinar matemática a alunos desfavorecidos ou a alunos favorecidos. Vou tentar arriscar um exemplo prático. No 11º ano, em filosofia, ensino os inspectores de circunstâncias para testar a validade de argumentos formais. Basicamente é a mesma coisa fazê-los com duas proposições ou com 3. Acontece que com 3 os alunos mais desfavorecidos fazem mais confusões. O que é que interessa ensinar ao aluno? Que ele saiba fazer inspectores? Em certo sentido sim, mas o que se pretende mostrar é que ele perceba como funcionam os argumentos dedutivos e como se testa a sua forma lógica, para se saber se são ou não válidos. Em certo sentido um aluno pode perceber isto com exercícios com 2 ou 3 ou mais proposições, é indiferente. Isto significa que, apesar de eu achar mais limitado, numas turmas realizo exercícios com 3 ou até mais proposições e noutras não, recorro a exemplos de argumentos mais simples. Numas e noutras turmas consigo que a generalidade dos alunos compreendam como se testa a validade de argumentos dedutivos. E o mesmo se passa noutras unidades. Mais à frente no programa não se pretende que os alunos saibam Descartes e David Hume, mas que possam contrapor racionalismo a empirismo e compreender as objecções a cada uma das posições. Isto faz-se mais ou menos bem se explicarmos o argumento dos cépticos. Aí os alunos estão em posse de compreender para que se estuda racionalismo e empirismo. Em turmas mais avançadas pode-se explorar com mais detalhe cada passo da argumentação tanto de Descartes como David Hume. No final do ano turmas fracas e menos fracas compreendem a distinção entre racionalismo e empirismo, tal como no 1º exemplo, turmas mais fracas e menos fracas compreendem como se testa a forma lógica de um argumento dedutivo e por que razão se recorre a inspectores de circunstâncias. Não sei se os meus exemplos são os mais felizes para mostrar a importância de, ao ensinar, estar centrados nos conteúdos e não tanto nas competências. Sei que o problema não é pacífico, razão pela qual incito a algum debate alargado e público. A escola é um bem já que nela as pessoas devem aprender coisas que sem ela nunca aprenderiam. Se essas pessoas forem à escola aprender aquilo que aprendem sem ela de que nos serve ter escolas? Isto faz-me pensar que devemos – professores – incluir no pacote de reformas reivindicadas ao ministério da educação, a revisão gradual de todos programas de ensino e reposição de exames nacionais.

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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