Quinta-feira, 19 de Junho de 2008
Mais uma tirada extra filosófica. Ocasionalmente não resisto a esta vontade de me armar em sociólogo pós modernaço e mandar a minha posta de pescada sobre notícias recentes, ainda que desvie o assunto principal do blog. Dá-me um ar de crítico clínico que toda a gente tem por estas bandas, com a diferença que para o caso até sabemos bem quais as melhores soluções. O Ministério da Educação está feliz com os resultados a matemática e português nas provas de aferição, um verdadeiro sucesso que prova que não possuímos qualquer problema com o ensino e aprendizagem das matemáticas e até somos muito melhores que muitos outros países. O que é que isto tem a ver com a filosofia? Tem a ver porque resolve um dos maiores e mais abrasivos problemas filosóficos de sempre, da filosofia da religião, o problema da existência de deus. Os recentes resultados provam a existência de deus pois este Ministério conseguiu o que, em regra, se consegue resultado de muitas reformas consistentes, esforço e trabalho. Mas o nosso milagroso ministério da educação consegue resultados em um ano apenas porque deus existe e é grande e faz milagres. E eu já estou ansioso pelo próximo milagre, que consiste em fazer com que os alunos não vão fazer provas externas a par com outros países. Trabalho sério para quê se temos milagres na 5 de Outubro? Avé.
De Vitor Guerreiro a 19 de Junho de 2008 às 16:34
Não devemos cometer o erro de deixar confortavelmente ficar a crítica do que acontece a cargo dos sociólogos pós-modernaças, como se essa fosse a sua área por direito, um pouco como se pensa que a moral é o backyard dos teólogos e dos curas da aldeia. É preciso lembrar que a filosofia não são só os núcleos temáticos e as ferramentas da filosofia. Há também o que fazemos com essas ferramentas e, se são ferramentas, então servem para pensar nas coisas que acontecem, no mundo, na realidade. Por outras palavras: a realidade é o item mais interessante para qualquer filósofo digno do nome. A única razão pela qual queremos ferramentas filosóficas e conceitos e tudo isso é para as aplicar a alguma coisa, tal como temos martelos e chaves de porcas para fazer coisas e não pelo mero gozo de as ter dentro de uma caixa envernizada.
Se habituamos os pós-modernos à ideia de que a crítica social é a "área deles", então prestamos o mesmo mau serviço que os media prestam ao debate público quando convidam padres para discutir ética. É a mesma coisa. A crítica social e as discussões morais são muito mais a área do filósofo do que dos padres ou dos xamanes pós-modernaças do bel fraseado.
Nunca compreendi a ideia de que as discussões acerca do mundo não podem ser filosóficas ou que pelo menos não são tão filosóficas como o discurso acerca das ferramentas. A aplicação das ferramentas é tão ou mais filosófica que o discurso acerca delas. Isto nada tem a ver com a ideia de que fazemos aqui umas polémicas todas irreverentes e isso é automaticamente filosofia. Como é óbvio. A discussão do aborto ou da investigação com células estaminais ou a eutanásia, por exemplo, que muitos filósofos fazem. Não são rapsódias de crítica social, são exercícios filosóficos, na medida em que se emprega ferramentas filosóficas para pensar coisas importantes. A filosofia a sério está aqui. Tal como a metafísica a sério é pegar nas ferramentas para pensar acerca do tempo, da identidade, da substância, etc, e não apenas repetir o que alguém escreveu acerca disso. Aqui temos de ter cuidado para não repetir o que a filosofia continental faz, ou seja, encolhe-se de humildade perante a tarefa de pensar, porque isso é só "para os verdadeiros filósofos" e despende todo o esforço intelectual a fazer bibliografias, citações e notas de rodapé. Chega a um ponto que para os gajos as notas de rodapé é que são a filosofia.
Há que ter alguma falta de vergonha e não estar sempre a pedir desculpa por pensar pá. Se estivermos enganados, alguém nos lembrará desse pormenor e dirá por que razão pensa que estamos. É isso que a filosofia tem de tão bom.
Abraço
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