Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Um brilho no Logos

Enquanto fui lendo o Logos, coloquei duas questões às quais devia responder. São as respostas a essas questões que a seguir apresento.
 
O que é que faz do Logos um bom manual?
O Logos é claramente um dos melhores manuais concebidos para o 11º ano. Mas há alguns pontos de organização que me fazem hesitar para a sua adopção. Começando pelas virtudes:
O manual está bem escrito com exemplos claros para os estudantes.
 
Rolando Almeida

Só no todo nos apercebemos da clareza da linguagem usada, mas dou um pequeno exemplo: Para explicar a  mudança de conector na lógica proposicional, oferece-se um exemplo muito intuitivo como:
O António comprou um disco ou um livro, Logo, o António comprou um disco” e a seguir explica-se: “Agora a situação mudou radicalmente. A premissa diz-nos que o António fará uma coisa ou outra, mas não obrigatoriamente ambas. Neste caso, para a premissa ser verdadeira, basta que uma das proposições simples que nela ocorre seja verdadeira – por exemplo, o António compra um livro. Mas, neste caso, a premissa é verdadeira e a conclusão falsa. O argumento é inválido.” (Página 23). Mas dou outro exemplo, até muito engraçado, para a distinção entre validade e verdade: “a lógica não nos pode dizer se as proposições que constituem este argumento são verdadeiras ou falsas: não é a lógica que diz se vai chover, mas a Meteorologia; não é a Lógica que permite saber em que condições o feijão cresce, mas sim a Química ou a Biologia. Nem é esse o seu objectivo. O objectivo da Lógica é determinar se entre as premissas e a conclusão há uma relação de consequência lógica, de que depende essa relação” (página 15). O exemplo dado era: “Ou chove ou o feijão não cresce, Não chove, Logo, o feijão não cresce”.
As noções são expostas ao estudante de forma precisa e cuidada, sem atropelos pelo meio e confusões.
 Particularmente interessante é uma página dedicada à intencionalidade no conhecimento (página 95), na qual se dá uma ideia simples, não havendo necessidade do discurso errado que é comum aparecer sobre a fenomenologia. Este tratamento no Logos é mais eficaz e directo.
Finalmente, como nota muito positiva está o facto do manual ser preenchido quase na totalidade com o texto dos autores evitando o erro de se ocupar páginas e páginas com fotografias e texto alheio.
 
Mas o que é que faz com não seja perfeito?
Vou indicar um ponto ou outro que merece revisão para uma futura reedição do manual. Mesmo assim considero que estes apontamentos não fazem do Logos um manual menos bom, mas podem torná-lo menos competitivo e apelativo.
 Na lógica proposicional, para verdadeiro e falso são usados os zeros e uns e não os mais convencionais em filosofia “V” e “F”. Seria, na minha opinião, melhor usar o “V” e “F” que é mais corrente na filosofia e deixar os “0” e “1” para a matemática, ainda que nada aqui esteja errado.
Os exercícios não têm solução de respostas no caderno do professor. Pelo menos para a lógica é sempre muito útil conter as soluções de resposta.
É bom dar a ideia ao estudante que os argumentos visam convencer racionalmente – estudamos lógica para aprender a argumentar. A melhor forma de o fazer é expor a noção de “cogência” dos argumentos e relacioná-la com solidez e validade.
Na página 11, aparece o comum erro, “Às frases (declarativas) que podem ser verdadeiras ou falsas iremos chamar «proposições»”. Já expliquei neste blog porque é que se trata de um erro. Não podemos, obviamente, chamar às frases de proposições pela razão que as proposições não são frases.
Na página 143 apanhamos outra imprecisão quando se afirma que, «Deste modo, a Filosofia da Ciência é uma área da Epistemologia (ou Teoria do Conhecimento), que se debruça sobre o conhecimento científico». A filosofia da ciência não é uma área da epistemologia. A filosofia da ciência envolve problemas que não são problemas epistemológicos.
Nos temas e problemas só temos um tema em opção, mas muito completo, que é o do aborto. Considero preferível um só tema bem tratado que três mal tratados, mas também é certo que, em temas de opção no programa, o professor fica limitado (já agora aproveito para dizer que também nunca percebi qual a razão de ter temas em opção no programa). O caderno “livro do professor” oferece outros temas, mas a organização é completamente diferente daquela que é proposta no corpo do manual.
Mais grave que todos os apontamentos anteriores, são os que se seguem.
O manual não apresenta uma bibliografia. Ficamos sem saber quais as traduções usadas, se são dos autores ou de quem. E não se justifica que um manual não apresente uma bibliografia base.
Não se compreende muito bem porque é que o caderno do professor, o do aluno mais o cd rom tem autores diferentes dos que escreveram o manual. Certamente que se trata de uma opção do editor, mas é uma má opção pois o resultado é mau. O caderno do aluno (“caderno de actividades”), por exemplo, tem uma série de fichas com algumas imprecisões que baralham o estudante. O “livro do professor” é tão inútil que nem se justificava a sua publicação. Do CD pouco sei pois só ainda é distribuída a versão de demonstração.
O Logos é um manual competente, mas todos estes pontos que aqui apresento devem ser corrigidos para termos um manual que além de competente, seja excelente. Claro que está entre as 4 melhores opções, mas, entre esses, perde competitividade.


