Sábado, 10 de Maio de 2008

10 falsas questões sobre a filosofia

Ovelha debaixo de uma rvore perto de Dorset, Inglaterra. Dez falsas questões mais habituais sobre a filosofia.

1. A filosofia é difícil.

É falso que se fale da filosofia como uma disciplina difícil. Ela é tão difícil quanto outra disciplina qualquer. Há ,certamente, disciplinas mais difíceis e outras mais fáceis. A dificuldade não ocupa um lugar de destaque mais na filosofia do que na física, biologia ou na matemática.

2. A filosofia não serve para nada - Bem, isto só seria verdade se nos mentissem acerca da filosofia. Questionar sobre a utilidade da filosofia possui exactamente o mesmo sentido do que questionar acerca da utilidade da matemática, da física, química ou biologia. A filosofia tem exactamente a mesma utilidade que qualquer outra disciplina, só que a natureza dos seus problemas é diferente e exige metodologias específicas. Perguntar pela utilidade da filosofia é perguntar pela utilidade do saber em geral e a resposta não deve ser colocada somente aos profissionais da filosofia, mas também aos dos outros saberes. Curiosamente o mundo não seria o que é se os saberes não possuíssem uma utilidade.

3. Em filosofia nunca se chega a conclusões  - É falso pensar que em filosofia nunca se chega a conclusões. Se assim fosse também o poderíamos dizer em relação à ciência. O que nós conhecemos da ciência são os resultados desta, porque as grandes questões da ciência ainda andam em investigação, tal qual as grandes questões da filosofia. A diferença é que ao passo que a ciência pode recorrer à experimentação, a filosofia não pode dada a natureza dos seus problemas que não são resolvidos empiricamente.

4. A filosofia é um saber abstracto que não tem nada a ver com a vida. - Pelo contrário. A filosofia é talvez o saber que mais directamente se relaciona com a nossa vida prática e quotidiana, daí por vezes se fazer a confusão ao pensar-se que qualquer pessoa está a fazer filosofia ao se questionar sobre um ou outro problema. Os problemas da filosofia surgem porque a vida humana os levanta. Para isso existem muitos ramos do saber a fim de os estudar. A filosofia é um desses ramos.

5. Todos somos filósofos - É falso. Não é qualquer pessoa que é filósofa, apesar de qualquer pessoa ser perfeitamente capaz de levantar problemas filosóficos a um nível intuitivo. De igual modo, também as crianças fazem muitas questões científicas e isso não faz delas cientistas. De que é feita a lua? Porque é que nunca apanho o arco irís, etc…. Podemos igualmente perguntar se Deus existe ou não, se o livre arbítrio faz ou não sentido, sobre o sentido moral do aborto, sobre o que é o tempo e a sua relação com o espaço, etc…., mas daí não decorre que sejamos filósofos. A filosofia faz-se e investiga-se nas mais avançadas universidades do mundo e possui altos níveis de sofistificação. Ser um filósofo profissional, implica publicar ensaios nas revistas da especialidade e contribuir de modo decisivo para o progresso e avanço da filosofia. E isso não está ao alcance de todos e exige um trabalho disciplinado e árduo. Mas daí não decorre problema algum. Também na matemática, sabemos muita matemática a um nível intuitivo e nem por isso somos matemáticos. Depende do nível de sofistificação que queremos alcançar. E os grandes investigadores precisam muito dos bons divulgadores, como é o caso dos bons professores.

6. Em filosofia tudo é subjectivo. - Esta é uma outra ideia falsa que aparece muitas vezes em relação à filosofia. Pensa-se que a filosofia não é nada mais do que um grupo de gente tola, cada um a dar a sua opinião sobre um assunto qualquer. Mas a defesa da subjectividade é auto refutante em termos racionais. Se eu defender que a filosofia é subjectiva, o meu leitor pode defender que não, que é objectiva. Terei de aceitar a posição do meu leitor precisamente porque a posição do leitor é, para mim, subjectiva. E entramos num círculo racionalmente insustentável. Por outro lado, se a filosofia é subjectiva, então, qual a razão da discussão racional? Nada haveria a discutir dado que a verdade não passaria de algo muito subjectivo. Toda a discussão possível não passaria de uma mera e modesta troca de opiniões. Mas nesse caso não existiria qualquer progresso no saber e cultura humana. Não devemos esquecer que as grandes teorias matemáticas e científicas ainda estão por resolver, precisamente porque, tal como na filosofia, não existe progresso sem problemas e razões que apontem conclusões para esses problemas.

