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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

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Raciocinar ou manipular?

820072096_2c0db6dde6 Um argumento é dedutivamente válido quando é impossível inferir da verdade das premissas a falsidade da conclusão. Acontece que podemos ter argumentos válidos com premissas falsas e conclusão falsa. A validade dedutiva diz respeito à forma do argumento e não ao seu conteúdo. Assim, se eu tiver o argumento:

 

Todos os ovos estrelados são toupeiras

A cadeira é ovo estrelado

Logo o cadeira é toupeira

Este argumento é bizarro, mas é dedutivamente válido. Como é que o sabemos? Se olharmos para a forma lógica do argumento. A forma lógica é:

Todos os A são B

C é A

Logo, C é B

Se olharmos bem para a forma do argumento a verdade das premissas garante a verdade da conclusão independentemente do que está no lugar das letras A, B e C. Mas existe uma diferença substancial entre os dois seguintes argumentos:

A:

Todos os ovos estrelados são toupeiras

A cadeira é ovo estrelado

Logo o cadeira é toupeira

B:

Todos os futebolistas são atletas

Ronaldo é futebolista

Logo, Ronaldo é atleta

Ambos os argumentos, A e B, tem a mesma forma lógica, pelo que ambos são válidos. Só que o argumento A tem premissas e conclusão falsas, ao passo que o argumento B tem premissas e conclusão verdadeiras. Como se estabelece esta diferença ou para que é que ela serve? Isto exige que respondamos à questão, para que serve argumentar? Argumentamos porque estamos interessados na verdade e porque queremos resolver problemas tentando chegar à verdade. Mas como é que chegamos à verdade com argumentos como o A? Resposta: não chegamos. A validade é uma condição necessária para um argumento ser um bom argumento, mas não é uma condição suficiente. É preciso que os argumentos persuadam racionalmente e não nos deixamos persuadir com falsidades. Um argumento válido em que todas as proposições nele envolvidas são verdadeiras chamamos argumento sólido. Será a solidez uma condição necessária para um argumento ser bom? Sim. E será suficiente? Depende do auditório. Podemos ter muitos argumentos sólidos que, ainda assim, não convencem. É necessário também que os argumentos sejam cogentes, isto é, que convençam racionalmente. Claro que em princípio um argumento sólido deve convencer, mas nem sempre é assim. Se assim é podemos sempre levantar uma questão: para quê tanta preocupação com a validade se um argumento pode ser válido, sólido e ainda assim não servir para grande coisa? Mais valia tentar convencer as pessoas de uma forma mais simples, sem estas complicações com a dedução. As coisas não são assim porque existe uma distinção fundamental entre persuasão racional e manipulação. Quando falamos de persuasão racional falamos de um interesse genuíno na verdade, ao passo que a manipulação se distingue da persuasão racional precisamente porque o interesse não é a verdade, mas um conjunto de interesses particulares que se considera a verdade. E se estamos realmente interessados na verdade, como acontece na filosofia, temos de nos preocupar com as nossas deduções.

Rolando Almeida

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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