Terça-feira, 29 de Abril de 2008

Triturar Mitos

Uma das funções da verdade, desde os filósofos gregos, é triturar mitos, não com o simples objectivo de os triturar, mas porque quando colocamos os miolos a pensar, duas ideias juntas nos fazem perceber a irracionalidade dos mitos. Ora o mito tem muitas expressões e uma das expressões do mito é a ideia feita ou preconceito. E, na filosofia, não cabem argumentos como “ah, ok, temos preconceitos, mas quem não os tem?” para legitimar o facto de sermos preconceituosos. Em filosofia pensamos e se é preconceito revemos as nossas posições. Como? Argumentando.
Rolando Almeida

É precisamente esse o efeito da discussão pública em filosofia. Isto vem a propósito de um comentário que tenho ouvido e lido as vezes suficientes para escrever aqui qualquer coisa para desmascarar o que me parece claramente falso. O comentário consiste no seguinte: “Não gosto do manual X porque vem com tese-argumento-tese, porque privilegia autores anglo saxões, porque é analítico e porque é complicado para os alunos. Mas gosto do manual do Y (que é, no entanto, um manual concebido com os mesmos ingredientes)”. Isto parece-me irresponsável, porque os manuais são muito próximos no tratamento que dão à filosofia e acontece que as razões invocadas para não gostar do manual X teriam de ser as mesmas para aplicar ao Y. Isto faz-me lembrar uma velha história que assisti algumas vezes na vila nortenha onde nasci e cresci: divertia-me a ver num café próximo de casa, um vendedor de cerveja a trocar o rótulo das garrafas para que o cliente pensasse que estava a beber a cerveja X quando estava era a beber a cerveja Y. E porquê? Porque os clientes tinham a mania que a cerveja Y era muito mais fraca que a X. Mas o vendedor vendia-lhes a cerveja Y com o rótulo da X (por essa razão tinha sempre as cervejas numa bacia de água para remover o rótulo com facilidade) e assim os clientes já gostavam. Este exemplo que assisti ainda pequenino revelou-me que aqueles clientes bebiam rótulos e não cerveja, porque ambas as cervejas eram muito boas, tão boas que nem se distinguiam a um bebedor comum. E este argumento de “odeio X, mas bom é Y” também me parece uma questão de rótulo e nada mais. E com isto não estou sequer a afirmar que os manuais se copiam ou são iguais, longe disso.
O que estou a afirmar é que neste argumento, existe uma boa dose de resistência mitológica e irracional.
Curiosamente pensa-se que existe muita metafísica na concepção de manuais. Os manuais não têm de ser originais, cheios de macacada pelo meio para os animar. Os manuais tem de ser isentos e rigorosos e expor as ideias centrais da filosofia de forma estimulante para o aluno e pela base. Um critério que deve presidir a escolha de manuais é a clareza de linguagem com que se expõem os problemas. Mas não se confunda clareza com fugir da filosofia para falar de historietas aos estudantes. Clareza é explicar Kant ao aluno, sem fugir dos seus argumentos centrais, e numa linguagem clara. Quem disse que isto era fácil? Estimular é usar o que Kant defendeu para pôr o estudante a pensar.

publicado por rolandoa às 13:52

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40 comentários:
De Anónimo a 29 de Abril de 2008 às 16:53
«Os manuais não têm de ser originais, cheios de macacada pelo meio para os animar. Os manuais tem de ser isentos e rigorosos e expor as ideias centrais da filosofia de forma estimulante para o aluno e pela base. Um critério que deve presidir a escolha de manuais é a clareza de linguagem com que se expõem os problemas. Mas não se confunda clareza com fugir da filosofia para falar de historietas aos estudantes. Clareza é explicar Kant ao aluno, sem fugir dos seus argumentos centrais, e numa linguagem clara. Quem disse que isto era fácil? Estimular é usar o que Kant defendeu para pôr o estudante a pensar.»

