Quinta-feira, 26 de Outubro de 2006

Seria Hume ateu?

Já mencionei a dificuldade de discernir de forma precisa a posição defendida por Hume acerca da religião, com base nos Diálogos Sobre Religião Natural. Não obstante o facto de se tratar da personagem intelectualmente mais próxima de Hume, Fílon não é um mero porta-voz do filósofo. Muitos dos contemporâneos de Hume partiram do princípio de que o filósofo era ateu e não existe qualquer dúvida de que se os Diálogos sobre Religião Natural tivessem sido publicados durante a vida de Hume, teriam sido tratados como prova conclusiva do ateísmo do seu autor. No entanto, Hume ficou genuinamente chocado quando se encontrou com ateus convictos, em Paris, na década de sessenta do século XVIII, ainda que a sua posição se possa ter alterado até ao final da sua vida.
A sua doutrina oficial era o cepticismo moderado, uma forma suavizada de cepticismo que nada aceita que não tenha sido verificado previamente, mas que não chega ao absurdo dos cépticos que tentam viver como se absolutamente nada pudesse ter sido como certo. O cepticismo moderado aplicado a questões religiosas aponta na direcção do ateísmo, mas não é equivalente a ele. O céptico moderado não aceitaria o Argumento do Desígnio como prova da existência e dos atributos do Deus cristão. Contudo, afirmar que não existem provas suficientes sobre as quais se possa fundamentar a crença na existência de Deus não é o mesmo que asseverar que Deus definitivamente não existe. Hume pode ter considerado o próprio ateísmo uma posição dogmática, isto é, uma posição para a defesa da qual não existem provas suficientes. Talvez, então, Hume acreditasse, de facto, tal como acontecia com Fílon, que o universo tinha tido um criador inteligente. No entanto, o filósofo acreditava evidentemente que a razão humana era insuficiente para permitir um conhecimento detalhado da natureza exacta desse criador, se é que existia um.
Hume faleceu sem possuir qualquer esperança numa vida para além da morte.
 
 
Nigel Warburton, Grandes Livros de Filosofia, Ed. 70, 2001, p.113-114
 
Obs: existe em português duas traduções da obra de David Hume, Diálogos Sobre Religião Natural, ambas de 2005. Uma é publicada pelas Ed. 70 e outra pela FCG, sendo que esta última inclui também a História Natural da Religião.
publicado por rolandoa às 21:20

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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