Domingo, 11 de Maio de 2008

Preconceitos Elementares

saturn_rings_false

No meu recente trabalho de análise de manuais notei um aumento muito significativo de visitas ao blog. Com elas surgiram centenas de comentários, ainda que os mesmos pertencessem somente a dezenas de pessoas. Claro que o ideal é as pessoas expressarem as suas opiniões, justificando-as. Generalizei alguns argumentos que gostaria de publicar aqui, discutindo-os um pouco.

Rolando Almeida

1º “O autor deste blog defende o manual X, mas há outros manuais e deve existir pluralidade

Nem mais. Estou completamente de acordo com este argumento, só que a construção que faço dele não é o mesmo que aquela que o argumento muitas vezes quer dizer. Pluralidade é precisamente o que não existia antes do aparecimento do manual X. Os erros eram os mesmos de sempre, a forma como se concebiam os manuais era sempre a mesma e é do conhecimento de todos que os manuais se copiavam uns aos outros. Ora o manual X veio precisamente trazer um pouco dessa pluralidade que muitos leitores meus defendem, pelo que não vejo razão alguma especial contra o manual X.

2º “O manual X segue muito a tendência filosófica W.”

Este argumento possui raízes a sustentá-lo muito pesadas, mas se a filosofia for o lugar crítico da razão, cabe-nos pensar essas raízes. Em primeiro lugar a filosofia não se faz como se estivéssemos na loja de roupa da moda e estivéssemos a optar pela camisola X ou W. não há tendências filosóficas, pelo menos no sentido em que aqui muitas vezes se apontou. O que existe, isso sim, é muitos filosofares. Muitas vezes ouço defender que em filosofia nunca se obtém respostas e por isso não existe progresso. Bem, é certo que não se obtém resultados, mas não é verdade que não exista progresso em filosofia. Para além de tudo, a maioria das hipóteses científicas também não apresentam qualquer progresso, no entanto não temos dificuldade em reconhecer o progresso científico. Claro que as metodologias da filosofia e actividade crítica apresentam progressos. Provavelmente pela falta de conhecimento dos progressos na filosofia é que surgem muitas confusões na lógica, por exemplo. A lógica pensada por Aristóteles mereceu notáveis progressos com os medievais e, muito mais tarde, com Frege, Russell, Tarsky, etc. Como metodologia da análise crítica, não podemos colocar ao mesmo lado, em termos de opções, a lógica de Aristóteles e a de Frege, uma vez que uma resulta precisamente do estudo da outra e dos progressos em relação à mais anterior. E é natural que se as metodologias se aperfeiçoam, com anos de estudo muito sério, também o filosofar se altera, pois é para filosofar que se aperfeiçoam as técnicas da lógica e da argumentação.

3º “Reduzir tudo à lógica é aproximar a filosofia da ciência dar uma ideia demasiado ténica da filosofia. A ciência é dedutiva, mas a filosofia é imaginativa”.

Nada mais falso e cheio de equívocos. Esta separação é completamente artificial. Primeiro porque dedução e indução não são propriedades desta ou daquela área de estudos, mas de todas as áreas de estudo, inclusive da nossa vida mais quotidiana. Também faz parte da nossa vida respirar e a ciência estuda sistematicamente a respiração e o aparelho respiratório. De modo análogo usamos todos os dias deduções e induções, podemos inclusive, para um mesmo assunto referirmo-nos dedutiva ou indutivamente. Na ciência passa-se a mesma coisa e na filosofia o mesmo. Mas ainda há mais: para fazermos deduções precisamos de ser imaginativos (Popper mostrou-o em relação às conjecturas) do mesmo modo que não se é bom em ciência sem se ser imaginativo, sem se fazer boas induções e deduções formalmente válidas. É uma ideia muito pobre pensar que a ciência é algo muito matemático, frio e dedutivo e a imaginação pertence a domínios como a arte, poesia, etc. A imaginação existe em igual proporção na boa poesia, como na ciência rigorosa. A boa ciência é, neste sentido, como a boa poesia: é criativa.

“O manual X não fala de filósofos que não estudei na Universidade, logo não é bom.”