7. A filosofia é algo que se faz quando se tem muito dinheiro e nada para fazer - Muita gente famosa parodiou este lado da filosofia, associando-a ao ócio que é precisamente o contrário do negócio (negar o ócio). Apesar da filosofia não constituir para a maior parte das pessoas uma necessidade vital, como é dormir, comer e beber ou respirar, a verdade é que ela se faz por necessidade de compreensão do mundo. A maior parte dos grandes filósofos pensaram sem grandes condições para o fazer. A riqueza material não tem necessariamente de andar associada à filosofia. É natural que se faça e publique mais filosofia onde há mais dinheiro, mas isso somente porque alguém pode viver da filosofia, pode ser pago para investigar e pensar determinado problema filosófico. Mas, novamente, esta é uma realidade que também se aplica a qualquer ramo do saber ou a toda a ciência. Não são as culturas material e culturalmente pobres que produzem e têm acesso à investigação. De modo que supor que a filosofia se faz quando não se tem mais nada para fazer e se tem muito dinheiro, é falso.

8. Não é preciso ensinar filosofia nas escolas - Para mostrar o quanto esta afirmação é falsa, prefiro apresentar alguns exemplos. Uma boa parte dos países ocidentais até nem têm filosofia no ensino secundário como formação geral e obrigatória, como existe em Portugal. Mas têm o chamado critical thinkink que é uma área muito próxima dos modelos mais específicos da filosofia. Por outro lado esses países vêm garantido o sucesso da filosofia no ensino superior uma vez que possuem  uma cultura mais sólida que permite que as pessoas vão de encontro ao saber e à filosofia. Há um interesse e sucesso quase natural pela filosofia, especialmente após a segunda metade do Século XX e livros de filosofia ganham quase todos os anos importantes prémios. Só se consegue ter ideias tolas como esta e a de que a filosofia não serve para nada, numa sociedade ignorante que não reconhece o valor intrínseco da educação. Olhar para a filosofia e afirmar que ela não serve para nada, é de uma ignorância tão tola que faz lembrar aquela pergunta: o que faz um burro a olhar para um palácio? Mas os seres humanos, muito mais que os burros, podem ser educados a olhar para palácios. Esta ideia pode existir e existe em alguns países, inclusive em Portugal, com relativa disseminação pública. Lembro-me de quando estudava filosofia, o fulano do banco onde tinha a conta aberta para a mesada, me perguntar com frequência para que servia o que eu andava a estudar. Estou convencido que tal acontece porque, em larga medida, o ensino superior é de má qualidade e os alunos saem das universidades muito mal formados. Uma vez saídos da universidade sem nunca terem compreendido as ideias centrais de Platão, Descartes ou Kant, o que é a filosofia da mente ou a filosofia da arte, sem leituras feitas e organizadas, este é o caminho mais certo para termos uma má divulgação da filosofia, misturando-a muitas vezes com as nossas percepções mais subjectivas, como astrologia, magia, poesia, etc…. E esta é a ideia que passa aos mais jovens, que estes passam a outros e por aí adiante até um determinado sistema educativo fechar de vez as portas a uma disciplina que, afinal, não possui sequer coerência interna. Outra das causas para este tipo de falsas ideias em relação à filosofia, aplica-se também a todas as outras disciplinas. É a ideia de que o próprio ensino não serve para nada e a consequente desvalorização da escola e das disciplinas que lá se ensinam. Em Portugal, fruto das péssimas políticas educativas do «eduquês», é isto que se tem passado. A sociedade em geral desvaloriza o papel que a escola pode ter no desenvolvimento do indivíduo. Daí a desmotivação geral e a frequente acusação de que o que se aprende não serve para nada. Na verdade se o que se ensina é tão pouco e tão erradamente, a escola acaba por ser muitas vezes uma perda de tempo, pensarão alguns e com alguma razão. 

