Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

O Argumento do Contrato Hipotético de John Rawls

O principal pensamento de Rawls é que, embora a justiça requeira imparcialidade, a imparcialidade pode ser modelada através do pressuposto de ignorância. Isto abre caminho a um argumento do contrato hipotético. Para tornar isto claro, consideremos o seguinte exemplo (por acaso, não é apresentado por Rawls).
Suponhamos que, num futuro não muito distante, deixa de haver oferta de árbitros de futebol. (Imaginemos que, desiludidos com os insultos que lhes são dirigidos pelos jogadores, passam a dedicar-se todos ao tiro com arco.) Para muitos jogos, torna-se impossível descobrir um árbitro neutro. Suponhamos que foi isto que se passou no jogo entre o F. C. Porto e o Benfica e suponhamos também que o único árbitro qualificado a assistir ao desafio é o presidente do F. C. Porto. Compreensivelmente, o Benfica não aceita a proposta de que seja ele a arbitrar o jogo. Contudo, a Liga de Futebol sabe que este problema surge de tempos a tempos e, por isso, inventou um fármaco. Quando tomamos esta substância, a nossa conduta é perfeitamente normal, com excepção de um aspecto: temos uma perda muito selectiva de memória. Deixamos de ser capazes de dizer qual o clube de futebol de que somos presidentes ( e também não conseguimos ouvir qualquer pessoa que tente recordar-nos). Tendo tomado o fármaco em questão, como iria o presidente do F. C. Porto arbitrar o jogo?
A resposta é: poderia ser imparcial. Sabe que é presidente de um dos dois clubes, mas não qual. Assim, se escolher favorecer aleatoriamente uma equipa, pode vir a descobrir que prejudicou o seu próprio clube. Se presumirmos que ele não quer correr o risco de malograr injustamente as perspectivas do seu clube, só lhe restará agir tão justamente quanto lhe seja possível e deixar o jogo desenrolar-se de acordo com as regras. A ignorância gera imparcialidade.
Com isto em mente, podemos analisar a concepção de Rawls da posição original. As pessoas na posição original – os contratantes hipotéticos – têm à sua frente um «véu de ignorância» que não lhes permite aperceberem-se das suas circunstâncias particulares. Devido a esta ignorância, não sabem como ser parciais a seu favor e, assim, vêem-se obrigadas a agir imparcialmente.
 
Jonathan Wolf, Introdução à Filosofia Política, Gradiva, col. Filosofia Aberta, 2004, pp.222-224
Obs: Na tradução portuguesa os clubes de futebol aparecem como no original, o United e o City. Alterei para o contexto português.
publicado por rolandoa às 23:05

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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