Ainda terei de falar mais deste assunto. Quando andei a estudar o único estudante que ficou como convidado a ensinar na universidade foi um estudante com um rendimento igual a muitos outros, mas filho de uma pessoa influente na sociedade portuguesa. Hoje em dia, esse estudante mediano é doutor por extenso e fez carreira na universidade beneficiando de boas bolsas de estudo. Durante alguns anos interroguei-me se fosse eu o filho desse fulano se não teria sido eu a ficar na universidade e fazer o meu mestrado e doutoramento em universidades alemãs com dinheiros públicos. Devemos compreender, antes de tudo, como é que se faz carreirismo nas universidades portuguesas e devemos pensar que filosofia foi ensinada durante o curso. No final do meu segundo ano de universidade, já passava mais tempo a falar do valor da universidade do que propriamente no “dasein” (certamente uma das palavras em alemão que mais ouvi durante o curso inteiro). Tive imensos professores que pertenciam a organizações religiosas suspeitas em termos de liberdade do pensamento, mas nunca ninguém questionava tal coisa. Muitos desses professores eram verdadeiros sedutores e implacáveis do chumbo e, apesar de não serem grandemente compreendidos no que diziam, eram admirados com um sentido de veneração pouco digna de estudantes de filosofia. Esse discurso verbalmente terrorista fez parte da nossa formação nos cursos universitários, sem que o questionássemos muito. Este discurso vinha no pacote do pós modernismo e de todos os relativismo daí decorrentes. Sendo assim, não acho minimamente razoável que quando aparece o manual X, que não usa essa linguagem, que é claro, limpo e sério, de repente, aparece um coro de contestação. Será que esse coro, outrora, ou mesmo actualmente, não foi capaz de vislumbrar conspiração no discurso universitário que nos encaspou os ouvidos? Uma das resistências que mais tenho notado em muitos licenciados em filosofia em Portugal é a sua incapacidade em produzir o quer que seja. E compreendo muito bem o porquê. Porque saímos arrasados das faculdades. Arrasados por professores orgulhosos e vaidosos em nos laurear e pevide com discursos herméticos e pseudo profundos, que nós imitávamos nos testes até ao tutano para obter boas classificações, professores que se orgulhavam de chumbar 80% dos alunos e ainda eram tidos pelos alunos de muito exigentes porque não é qualquer um que acede à ontologia mística e profunda que esses professores ensinam. Na realidade saímos das licenciaturas deformados em filosofia, completamente acríticos, com meia dúzia de conhecimentos avulsos para citar, uma imagem pretensamente profunda e, pior que tudo, sem as ferramentas básicas para pensar pela nossa própria cabeça. Quantas vezes discutimos problemas filosóficos na faculdade? Esta atitude académica reduziu a nossa capacidade de produção, quando a razão de existência das universidades é aumentá-la e não diminuí-la. Não estou a defender que alguns professores não tenham mérito nos seus estudos específicos e pessoais, mas estou a defender que não é justo que tivéssemos de levar com as suas investigações específicas, quando nem sequer tínhamos as bases. Vamos pensar que agora passamos o ano inteiro a discutir o critério de falsificabilidade com os nossos alunos do secundário. A ideia que lhes passávamos da filosofia era não só redutora como limitada e errada. Um professor de filosofia não tem de impressionar os seus estudantes com discursos profundos, tem de lhes dar as ferramentas para que eles pensem pela sua própria cabeça. Outra atitude que vi acontecer no meio académico foi a de muitos estudantes adoptarem uma determinada postura dentro do curso pensando que a filosofia era uma espécie de salvação da alma. A filosofia tem tanto poder para me salvar a alma, como tem se me puser aí a tarde toda a jogar na Play Station. Se me sentir melhor comigo mesmo, ainda bem! Claro que a filosofia nos consola, mas não consola a toda a gente nem toda a gente tem de gostar de fazer filosofia. O mundo é plural e há milhares de coisas que nos ajudam a sentir melhor. Por exemplo, eu sinto-me bem a escrever este texto enquanto o meu filho de 5 meses está a dormir um soninho, mas daqui a pouco sinto-me bem a estar no chão a estimular o gatinhar do bebé e já não me sinto bem se tivesse de escrever este texto por imposição. A filosofia é a procura da verdade, para tal, discutindo os problemas argumentativamente e racionalmente, avaliando-os criticamente. Depois disso se salvar almas, ainda melhor. Mas não as salva mais que a música, a arte ou comer um Corneto numa esplanada na praia.