9. Em filosofia tem de se ler muito e escrever muito. - É evidente que para se saber filosofia temos de saber os argumentos dos filósofos. Imagine que vai ter com os amigos ao café e começa uma conversa sobre a justiça na distribuição da riqueza. Imagine ainda o leitor que na mesma mesa estão sentadas mais 4 pessoas além de si. Imagine agora também que começaria a debater argumentos sobre o tema não querendo saber das posições das outras 4 pessoas e ainda por cima afirmava que X e Y defendem a posição A, mesmo sem ter perguntado a X e Y que posições defendem. Uma das consequências mais prováveis é que o leitor poderia partir do princípio que:

a) As suas posições são a verdade absoluta sobre o problema da justiça na distribuição da riqueza.

b) Poderia o leitor estar a pensar que estava a ser muito original, quando X defende a mesma posição mas até com melhores argumentos. 

Seria esta uma situação desejável? Mas vamos mais longe. Imagine que a conversa era sobre o cosmos e que o leitor estava a defender o geocentrismo por pura ignorância. Sem querer saber do que X e Y pensam e conhecem acerca do assunto, o leitor nunca descobriria uma verdade elementar: que está completamente errado, uma vez que o geocentrismo já foi refutado há muitos séculos atrás.  A mesma coisa sucede na filosofia, como sucede em qualquer outro saber ou ciência. Para discutir os problemas filosóficos de um modo profissional, temos de entrar em discussão com os argumentos dos filósofos e é por essa razão que precisamos de ler o que Platão ou Descartes pensaram acerca do problema, quais os argumentos apresentados. A prova de fogo pela qual o aprendiz de filósofo tem de passar é exactamente a mesma que qualquer cientista tem de passar. Tem de sujeitar os seus «insights» à crítica dos seus pares. Um charlatão não passa esta prova de fogo e está condenado a escrever os seus argumentos sem pés nem cabeça no jornal da terra. Neste contexto, o texto escrito e lido é obviamente um dos recursos fundamentais dos filósofos, apesar de não o único. Alguns filósofos conseguiram apresentar argumentos revolucionários e nem por isso escreveram muito. Wittgenstein é só um entre centenas de exemplos. Outros escreveram muito e nem por essa razão conseguiram ser autores centrais para a filosofia.

10. Em filosofia tem de se ser muito profundo. - Em filosofia não tem de se ser mais profundo do que em matemática ou química. Em primeiro lugar deve-se privilegiar a clareza que nem sempre coincide com facilidade, dependendo do estudo que se realize. Obviamente se estamos a falar de filosofia como eu estou a falar neste texto, não se exige profundidade alguma. Exige-se clareza e rigor. A ideia da profundidade em ciência e filosofia, diz respeito à sofisticação dos problemas em análise. Se estamos numa área como a Lógica Modal, envolvendo a discussão de conceitos como possibilidade e necessidade, o mais provável é que a discussão não seja muito acessível a quem não possui qualquer preparação em filosofia. A mesma questão é atribuível a uma qualquer investigação em física ou química. Mas, regra geral, estas teorias mais profundas podem ser expostas a um nível mais intuitivo. E porque é que existe esta necessidade de explicar aos mais leigos os problemas mais sofisticados? Por uma razão muito simples. Somos seres limitados no tempo e um dia alguém vai ter de continuar os nossos estudos, desenvolvendo-os e possibilitando novas descobertas, por isso temos de ensinar aquilo que sabemos ou condenamos o saber à sua morte. Depois porque um filósofo só descobre as fragilidades das razões que oferece em favor das suas teses se um outro o puder estudar e refutar.

publicado por rolandoa às 17:41

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11 comentários:
De Carlos Silva a 11 de Maio de 2008 às 01:02
Caro Rolando,

