Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Conhecimento, produção, economia, sentido e telemóveis

Forrageiras Uma actividade possui sentido se possuir uma finalidade. Se eu estiver à procura de uma esferográfica, escrever é a finalidade da minha procura. Uma actividade tem valor intrínseco se tiver valor por si mesma. Tem valor instrumental se tem valor em função de ser um meio para alcançar o que tem valor por si. Assim posso dizer que o dinheiro tem valor instrumental para poder comprar uma camisola nova e comprar uma camisola nova tem valor instrumental para ser feliz. E qual é o valor instrumental de ser feliz? A felicidade parece não depender de nenhum outro valor, pois possui valor por si mesma, isto se a felicidade for uma finalidade ultima. Em conclusão: o sentido de uma actividade é dado pela finalidade com valor.

Rolando Almeida

Um exemplo para explorar: o sistema educativo.

Recentemente ouvimos rumores chegados de personalidades do Ministério da Educação que os alunos não devem chumbar de ano. Por comparação usou-se o sistema educativo finlandês. Vou defender que estes dois sistemas educativos não podem ser comparados, não somente por razões sociais, mas muito mais por razões de princípio e de valor. Segundo sei pela leitura de várias publicações, um casal finlandês pode passar 2 horas diárias a ensinar os seus filhos a ler. O casal médio português passa diariamente 4 horas com os filhos em frente à TV a ver novelas e futebol. Já daqui se pode vislumbrar a solidez de um sistema educativo em relação a outro. Mas vamos mais longe! O aluno de classe média em Portugal (a maioria) tem interiorizada socialmente a ideia de que frequentam a escola para “um dia ter uma vida boa”. Ora, “ter uma vida boa” significa ter um emprego seguro, com um bom ordenado ao final do mês. Quer isto dizer que se a escola não garantir emprego (tal como começa a ser verdade, até para as licenciaturas) perde grandemente o seu valor. E o valor atribuído à escola é duramente instrumental. Seria, claro, interessante fazer um estudo sobre as razões por que os nossos jovens frequentam a escola. Os resultados não deveriam andar longe daquilo que aqui estou a dizer. O jovem médio finlandês não atribui à escola somente valor instrumental pois desde cedo aprendeu a reconhecer que a escola e o conhecimento têm um valor intrínseco. O jovem finlandês porque adquiriu conhecimento, aplica-o mais tarde para fazer os Nokias. Mas os nossos jovens, mais habituados ao futebol e às novelas, vão ter de comprar os Nokias aos jovens finlandeses, porque não os sabem fazer. Se eu souber fazer limonadas e chegar a um sítio onde ninguém as sabe fazer, posso facilmente especular o preço das limonadas. Pelo contrário, se nesse sitio os seus habitantes souberem fazer limonadas, se eu as quiser vender, vou ter de baixar o preço e, além do mais, tentar inovar no produto, por exemplo, adicionando açúcar amarelo anunciando às pessoas que assim as minhas limonadas não fazem mal à saúde. Os americanos construíram os seus Fords que eram autênticas banheiras para além de consumirem muito combustível, mas eram impecáveis para circular no infindável território americano. Os Japoneses tem um país pequeno e tiveram de investir em conhecimento para fazer carros para circular no seu pequeno país. Além do mais os Japoneses não possuem as relações de proximidade com os árabes produtores de petróleo que os americanos têm. Logo, tiveram de investir em conhecimento para construírem carros que consumissem pouco combustível. A alternativa ao conhecimento era ter de comprar os carros aos americanos, se conseguissem uma boa economia para isso. Muitas vezes ouço dizer que Portugal é um país pequeno e que não consegue produzir senão para a sua subsistência. Acontece que há países em África que são gigantes e são muito pobres. A produção – de produtos agrícolas por exemplo – pouco tem que ver, nos nossos dias, com a grandeza ou pequenez do território, mas mais com o conhecimento e capacidade tecnológica. Claro que o Português médio não vê isso assim. Vivo na Madeira e 80% dos madeirenses dizem-me que a Madeira não pode ser independente porque não tem geografia para produzir produtos alimentares e agrícolas. Enganam-se! O que a Madeira, como Portugal inteiro não tem, é conhecimento, pois os seus habitantes não são habituados a ver o valor intrínseco da escola e educação, mas somente o seu valor instrumental. Pensa-se que a forma de realizar riqueza é ver na escola um meio para atingir uma finalidade. Por essa razão é que os sucessivos ministérios da educação desprezam cada vez mais o saber e o conhecimento e o substituem pelo discurso da facilidade educativa. Retira-se exames a disciplinas como a filosofia, acaba-se com ela no 12º ano, mas impõe-se disciplinas como área de integração ou área de projecto, com uma ocupação horária acima da média nos currículos escolares. E esta é claramente uma falta de visão grosseira do valor intrínseco da escola, do conhecimento e do saber. Este erro já outros países cometeram, até que acordaram de vez para a realidade. Só o conhecimento produz riqueza, bem-estar e felicidade e desprezá-lo não conduz uma comunidade à sua realização. A escola enquanto não se tornar exigente em saber e conhecer, enquanto embalada no discurso da facilidade e da estatística à pressão, jamais pode impor-se como um valor intrínseco. Apesar de o ser sempre, as pessoas são cegadas para o ver.

publicado por rolandoa às 01:50

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8 comentários:
De avelfer a 15 de Maio de 2008 às 18:41
Toatalmente de acordo!
E assim os nossos jovens têm todo o direito em pensar( ? ) que as sua acções não são consequentes ; que podem faltar que nada lhes sucede, que podem não estudar porque afinal passam na mesma!
E as empresas ,não exigirão jovens responsáveis e profissionais para integrarem os seus quadros?
É aí que , aqueles que de facto se empenharam e estudaram , conseguiram colocação. E o que acontecerá em relação aos que o sistema "facilitou" a vidinha?
Quem adivinhar, tem direito a uma viagem ida e volta ao País das maravilhas!

De rolandoa a 15 de Maio de 2008 às 22:07
Caro colega,
Temos de estar atentos a estas realidades e combatê-las o melhor que sabemos.
Abraço
P.S. é bom saber que tenho leitores na nossa ilha ;-)
De manuel jose a 16 de Maio de 2008 às 13:29
os nokias: já vi este argumento mas aplicado aos árabes que só têm petróleo o não sabem fazer nokias! bem, se não houvesse quem os comprasse não valia de nada aos finlandeses saberem fazê-los! e depois, há mais telemóveis para lá dos nokias...

o sistema finlandês? por exemplo: não é preciso um gajo professor quase doutor (pelo menos com um mestrado em educação física) para pôr os miúdos a mexer os braços e a jogar à bola... idem para tocar pífaro e coisas assim. o que somos é um país de pedantes a quem de posse de um stor atrás nos cagamos todos!

+++ o seu blog é muito muito interessante: também sou prof de filosofia.
De rolandoa a 16 de Maio de 2008 às 15:52
Olá Manuel,
Onde é que dás aulas? Obrigado pelas tuas palavras. São um bom incentivo.
Passa sempre por cá
Abraço
De manuel jose a 16 de Maio de 2008 às 18:54
escola secundária francisco rodrigues lobo, leria

obrigado pelo blog, mais uma vez
De rolandoa a 16 de Maio de 2008 às 21:44
Viva Manuel,
Eu sou da Escola Gonçalves Zarco, no Funchal. Sempre que quiseres colaborar no blog, com livros que aches bom divulgar, notícias, etc. está à vontade. Só agradeço
Um abraço e bom trabalho
De Carlos Silva a 17 de Maio de 2008 às 01:13
Rolando,

Autores há que costumam distinguir entre valor-meio e valor-fim. O primeiro retira o seu valor de outro valor enquanto que o segundo é independente de outros valores. Como alguém disse, "o vício da avareza consiste na estimação errónea do valor-meio que o dinheiro tem, como valor-fim". Com efeito, o dinheiro, como valor sensível/material que é, não possui valor intrínseco, retirando antes o seu valor daquilo que com ele se pode adquirir.
Partindo do princípio de que a Escola/Educação constituem um valor - o que não deixa de ser discutível - este tem sido entendido, ora como valor-fim, ora como valor-meio. Se tivermos em conta a origem etimológica do termo escola ("scholé"), este significa "paragem, repouso, descanso, ócio". Neste sentido, a escola seria um valor em si mesmo, um valor-fim, opondo-se, em certo sentido, ao trabalho, à ocupação profissional. Depois de uma sociedade esclavagista, somente a sociedade industrial propicia, pelo menos teoricamente, o ócio e, consequentemente, a escola. Esta destinava-se aos que "tinham vagar" como referiu o saudoso professor Joaquim Ferreira Gomes. Vagar apenas tornado possível pelo papel desempenhado pela máquina que libertava a mão-de-obra. Daqui à democratização da sociedade, em geral, e do ensino, em particular, vai um pequeno passo. Hoje, os que nos governam confundiram democratização com massificação. Com efeito, o ensino que temos é um ensino de "massas". O interesse é meramente estatístico/quantitativo - parece que vivemos naquilo a que chamaria a era da tirania do número - em detrimento da qualidade. Muito provavelmente, as actuais políticas educativas desembocarão na divisão do ensino em dois sub-sistemas: o privado para quem tem "vagar" e, além disso, dinheiro, e o público, destinado aos "filhos dos homens que nunca foram meninos", como diria Soeiro Pereira Gomes.
A escola, para além de um valor-fim é, certamente, um valor-meio. Ela é um veículo de socialização, de integração do indivíduo na sociedade. O saber, como diria Bacon, é poder. O saber veiculado nas escolas pode/deve estar, também, ao serviço da subsistência dos indivíduos. Mas estes devem consciencializar-se de que o Estado não é mais aquele Estado Providência, que lhes garantia empregabilidade. Urge, pois, uma revolução a nível de mentalidades.

Abraço,
Carlos JC Silva
De rolandoa a 17 de Maio de 2008 às 01:27
Olá Carlos,
Nem sei o que lhe hei-de dizer porque estou inteiramente de acordo com o que o Carlos disse. O que aborrece que a hipocrisia do discurso da parte do poder, quando nós sabemos bem o que o Carlos diz: há um ensino privado com qualidade para os filhos dos ricos e um ensino da caca para a massa de ignorantes. E vale a pena desmascarar este tipo de pensamento e realidade porque não produz bons resultados. É uma mentalidade pobre e tacanha, pois podemos compatibilizar um ensino de massas com a qualidade do ensino, mesmo que existam sempre efeitos marginais menos desejáveis.
abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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