Sábado, 17 de Maio de 2008

Equívocos na análise pública de manuais

wrong_place Há comentários sobre os quais não me apetece estar calado. Recentemente um leitor, colega e professor de filosofia, escreveu-me acusando-me de absolutamente parcial na análise de manuais. Para o justificar, o leitor afirma que eu cometo erros, mas, por mais que lhe pedisse para apontar os erros para os podermos discutir, não o fez. Limitou-se a fazer afirmações. Ora, fazer afirmações também eu sei fazer. Nem é necessário ser professor de filosofia para tal.

Rolando Almeida

Mas como insisti, o leitor lá apontou um erro fundamental (segundo ele!). Depois de me ter dito que eu jamais deveria trazer a público questões profissionais como a escolha e adopção de um manual resolve enveredar pelo caminho que critica e, faz um apelo em maiúsculas para os colegas terem em atenção algo de muito errado que eu não referi nas minhas análises, que é o facto de alguns manuais oferecerem o recurso electrónico e outros não e que nºao se deve confundir um CD Rom com um manual electrónico. Bem eu não sei bem qual é a intenção, nem sei avaliar esta questão acessória, mas sei dizer com clareza que os editores oferecem um manual electrónico por uma questão de marketing, e que o manual electrónico acaba por ser útil em diversas situações, como por exemplo, (como uma vez me alertou um outro colega num fórum de professores de filosofia), para aumentar o tamanho da letra para alunos com dificuldades visuais. De resto a edição electrónica do manual não apaga os erros que o manual possa ter. Com efeito, o mais curioso é que o meu leitor me acusa de parcial em relação ao Arte de Pensar que é precisamente o único manual que tem um fórum on line de apoio aos professores, com resposta ás nossas dúvidas praticamente na hora, 24 horas sobre 24 horas, 365 dias por ano. Em conclusão: o leitor acusa-me de parcial por não ter referido a questão dos manuais electrónicos. Mas não se acha nada parcial por não ter referido este aspecto sobre o manual em relação ao qual refere que sou parcial. Sou do Futebol Clube do Porto. Serei parcial só por não ser benfiquista?

Outro dos aspectos dos comentários do leitor e que também já me incomoda um bom bocado é o argumento de que o Arte é bom, mas não é o único e que deve haver pluralidade. O Arte de Pensar é um manual que, aquando da sua 1ª edição, se distinguiu de todos os outros, marcando o início de alguma pluralidade em manuais de filosofia. Portanto, o Arte de Pensar vem marcar a pluralidade e não anulá-la. Se eu gostasse do Pensar Azul – que justificadamente analisei como um mau manual - será que não era parcial?

Ainda outra questão interessante: qualquer autor torna público o seu trabalho, pelo que não encontro razões para que o mesmo não seja sujeito à crítica. Parece-me um bocado tacanha a ideia de que o conhecimento não possa ser sujeito à crítica pública. Estamos então à espera do quê? Que legislem sobre o que determina um bom e um mau manual? É precisamente por não existir obra pública relevante acompanhada de crítica que temos políticos a decidir como vamos usar a ortografia, como se os políticos fossem os linguistas do país. Será que desejamos ter políticos a legislar sobre a qualidade dos manuais de filosofia?

Para finalizar o leitor acusou-me ainda de subjectividade, que a análise de um manual é sempre subjectiva e que difere de contexto em contexto. Bem, em primeiro lugar a filosofia que se ensina em Santarém não é diferente da que se ensina no Funchal. Em segundo lugar se a análise dos manuais é subjectiva, qual é a moralidade do leitor para me acusar de errar? A pegar no seu exemplo (acessório, mas foi o que soube dar), se a análise é subjectiva, então nada há a discutir e se eu considerar que o manual electrónico não é importante, não é importante, ponto.

No fundo este leitor fez o mesmo de muitos outros. Pretendeu convencer-me que estou errado somente porque o que escrevo e analiso lhe faz cócegas nos preconceitos. O mais importante para mostrar que estou errado é pegar nas minhas afirmações e mostrar que elas contêm erros significativos. Foi o que fiz com os manuais. E é o que ouço os colegas dizer há anos e anos, que os manuais contêm erros científicos. Os colegas tem razão e eu resolvi mostrá-los. O meu crítico também afirma que fui deselegante para os autores. Pois claro que sim. Aceito isso. Mas quando analiso os manuais não estou a pensar nos autores, mas na filosofia e no seu ensino. Se eu estivesse a pensar nos autores nada diria pois não os conheço mas tenho o maior respeito pelas pessoas que são e como colegas de profissão. De resto também eu sujeito o meu trabalho à crítica. Neste meu blog tenho publicado muitos trabalhos meus, inclusive um que elaborei na ultima acção de formação que tive sobre filosofia.