5º “O manual X é difícil para os alunos”

Pela minha experiência pessoal, pude observar que o manual X não é mais difícil para os alunos do que a maioria dos outros, bem pelo contrário, é até mais fácil. Só que contraria a minha doutrinação académica, de modo que, numa fase inicial, dá é mais trabalho a mim que sou professor. Exige que mude a minha actuação que é igual já há alguns anos e, obviamente, isso dá trabalho. Mas vale a pena o trabalho, pois os resultados são mais que muitos e há um resultado muito – mas mesmo muito - importante: dignifica a disciplina perante os alunos e, claro, perante a sociedade. Preocupar-nos com a imagem social da nossa disciplina é também assegurar que não acabem de vez com ela. Ora, a filosofia tem bons argumentos para se afirmar e, no caso português, tem alguns bons meios. Há que usá-los sem receios, mas com vontade de trabalhar.

Conclusão

É mais ou menos clara a ideia de que não abandonamos uma formação de base com facilidade. Algumas coisas faltariam para que essa mudança fosse produzida em nós. Mas já temos na realidade Portuguesa algumas boas bases para aceitar a mudança dignificando a nossa disciplina. A primeira das grandes mudanças é a bibliografia que temos disponível, que nos ajuda a compreender os movimentos mais recentes na nossa disciplina e o que realmente a faz produzir mais e melhor. Para tal vou deixar aqui uma pequena lista de livros que são a base de alguma informação preciosa e que em muito pode contribuir para mudar determinados comportamentos preconceituosos. Espero que seja útil.

Org Aires Almeida e Desidério Murcho, Textos e Problemas da Filosofia, Plátano – trata-se de uma antologia de textos centrais da filosofia, desde Platão, descartes, David Hume, etc. esta obra tem a vantagem de estar organizada segundo o programa de filosofia no ensino secundário. Tem traduções inéditas em língua portuguesa.

Org Aires Almeida, DEF, Dicionário Escolar de Filosofia, Plátano – Possui a grande vantagem de agora possuir uma edição gratuita on line que pode ser consultada aqui. É um pequeno dicionário, de fácil consulta, mas que nos introduz problemas centrais da filosofia.

Nigel Warburton, elementos básicos de filosofia, Gradiva – Esta é, para mim, a melhor obra em língua portuguesa de introdução aos problemas centrais da filosofia. Estamos a falar de problemas centrais, básicos e nucleares que são também aqueles pelos quais se deve iniciar um estudo.

Colin McGinn, Como se faz um filósofo, Bizâncio – Encontro muitos professores de filosofia que gostam muito de literatura, mas que já não pegam num ensaio de filosofia há algum tempo. Esta obra é uma autobiografia filosófica que nos introduz a alguns problemas da filosofia ao mesmo tempo que nos conta algumas histórias muito divertidas e interessantes.

Stephan Ferrett, Aprender com as coisas, Asa – Uma curtíssima introdução à filosofia escrita a por um francês para mostrar à academia francesa o caminho melhora traçar para a filosofia. Um livro muito pequeno, mas muito interessante.

Carl Sagan, Um mundo infestado de demónios, Gradiva – não é um livro propriamente de filosofia, mas ajuda-nos a desfazer alguns mitos falsos sobre o que pensamos da nossa disciplina e da ciência. Para além disso é literariamente muito atraente.

Desidério Murcho, O lugar da lógica na filosofia, Plátano – Pode pensar-se que se trata de um livro cheio de fórmulas lógicas, mas tal não é verdade. Trata-se de um livro pequeno que constitui um acessível guia de erros mais comuns que cometemos quando ensinamos lógica, como a distinção verdade - validade, argumento - proposições, etc. algumas das traduções que circulam nos manuais apareceram pela primeira vez para a língua portuguesa neste pequeno livro.

Há dezenas de outros livros e sei que outros até muito interessante estão para sair no mercado. Com efeito com cerca de 50€ conseguimos compor a nossa pequena biblioteca de ensino da filosofia. Com um bom manual a servir as nossas aulas e a orientar o estudo dos nossos alunos, pouco mais precisamos do que, calmamente, ler estes livros. Mas de uma coisa estou certo: por muito reduzido que seja o nosso tempo para a leitura, quando acabarmos de ler estes, vamos roubar tempo á vida para continuar a ler outros. É que aprender a filosofar dá muito gozo e ensinar a filosofar, dá ainda mais. E, pelo menos, lendo alguns destes livros, aprendemos a pensar pelas nossas cabeças, em vez de sermos reactivos acabando a defender aquilo que acusamos, vulgo tiro pela culatra.

publicado por rolandoa às 16:21

link do post | favorito

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS