Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Um outro olhar sobre a filosofia

O manual Um outro olhar sobre o mundo é uma caricatura da filosofia. Na verdade tenho notado que a análise de manuais tem provocado algum choque e tenho procurado proceder às minhas análises de um modo pedagógico, apontando aspectos que os autores podem e devem melhorar. Como é que procedo para fazer uma análise? Normalmente começo por ir directamente aos pontos nos quais os manuais mais falham. Se notar que daí não decorrem grandes erros, então parto para a análise de outros pontos e, no final, procuro dar uma imagem de conjunto como é que o manual pode funcionar em termos didácticos para os estudantes, analisando o tipo de linguagem e aspectos relacionados com a organização, entre outros.
Rolando Almeida

Nota-se uma melhoria significativa na qualidade de alguns manuais em algumas unidades centrais. As unidades finais de opção continuam a não sofrer grandes alterações. E noto também que uns manuais se inspiram noutros, não decorrendo daí qualquer problema. É até positivo que sigam os melhores exemplos. Um manual não é uma obra de arte que tenha de primar pela originalidade. Tem de ser rigoroso e claro para os estudantes. Há manuais que o conseguem melhor que outros.
Quando peguei pela primeira vez em Um Outro Olhar sobre o Mundo, fui de imediato vêr a unidade da lógica e pude verificar que alguns erros da edição anterior foram corrigidos. Como a edição é de dois volumes muito leves, o que me agrada, pensei que poderia estar perante um manual razoável. Enganei-me. À medida que fui lendo descobri uma série de erros, invenções e incoerências imperdoáveis num manual. Procurei analisar os erros mais incontroversos. Claro que se tomarmos os erros durante anos a fio como verdades, o nosso confronto com a verdade acaba sempre por soar estranho, como pode soar neste caso. Mas explicarei por que razão este é, de facto, um manual a evitar.
Logo na entrada é apresentada ao estudante uma distinção que não produz qualquer efeito, a distinção entre aquilo que os autores chamam de lógica natural e lógica científica. É possível e legítimo defender que a lógica tem uma aplicação tanto na vida prática como na ciência, mas daí a estabelecer uma divisão como se tratasse da existência de duas lógicas é pressupor que o mundo está divido, quando não é verdade. Para argumentarmos no nosso dia a dia, a lógica faz falta, mas faz também para argumentarmos no campo do conhecimento, do saber e da ciência. Esta distinção aparece talvez porque os autores mais tarde vão fazer uma incompreensível divisão entre lógica formal e informal, completamente errada, em que defendem uma espécie de divisão histórica entre lógica formal e informal. Lá regressarei, mas desde já este ponto merece uma explicação breve: a divisão da lógica em formal e informal, não é porque a formal se aplique a uns ramos do saber e a informal a outros ou à vida prática.
Outro aspecto que me chamou a atenção foi que oUm Outro Olhar Sobre o Mundo procura inovar onde não é necessária qualquer inovação, que é precisamente na alteração dos termos mais técnicos da filosofia. Assim, falam de forma típica e forma padrão, argumento correcto, etc. Não há qualquer problema, mas a terminologia técnica serve precisamente para nos orientar no estudo, pelo que querer variá-la de livro para livro não produz qualquer resultado útil e acaba por produzir também muitas confusões despropositadas. Querer variar no léxico central é um erro. Mudar de terminologia a propósito das mesmas coisas é didacticamente desastroso. Se a ideia é inovar, foi uma má opção.
Talvez nessa tentativa inovadora, o manual fale de valor lógico das proposições, em vez de valor de verdade.  O valor de verdade não tem rigorosamente nada que ver com lógica. Saber se a proposição expressa pela frase «a relva é verde» é verdadeira depende apenas dos nossos sentidos e de ver se o mundo é realmente assim. Onde está aí a lógica? Lá porque a validade de um argumento (dedutivo) determina que se as premissas forem verdadeiras a conclusão também terá de o ser, isso não significa que determinar se as premissas são verdadeiras é uma questão lógica. Não é! Saber se uma dada afirmação é verdadeira é uma questão de olhar para o mundo e de ver se o mundo é mesmo assim. Para se saber que a proposição expressa pela frase «o céu é verde» é falsa, basta ter olhos na cara e conhecer as cores. Agora, uma vez que sabemos que as premissas são verdadeiras (coisa para que não precisamos da lógica para nada), o que se segue daí? Perguntar o que se segue daí é que já é entrar no domínio da lógica.
