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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Por que devemos escrever ensaios argumentativos?

1 Recordo um amigo mais velho da minha terra que me descrevia como é que as pessoas passaram a reunir nos cafés da vila para discutir todos os assuntos da vida social e política após o 25 de Abril. Com a democracia veio a liberdade de expressão das ideias e a necessidade de melhorar as técnicas da argumentação. Inexplicavelmente os cursos de licenciatura em filosofia portugueses passaram ao lado desta realidade, permanecendo no seu sono elitista, razão pela qual a generalidade das pessoas perdeu interesse e respeito pela influência que a filosofia possa vir a ter nas suas vidas.

Rolando Almeida

Mas a argumentação está no coração da vida moderna. Um destes dias uma pessoa amiga contou-me que, numa formação na empresa onde trabalha – uma multinacional – a formadora fez questão de anunciar: “Sou licenciada em filosofia analítica”. Essa pessoa amiga apressou-se a ligar-me e a perguntar se existe tal curso. Lá lhe expliquei a divisão idiota existente entre anal retentivos e umbigo diarrentos. Mas creio ter percebido por que razão a formadora fez questão de salientar o “analítica”. Deve ser para evitar confusões, tais como: atrevendo-se a dizer somente “filosofia” podia ser interpretada segundo aquilo que são os cursos de filosofia em Portugal e arriscava-se seriamente a ficar com o auditório automaticamente desinteressado. Isto porque a ideia geral que as pessoas fazem da filosofia é de algo muito aborrecido sem qualquer interesse prático. Esta é uma ideia falsa, mas é aquela que os nossos cursos de licenciatura acabam por deixar passar para o exterior e, claro está, por inerência, esta ideia acaba também por ser fortemente disseminada no ensino secundário. Acontece que a filosofia que se desenvolve com as mais modernas técnicas do pensar filosoficamente é a analítica e não outra, ao mesmo tempo que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, é a que respeita mais a tradição já que se desenvolve segundo os mecanismos iniciados por Sócrates e Aristóteles.

Se pensarmos um pouco compreendemos qual a importância da filosofia na vida moderna. A base do pensamento filosófico é o ensaio argumentativo. É nele que se refutam teses, que se desenvolvem capacidades de raciocínio e pensamento crítico. Ora, esta habilidade é indispensável à vida consciente e democrática. Sem mecanismos de discussão activa as pessoas ficam muito mais debilitadas para criar uma vida dinâmica. Uma das grandes limitações que se coloca na filosofia é quando o seu estudo não desenvolve estas capacidades, ficando-se, em oposição, para interpretação subjectiva de textos ou enrolada numa linguagem que não expressa com clareza o que pensamos como acontece na esmagadora maioria dos casos nos cursos de licenciatura em Portugal. Este é um mau vício para a filosofia e que a tem desprestigiado junto do senso comum relegando para segundo plano um papel mais interventivo da filosofia. Mesmo considerando as zonas mais sofisticadas da filosofia, aquelas que nem eu tenho sempre acesso (nem o maior sábio em filosofia tem acesso a todas essas zonas), não se compreende assim por que razão em alguns países a filosofia é muito bem vista tendo um lugar de destaque inclusive em universidades de topo e, noutros, não possui esta expressão. Um destes dias recebi uma ex aluna do secundário que me fez uma visita na escola, estudante de economia no ensino superior e que me dizia que tinha escolhido cadeiras de opção como pensamento crítico e argumentação, mas que tinha ficado admirada que nem numa nem noutra disciplina os professores sabem filosofia. Como muitos outros exemplos que tenho dado neste blog, esta é a franja que a filosofia deixa escapar. Há uns tempos atrás um gestor bancário dizia-me que nos EUA recrutavam muitos licenciados em filosofia para a banca e que também já o fizeram em Portugal, mas que não percebia muito bem porquê já que, além de falarem correctamente não reconhecia outras competências adequadas à banca dos licenciados em filosofia. Perante este tipo de indignação, eu, como profissional de filosofia, tenho duas hipóteses: a) gozo com altivez o gestor porque o considero um ignorante; b) explico-lhe o que é a filosofia e para que serve, tal como ele é capaz de me explicar a gestão e para que serve. E a hipótese b) parece-me a mais sensata para granjear respeito pela minha actividade.

Uma das técnicas a desenvolver para mostrar aos estudantes de filosofia a utilidade da filosofia é o ensaio argumentativo. Este tipo de trabalho é muito mais útil do que o típico trabalho de 20 páginas que recorre às mais avançadas técnicas de copy past e que, no final, deixa o estudante exactamente na mesma posição daquela que tinha à partida, a de não saber pensar os problemas. Confesso que já me foram apresentados dezenas de trabalhos de filosofia que não eram realmente trabalhos de filosofia mas que foram avaliados em alguns contextos com notas altíssimas. Isto é negativo porque se está a passar uma ideia falsa do que é trabalhar filosoficamente. Ao estudante deve ser apresentado em primeiro lugar o problema filosófico a discutir. Após isso deve ser perguntado ao estudante qual a sua posição intuitiva sobre o problema. Em regra, pessoas mentalmente saudáveis têm posições sobre a maioria dos problemas centrais da filosofia. O professor, conhecedor de alguma bibliografia deve em seguida apresentar aos estudantes argumentos dos filósofos que objectem as suas posições mais intuitivas, que mostrem que são posições mal argumentadas ou sustentadas. Claro que o estudante na sua vulnerável posição tem a tendência muito grande em aceitar as refutações, mas isso porque temos talvez em termos psicológicos uma tendência enorme para a carneirice e porque também pensar dá trabalho e é mais fácil aceitar os argumentos dos outros. Vamos ter de levar com isto a vida toda, com esta tendência a aceitar com alguma passividade os argumentos das autoridades. Mas é precisamente para combater essa tendência, porque nos desejamos livres e criativos, que a filosofia obrigar a dar mais um passo: o estudante vai ter de tomar uma posição e argumentar em favor dela e para tal vai ter de enumerar algumas objecções à sua posição que vai tentar refutar no seu ensaio. Normalmente um ensaio desta natureza para estudantes do ensino secundário não deve ter mais que 2 páginas A4. Sem esta actividade como é possível estimular os estudantes? Já ouvi um comentário talvez um pouco corrente de que os estudantes não são capazes de uma aventura destas. Mas será que são capazes de escrever trabalhos de 20 páginas que nem sequer sabem o que estão a escrever? Sim, são! Mas que vantagem traz esse tipo de trabalho ao estudante? Para além de tudo será que sabe bem a um professor estar a ler e corrigir centenas de páginas que sabe à partida serem copy past na maioria dos casos? O ensaio argumentativo tal como o estou aqui a propor é muito mais estimulante, interessante e com múltiplas vantagens no desenvolvimento cognitivo dos nossos estudantes. Por outro lado não despreza a tradição. Simplesmente não a repete acriticamente como se do santo graal se tratasse.

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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