Ao ler estas palavras sobre a "desmistificação" da Filosofia, ocorreu-me de imediato o livro de Karl Jaspers, "Iniciação Filosófica", outrora muito em voga.
Curiosamente, no que concerne à assunção de que "todos somos filósofos", Karl Jaspers é favorável a essa ideia, distinguindo, naturalmente, entre um suposto filosofar espontâneo - visível nas mais variadas manifestações culturais, como o folclore, entendido como um saber popular (Falk Lore), nas questões das crianças, etc... - e um filosofar sistemático, característico de profissionais. Segundo este autor, a diferença entre estes dois tipos de filosofar seria, sobretudo, mais de cariz qualitativo do que propriamente quantitativo. Se tivermos em conta que o "espanto/admiração" é a origem da filosofia, não repugna, de todo, essa ideia. Como não repugna a ideia de uma relação de continuidade entre senso comum e ciência, à qual Bachelard, por exemplo, se opõe claramente, ao desenvolver a noção de obstáculo epistemológico, mas que um Popper defende.
No que diz respeito ao "otium", convém não esquecer que a origem da nossa civilização assenta na divisão, pouco democrática, por sinal, entre "cidadão livre" e "escravo". Era precisamente a escravatura que tornava possível, na Grécia antiga, a actividade intelectual, nobre, e à qual um Aristóteles não se opôs, curiosamente.
Em relação à utilidade da Filosofia, há quem diga, por aí, que a sua utilidade reside, precisamente, na sua não utilidade. Claro que não concordo com este ponto de vista, perigoso, por sinal. Ela é útil. Mas trata-se de uma utilidade peculiar: ajuda a pensar correctamente, a argumentar, a desenvolver um espírito crítico perante o real (o que a torna potencialmente perigosa, segundo alguns, porque subversiva), perante as mais variadas dimensões da acção humana, etc... Sería, no entanto, arriscado, querer extrair-lhe uma utilidade característica das outras disciplinas, como uma Química ou uma Física, por exemplo. A questão da utilidade é, a meu ver, a questão crucial. Sobretudo na era em que a racionalidade tecnológico-científica assume o primado e em que o "governo da cidade" se subordina a parâmetros de cariz económico.

Abraço
Carlos JC Silva
De rolandoa a 11 de Maio de 2008 às 13:52
Caro Carlos,
Antes de tudo obrigado pelos preciosos comentários, sem dúvida muito interessantes. Em relação ao primeiro ponto, hoje em dia é consensual a ideia de que existe continuidade no conhecimento entre sendo comum e ciência, ainda que muitas das vezes a ciência possa contradizer as informações do senso comum. Por exemplo, sabemos por experiência acumulada que a água tem movimento, com efeito, a ciência diz-nos que a água é constituída por matéria atómica. Bachelard não poderia ter razão ao considerar que o senso comum é um obstáculo epistemológico e, ainda mais grave, considerar que as próprias teorias são obstáculo epistemológico. Se são donde surgem as novas teorias? A produção relativista na ciência (as versões contemporâneas de Bachelard serão Kuhn e Feyerbend) não produziram grandes efeitos e hoje são teorias pouco consensuais.
Por outro lado parece mais pacífica a ideia de que, de um modo ou outro, adquirimos conhecimento pela experiência directa, ainda que seja um conhecimento desorganizado. Mas é um conhecimento útil. Do mesmo modo, uma criança é capaz de levantar questões científicas de modo intuitivo, mas não do modo organizado nem com a aplicação sistemática que a ciência exige.
Pois, a vida humana pode ter as divisões que enuncia, mas a filosofia não possui qualquer privilégio em relação a outro saber e a muitas actividades humanas. Dizer que para se fazer filosofia é necessário alguém que cave batatas, é exactamente o mesmo que dizer que para que exista pão e padeiros é necessário quem trabalhe nas obras. Claro que sim, e daí? Não se vislumbra aí nada de problemático. Também não sou da opinião que a utilidade da filosofia seja algo especial. Ela é tão útil quanto a Arte, a Física ou a química. Diga-me lá para que servem a maioria das hipóteses da física? Diga-me para que serve a hipótese do físico João Mageuijo da velocidade da luz ser variável no vácuo, contrariando Einstein?? O que é que isto é mais ou menos útil que o problema moral do aborto, por exemplo? A utilidade vem do valor intrínseco. Há coisas que tem valor pela sua utilidade extrínseca (objectos, por exemplo) e outras pelo seu valor intrínseco (Justiça, Saúde, Educação, Arte, Filosofia, Ciência etc…) Pensar que a ciência tem mais utilidade que a filosofia resulta duma confusão muito comum entre ciência propriamente dita e resultados da ciência. Os resultados da ciência é aquilo que se consegue tecnicamente fazer com a ciência, como telemóveis e micro ondas. Mas a produção científica é outra coisa. É essencialmente discussão activa de hipóteses. É o mesmo que confundir a proveniência do leite. Uma coisa é ver o leite no supermercado, outra é compreender que isso é resultado do ordenhar da vaca. Neste sentido a filosofia não é mais perigosa que uma faca, depende do uso que se lhe dá. Eu uso a faca para cortar a maçã para me alimentar, mas posso usá-la para matar. Daí não decorre que tenho de assumir que a faca é perigosa. Caramba, eu posso matar com quase todos os objectos. Há pessoas perigosas e hipócritas que usam a filosofia em seu proveito. O relativismo foi um desses aproveitamentos e ainda é e, com efeito, é fortemente aplaudido nos nossos manuais de filosofia, cursos de filosofia, professores de filosofia, etc… e ninguém se dá conta porque se acha que a verdade absoluta é fonte de totalitarismo. O problema é que a fonte de totalitarismo não é a verdade, mas as ideias relativas tornadas verdade.
O que fala da supermacia da cultura tecnológica, não é assim em todo o mundo. Onde se produz criativamente cultura tecnológica é onde também mais se desenvolve a filosofia e onde há vistas curtas é onde ela perde mais lugar. Olhe à sua volta: está prenhe de objectos tecnológicos todos de origem estrangeira. Ou seja, nós, em Portugal, compramos tudo feito, não criamos, pelo que não reconhecemos o valor da criação. Só valorizamos os resultados da criação, não a criação propriamente dita. Talvez por essa razão, em matéria educativa, achemos, estupidamente, que ser mais prático é abandonar conteúdos filosóficos, artísticos, musicais, etc… já que andamos encantados com os acordos com o MIT pelo menos deveríamos ter percebido que o MIT tem, entre muitas outras coisas, um departamento de filosofia dos mais sofisticados do mundo.
abraço
De Carlos Silva a 12 de Maio de 2008 às 23:39
Caro Rolando,