Seguindo o manual vou encontrando algumas imprecisões curiosas, como, por exemplo, a que aparece na página 20, “o número de premissas e conclusões de um argumento é variável….”. Isto é falso. É verdade que num argumento o número de premissas é variável, mas só se pode ter uma conclusão. Se com as mesmas premissas obtivermos outra conclusão, nesse caso, o que temos é outro argumento. “Sócrates é grego e Descartes francês. Logo Sócrates é grego.” é um argumento, mas, “Sócrates é grego e Descartes francês. Logo, Descartes é francês” é outro argumento.
Na página 53, referindo-se à proposição  diz-se que ela é “expressão linguística do juízo”. Já aqui anotei em relação a outros manuais este erro comum. A proposição não é expressão linguística do juízo. A frase é que é a expressão linguística da proposição.
Ainda na mesma página podemos ler, “trata-se de frases que, por nada afirmarem, nada negarem, não são consideradas verdadeiras nem falsas. Por isso, a lógica as exclui do seu âmbito, lidando apenas com proposições declarativas, as únicas que possuem um significado avaliável em termos de verdade ou falsidade.” Esta explicação é confusa para os estudantes, até porque são as frases que são declarativas e não as proposições.
Na página 82 quando se introduz o tema das falácias (Principais falácias, diz o título), afirma-se que “assim, dizem-se falaciosos os argumentos inválidos, isto é, aqueles em que as premissas não sustentam a conclusão” Claro que uma falácia formal é isto, mas e as falácias informais? Note-se que muitas falácias informais não têm formas lógicas inválidas, como é o caso do falso dilema, só para dar um exemplo. Quando queremos pela primeira vez explicar aos alunos as falácias, devemos explicar tanto as formais como as informais. Refere-se no início da página que os argumentos que são falácias se assemelham na forma aos argumentos válidos. Após isto pede para passar para a página 85, porque, entretanto, se vai fazer incluir as falácias do silogismo. Não é fácil de seguir, este manual. Logo de seguida, então, ensina-se as falácias da afirmação do consequente e negação do antecedente.
Na página 96, faz-se a distinção entre demonstração e argumentação, uma distinção errada uma vez que uma demonstração também é uma forma de argumentação – para tal, afirmando que “a razão humana não é uma capacidade meramente formal e abstracta, antes se liga às vivências do ser humano, em que coexistem necessidades, preferências e emoções, condicionando-o na compreensão do mundo e nas opções que efectua ao longo da vida. A racionalidade não se confina, aos esquemas da lógica e das ciências exactas, estendendo-se ao contexto das relações humanas, em que escasseiam as verdades indiscutíveis e reinam as opiniões, as convicções, as crenças e os valores”. Não se percebe o valor duma afirmação destas para a disciplina de Filosofia, mas já se está a adivinhar a caricatura: a lógica formal é uma mecânica que só serve fins científicos e a lógica informal é que é amiga do ser humano porque é capaz de reflectir as suas emoções, valores, taradices psicológicas, etc.. Mas vale a pena espreitar o resto do texto:
Continua na página 97 “o facto de não se apurar verdades inquestionáveis em dimensões da vida humana como a moral, a filosofia, o direito, a religião, a economia, não significa que sejam áreas em que as coisas se passem de modo irracional
Quer dizer: a lógica formal é uma coisa fria e distante ligada e às ciências e depois temos a vida humana, que se faz todos os dias com a lógica informal. Disparate – a lógica formal e informal aplicam-se a qualquer área. Trata-se do nosso raciocínio que faz parte da vida humana e não vive em contentores separados. Esta é uma imagem pobre, para além de profundamente errada e infeliz, que se passa ao estudante.
Diz-se ainda “de facto, ao observarmos a organização da vida das pessoas, constatamos que elas são capazes de pensar, dizer e fazer coisas em que está implicado o uso de regras de pensamento que estão para além das sistematizadas pela lógica formal. Trata-se de regras de uma outra lógica, que designaremos por lógica informal”. Uma outra lógica? Bem, por vezes é melhor mesmo encarar estes disparates com ironia