 
publicado por rolandoa às 02:04

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13 comentários:
De António Paulo a 2 de Maio de 2008 às 08:32
Rolando
Concordo inteiramente com a análise que fizeste ao Logos e também considero que o manual da Santillana está entre os 4 melhores manuais para o 11º ano. Fizeste uma análise cuidada e só acrescento alguns pontos.
O manual esqueceu-se de referir as falácias formais (aparecem depois no livro do professor); não indica os argumentos de autoridade e na última unidade apresenta apenas um dos três temas de opção.

De todos os manuais o Logos é o que faz uma abordagem mais acessível às derivações.
É uma muito boa escolha, ainda que não seja a minha primeira.
Um abraço
António Paulo
De rolandoa a 2 de Maio de 2008 às 12:14
António,
Obrigado pelos reparos. Já acrescentei o Este Amor pelo saber.
Esacapa sempre muita coisa na análise aos manuais, mas contribuições como a tua são importantes por isso mesmo. Já não sei se é o meu blog feito para benefício do Arte ou alguns leitores anónimos o usam para desbenefício do Arte. Só não vejo é malta a apontar erros ao Arte, a não seros próprios autores.
abraço
De António Paulo a 2 de Maio de 2008 às 13:36
Rolando:
Apesar de considerar o Arte o meu manual, e respondendo ao teu repto, vou apontar alguns aspectos menos conseguidos (para mim) do Arte de Pensar do 11º ano:
Deveria ter apresentado uma pequena biografia dos diversos filósofos citados: p. ex. Aristóteles, Estóicos, Platão, Descartes, Hume, etc.; a redução ao absurdo deveria ter sido melhor apresentada bem como a secção sobre derivações (apesar de ser opcional); o manual deveria ter desenvolvido mais o capítulo “retórica e democracia”; finalmente, apesar de apresentar a correcção de todos os exercícios propostos não apresenta a correcção do teste de diagnóstico.
São apenas pequenas falhas, mas isso não evita que para mim seja o melhor manual de filosofia actualmente no mercado.
Abraço
António Paulo
De Desidério Murcho a 2 de Maio de 2008 às 14:13
Caro António Paulo

Muito obrigado pelas tuas preciosas críticas! Serão sem dúvida tidas em consideração em próximas edições. Aliás, convido-te a ti, assim como a qualquer outro colega, a fazer-nos chegar todas as críticas e sugestões. O Arte é um manual totalmente aberto às sugestões dos colegas. Podes fazer as críticas públicas que quiseres ao nosso manual no fórum do Arte: aartedepensar.com/forum.

Uma vez mais, obrigado!
De António Paulo a 2 de Maio de 2008 às 18:15
Caro Desidério e demais autores do Arte
Uma coisa que admiro em vocês (contrariamente ao que muitos anónimos para aí insinuam) é a vossa humildade e abertura. Humildade e abertura que se expressa, p. ex., no trabalho conjunto e partilhado com outros autores de outros manuais.
Há pessoas que têm dificuldade em reconhecer que a "frescura" que a filosofia (o ensino da) ainda tem em Portugal a vocês se deve: seja a Crítica, seja traduções de livros e artigos, seja o Arte, seja acções de formação, etc. Não vejo outros (na área da filosofia) a fazerem o que vocês fazem.
Continuem e obrigado pelo vosso trabalho.
Abraço
António Paulo

PS. Eu tenho um filho que estuda numa escola diferente da que lecciono, que vai para o ano para o 11º ano e espero que possa vir a estudar pelo Arte. Se este é o meu desejo é porque verdadeiramente considero o Arte um excelente manual.
De Anónimo a 2 de Maio de 2008 às 10:17
Depois quando se lhe diz que as conclusões a que chega, na análise de cada um dos manuais, já estão estabelecidas e empedernidas de preconceito à partida, não percebe: “Enquanto fui lendo o Logos, coloquei duas questões às quais devia responder. São as respostas a essas questões que a seguir apresento. O que é que faz do Logos um bom manual? (…) Mas o que é que faz com não seja perfeito?”. E já agora pare de se chorar e deixe que lhe lembre algo que parece ter esquecido. O Rolando não faz crítica de manuais por altruísmo, fá-la porque quer, porque isso lhe dá prazer, porque o ano passado assim foi sugerido no fórum do Arte, em pleno período de análise de manuais, diga-se. A ideia foi proposta por António Gomes, lembrando o que tinha sido feito no ciclo anterior por Paulo Ruas, Júlio Sameiro e outros e o desafio foi lançado por um dos autores do Arte, como forma de “mostrar o carácter verdadeiramente alternativo do Arte em relação aos outros manuais”. Dizia António Gomes na altura: “(…) não me importaria de (ao contrário: agradeceria) que, por exemplo, fossem aqui apontados erros científicos a outros manuais (ou insuficiências pedagógico-didácticas)” (18-Maio-2007). Outros autores do Arte vieram imediatamente dizer que não o fariam e deixaram a iniciativa para outros e o Rolando aceitou o repto (ou mordeu o isco…) e é por isso que cá estamos. Quanto aos rótulos, à terminologia e categorização dos manuais em hermenêuticos, analíticos ou socráticos, é no próprio círculo do Arte que estes surgem e não fora dele. Portanto, paremos de brincar ao “toca-e-foge”. Ninguém aqui anda distraído, é neutro e, muito menos, ingénuo.
De rolandoa a 2 de Maio de 2008 às 12:09

Caro Anónimo IP: 78.130.10.96

A sua capacidade de análise dos factos é verdadeiramente espantosa. Obrigado por me ter mostrado que eu caí na armadilha da conspiração. Já agora! Será ingenuidade aceitar passivamente um mau manual? Será ingenuidade deixar as coisas muito sossegadinhas para não chatear ninguém De todo o modo se aparecer algum manual feito por um "anónimo" já sei que é o seu. É que isto da ingenuidade tem muito mais que se lhe diga e talvez muito antes do anónimo saber da teoria da conspiração, eu também me armava em soldado do povo. E se topou na altura a conspiração, porque é que não a denunciou? Tem medo e é cobarde? Mas, caro anónimo, onde vê conspiração, eu não vejo. Conspiração é viver sem a possibilidade de publicamente assumir as nossas posições. É verdade que o Gomes lançou o desafio e sabe o que pensei na altura: “Toda a gente diz o que se deve e não deve fazer, mas realmente fazer??”, tanto que é que, quando o trabalho ficou pronto, me dirigi no fórum ao Gomes dizendo-lhe “trabalho feito”. Mas se não concorda e acha que tudo não passa duma conspiração por que razão não faz um trabalho sério e honesto? Isto é que eu acho malicioso da sua parte. Vem para aqui insinuar conspirações, mas não é realmente capaz de se dar ao trabalho de escrever um blog ou uma página, nos jornais, etc… onde faça crítica de manuais isenta, idónea e justa. Faça-o! Faça-o! Aliás, para gente como o anónimo, até disponibilizei o meu blog. Escreveu alguma coisa digna? Zero é a sua contribuição. Devia ter-se dedicado a ser detective e não a ser professor de filosofia. Vejo mais conspiração no seu comentário do que no repto do Gomes ou dos autores do Arte (já agora na sua investigação esqueceu-se de citar quem foi e o que disse)
De rolandoa a 2 de Maio de 2008 às 17:13
Ah, esqueci de referir que o anónimo me fala de uma terra muito próxima da minha, que é Valongo, Porto. Eu nasci em Castelo de Paiva.
De A. Gomes a 13 de Maio de 2008 às 15:28
Que fique bem claro: se há conspiração, eu (A. Gomes) não tenho nada que ver com essa estória. As minhas divergências (filosóficas) em relação a algumas teorias de (alguns) autores do Arte são antigas e públicas -- o que me não impede de considerar que o Arte é, apesar de tudo (hoje mesmo vou fazer saber aos meus colegas as limitações que lhe aponto) e actualmente, o melhor manual dos que conheço.

Mais: também é público que não alinho em "compadrios". Sou amigo de um dos autores de um outro manual, o que me não impediu de achar que não era o melhor manual nem de exprimir publicamente a minha opinião.

Como diria o outro, acredite quem quiser...
De rolandoa a 13 de Maio de 2008 às 17:38
Nem mais Gomes. Reuno exactamente as mesmas condições. Também sou amigo de um autor de um manual que não gosto.
É mesmo assim. Preto no branco :-)
De Paulo Ruas a 16 de Junho de 2008 às 14:10
Caro Rolando,

Obrigado pela crítica. Na verdade, um dos problemas do Logos reside no facto de os autores do manual não serem também os responsáveis pelos restantes cadernos. É a política da editora, que não nos coube definir.

Uma nota mais. O uso de "proposição" para referir as frases declarativas com sentido é estritamente estipulativo: destina-se a evitar assumir a existência de pensamentos fregeanos (ou algo de semelhante) e a explicar em que sentido o termo irá ser usado. Há um breve comentário sobre isto no artigo dedicado ao Outro olhar sobre o mundo. Há vários manuais de lógica que optam por este expediente (podendo ser vários os motivos).

Abraço
De rolandoa a 16 de Junho de 2008 às 14:43
Paulo,
Na realidade o Logos é um excelente manual e lamento que não seja mais adoptado. Na minha escola lancei-o como opção, a par com os outros 3 que são bons manuais (criticamente, LR e Arte). Entretanto soube que foi adoptado pelo numa escola da Madeira, o que me deixou feliz. A opção editorial pelos cadernos à parte é realmente errada, pois ao passo que o manual é limpo de erros, os cadernos estão cheios de falta de rigor.
Aceito que exagerei ao considerar a da "proposição" um erro. Na verdade trata-se de uma subtileza que não atrapalha muito. Eu estou sempre numa posição atrapalhada que é não ser autor de manuais, mas fazer análise de manuais :-) A dizer a verdade faço-o por uma razão muito, muito simples: para que raio vou adoptar um mau manual se tenho 4 bons? Grande parte dos colegas não analisam manuais, pelo que dificilemnte sabem distinguir e eu resolvi oferecer-lhes o meu trabalho. Só por curiosidade: no final de todo o traballho e também por razões de espaço, só fico com os bons manuais. O logos (10º e 11º) ficam na prateleira :-)
Parabéns pelo vosso trabalho que muito apreciei.
abraço
De Sara Gonçalves a 14 de Novembro de 2011 às 23:30
 Ola , 
sou a Sara , frequento a disciplina de filosofia no 11º ano numa escola em Lisboa e acho que o livro de 11º ano esta excelente (sendo que não tive o logos no 10º) , por acaso neste momento estava a acabar de estudar e fui ao caderno de actividades para conciliar o meu estudo com as perguntas do caderno de actividades e depois de as fazer reparei que não tinham soluções por isso vim a Internet para ver se conseguiria encontrar alguma coisa .
Como aluna , na minha opinião, o livro do caderno de actividades poderia ter soluções para poder-mos verificar as nossas respostas , por exemplo na escolha múltipla : esta um pouco 'confusa'  o que é bom para nos poder-mos pensar , mas não temos maneira de as verificas 
também percebo a parte dos professores , pois existem alunos que se servem das soluções incorrectamente.
ainda assim muito parabéns , acho o livro muito bom 
adeus  

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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