Domingo, 18 de Maio de 2008

O relativismo no Terceiro Mundo

"Infelizmente as ideias pós modernas não se confinam somente aos departamentos de literatura das universidades norte americanas  ou aos departamentotos de filosofia na Europa. Parece-nos que onde mais mal causam é no Terceiro Mundo, onde se concentra o grosso da população mundial e onde o trabalho supostamente ultrapassado do iluminismo está longe de ser ultrapassado."

Alan Sokal e Jean Bricmont, Imposturas intelectuais, Gradiva, p.106 (esgotado)

publicado por rolandoa às 01:41

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8 comentários:
De Carlos Silva a 18 de Maio de 2008 às 16:58
Rolando,

As questões gnosiológicas/epistemológicas são importantes - embora não exclusivas - em Filosofia. E de entre as questões relativas ao conhecimento, destacam-se as do conhecimento científico. Claro que a produção científica tem repercussões a nível filosófico (ético, político, religioso, ontológico, etc). O princípio indeterminista da mecânica quântica, por exemplo, tem necessariamente consequências ao nível das ciências ditas Sociais e Humanas, como a Filosofia (questão da acção humana, do livre arbítrio).
Nisso, os ditos pós-modernos terão tido mérito. Ao que parece, nesse livro, escrito por cientistas da área da Física, foram acusados de distorcer os conhecimentos científicos - e até de ignorância - transpondo-os para as Ciências Humanas. Ignoro se a acusação tem fundamentos ou não. No entanto, a questão suscita a importância de uma boa formação universitária no domínio científico por parte dos candidatos à Filosofia. De outro modo, como podemos abordar questões relativas à Epistemologia? Como diria Kant, "pensamentos sem conteúdos são vazios"!
Relembro, a título de curiosidade, que grandes pensadores estiveram ligados às ciências.

Abraço,
Carlos JC Silva
De rolandoa a 18 de Maio de 2008 às 19:05
Caro Carlos,
quem atestou o fundamento da crítica de Sokal Bricmont foi a própria Social Text. O artigo escrito com erros intencionais foi enviado para a revista pós moderna, os autores pediram várias vezes críticas ao texto, mas ainda assim ele foi publicado e com elogios pelos relativistas durante mais de um ano, até que os autores revelaram o embuste. Carlos, o relativismo só se defende por autoridade, é como as religiões. Atenção a um aspecto: os problemas de epistemologia são diferentes dos problemas da filosofia da ciência. Alguns problemas da fil da ciência são epistemologicos mas não todos
De rolandoa a 18 de Maio de 2008 às 19:07
Ah, esqueci. Não esqueça que alguns relativistas, como o mostra a obra de Sokal, defendem que a teoria da relatividade é sexista e outras inanidades do género.
De Vitor Guerreiro a 20 de Maio de 2008 às 11:15
Se a filosofia é uma ciência social, isto é, se é o estudo científico de um fenómeno social dado, então o que é uma reflexão acerca do estatuto ontológico dos números, de filosofia da música, de metafísica?

("metafísica" no sentido anglo-saxónico contemporâneo da palavra e não a mescla doentia de ininteligibilidades a que alguns poetas do novo misticismo chamam "metafísica", transformando-a num sinónimo vago de tudo o que é fraseado obscuro)

Não creio que a filosofia seja uma ciência e muito menos uma ciência "social e humana". Mas creio que a filosofia está ligada a toda a empresa científica humana, seja ela um estudo da sociedade ou um estudo sobre o universo físico. (já agora, a sociedade também faz parte do universo físico e é precisamente aqui que reside um problema filosófico: é possível ter uma descrição puramente física de todos os fenómenos sociais? Se sim, o que fazer de todas as actividades humanas que normalmente descrevemos com outro tipo de vocabulário: acções racionais, intencionais, decisões políticas, ética, etc?)

A única razão pela qual imaginamos o mundo dos "pensadores" como algo desligado do mundo da "ciência pura" tem a ver com uma infeliz contingência histórica. No nosso país, há não muitos anos, alguém decidiu enfiar a filosofia num departamento de "histórico-filosóficas", associando a filosofia ao mundo das "letras". Talvez isto não seja uma explicação do problema mas apenas um efeito de seja lá o que for que causa o problema - a nossa mentalidade insular que acha que só há "espaço para o espírito" lá onde a ciência supostamente acaba.

Há algum "pensamento" digno do nome que não tenha a ver com a empresa de conhecer a realidade, o modo como o mundo efectivamente é e funciona?

Vitor
De Carlos Silva a 20 de Maio de 2008 às 14:03
Vitor,

A questão da “classificação” da Filosofia radica, penso, na sua especificidade, quer quanto ao seu objecto, quer quanto aos processos metodológicos. Que fronteiras, que limites traçar ao conceito “Filosofia”? Por outras palavras: como definir Filosofia?
Ela comporta um “gene” que se constitui como a sua “diferença específica” em relação aos outros domínios do saber. A ela interessa a “totalidade do real”. Com efeito, a Filosofia não isola um sector da realidade para o tornar objecto de estudo. Mas se a Filosofia começou por ser um “Amor (desinteressado)pela Saber”, este iniciou historicamente um processo de especialização que o conduziu a divisões. Os “filhos” cresceram e tornaram-se autónomos! De tal modo que ninguém pode reivindicar, na actualidade, um saber enciclopédico, de A a Z. A era dos grandes sistemas terminou. No entanto, permanece na Filosofia o seu “gene” inicial. Nada é indiferente ao filósofo. Como classificar, então, a Filosofia? Dilthey, por exemplo, propunha uma divisão do saber em “ciências da compreensão” e “ciências da explicação”. Mas esta, como qualquer divisão, tem um valor meramente didáctico. A divisão e a classificação das “coisas” respondem a uma necessidade do espírito humano, de racionalidade, em configurar a realidade, dando-lhe, assim, um aspecto ordenado. E, vai daí, encaixou-se a Filosofia nas Letras. Claro que se pensarmos que ela responde à pergunta radical “O que é o Homem?”, tem algum sentido colocá-la nas Humanidades. Mas como ao filósofo interessa a “totalidade do real”, a Filosofia não se deve confinar às Letras. Por isso, é, com efeito, errada a ideia de que “só há espaço para o espírito, onde a ciência acaba”. Essa visão conduziria
a uma visão fútil da Filosofia. Mas colocá-la nas Ciências Exactas ou da Natureza também comportaria objecções e riscos. Certas faculdades designam-se “Faculdades de Filosofia”. Esta seria uma “terceira via” possível.
Quanto à Filosofia ser ou não uma Ciência, se nos ativermos à etimologia da palavra “Ciência” como saber, conhecimento, não repugna a sua classificação como tal.

Carlos JC Silva
De rolandoa a 20 de Maio de 2008 às 15:32
Caro Vitor e Carlos,
Creio que a filosofia não constitui qualquer privilégio no modo como olha o mundo em relação à física ou à biologia, mas complementa esses saberes. O que seria a biologia sem a filosofia da biologia? Os saberes implicam-se mutuamente. A questão da divisão entre ciência exactas ou exprimentais ou empíricas e ciências humanas ou sociais é operacional. Do meu ponto de vista é mais operacional para as academias do que propriamente para os saberes em si mesmos. Ao contrário do que o Carlos supõe (atenção que creio que a divisão de Dilthey resulta mesmo de uma preocupação académica) não me parece que a filosofia seja mais preocupação do "que é o homem" do que a física. "O que é o homem, o mundo e a verdade" são questões bonitas mas muito vagas. Eu posso não saber o "que é o homem" num certo sentido, mas só pode ser num sentido ou religioso ou muito vago, porque, na realidade, eu sei uma série de coisas importantes acerca do homem. Os problemas da definição de filosofia também são comuns a todos os outros saberes. Nós é que pensamos que não, que na matemática ou quimica está tudo muito bem definidinho pronto a servir. Acontece que na maior parte das vezes essas questões são meramente especulativas e sem grande interesse operacional, isto é, não servem para nada. Por exemplo, nos manuais de filosofia do 10º ano, costuma-se dar como características da filosofia a autonomia, historicidade, radicalidade e universalidade. Eu se fosse de física ou biologia ficava espantado com tamanha ignorância. É que estas características são tão boas para a filosofia como para a biologia ou qualquer saber organizado. Acontece que na filosofia ensinada nas universidades tugas se inventa muita tralha que nem sei onde vão buscar tamanho lixo.Mas não é preciso ler muito, basta pensar um pouco para descobrir as falsidades.
Abraço
De Vitor Guerreiro a 20 de Maio de 2008 às 17:27
A filosofia não é uma ciência no mesmo sentido em que a física ou a biologia são ciências, isto é, não tem um núcleo experimental e matemático como essas ciências têm. Falo de ciência no sentido contemporâneo e não no sentido de pessoas que viveram há séculos atrás e ainda acreditavam que sangrar o paciente para lhe retirar os humores malignos era medicina de ponta. Claro que num sentido muito geral e etimológico de "ciência", tudo o que seja tradição teórica é "ciência". Mas não podemos continuar a falar dessa maneira, não podemos ignorar o que sabemos actualmente acerca do mundo.

Nada disto significa que haja uma relação hierárquica entre o saber a priori e a investigação científica. Como diz o Rolando, as coisas estão interligadas. Os problemas filosóficos surgem espontaneamnte a partir de toda a actividade cognitiva, mas têm características próprias que impedem que se os confunda com problemas estritamente científicos.

Há áreas da filosofia que estão ligadas às ciências sociais, como a filosofia social e política e a filosofia do direito. Não digo a ética porque isso me parece comportar o perigo de aproximar indesejavelmente aos relativismos morais de base sociológica ou antropológica. Não é que a ética não tenha de facto a ver com esse tipo de conhecimentos. Tem, mas também tem a ver com outras coisas, nomeadamente, com a biologia e a psicologia evolucionista, por exemplo.

Depois há áreas da filosofia que têm muito mais a ver com a física do que com as ciências sociais, como é o caso da metafísica: questões acerca da identidade, da persistência no tempo, do realismo e do anti-realismo, de propriedades e relações, naturalismo e essencialismo... tudo isto tem muito mais a ver com as especulações da cosmologia do que com o "potlatch" ou o evangelho do monstro das bolachas.

A filosofia da música coloca questões que entram em contacto com a estética, mas também com a metafísica: O que é um trecho musical? Um particular? Um universal? etc.

A filosofia da mente tem mais a ver com as ciências sociais do que com as ciências naturais? Porquê? A questão de saber se há livre-arbítrio ou se este é compatível com o determinismo implica uma metafísica da mente (cujo interlocutor mais próximo serão as neurociências, e não a antropologia) mas também irá dialogar com a psicologia... enfim.

Não se trata de colocar a filosofia nas letras nem de a colocar nas ciências naturais... trata-se de colocar a filosofia na filosofia, o que implica tirá-la do misticismo.

Abraço
De filipe a 21 de Janeiro de 2010 às 16:53
eu estou de acordo. mas acho que tambem devia de haver uma so resposta para a filosofia.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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