Temos aqui algumas coisas interessantes: 1º O que se pode concluir pela leitura deste manual é que não vale a pena estudar lógica, é uma chatice que não nos revela a verdadeira dimensão do ser humano; 2º A lógica informal é uma outra lógica. É a lógica aplicada à verdadeira vida.
Estar a dar a ideia ao aluno que o que é importante para a vida prática é a lógica informal é de um disparate intolerável. É a mesma coisa que ensinar aos estudantes que não precisam das pernas, só precisam dos braços, pelo que podem cortar as pernas uma vez que não servem para construir nada. A lógica formal faz parte da nossa forma de argumentar. Nem é melhor nem pior que a informal, nem se aplica mais à ciência nem menos. Sinceramente não sei como é possível chegar a este ponto.
Mas o disparate vai mesmo longe ao ponto de se tornar uma caricatura: “de âmbito mais alargado e preceitos mais flexíveis que os da lógica clássica, esta lógica empenha-se na resolução de questões ligadas à prática, reconhecendo e valorizando o poder argumentativo da razão como capacidade insubstituível” Mas que lógica clássica? A lógica formal é a clássica? E a lógica formal é a moderna, não? Ligada à vida humana? Até parece que a lógica formal foi desenvolvida por máquinas ou por marcianos e não por seres humanos. Bem tenho fortes motivos para abandonar mesmo aqui a análise deste manual. Não se sabe sequer do que se está a falar.
Mas ainda assim insisto em ler mais: “só pelo seu exercício – da lógica informal – o ser humano é capaz de escolher as atitudes e condutas que lhe possibilitam a adequação adaptada às circunstâncias em que vive. E o ser humano tem consciência de que, ao reflectir para tomar as suas decisões mais razoáveis, não está perante o absolutamente falso, mas inserido numa pluralidade de coisas em que umas se tornam preferíveis a outras em função de critérios diversificados”.
Estou arrebatado.
Já agora, mesmo a completar: “Também os advogados, políticos, cientistas, filósofos e padres evitam afirmações gratuitas, justificando o que afirmam para obter credibilidade por parte dos ouvintes”. Só mesmo manuais como este não evitam afirmações gratuitas.
A unidade da epistemologia é contemplada com 30 páginas e 38 páginas para os temas e problemas da cultura científico tecnológica. É conveniente referir que o programa indica 12 aulas para a epistemologia e 8 para os temas e problemas. Apesar do programa indicar duas teorias explicativas do conhecimento, Um Outro Olhar Sobre o Mundo despacha nada mais, nada menos que 8 teorias explicativas do conhecimento (realismo, idealismo, empirismo, racionalismo, apriorismo, dogmatismo, cepticismo e criticismo) em cerca de uma página para cada uma. O programa pede para confrontar duas teorias, mas este manual oferece uma autêntica lista telefónica de teorias, sem qualquer confronto, aviando-as em pouco mais de 10 páginas. As teorias são oferecidas a metro para serem decoradas pelos estudantes, sem quaisquer argumentos ou possibilidade de discussão. Toda a epistemologia, um tema central do programa e da filosofia, tem metade das páginas dos temas e problemas que mais não passam de pseudo-filosofias inventadas.
Antes mesmo de terminar, vale a pena passar os olhos no tema das concepções de verdade. O tratamento dado é o da verdade no sentido de aletheia, veritas e emunah. Quando vamos ler notamos que estas não são concepções de verdade, mas os termos grego, latim e hebraico para a palavra «verdade». Portanto, para Um Outro Olhar Sobre o Mundo, cada tradução da palavra verdade é uma concepção de verdade. Como sou nortenho de origem fico sempre com a esperança que a Berdade também possa ser uma concepção de verdade filosoficamente relevante.
 Podemos ler este manual como um sinal do que devemos evitar para  a disciplina de filosofia. Sou da opinião que a maioria dos manuais tem ainda muitos passos a dar para melhorar a sua qualidade e a qualidade do ensino da disciplina, mas há lentamente alguns sinais de abertura dos autores. O Outro Olhar Sobre o Mundo necessita de alterações de fundo para se revelar um instrumento de trabalho mais desejável. Nem o facto de ser recomendado por D. Januário Torgal Ferreira e de ter dois volumes, o que particularmente me agrada, lhe dá um brilhozinho.
Um outro Olhar sobre o Mundo, Asa, 2008