A questão do relativismo é complexa, mais do que à primeira vista possa parecer. Afinal, onde está a Verdade?
Terá a ciência descoberto, finalmente, a verdade? Duvido. A confirmar essa dúvida está o carácter dialéctico, aproximado e provisório da verdade científica, bem como o seu carácter revisível. Epistemólogos de renome, como Popper, defendem o conceito de "revolução permanente da ciência". Ainda segundo Popper, o principal poder da racionalidade humana assenta na ideia socrática do reconhecimento da nossa ignorância e na recusa em aceitar certezas absolutas, dogmas. Certamente, a ciência vai-se aproximando da verdade sem nunca a alcançar, no entanto. Assim, está salvaguardada a ideia de progresso, que se constata no nosso quotidiano - contrariamente à tese de Kuhn, que esbarra, precisamente, nesse ponto. Mas a verdade permanece uma miragem.
Falo da ciência. Como poderia falar da religião. Também esta orienta a sua “investigação” no sentido da verdade. Mas, qual é a religião verdadeira? O Catolicismo, o Islamismo, o Judaísmo, o Budismo, ... ? Ou constitui, afinal, a religião o "ópio do povo", como proclamou o materialismo marxista?
Um dos símbolos da Filosofia é a "Escola de Atenas", de Rafael. No centro, duas figuras: Platão, apontando para cima e Aristóteles apontando para baixo. O que significa isto? Possivelmente que a Filosofia é um diálogo, não um monólogo. Um diálogo entre teses e antíteses. Toda a História do pensamento humano ilustra isso. E, deste modo, desloca-se a verdade da dimensão ontológica para um domínio argumentativo. Como referiu Sófocles, a verdade é sempre o argumento mais forte. A Filosofia, como outras ciências Sociais e Humanas, não será propriamente, ou predominantemente, do domínio da demonstração, do constringente mas antes do domínio da argumentação, do verosímil. Encontra no campo da racionalidade argumentativa o seu domínio por excelência. Como discutir a questão do aborto? Em termos matemáticos? Ou em termos de maior ou menor plausibilidade das teses? Claro que se nos orientarmos por uma determinada linha de pensamento ou escola, poderemos alcançar a verdade. No Irão, por exemplo, a verdade está no Alcorão. Mas o papel do professor de filosofia, no ensino secundário, não é seguir uma linha exclusiva de pensamento. Tal seria redutor. O relativismo não impede, no entanto, a defesa intransigente, no campo axiológico, de valores supremos, indiscutíveis, como a dignidade humana, por exemplo. Mas pouco mais.