Aproveito para republicar os links de todas as análises que fiz.

Em diálogo (Lisboa Editora)

Percursos (Areal Editora)

Filosofia 11 (Plátano Editora)

Pensar Azul (Texto Editora)

Contextos (Porto Editora)

Um outro olhar sobre o mundo (Asa)

Criticamente (Porto editora)

Logos (Santillana)

publicado por rolandoa às 00:20

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7 comentários:
De Márcia Adriana a 21 de Maio de 2008 às 21:39
Caro Rolando
Faz tempo q não escrevo no seu blog, mas estou de olho em tudo o q acontece aqui diaria/te, e em alguns blogs relacionados tb. Tenho acompando com satisfação a adoção do Arte na escolas, recebo os emails de notificação diaria/te. Não posso afirmar com toda a certeza, pois faz pouco tempo q acompanho este trabalho, mas me parece q suas analises foram extrema/te úteis para os professores, indicando as dificuldades centrais dos manuais, bem como suas qualidades, qdo eles as tinham. Vimos q foi-lhe muuuuito trabalhoso , mas de utilidade pública , mesmo pra aqueles q não gostaram nada de suas analíses. Interessantíssimo!!
Um abraço !
De rolandoa a 22 de Maio de 2008 às 00:58
Olá Márcia,
Obrigado pelas suas palavras. É bom saber, acima de tudo, que o meu trabalho é útil porque a intenção é mesmo essa. Dá muito trabalho e confesso que me envolvo demais nas discussões e nos reaccionarismos anónimos, mas tenho a tendência a pensar que posso dar um bom contributo para salvar o mundo :-) O ano passado foi mais violento pois fui recebendo os manuais e após ter feito algumas leituras rápidas é que me lembrei de analisá-los a todos num único fim de semana. Foi um fim de semana de loucos, a deitar-me às tantas e a comer mal. Isto é literalmente verdade. Este ano recebi os manuais uns atrás dos outros e ficava até às 3 ou 4 da manhã a analisá-los. Há uma lição no meio disto tudo: dado que a nossa profissão está directamente ligada aos manuais, ao fazer este trabalho aprende-se muito, mas muito mesmo. A parte mais irónica e aborrecida é que depois há sempre gente que me acusa de defender interesses analíticos, comerciais, etc. Mas o único interesse comercial que tenho é que a filosofia ainda é o meu ganha pão e eu gostava mesmo que contiasse a sê-lo. Considero-me um privilegiado por neste país ainda pagarem a gente para que ensine bem. E eu quero mesmo mostrar que se a filosofia for bem ensinada vale mesmo a pena o investimento. Claro que também é uma questão de feitio: fartei-me de estar quieto a dizer mal das coisas!!! Isso é fácil.
Abraço e mais uma vez obrigada

De Márcia Adriana a 22 de Maio de 2008 às 14:42
Caro Rolando,
eu não sabia q vc já tinha feito essas análises em anos anteriores, pois até então eu não frequentava a net e só estudava com os livros mesmo. Vou dar uma olhada nos arquivos daqui do blog pra ver se acho alguma coisa. Acho q vc, assim como eu e tantos outros, tb está feliz com as notiícias de adoção do Arte em várias escolas não?! É bom ver o blog bem movimentado e cheio de novidades, e com relação ao q vc disse outro dia sobre ter notado maior numero de visitas e comentários durante as análises, acho q é assim mesmo , pois um blog é bem mais interessante qdo há interatividade, nenhum dono de blog fica feliz se achar q está falando sozinho ou colocando posts irrelevantes, acredito. Faço votos q vc tenha sempre bstante coisa interessante pra colocar aqui pra gente!!
Um abraço!
De Manuel Galrinho a 22 de Maio de 2008 às 15:03
Como eu havia previsto aqui no blog, há uns tempos atrás, a escolha do manual de 11.º ano de filosofia na minha escola foi assim:

1. Eu fiz uma breve síntese do que pensava de cada manual e indiquei como meus preferidos a «Arte de Pensar» da didáctica e o «Filosofia 11.º» da Plátano.

2. Os meus colegas, alguns nem se sentaram, folhearam, uns quantos livros (mais ou menos 15 segundos cada livro)

3. A coordenadora disse que o melhor era o «Contextos».

4. Eu indiquei uns quantos erros e passagens menos claras do «contextos». A coordenadora achou que não havia qualquer erro apesar de não conseguir rebater os meus argumentos, acrescentando que se o manual fosse perfeito não seria preciso o professor.
Quando referi a confusão que o «Contextos» faz entre frase e proposição, não entendeu do que eu estava a falar nem quis entender. Fiquei com a ideia que «aprendeu» lógica pelos manuais dos alunos.

5. Um outro colega disse que de facto «A arte de pensar» era o melhor, mas não para os nossos alunos que não possuiam um domínio de linguagem para seguir aquele manual. Pedilhe para me indicar uma passagem em que o «Contextos» tivesse uma linguagem mais acessível que «A arte de pensar». Não soube indicar.

6. Votação final:

- 5 votos no contextos

- 1 na arte de pensar.
De rolandoa a 22 de Maio de 2008 às 17:13
Manuel
1º é falso que o arte seja um manual menos acessível para os alunos. É menos acessível para os professores que não estão habituados ao manual e não se querem dar ao trabalho de aprender algumas coisas. Aliás, um dos aspectos distintivos do arte é ser acessível para os alunos
2º quem quiser ensinar a lógica proposicional com o Contextos está bem arranjado. Eu, por exemplo, não consigo. O manual é todo virado para meia dúzia de noções da lógica aristotélica e ainda por cima parte delas erradas e inoperacionais.
3º se os teus colegas mantém a atitude que tiveram em relação aos manuais com os alunos, não há qualquer razão para que um dia se queixem quando forem postos na rua sem poder ensinar filosofia. São riscos que se correm e que se devem assumir com responsabilidade.
4º um voto dum colega que folheia em 15 segundos um manual vale tanto como o de um colega que lê um manual de fio a pavio, mas esta é uma das limitações da democracia. Com o tempo cada um verá os erros da sua opção irreflectida, por muito que a hipocrisia impeça de o admitir. Mas nós podemos mostrar o porquê da má opção.
5º lá terás de carregar com montes de fotocópias se quiseres ensinar melhor filosofia. Se há opções melhores não vejo qualquer razão para optar pelo Contextos. Bem , para além de que o Contextos não é claramente um bom manual, nem possui uma escrita didacticamente forte para os alunos, bem pelo contrário. Gostaria de saber como vão ensinar os teus colegas Kant pelo Contextos??? Bem se vão vomitar aquilo, então qualquer merda serve e penso que este é o ponto central: qualquer merda serve!!! Mas também devem assumir isso da parte dos alunos: qualquer merda serve para tirar uma boa nota. Isto para serem consequentes.
6º Isto é mesmo assim Manuel. Temos de respeitar a decisão da maioria, mas não temos de ficar calados. De resto parece-me justo que os teus colegas respeitem que um professor não consiga desenvolver um trabalho com correcção com um manual como o Contextos.
7º Finalmente: há um argumento que é completamente idiota e que pessoas formadas em filosofia tem a obrigação de perceber de uma vez por todas. O argumento consiste em afirmar que os manuais são diferentes e que qualquer um deles tem vantagens e desvantagens. É que vão ter de justificar qual a vantagem de trabalhar com um manual que tem erros evidentes.
abraço

De Manuel Galrinho a 22 de Maio de 2008 às 23:37
Duvido que eles sejam postos na rua por não saberem filosofia. 3 dos 5 que votaram no contextos são titulares. Eu como fui submetido a 3 operações cirúrgicas nos últimos 7 anos não sou titular... Por isso quem se arrisca a ir para a rua, depois de 27 anos de serviço, sou eu! Isto apesar de ter sido orientador de estágio durante 10 anos, coordenador de grupo pedagógico, director de turma, etc. etc.
De rolandoa a 22 de Maio de 2008 às 23:52
Manuel,
É impressionante o que este ministério conseguiu fazer: acentuar a porcaria que os antecedentes deixaram latente. Haja paciência. Há que destapar publicamente esta farsa porque este ECD não deixa como titulares os mais competentes. enfim
abraço

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Rolando Almeida


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