publicado por rolandoa às 03:08

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17 comentários:
De Anónimo a 25 de Abril de 2008 às 11:23
teste
De Ricardo a 26 de Abril de 2008 às 09:04
Caro Rolando,

Gosto muito dos seus textos sobre manuais escolares. Infelizmente, se formos analisar todos os manuais de todas as disciplinas iríamos encontrar muitos, muitos erros científicos e pedagógicos. E as editoras teimam em ser contra a tal avaliação de manuais...
Eu tive este manual no 11.º ano (há 9 anos, portanto). E tal como com o manual do 10.º, nunca consegui estudar por ele. Um sintoma?
De rolandoa a 26 de Abril de 2008 às 15:59
Caro Sérgio,
É verdade que só tomo o problema pela superficie, talvez porque tenho a consciência que estas coisas são para se reformar uma de cada vez. É que os erros são tantos que são tomados como verdades. Claro que não conseguir estudar por um manual é um sintoma de que o manual é mau. Normalmente os estudantes conseguem estudar e aprender melhor quando os manuais são bons e é natural que assim seja, uma vez que os manuais são a porta de entrada para o saber para os estudantes. Manuais maus fazem muitas das vezes com que bons estudantes percam o interesse pelas disciplinas.
Abraço
De rolandoa a 26 de Abril de 2008 às 18:06
Caro Ricardo,
A mensagem anterior é-lhe destinada só que me enganei no nome. Peço desculpa, Obrigadoe abraço
De Sérgio Lagoa a 26 de Abril de 2008 às 12:17
Os manuais desta saga são lastimáveis. Se verificarmos os manuais de psicologia que estes mesmos autores publicavam nos anos 70, concluiremos que os textos são os mesmos. Alguns dos textos dos manuais de filosofia já se encontravam nos manuais dos idos de 80. Mas o problema não é, por si, a utilização dos mesmos textos: é a claríssima imobilidade, para não dizer fossilização, da forma de abordar os conteúdos. Alguns textos são completamente despropositados. Os exercícios propostos são maus: por estranho que pareça, só são resolúveis dentro do próprio manual, como se ali estivesse uma filosofia "diferente" das "outras".
Em suma: não há nada que torne este manual minimamente recomendável.
De rolandoa a 26 de Abril de 2008 às 16:12
Caro Sérgio,
Acabou por me arrancar algumas palavras mais... é que sinceramente este manual só pode ser encarado como uma caricatura da filosofia.Transmite uma imagem muito pobre e distante do que é a filosofia.Não é o único infelizemente e torna-se, para mim, muito complicado ser simpático nas minhas análises. Ainda me faltam analisar dois, o Criticamente (já o tenho aí) e o Logos (que ainda não recebi).Creio que são melhores, mas, de facto, a colheita geral é mediocre.
abraço e obrigado
De Sergio Lagoa a 28 de Abril de 2008 às 12:58
Caro Rolando
A colheita é fraca, mas melhorou bastante. Desde que chegou o "Arte" temos vindo a assistir a uma coisa curiosa: os restantes manuais, talvez excepto o Contextos e o Outro Olhar, começaram a aproximar-se. Mas a cópia nunca chega aos calcanhares do original... Exceptuo desse lote o Logos, o Criticamente e os manuais do Luís Rodrigues, que me parecem igualmente bem concebidos. Mas o Arte tem uma marca de qualidade que é indubitável. Pena é que muitos professores continuem a resistir, alegando as coisas mais desconexas, tolas e infantis que se possa imaginar.

Abraço,

Sérgio Lagoa
De Anónimo a 28 de Abril de 2008 às 18:25
Vamos mas é ao que interessa - para quando a análise ao "Criticamente" da Porto Editora??
De rolandoa a 28 de Abril de 2008 às 18:41
Caro anónimo,
Por que não a faz você mesmo? É que eu não vivo de fazer criticas a manuais, pelo que, cada coisa a seu tempo.
abraço
De Carlos Silva a 29 de Abril de 2008 às 00:32
Rolando!

Considero que não é fácil proceder a uma análise crítica de manuais escolares. Não significa isto, no entanto, que não possua uma opinião formada sobre o assunto. O que me apraz referir, de um modo genérico, em relação a essa questão é qualquer coisa como isto: qualquer manual tem virtudes e defeitos. Não há manuais perfeitos. Além do que um manual não passa de um auxiliar de ensino/aprendizagem sobretudo direccionadona perspectiva do aluno. Claro está que é importante mas o trabalho (e o saber) do professor não se esgota no manual adoptado. Todavia, tenho a crença justificada e verdadeira (?) de que há manuais em que o peso tende mais para o lado dos defeitos do que propriamente para as virtudes: no modo repetitivo com que abordam as questões, nas banalidades que exploram, na forma pouco aliciante com que desenvolvem os temas, etc. ... Penso que uma outra questão relacionada com os manuais é a seguinte: os diferentes modos de interpretar e explorar o (mesmo) programa de Filosofia. Dou um exemplo: a questão do conhecimento e das suas teorias interpretativas/explicativas. Habitualmente abordava-se esse tema na perspectiva clássica dos problemas gnosiológicos derivados da análise fenomenológica do conhecimento. A bibliografia apontava para o manual de J. Hessen, Teoria do Conhecimento. Entretanto, surgiu uma outra forma de abordar a mesma questão: a do "conhecimento proposicional" (Teeteto, Platão). Recordo que aquando do célebre documento de orientações para o exame de Filosofia (10.º / 11.º anos), entretanto extinto, esse tópico fazia parte integrante das referidas orientações. Acontece que a quase totalidade dos manuais, então existentes, não abordavam o tema nessa perspectiva. Excepto um. Claro está que os/as colegas tiveram que se socorrer do referido manual para colmatar/contornar tal situação. Penso que este terá sido um dos motivos pelos quais o exame foi, entretanto, extinto. Como é de calcular, tal facto gerou uma certa confusão nas escolas, para além de ser um tanto ou quanto tendencioso,se me é permitida a expressão, uma vez que só um manual explorava o tema,nessa perspectiva. Sou da opinião de que a diversidade com que se abordam os mesmos temas, são indício de riqueza intelectual. Não podemos permitir, nunca, que tal diversidade conduza à divisão de um saber (Filosofia), sobretudo numa sociedade materialista e que considera, cada vez mais, que só é Saber, aquele que é imediatamente Útil. Isto pode significar a nossa auto-destruição.