Carlos JC Silva
De rolandoa a 13 de Maio de 2008 às 00:47
Caro Carlos,

“A questão do relativismo é complexa, mais do que à primeira vista possa parecer. Afinal, onde está a Verdade?
Terá a ciência descoberto, finalmente, a verdade? Duvido.”
Não é por não saber onde está a verdade que o relativismo é complexo, até porque, para o relativismo a verdade é um dado certo: ela é relativa, ponto. O problema está em pensar se a verdade “todas as verdades são relativas” é ela mesmo uma verdade. Se for verdade que “todas as verdades são relativas” então também tem de ser verdade que “nenhuma verdade é relativa”, a sua contrária. Repare ainda outra coisa: se for verdade que “todas as verdades são relativas” então “algumas verdades não são relativas” terá de ser falso. Ora isto significa que algumas verdades são absolutas. Não sei se estou a ser claro, mas o relativismo é racionalmente insustentável.
Em relação à ciência, lembro-me de Russell quando disse que a ciência não é completamente certa, mas também não é completamente errada e é, apesar de tudo, a coisa mais certa que temos. A ciência ou a filosofia

“Falo da ciência. Como poderia falar da religião. Também esta orienta a sua “investigação” no sentido da verdade”
É falsa esta comparação. A verdade da religião é verdade revelada por autoridade ao passo que a verdade na ciência resulta da investigação racional. Não tem paralelo. Claro que as pessoas pensam que uma substitui a outra, mas sabemos que não.

“Um dos símbolos da Filosofia é a "Escola de Atenas", de Rafael. No centro, duas figuras: Platão, apontando para cima e Aristóteles apontando para baixo. O que significa isto? Possivelmente que a Filosofia é um diálogo, não um monólogo. Um diálogo entre teses e antíteses. Toda a História do pensamento humano ilustra isso.”
Completamente de acordo. A filosofia é mesmo isso e é-o porque os problemas da filosofia não são fantasias, são bem reais, mas não outro modo de os tentar resover.
“E, deste modo, desloca-se a verdade da dimensão ontológica para um domínio argumentativo.”
Bem, a verdade ontological situa-se também no plano argumentativo. Temos a tendência a pensar que a ontologia é um terreno místico, mas tal é completamente falso. Os problemas metafísicos da identidade são problemas que se discutem racionalmente com argumentos. Como todos os problemas filosóficos.
“Como referiu Sófocles, a verdade é sempre o argumento mais forte.”
Pois, e Sócrates discutiu muitos problemas ontológicos.
“A Filosofia, como outras ciências Sociais e Humanas, não será propriamente, ou predominantemente, do domínio da demonstração, do constringente mas antes do domínio da argumentação, do verosímil.”
Mas a filosofia recorre constantemente a argumentos dedutivos. Creio que o que queres dizer é que em filosofia não temos a possibilidade de experimentação que temos, por exemplo, nas ciências empíricas. Ok, aí tudo bem. É que a argumentação pode ser demonstrativa, como o é no caso da validade formal. E a validade formal é um dado importante em filosofia.

“Encontra no campo da racionalidade argumentativa o seu domínio por excelência. Como discutir a questão do aborto? Em termos matemáticos? Ou em termos de maior ou menor plausibilidade das teses?”
De ambas as formas. Não te esqueças que uma das condições do argumento bom é a sua solidez e um argumento só é sólido se tiver premissas e conclusão verdadeiras (e for válido, claro). Mas isto não é matemática, são as leis do pensamento. Para além de tudo é conveniente não esquecer que a matemática formula problemas, que são ideias.
“No Irão, por exemplo, a verdade está no Alcorão.”
Pois, mas isso não é a verdade, é “a verdade”. Para o Pinto da Costa a verdade é o FCP.
“Mas o papel do professor de filosofia, no ensino secundário, não é seguir uma linha exclusiva de pensamento. Tal seria redutor.”
Pois, o papel do professor de filosofia no secundário ou fora dele é o de ensinar filosofia.

