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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

Exames fáceis

schoolexamREX_468x360 Está instalada a polémica dos exames. Anualmente na altura dos exames temos polémica e sempre que se fala em Ministério da Educação temos polémica. E temos polémica precisamente porque sendo a educação um sector social vital, é também aí que se assiste a reformas umas atrás das outras sem resultados positivos. O ME em exercício só tem aprofundado os problemas, mas com umas limpezas de cosmética invulgarmente ditatoriais. Já se sabe de antanho que o ME resolve implementar exames, medidas e reformas ignorando as sociedades científicas, o que já de si é uma atitude muito estranha. Não sei o que se passa dentro daqueles corredores mas já dá para adivinhar a atitude de desresponsabilização, apontando o dedo aqui e ali, a professores e pais e a quem valha, quando se trata de resultados.

Rolando Almeida

Claro que o ME não pode acabar com o ensino de uma vez. Mas tem de apresentar resultados. Aliás, qualquer cabeça com meio palmo de testa percebe a urgência com que a actual ministra aparece nos ecrãs televisivos a apresentar resultados. Vamos supor uma situação: eu tenho as minhas turmas de alunos com maus resultados. A análise desses maus resultados permite-me concluir que vem de trás, isto é, são alunos muito mal preparados nos anos anteriores, de modo que se torna tarefa quase impossível exercitá-los no espaço de um ano. Não existe solução para estes alunos. A melhor solução seria refazerem toda a escola outra vez. Estão mal preparados, não dominam nem conteúdos, nem competências básicas, ponto. O bom senso possibilita-me pensar que se deve aprender com os erros e, de imediato, começar a implementar reformas logo no 1º ciclo de ensino para evitar perpetuar gerações de alunos mal preparados. Uma das reformas a ter em consideração é precisamente a implementação de exames de final de ciclo, que motiva por si só os estudantes a trabalharem mais, mesmo em tenra idade. Bom mas perante a situação em que o mal já está feito, que fazer? Não faz grande sentido chumbar sistematicamente os alunos. Na verdade, aqui a ministra tem razão. A escola não oferece nada ao estudante quando o chumba. Mas também lhe oferece muito pouco se o passar gratuitamente, como se a escola fosse anos de frequência mesmo sem qualquer trabalho. Deste modo facilmente percebemos um aspecto que me parece central: é que o problema não é chumbar ou passar alunos. Para isso bastam medidas fáceis, como fazer exames sem grande nível de exigência ou pura e simplesmente eliminá-los, como foi feito ao exame de filosofia (curiosamente um exame em que o número de chumbos era muito baixo). A solução está em mudar as práticas de ensino. Mas como é que isto se faz? O primeiro aspecto a ter em conta é que isto não se faz da noite para o dia, pelo que jamais a ministra poderia, se quisesse mexer na qualidade educativa, vir para as TVs vangloriar-se dos sucessos obtidos em apenas alguns meses. E a primeira coisa a mexer é nos programas de ensino reformando-os. O que os programas de ensino tem de errado é que pressupõem que o estudante pode desenvolver competências sem aprender conteúdos, de forma que os conteúdos foram gradualmente desvalorizados. É fácil ver que um exame contempla conteúdos e daí o espalhanço dos estudantes. Por outro lado, o professor, após terminada a sua licenciatura, vê-se a braços com imensa burocracia que contempla competências sem conteúdos. Perde todo o tempo aí e rapidamente aprende que estudar é coisa pouco importante para ser professor, quando deveria ser central. O plano de formação dos professores até é bem pensado, mas na prática são aos milhares aqueles que se vêm na obrigação de fazer formação, por exemplo, como eu, em Powerpoint (que é uma ferramenta que sei usar na perfeição) para ganhar horas de formação dado que não existe formação na sua área de ensino ou é muito raro aparecer. Mas existem carradas de formação nas áreas da psicologia da educação com os nomes habituais como “Motivação do aluno”, “relação pedagógica”,”introdução à pintura de azulejos”, etc. um programa, seja de que disciplina for, bem organizado segundo conteúdos precisos e objectivos, contemplando uma linguagem clara, rigorosa e despretensiosa possui múltiplas vantagens: motiva muito mais os estudantes, motiva muito mais os professores e o trabalho em equipa, possibilita a realização de exames sem grandes atropelos. Mas para desenvolver um ensino com qualidade é necessária a tal reforma curricular, que não se faz com dezenas de medidas em cima do joelho, mas com pequenas reformas. Daqui a 5, 10 anos podemos, então, falar em resultados, uma vez que são os meninos de agora que daqui a uns anos acabam o ciclo de estudos obrigatório legalmente. O que se está a fazer é o contrário disto: está a facilitar-se a tarefa temendo que os alunos fujam da escola se o que lá aprendem for difícil. Mas esta ideia é errada. O que se aprende na escola não é mais nem menos difícil do que se aprende na globalidade da vida. Tem é os seus métodos próprios que devem ser exercitados desde cedo e que desenvolvem determinadas capacidades que - na vida e sem a escola - se tornam, para a maioria das pessoas, mais difícil desenvolver. Capacidades de raciocínio, leitura, compreensão, que não são mais do que competências desenvolvidas pela aprendizagem de conteúdos. Pessoalmente não tenho uma visão radical do trabalho que está feito com os programas e currículos de ensino básico e secundário, pelo que considero que não se deva esperar revoluções. Mas faz sentido fazer reformulações apertando com os conteúdos próprios das disciplinas, em vez da conversa da treta que muitos programas incentivam. Por outro lado não faz sentido a substituição de disciplinas nucleares para proveito de outras como áreas de projecto e afins. Estas são disciplinas complementares e não centrais e a prová-lo estão os programas que são, na sua grande maioria, desprovidos de conteúdos próprios, uma vez que não se tratam de ciência ou corpo de conhecimentos com o mínimo de organização. Sem exigência a ideia que se passa da escola é que é para aleijados e incapazes, como muitas vezes se tem passado em relação ao ensino profissional. O ensino profissional não tem de ser para os alunos fracassados, mas a realidade é que aparece ainda como 2ª opção para uma grande maioria de alunos. Pela experiência que tenho de ligação ao ensino profissional, a grande maioria dos alunos só tem essa opção após 1 ou 2 ou 3 anos de fracasso no ensino regular. Basta observar a média de idades dos alunos dos cursos profissionais. Claro que, palavra puxa palavra e cada vez mais alunos optam pelo profissional, não propriamente em busca de uma profissão que em muitos casos não vão exercer, mas em busca da tal facilidade. Os currículos não tem de ser opção por serem mais fáceis, mas por serem diferentes e desenvolverem nos estudantes outras capacidades e competências. Muitas vezes ouço dizer que as avaliações são altamente subjectivas muito dependentes do professor. Mas só o são, não por causa da vontade do professor, mas mais pela subjectividade que os programas suscitam e, por conseguinte, o modo como testes e exames são feitos em função disso. Um workshop sobre avaliação bem pensado coloca a nú precisamente esta realidade. No único workshop que fiz sobre avaliação, um mesmo teste, dava nas mãos de um professor 16 e, nas mãos de outro, 6. Isto significa que o estudante está lançado à arbitrariedade do professor. «Se vai com a minha cara, tiro boa nota, se não vai, não tiro». Os professores mais empenhados (uma boa maioria neste aspecto, diga-se) organizam os seus próprios sistemas de avaliação consoante as turmas que têm. Mas se um colega não o quiser fazer, não o faz. E não se pense que a avaliação de professores contemplada no novo ECD vem mexer neste ponto, visto que há inúmeras formas de contornar e iludir. Um ME que pretende avaliar professores deveria ser capaz de avaliar em 1º lugar os programas com um trabalho rigoroso e firme. Depois contemplar exames em todos os ciclos em consonância com esses programas. Finalmente tinha à disposição instrumentos para implementar uma avaliação aos docentes que não caísse na arbitrariedade tola que a que se propõe cai. Qualquer político empenhado poderia: 1) apresentar bons resultados, 2) trabalhar em consonância com a classe docente e sindicatos, 3) melhorar o sistema educativo. E, por outro lado 1) os alunos não fugiam tanto da escola dada a utilidade do que lá se aprende, 2) o mercado de trabalho valorizaria mais a escola, 3)aumenta-se o interesse, diminui-se o stress , violência e outros fenómenos.

Para melhorar a educação são necessárias duas ou três ideias simples, que se vão construindo de governo para governo. Esta trapalhada do ME em nada vai contribuir para melhorar. É capaz de mudar um pouco a mentalidade nas escolas, mas para pior degradando o clima entre professores, professores e alunos e professores, pais (como se observa com o inconsequente presidente da CONFAP, munido de interesses políticos e financeiros).

Mesmo que não existam – nem vão existir – estudos que mostrem se os exames são fáceis ou difíceis, temos algumas razões para pressupor que talvez este não seja um rumo muito bom a dar no plano educativo. Mas vamos ver.Não queria ser muito pessimista e espero não ter razão.

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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