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A Filosofia no Ensino Secundário

Novidades editoriais de interesse para estudantes e professores de Filosofia.

A Filosofia no Ensino Secundário

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Estudar medicina, monopólio ou Fiat para todos?

medico Vamos imaginar que eu quero abrir um snackbar no bairro onde vivo. Continuemos a imaginar que sou parente dos donos maioritários das lojas para alugar para comércio no meu bairro. A melhor forma de não ter concorrência é convencer os meus parentes a aumentar as rendas sempre que alguém queira abrir um snackbar. Claro que esta possibilidade não exclui uma outra de alguém apresentar um projecto muito viável impossível de recusar. Mas esse alguém teve uma oportunidade que a maioria não teve. Provavelmente é parente de um perito em economia e gestão ou, até, parente do Presidente da Câmara. Se esta for a situação, abrir um snackbar no meu bairro, por muito que até fosse negócio viável, é algo muito difícil de conseguir. E ao mesmo tempo é considerar que os snack bares são mais importantes que qualquer outro comércio, como por exemplo, uma frutaria ou uma tabacaria. Este é o esquema simples daquilo que conhecemos como lobby. Ao final de alguns anos as pessoas sabem que, no meu bairro, vão ter de se esforçar muito para abrir um snackbar e que as probabilidades de o abrir são remotas.

Rolando Almeida

Imaginemos agora outra situação. O meu irmão mais novo, que sabe desta situação e que a pensa como injusta, consegue quebrar a barreira do lobby e faz com que, ao fim de alguns anos, abrir um snackbar no meu bairro seja tão fácil como abrir uma loja de meias. Os snacks começam a abrir, começam a fazer ofertas diversificadas, os empregados deixam de ser arrogantes, eu, que tinha o meu monopólio deixei de andar de Mercedes e comprei um Fiat, ao mesmo tempo que outras pessoas que nem sequer carro tinham também compraram um Fiat. Para diversificar o meu negócio não só tive de baixar os preços como contratar um pasteleiro para fazer bolos deliciosos, bem como um cozinheiro para fazer refeições rápidas. As pessoas de outros bairros começaram a comprar mais casas no meu bairro e, com mais gente, vieram os correios, um centro de saúde, um espaço verde, um supermercado. Ao fim de alguns anos, eu deixei de andar de Mercedes é certo, mas a vida no meu bairro tornou-se muito mais dinâmica, economicamente mais viável e muito mais diversificada.

Se abrir um snack bar no meu bairro não é mais importante que abrir uma loja de meias, por que razão tirar um curso de medicina em Portugal é considerado mais importante que tirar um curso de matemática ou filosofia?

Pode-se sempre alegar questões práticas, como que quem está enfermo não está para filosofias. Mas tal argumento não funciona e é até muito idiota, pois quem está enfermo não está para estudar seja o que for. Mais óbvio é que as pessoas reconhecem facilmente na medicina valor intrínseco. Mas a verdade é que também o reconhecem para a matemática ou a filosofia. Pelo menos têm uma ideia vaga. Outra hipótese é a de que a medicina é tão importante que só mesmo os melhores é que podem tirar o curso e ser médicos. Mas significará isso que qualquer um pode ser filósofo ou matemático? Além do mais a medicina não se faz sem filosofia e sem matemática. Isto seria um argumento tacanho. A verdade é que em Portugal exige-se muito mais para se entrar num curso de medicina do que para um curso de filosofia ou matemática. Mas curiosamente são as pessoas que vão tirar cursos de filosofia ou matemática que mais tarde vão avaliar estudantes que irão para medicina. A hipótese mais segura só pode ser a hipótese comercial. Não entram mais alunos para medicina para reproduzir o estatuto social da classe médica. As médias de medicina nada tem que ver nem com a inteligência dos estudantes, nem com questões que se relacionem 1) com a responsabilidade profissional 2) com a medicina enquanto saber. São questões que se relacionam exclusivamente com questões comerciais, muito salvaguardadas pela existência de uma Ordem, uma espécie de organização secreta de defesa de interesses do grupo. E estas questões de poder são práticas pouco democráticas, com a aparente conivência do sistema de ensino. Por outro lado, é mais ou menos corrente entre nós uma ideia muito estúpida de que democratizar o ensino é torná-lo mais fácil ou – igualmente grave – que, democratizar o ensino é torná-lo mais acessível e que tornar acessível é banalizar os conteúdos.

Assim a primeira exigência a fazer-se é a de acabar com os elitismos nas médias de entrada nos cursos de medicina. De certeza que não vamos ficar com piores médicos.

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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