CONTINUA
De rolandoa a 13 de Maio de 2008 às 00:48
“O relativismo não impede, no entanto, a defesa intransigente, no campo axiológico, de valores supremos, indiscutíveis, como a dignidade humana, por exemplo. Mas pouco mais.”
Pois não impede. E por essa razão é que, segundo o relativismo, temos de admitir que em determinados países se deve apedrejar mulheres infiéis publicamente até à morte, porque em causa está a dignidade humana. E devemos admitir que não existe problema algum em matar infiéis à bomba, como se faz no médio oriente, ou não há nada de imoral em atirar aviões civis contra torres em Manhatan, precisamente porque o que está em causa em todos estes actos, segundo quem os praticou, é a dignidade humana. Pois é… o relativismo é realmente um projecto que salvaguarda a dignidade humana. Talvez até isso seja relativo, não?
Rolando Almeida

De Carlos Silva a 13 de Maio de 2008 às 01:41
Rolando

Não petendo transformar isto num jogo de futebol, mas tenho algumas objecções argumentativas a fazer:

1. O relativismo conduz-nos mais depressa ao cepticismo do que a outra coisa qualquer. Claro que é uma posição desconfortável mas continuo a perguntar: onde está a verdade? Diz-me?!!

2. A contrária de "Todas as verdades são relativas" não é verdadeira mas sim falsa. Duas contrárias não podem ser simultaneamente verdadeiras; se uma é verdadeira a outra é necessariamente falsa. Mas podem ser ambas falsa.

3. Mesmo que o relativismo não seja racionalmente sustentável, sê-lo-á a suposta verdade absoluta?

4. Quanto ao facto da religião ser revelada, é verdade. Mas convém não esquecer que existe a fundamentação racional do conteúdo religiosa. Que outra coisa constitui a patrística e a escolástica senão a fundamentação racional dos dogmas da fé? A partir de Platão e Aristóteles. Basta recordar o célebre "Credo ut intelligam" de Sto Anselmo! Creio para compreender. Fé e razão equacionadas.

5. Se a verdade é do domínio do Ser, onde está ela?! Claro que em Platão e Sócrates (não Sófocles) se confundem os planos ontológico, gnosiológico, antropológico. Mas muitos dos diálogos estão inconcluídos. E o núcleo desses diálogos é a racionalidade argumentativa.

6. Um argumento sólido tem que ser composto por premissas verdadeiras e ser válido. de acordo. Mas não é da verdade que estamos a discutir? Falácia da Petição de princípio?!

7. Fora das escolas não me compete ensinar filosofia nem ninguém me paga para isso!

Cordialmente,
CArlos JC Silva
De Carlos Silva a 13 de Maio de 2008 às 02:15
(Cont)

8. Creio que o conceito de dignidade humana não é relativo, ou é?
O relativismo cultural, por exemplo, impõe um mínimo denominador comum a que toda a diversidade de valores se deva subordinar. A tolerância tem limites. A diversidade não pode significar a legitimação de práticas indignas. Dignidade só há uma e é diferente de orgulho, por exemplo.

Carlos JC Silva
De Carlos Silva a 13 de Maio de 2008 às 02:44
“O relativismo não impede, no entanto, a defesa intransigente, no campo axiológico, de valores supremos, indiscutíveis, como a dignidade humana, por exemplo. Mas pouco mais.”
Pois não impede. E por essa razão é que, segundo o relativismo, temos de admitir que em determinados países se deve apedrejar mulheres infiéis publicamente até à morte, porque em causa está a dignidade humana. E devemos admitir que não existe problema algum em matar infiéis à bomba, como se faz no médio oriente, ou não há nada de imoral em atirar aviões civis contra torres em Manhatan, precisamente porque o que está em causa em todos estes actos, segundo quem os praticou, é a dignidade humana. Pois é… o relativismo é realmente um projecto que salvaguarda a dignidade humana. Talvez até isso seja relativo, não?

Rolando,

Quem lança aviões contra as torres de Manahatan muito provavelmente acredita que está na posse da verdade absoluta. Só assim se compreende tal acto. Não é o relativismo que conduz a isso mas o fundamentalismo, o sono dogmático, a crença cega na suposta verdade absoluta (revelada ou outra). Com efeito, se eu acredito que possuo a verdade, que sou detentor de tal maravilha, para ser coerente não posso admitir o contrário que será a mentira! Portanto, ou converto o que se me opõe, ou aniquilo-o. Lê, a esse propósito, "O Fim Da Fé" de Sam Harris (Univ. de Stanford).