Parece que o tal estudo está, enfim, a dar frutos. Algum bom senso é refrescante, depois de tanta - como dizer? - asneira. Faz-nos acreditar na natureza humana...
Pena é os manuais estarem a acabar. A este ritmo, acabaríamos por dispor de recensões realmente úteis e sensatas. Ah! e de comentários menos ressabiados.
De rolandoa a 29 de Abril de 2008 às 17:01
Caro,IP: 83.132.140.127
Eu não conheço nenhum colega que se tenha disposto a escrever sobre os manuais, por mais que eu até tenha tido a iniciativa de convidar os colegas, inclusivé, disponibilizando o meu blog. Para mim teria sido muito interessante que eu trabalhasse 2 manuais e os ouros fossem trabalhados por outros colegas. mas, no final, a nível nacional é mesmo com isto que ficámos: o meu trabalho por um lado, que foi feito entre a meia noite e as quatro da manhã, com aulas logo pela manhã e uma gigantesca colecção de comentários de treinadores de bancada que são professores de filosofia como eu e que devem estar tão interessados na qualidade do seu trabalho quanto eu.
Não tenho mais nada a dizer-lhe.
De David Duarte a 2 de Maio de 2008 às 13:13
Rolando,

O maior mito existente é aquele que crê, pois trata-se de uma crença, que a racionalidade dispensa o mito, que a filosofia dispensa o mito (nem os gregos de que fala o fizeram).

Espero contudo que não reduza o mito ao preconceito. Compreendo que o tenha feito para escrever este texto, na medida em que se não o fizesse deixaria de poder expôr todo o seu racionalismo. Parto do principio, não o reduzindo a si a este pequeno texto, que não tem uma concepção assim tão limitada sobre a coerência e a logica mitica, ou a falta dela segundo o que o seu texto me da a compreender
De rolandoa a 2 de Maio de 2008 às 16:38
Caro David,
Essa concepção do mito e da filosofia grega é errada. De todo o modo, se confiar nas autoridades, uma leitura acessível e rigorosa sobre o assunto, pode encontra-la em Carl Sagan, Um mundo infestado de demónios, Gradiva. Se o mito leva ao questionamento, com efeito, o culto grego é o da racionalidade. Aliás, os gregos viviam muito indiferentes aos deuses. Existe uma infinidade de referências a esse respeito. Para além de Sagan, tem, na filosofia, a História da filosofia de Anthony Kenny, um padre de Oxford, em 4 volumes que lhe pode explicar a relação Filosofia/ mito bem melhor que eu.
Abraço e obrigado
De Carlos Silva a 4 de Maio de 2008 às 00:06
Rolando,

Em Platão, por exemplo, há muito de consciência mítica. Isto só para dar um exemplo. No entanto, não há unanimidade no que concerne à questão da transição do "Mito" ao "Logos". Recordo Werner Jaeger (Paidéia) que defende uma continuidade; ao invés, J. P. Vernant (As Origens do Pensamento Grego) argumenta a favor de uma ruptura, em nome do chamado "milagre grego". Pessoalmente, interpreto a consciência mítica mais numa perspectiva pré-racional do que propriamente irracional, até porque há toda uma intenção de tornar inteligível a realidade, só que de uma forma muito peculiar.

Abraço,
Carlos Silva
De rolandoa a 4 de Maio de 2008 às 01:01
Caro Carlos,
Conheço os estudos que me refere. SAão dois clássicos usados nas universidades portuguesas, pelo menos do meu tempo. Existem centenas de estudos, uns mais sérios que outros (os que indicou são obviamente sérios) que abordam esse problema, o do mito e da razão. Claro que a passagem do mito à razão não se faz num estalar de dedos. Penso que é tudo uma questão de definição de termos: pré racional é antes da razão, logo irracional porque desconhece o uso que posteriormente se deu à razão. . Irracional normalmente é usado em sentido pejorativo, um estado de recusa da racionalidade. Bem, não usei o termo nesse sentido. E assim sendo, nada mais tenho a acrescentar, porque estou de acordo com o que o Carlos explicou. Segundo sei, o cristianismo acabou com arelação democrática entre os seres humanos e os deuses e o deus único passa a regular toda a nossa capacidade de pensar.
abraço e obrigado
De David Duarte a 5 de Maio de 2008 às 14:46
Rolando,

A questão essencial é a de querer separar racionalidade e imaginario. Ao fazê-lo o Rolando não defende a razão mas o racionalismo. Mesmo o positivismo, que queria libertar o mundo da crença, teve de, para fazê-lo, se transformar numa religião.

Leia Bachelard e vai ver que nem a razão é pura (porque razão haveria ela de ser) nem os produtos do imaginario demonios
De rolandoa a 5 de Maio de 2008 às 16:19
Caro David,
Agradeço os esclarecimentos e a sugestão de leitura, mas creio que o David arrisca relações pouco consistentes no que diz. Bachelard foi tido como o embaixador da epistemologia na França, um divulgador da epistemologia e pouco mais. Hoje em dia Bachelard é citado em ZERO introduções à epistemologia, dada a sua irrelevância neste campo de estudos.
O David nem sequer percebe o que digo porque é o David quem separa as coisas: mas quando e por que razão separei imaginário de racionalidade??? O que não faço e o David faz insistentemente é relações vagas onde tudo vale.
De David Duarte a 6 de Maio de 2008 às 15:51
Zero introducções daquelas que lê. Mas apenas essas merecem leitura não é?
De rolandoa a 6 de Maio de 2008 às 15:57
Caro David,
Sim, das que leio, que são também aquelas que são as mais credíveis, provenientes dos maiores centros de estudos em filosofia e não provenientes de universidades obscuras e que pouco produzem. O David não está a doutorar-se em filosofia? E não sabe do que se publica? Se na sua universidade Bachelard é tido como topo de gama em epistemologia, deve questionar a sua universidade e o ensino aí preconizado e não os estudos mais credíveis que existem na actualidade. pode começar por procurar na Companion to epistemology. Foi o David quem me recomendou a leitura de Bachelard e eu respondi-lhe porque não tem interesse hoje em dia o Bachelard, pois não é um autor central na epistemologia.
De David Duarte a 6 de Maio de 2008 às 15:55
Percebo muito bem a sua recusa pelo relativismo. Digo desde ja que não sou relativista. Mas a forma como se prende aos seus idolos é muito proxima de um caso clinico.

A paranoia da Verdade é tão grave como o esquizofrenismo dos relativistas.
De rolandoa a 6 de Maio de 2008 às 16:00
Caro David,
Não sou eu que recuso o relativismo, mas o relativismo que em muitas áreas centrais se revela auto refutante. Caramba pá, o caso Sokal e Bricmont é um caso clínico? é esquizofrenia? Bolas homem, você é que não sai de si mesmo. Lá porque estuda numa universidade francesa acha que tudo o que aí se faz é que é bom?
De David Duarte a 6 de Maio de 2008 às 16:05
Rolando, devo dizer-lhe que me divirto muito consigo... é um ponto positivo.

Realmente se os centros que você toma como referência não citam Bachelard então é porque de facto Bachelard não interessa para a Epistemologia. Continue assim, pois a filosofia sempre se destacou pela sua submissão à autoridade das fontes!!

Mas, calma... não é precisamente este o argumento que apresenta para criticar as Universidades portuguesas e a (suposta) falta de crédito actual da Universidade francesa?
De rolandoa a 6 de Maio de 2008 às 16:30
Caro David,
Não se divirta mais comigo. Proponho-lhe um desafio que espero que aceite: escreva um texto onde mostre a importância singular de Bachelard na epistemologia. Eu publico-o e sujeito-o à discussão pública. E isto para parar de vez com os ataques que me faz, pois se o que está em causa é atacar um ao outro, deixe-me adiantar-lhe que também o sei fazer de modo muito grosseiro. Em relação à universidade: sim, tenho defendido publicamente, como sabe, que a universidade portuguesa, nas ditas humanidades é uma versão pimba das francesas. Infelizmente não possuímos a solidez da cultura francesa, de todo o modo não sou eu quem atesta o estado moribundo das universidades francesas, são os próprios franceses. O que acho estranho é que o David viva em França, esteja por dentro da universidade e não veja isso. De resto também não o admitiu em relação à universidade portuguesa. Portanto não me venha com historietas de que sou eu quem não questiona a autoridade. Precisamente por questioná-la é que tenho descoberto outras coisas no mundo. Fico então à espera do seu texto. mesmo que não concorde com ele, terei gosto em publicá-lo. E só espero que o David não sofra do síndrome muito francófono que só se devem publicar obras de génio.
De David Duarte a 6 de Maio de 2008 às 16:25
"Lá porque estuda numa universidade francesa acha que tudo o que aí se faz é que é bom?" Devo dizer que fiquei desarmado com a força de tal argumento
De David Duarte a 6 de Maio de 2008 às 17:13
Obrigado pelo desafio. Mas não vou fazer esse tal texto. Como já deve ter reparado pelos textos que publico no Café, não é essa a minha área de estudo e estou já bem ocupado com a minha tese para perder tempo em provar-lhe o que quer que seja. Os textos de bachelard existem igualmente em tradução portuguesa. Tome um pouco do seu tempo e leia-os e faça lá a sua opinião. Estou longe de ser um especialista de Bachelard apesar de ter lido os seus livros.

Sobre a Universidade portuguesa, você tem a mania de radicalizar as ideias dos outros para melhor deita-las a baixo, parece-me. Releia a nossa discussão do Café sobre a extinção do curso de filosofia e vera que não tomo a Universidade portuguesa como algo perfeito. O que o Sr. . Rolando não quer perceber é que as minhas intervenções no Café (pois foi ai que tudo começou) tiveram como objectivo mostrar-lhe que as generalizações que você faz têm como consequência uma visão errónea da Universidade em Portugal. Como tudo o que você dizia resumia-se a falar mal, pretendi mostrar-lhe que certos pontos deveriam ser referidos para homenagear o que de qualidade existe. Mas não! Nem isso você admitiu!! (o dono da verdade não tolera a existência de outras verdades).

Sobre o mal da Universidade francesa, bom, ele deve ser relativizado. Já vi que tal exercício não é algo em que você esteja à vontade). Na medida em que vivemos um período de globalização onde uma cultura (ou falta dela) se impôs, é natural que tudo o que não se enquadra nela tenha dificuldades em existir. Contudo, e porque ninguém é obrigado a pensar que um modelo, porque hegemónico , é necessariamente bom, podemos esforçarmo-nos para continuar, em adaptando-o, a seguir uma Weltanschauung que nos caracteriza desde que a Europa foi feita : a da formação do ser humano e não a sua industrialização para o mundo do trabalho. A Universidade francesa (mas muitas outras europeias também) tem se esforçado para se adaptar ao segundo (temos de comer não é?) sem contudo cortar as suas raízes que se encontram na Idade Média (a da formação do ser humano).

A Universidade Francesa està mal. A Filosofia na Universidade francesa està mal? (desculpe os acentos. O teclado é... francês). Um pequeno exemplo. Se estivesse duvido que dispensariam uns milhares de euros para um miúdo de 26 anos organizar um congresso com participantes vindos da Polónia , Roménia, Suíça , Itália , Bélgica e Portugal (se nenhum Inglês foi convidado não pense que é por uma aversão que se tenha contra eles - como já lhe disse, eu não a tenho; as minhas intervençoes limitam-se a querer abrir-lhe os olhos para a existência de outros modelos universitarios e filosoficos com igual dignidade de existência que aqueles que você segue - mas pura e simplesmente porque o quadro estava cheio e que foi privilegiada a intervençao de professores duma Europa muitas vezes ignorada).

Em França publica-se muito, ao contrario do que pensa. E muito do que se publica està longe de ser obras-primas (acho engraçado - mais uma vez! - que julgue mal os ataques que eu lhe faço e contudo você fazer ataques a um pais inteiro... mas pronto, é mais facil atacar uma ideia abstracta que uma pessoa, mesmo que tenhamos vontade de o fazer). Contudo, não é por apenas querer escrever obras-primas que não tomo o seu desafio. Não o faço pela razão que apresentei em cima e sobretudo pela exigência de qualidade que faço a mim mesmo no que escrevo. Penso que esta exigência de qualidade é algo que todos temos. Não estou em condições neste momento de escrever o que me pede e para fazê-lo teria que rever as minhas notas sobre Bachelard , algo impossivel neste momento. E como prefiro a originalidade das fontes sejam elas de ha dois milénios ou de ontem, não lhe vou fazer um resumo de um autor que escreveu sobre a epistemologia de Bachelard. Posso contudo dizer-lhe que daqui a um ano uma tese de excelente qualidade vai sair sobre a Filosofia de Bachelard .

P.S. : Posso contudo fazer-lhe, se desejar, um texto sobre o complexo do Professor de Secundario, do qual o Sr. parece-me padecer. Esse não me tomaria tempo nenhum e, sendo este um espaço dedicado ao ensino secundario, uma critica aos professores de secundarion poderia ser interessante
De rolandoa a 6 de Maio de 2008 às 17:46
Caro David,
Eu não sei porque afirma que Bachelard é importante, porque se recusa a escrever uma linha que seja para mostrá-lo. De resto, já esperava a sua reacção. O meu convite está de pé. O que eu acho é que o David padece de uma falta de conhecimento grosseira da filosofia, isso sim. Os ataques que faço não são em relação ao que se publica em França, mas em relação á sua atitude provinciana da filosofia. Claro que está dispensado de escrever o quer que seja sobre a complexidade do professor do secundário, se o David nem sequer reconhece a complexidade de determinadas áreas da filosofia. A prová-lo está o terrorismo verbal que usa para florear o vazio de conteúdo sobre a globalização e quejandos que tais. Aliás, o que referiu não passa de ideias feitas.
De rolandoa a 6 de Maio de 2008 às 17:46
Caro David,
Eu não sei porque afirma que Bachelard é importante, porque se recusa a escrever uma linha que seja para mostrá-lo. De resto, já esperava a sua reacção. O meu convite está de pé. O que eu acho é que o David padece de uma falta de conhecimento grosseira da filosofia, isso sim. Os ataques que faço não são em relação ao que se publica em França, mas em relação á sua atitude provinciana da filosofia. Claro que está dispensado de escrever o quer que seja sobre a complexidade do professor do secundário, se o David nem sequer reconhece a complexidade de determinadas áreas da filosofia. A prová-lo está o terrorismo verbal que usa para florear o vazio de conteúdo sobre a globalização e quejandos que tais. Aliás, o que referiu não passa de ideias feitas.
De David Duarte a 6 de Maio de 2008 às 18:16
Que esperava que eu não escrevesse ja eu o sabia. Contudo não diga que não percebe a razão, visto que eu apresentei-lhe duas. Se não as aceita, isso é o seu direito, agora não faça como se elas não existissem.

Sobre a minha falta de conhecimento filosofico, os ignorantes são sempre os outros.

Sobre o facto de não estar interessado em que eu publique no seu blog um texto sobre o "complexo do professor secundario", apenas prova a existência de um do pontos da minha teoria : a falta de espirito auto-critico. Dou-lhe um exemplo. No site FilosofiaViva foi feita uma sondagem para saber qual a razão da dificuldade dos alunos em compreender a filosofia. Se bem me lebro três razões foram propostas, entre as quais a qualidade dos livros ou ainda a dificuldade da linguagem utilizada (cito de memoria). Ora, e que surpresa, não foi colocada a hipotese que tal desinteresse pela filosofia venha da falta de qualidade dos professores secundarios. Aqui se encontra uma razao plausivel (o que nao significa que seja verdadeira) para o desinteresse pela filosofia e algo que mereceria ser discutido. Mas quando os proprios professores do secundario, solidos nos seus conhecimentos, nao se colocam em si em causa...
De rolandoa a 6 de Maio de 2008 às 18:29
Caro David,
Não aprecio a sua atitude, que é provinciana e tipica portuguesa.
1º crítica, mas quando lhe pedem para explicar, refere que teria de fazer alta investigação (busca de notas, obras originais, etc...) para escrever duas ou três linhas sobre um problema. Belo exemplo didáctico, esse. Meu caro, que lhe custa escrever uma ou duas coisas que esclareça os que menos sabem? Não precisa de alta costura para mostrar um ou dois padrões de moda. Mas quando são confrontados para trabalhar, acobardam-se logo. Very tipical.
2º Critica a falta de qualidade dos professores do secundário, mas não move uma palha para melhorar essa falta de qualidade. faça um manual, reveja outros, faça crítica pública de forma pedagógica apontando erros. Faça-o David!! Pelo menos é mais interessante do que andar a fazer aquilo que todos, incluindo os professores, fazem, que é criticar que há falta de qualidade. E, já agora, donde vem essa falta de qualidade? Não vem das instituições que os deformam? Raios, homem, pense!
David, se lê o meu blog devia ser sensato e intelectualmente honesto para ter percebido que eu coloco mais em causa uma ou outra ideia que defendo do que o próprio David coloca (as minhas ideias, entenda-se).
Eu acho muito bem que o David produza, que divulgue a filosofia e que a discuta e, quando o convidei para escrever divulgando um autor, meteu o rabo entre as pernas com desculpas da treta que tem alta costura para fazer. É um absurdo a sua postura e, além de absurda, é idiota ao propor-me como troca um texto sobre a complexidade do professor do secundário. Quer dizer que aí se move à vontade e já não precisa de fazer investigação nas suas notas? David, a sua postura é a do Xico Esperto. Com essa postura pode convencer centenas de pessoas. A mim não convence porque me soa a profundamente desonesto da sua parte. Se tem algo a discutir, discuta. Que me vale vir para aqui dizer-lhe que Kripke é o filósofo mais importante do sec. XX se eu não souber explicar-lhe porquê? Conhece ou não o caso do embuste Sokal e Bricmont que desmonta os irracionalismos, mitos e fantasias pós modernas? Bolas, defenda-se. Mas faça-o com clareza de raciocínio e consequência de actos e ideias. Só assim atinge a profundidade. E escreva sobre Bachelard ou sobre quem estuda. Só lhe fará bem.
De rolandoa a 6 de Maio de 2008 às 19:15
Caro David,
Esqueci de lhe fazer uma indicação que gostaria que não constituísse um acha para a fogueira, mas um alerta para ter cuidado com as fontes quando se refere ao secundário. O site que refere Filosofia Viva, reagiu assim à critica pública de manuais no ano de 2007:
"Face a alguma intoxicação “teórica” que tem aparecido em vários meios de comunicação sobre a efectiva qualidade dos manuais, a equipa de autores disponibiliza-se para fornecer as explicações que qualquer professor deseje solicitar-lhe. Pensamos que um professor esclarecido sobre o que deve fazer, com todas as informações que julgue necessárias, é o melhor docente para tomar a decisão de adopção de um manual, seja ele qual for. A resistência aos lobbys ou fenómenos de pressão é, por isso, um dever de qualquer profissional de educação ao qual nos associamos, desde já."
De Carlos Silva a 6 de Maio de 2008 às 20:47
Caros
Rolando e David,

A propósito da importância de G. Bachelard:

Somos gigantes aos ombros de anões?
Ou seremos, antes, anões aos ombros de gigantes? Há autores que nunca passam de "moda". Um Aristóteles, um Platão são eternos. Muito do que hoje se discute é inspirado neles. Diz-se que os gregos pensaram para sempre. Os problemas essenciais em filosofia, hoje, são os mesmos de há dois mil anos, ou mais. Claro está que, por exemplo, com o desenvolvimento da ciência se colocam novas questões, (essencialmente de natureza ética) mas no essencial os problemas filosóficos são perenes. Ou não será? Por isso, creio que os autores em Filosofia nunca passam de moda. Eles abriram "portas". Compete-nos dar continuidade ao seu percurso. E, ao fazê-lo, estamos a progredir. Mas os progressos em Filosofia são lentos.

Carlos JC Silva
De rolandoa a 6 de Maio de 2008 às 21:31
Caro Carlos,
Os problemas são perenes, mas os argumentos não. Hoje em dia existem argumentos mais sofisticados para discutir os mais variados problemas da filosofia. Bachelard nunca foi a ponta do farol da epistemologia. Isso seria como dizer que Francisco Sanches é do cepticismo mais sofisticado, o que é claramente falso. Bachelard foi um bom divulgador, nada mais.
De David Duarte a 6 de Maio de 2008 às 20:25
Rolando,

Aquilo que para si lhe parecem "desculpas da treta", para mim são as razões que me levam a não escrever o texto que me convidou a escrever. Tenha em consideração isso.

Sobre o facto de lhe ter proposto escrever um outro texto, a razão é de facto aquela que você disse. Sinto-me mais à vontade pois tenho uma teoria elaborada do contacto que tenho com uma boa parte dos professores do secundario que conheço. Escrevria em cinco minutos. Sobre a sondagem estou curioso em saber qual seria o resultado se aos professores fosse dada a escolher a hipotese que referi.

Sobre a atitude do xico esperto e a mania do provinciano, veja o post que escrevi no Café. E se tiver em consideração oprimeiro paragrafo deste meu comentario vera que tal não é a minha atitude (mas você não tem em conta o que eu digo, mas apenas aquilo que quer que eu diga).

No entanto as três ou quatro linhas foram apresentadas. O ponto central da filosofia de Bachelard é a relação intima entre a razão e a imaginação (criativa e nao simplesmente reproductiva, como em Kant). Para desenvolver não era preciso fazer um grande trabalho de estudo (la està o sr. a exagerar o que eu digo para, segundo parece-me, poder ter razao). Apenas precisaria de rever o que tenho sobre Bachelard pois nao lhe toco ha algum tempo. Se o sr. não tem medo da idiotice, não a exija aos outros. Nao gosto de escrever porcaria e sobretudo nao gosto de meter ideias na cabeça de quem leio.

Sobre a minha atitude, não seja paternalista (mas uma das manias proprias a quem sofre do complexo do professor do secundario). Se ler bem o inicio da nossa conversa vera que quem azedou foi você. Eu limitei-me a dizer que a separaçao entre a razao e a imaginaçao nao deveria ser feita de forma absoluta. Tomou tal frase como um ataque sem razao nenhuma. Perdemos uma boa oportunidade para termos uma discussao e nao é com o caminho que tomamos que eu vou entrar nela (mais uma "desculpa da treta ").

Pede-me que eu pense. Nao aceita que eu escreva as minhas ideias sobre o complexo do professor do secundario. Impede-me igualmente de as apresentar (vera no meu comentario anterior que disse que a qualidade dos professores do ensino secundario é uma razao plausivel, mas nao a tomo como verdade absoluta). Diz que tal falt de qualidade vem da formaçao que iveram? é bem possivel que tal seja um dos elementos da resposta. O outro? A personalidade desta espécie estranha.

Fique no seu mundo. Fique convencido de que nao escrevo o texto porque meti o rabinho entre as pernas. Assim as plantas continuam a florir no seu jardim. Sou-lhe sincero. Se me dessem a escolher entre ser um ignorante convencido da realidade das suas certezas (e assim feliz) et um sabio consciente da fragilidade dos seus conhecimentos, não sei o que escolheria... sei contudo que um ignorante se diz sempre pertencer ao segundo campo
De rolandoa a 6 de Maio de 2008 às 20:56
David,
Na verdade fartei-me das suas histórias, até porque o David não é coerente e está, desde sempre a acusar-me de idiotices que inventa e que nem sequer se percebem o que são. Se lhe ensinam essas tolices na filosofia, deve rever a sua formação, como eu revejo todos os dias a minha.
1º O David vê a realidade a preto e branco. Não consegue ver o colorido. Para si ou estamos na imaginação ou na razão e se observa a defesa de que a filosofia é a discussão racional de argumentos ( e ela é outra coisa, bolas???), ataca com a acusação de que se está a desprezar a imaginação, a profundeza da alma e o catano das parvoíces que tem afirmado. Mas o David vê as coisas assim porque vê a realidade a preto e branco. E se fosse mais sensato teria lido que eu lhe expliquei com muita clareza que a sua interpretação era radical, pois em momento algum eu desbeneficiei a imaginação. Mas o David puxou dos ouvidos moucos e continuou, como já fez uma vez, a atacar como quer, inclusive a ver nos meus argumentos as idiotices que lhes acusa. Porra!! Basta.
O David conhece-me de algum lado para acusar-me de complexo de professor de secundário? Mas que raios partam homem!!! Está bom da cabeça?
Ó David, era só o que me faltava de impedi-lo de apresentar o que pensa! Apresente o que pensa onde quiser. O que lhe pedi foi um texto sobre Bachelard que pudesse divulgar as suas ideias a quem não as conhece.
Finalmente vou-lhe dizer uma coisa muito pessoal: eu conheço bem a matreirice que envolve a filosofia. Pessoas a pensar como o David deviam ter vergonha de cientistas, historiadores, físicos teóricos, bioeticistas, etc. não lhes dar qualquer crédito. Eu não sei o que o David defende porque se limita a dizer meia dúzia de coisas incompreensíveis e sem qualquer conexão lógica. Mas já topei há muito que o David insiste na sua postura de autismo filosófico. Eu não sei bem o que pretende para a filosofia, mas a sua postura jamais admite senão um diálogo de gente surda que supostamente se inter compreende. Nem sequer sei qual a sua ideia da filosofia (nunca o vi escrever sobre isso) e recusa-se a falar sobre o que aprende ou estuda. Se assim é, que moral tem o David para vir exigir X e Y? Pelo que vou captando no que escreve o David nem sequer tem noção do que se passa na filosofia. Desconhece os movimentos contemporâneos, redu-los a apenas mais umas leituras que valem tanto como quaisquer outras, sem qualquer respeito por anos de trabalho e investigação. E raios, pare de me acusar que coloco a França em causa, até porque tenho sido cuidadoso desde as conversas no Café, para que não entenda isso. Mas o David entende logo aquilo que seria menos provável entender nas minhas palavras. E fá-lo porque tem a cabeça formatada com preconceitos. É realmente uma perda de tempo tentar trocar um argumento consigo e é pena porque o David devia ser mais responsável na filosofia. Mas não é! Hoje em dia é do domínio público os embustes que foram colocados às teses relativistas, Foi um escândalo em todas as universidades do mundo, principalmente as francesas. Foi a elas que se destinou o embuste, precisamente por gente que conhece bem a universidade francesa. Mas o David passa por cima desses factos. E assim eu tenho de levar permanentemente, não com os seus argumentos, mas com a sua teimosia insuportável. E isso David não é discutir, pelo que não vale mesmo a pena continuar a responder-lhe.
De David Duarte a 6 de Maio de 2008 às 20:45
Acabo de ver que finalmente ja leu o post de que lhe falei "Amerda de pais em que vivemos" que que o comentou.

O Eduardo Lourenço trabalha o imaginario português. De facto cada pais constroi uma imagem de si mesmo. Mas o que o Rolando deve ter em conta ao ler textos sobre o imaginario é que este não se coloca em termos de verdade ou falsidade. A imagem que os portuguesezs se fazem de si mesmos não é nem mais nem menos falsa do que aquela que os outros fazem de si mesmos.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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