Abraço,
Carlos JC Silva

De rolandoa a 29 de Abril de 2008 às 02:16
Caro carlos,
Antes de tudo agradeço o teu comentário. Tem muito sumo, mas vou tentar sintetizar algumas ideias que servem como troca e partilha na mesma preocupação que é o ensino da filosofia. Começo pelo fim que é a matéria mais sensível. Claro que a diversidade é indício de riqueza intelectual, sem dúvida. Mas acontece que não devemos confundir diversidade com a afirmação do relativismo. O problema, ao contrário do que é mais vulgar pensar, não está na objectividade de um saber (existe algum saber sem objectividade?), mas antes nas ideias relativas e subjectivas que pretendem afirmar-se como objectivas. Como é natural acontecer em qualquer saber, também na filosofia as metodologias apresentam progressos e é dentro dos progressos dessas metodologias que aparece a diversidade. Os manuais não tem necessariamente de apresentar a diversidade de teses filosóficas, mas sim a diversidade de problemas com a metodologia que é própria da filosofia. E não é isso que acontece com os manuais de filosofia portugueses. O que acontece é que aquilo que muitos fazem nem sequer é filosofia, pelo que é injusto falar em diversidade filosófica e intelectual. O que ali está nem é filosófico, nem racional ou intelectual. Acho curioso que se olhássemos um manual de matemática tal qual se fazia há 30 anos, de imediato o criticávamos porque era ultrapassado, não ensinava segundo os progressos da matemática, mas na filosofia não reagimos assim. E creio que existe uma razão para tal: é que a nossa formação universitária não nos ensina filosofia, doa a quem doer. Aquilo que aprendemos não é filosofia em lado algum, a não ser em universidades com departamentos inflamados de ideias pós modernas numa versão muito pimba. E depois podemos achar chocante ter de aprender filosofia por um manual escrito para putos, mas essa é a realidade. Eu também comecei a aprender muito por aí. A tese da Crença Verdadeira Justificada não é uma tese inventada por uma escola filosófica, é a tese do teeteto que está lá para todos lerem e pensarem sobre ela. As leituras do subjectivismo pós moderno é que lá leram o que lhes apeteceu. Já vi gente defender que Platão era místico em quase todo o seu pensamento. Mas daí não decorre que faça a diversidade existir um manual a ensinar que Platão era místico. Para além de tudo um manual tem de expor os problemas preto no braço e nunca defender teses. Por essa razão, Carlos, é que penso que a questão dos manuais perfeitos e quase perfeitos, que todos tem defeitos, etc… é conversa fiada que serve mais os maus manuais que os bons. Até à existência do Arte os manuais ou eram todos muito bons ou muito maus. Agora já há ponto de comparação e o alvoroço instalado nas escolas só pode produzir um efeito positivo: coloca-nos a ler manuais, a aprender mais filosofia e amadurecer as nossas aulas. Só há virtudes nisto. Aquilo que o pós modernismo fez pela filosofia foi enterrá-la. Tenho um texto na Crítica (acesso gratuito) em que abordo esse problema. Pode ler o texto aqui: http://criticanarede.com/hitler.html
Uma palavra para a epistemologia: o conhecimento proposicional é aquilo que classicamente Platão chamou de verdade. É a mesma coisa. Acontece que a palavra ainda estava fora do léxico filosófico e hoje em dia temo-la e ainda bem pois ajuda-nos a compreender muito mais claramente aquilo que Platão queria saber, que é o que é o conhecimento. Mas o problema é o mesmo que Platão pensou e nós, em pleno século XXI estamos a pensar no mesmo problema. Só que lhe chamamos conhecimento proposicional. Mas não pense que tal é mania da escola X ou Y. Isto é o resultado de décadas de investigação e estudo sério. Penso que nós, profissionais da filosofia no ensino secundário, nos devemos orgulhar de discutir as coisas a este nível, quando os universitários não o fazem. Em Inglaterra por exemplo, há muitos universitários que se preocupam em fazer bons manuais preocupados com o ensino secundário. Nós por cá temos os universitários a certificar à toa manuais, de forma claramente irresponsável. E é curioso que sejamos nós, no secundário, a procurar mudar a má imagem que a filosofia tem no nosso país, a contrastar com a que tem em outros países.
Espero ter dado um bom contributo
abraço
De catia faria a 29 de Abril de 2008 às 10:05
Olá Rolando!

Já leste o texto do Richard Feynman, na Crítica?

Seria bom torna-lo acessível aos leitores deste blogue.

Abraço, Cátia

De rolandoa a 29 de Abril de 2008 às 11:24
Olá Cátia,
é verdade que o texto é uma denúncia do Feynman para desmascarar os interesses instalados. Agora imagino que o Feynmann tenha sido acusado dele próprio ter interesses instalados :-) Posso linkar o texto no blog. Vou ver como é melhor. Não gosto de reproduzir no blog textos publicados noutros locais. por essa razão é que tenho um trabalho do catano.
Thanks
De Manuel Galrinho a 29 de Abril de 2008 às 10:35
Parabéns pelo blog. Acho-o muito útil. Muita gente critica as suas análises? Acho isso salutar.
Vou ser um leitor assíduo.
De rolandoa a 29 de Abril de 2008 às 11:25
Obrigado e volte sempre
abraço
De Madalena a 17 de Março de 2012 às 14:26
Rolando ainda mantém este blog...pois queria a sua ajuda e opinião numa determinada siatuação...obrigada. cumprimentos
De rolandoa a 17 de Março de 2012 às 15:17
sim, pode contactar para o meu e.mail. rolandoa@netmadeira.com

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