Carlos JC Silva
De rolandoa a 13 de Maio de 2008 às 02:55
Nem mais Carlos. Mas é a afirmação duma verdade relativa, como o foi a verdade relativa da xenofobia de Hitler. O relativismo é perigoso precisamente por essa razão.
Já li o livro do Harris. Da fornada de livros ateus que sairam em língua portuguesa recentemente, esse foi o primeiro que li. sabes que o Harris vem da filosofia? Gostei do livro, até mesmo que do Dawkins, mas é muito combativo. Por acaso ainda não temos em língua portuguesa uma boa introdução à filosofia da religião, actual e fresca, mas já ouvi rumores que vai sair qualquer coisa para breve.
Abraço
De rolandoa a 13 de Maio de 2008 às 02:50
argumentativas a fazer:

Viva Carlos,
estamos a conversar. Peço-te que estejas à vontade.
Ora bem, pareces sugerir algum cepticismo no que respeita à verdade no conhecimento, mas quando falaste de religião invocaste a sustentação racional. Eu não sei o que é a verdade nem se algum dia é possível alcança-la, mas, pelo menos pessoalmente, não estou grandemente preocupado com isso. Mas o que pareces sugerir foi precisamente o que os cépticos, pelo menos na versão mais radical, sugeriram: bem , o conhecimento não será possível porque não conseguimos fundá-lo em lado algum. A verdade total é algo meio fictício e nem interessa seja a quem for, mas existem verdades sobre as quais existe amplo consenso. Carambas, não sou especialista em matéria alguma, mas creio que é mais ou menos compreensível que o cepticismo é uma posição muito mais furada que as posições fundacionais. Bem, pelo menos a posição do cepticismo radical. Os filósofos vão discutindo sobre, vá lá, qual é o melhor modo de falhar o menos possível. Lamento desiludir-te mas não te sei dizer onde está a verdade 


“2. A contrária de "Todas as verdades são relativas" não é verdadeira mas sim falsa. Duas contrárias não podem ser simultaneamente verdadeiras; se uma é verdadeira a outra é necessariamente falsa. Mas podem ser ambas falsa.”
Pois é, desculpa. Falhei. Obrigado pela correcção. São inconsistentes precisamente porque não podem ser ambas V. Se uma é V, a outra tem de ser F, apesar de poderem ser ambas F.

“3. Mesmo que o relativismo não seja racionalmente sustentável, sê-lo-á a suposta verdade absoluta?”
Creio que sim se pensarmos que o conhecimento é possível. É uma verdade consensual que o sol está no centro do sistema solar.



6. Um argumento sólido tem que ser composto por premissas verdadeiras e ser válido. de acordo. Mas não é da verdade que estamos a discutir? Falácia da Petição de princípio?!
É pois o problema que estamos a discutir. Então arranja lá um argumento sólido e cogente. Há maneira de o refutar? Problema é que estes argumentos, em filosofia, são ouro.

“7. Fora das escolas não me compete ensinar filosofia nem ninguém me paga para isso!”
Eu sou um bocado agarrado à camisola. E se começar a falar filosoficamente sem que fale no nome filosofia, diz-me a experiência que é do agrado de muita gente. Depois, quando lhes digo que estava a pensar filosoficamente, quase não acreditam, tal é a ideia idiota que lhes passaram da filosofia.
Conclusão: eu não sei se te estás a referir a uma ideia de verdade que seja absolutamente absoluta. Bem eu nem sei bem o que isso possa ser. Creio que é necessária muita imaginação para vislumbrar o que é uma verdade assim. Creio que o mais importante em filosofia é saber como é que a verdade é possível e não propriamente o que é a verdade. Não sei se isto ajuda muito, mas espero que sim.
Abraço
Rolando

De Carlos Silva a 13 de Maio de 2008 às 03:20
Rolando,

Continuamos a conversa noutra altura.
Amanhã é dia de trabalho.

Abraço,
Carlos

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Rolando Almeida


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