Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006

É preciso queimar Heidegger?

                                                      
 
“Devo decidir-me pela tarefa cuja realização me permita servir da melhor forma a obra de Adolf Hitler.”
                                 Heidegger
 
 
            A publicação da obra de Emmanuel Faye, Heidegger, L’introduction du nazisme dans la philosophie (Autour des séminaires inédits de 1933 – 1935), Éditions Albin Michel, 2005, representa uma séria intenção de provar em definitivo a faceta nazi de Heidegger e, mais do que isso, constitui uma tentativa de erradicação do seu nome do número dos filósofos e pensadores do séc. XX, destituindo a sua obra e relegando-a para um «índex» de autores maléficos. Esta dupla intenção, surgindo unificada, deve ser abordada de forma distinta.
            Ao longo de mais de quinhentas páginas, Faye analisa detalhadamente o percurso intelectual de Heidegger, desde o período anterior a 1933, com a vida académica e o envolvimento da universidade; os seminários de 1933 – 1935, onde se patenteia uma ontologização do nazismo; o seminário sobre Hegel e o Estado e a proclamação da perenidade do Führerstaat; as conferências de Brême e o negacionismo, após a derrota da Alemanha. Descrevem-se ainda o anti-semitismo presente em textos como as Contribuições para a Filosofia (Beiträge), o Koinon e o Besinung. Simultaneamente são descritas as suas relações com os seus contemporâneos mais ilustres, os seus discípulos e a interpretação tipicamente hitleriana devotada a Nietzsche e a Hölderlin, o que não era uma novidade na época. Sairá Heidegger intocado deste retrato de execração? No final da leitura, embora colocando reservas à conclusão de Faye, demasiado ideológica e fundamentalista, propondo mesmo a retirada dos livros de Heidegger das bibliotecas do planeta, é difícil ficar indiferente a um panorama tão arrasador.
              Como reitor da universidade de Friburgo, Heidegger esforçou-se por introduzir o princípio do Führer junto dos estudantes e por acertar o passo (Gleichschaltung) com a situação política emergente, o que implicava duas consequências: a exclusão dos adversários políticos e dos judeus e a promoção da educação política nazi; terá mesmo participado na queima de livros discursando diante das chamas qual profeta dos novos tempos. Aplicou com zelo a «Lei para a reconstituição da função pública» de 1933, que originou o afastamento do seu assistente semi-judeu Werner Brock e de Husserl, promovendo racistas como Erik Wolf na faculdade de Direito.
            Heidegger parece ter adoptado com todo o vigor o conceito claramente nazi da vida völkisch, a exaltação do sangue e da terra. Como não pensar imediatamente em Auschwitz-Monowitz e em Büchenwald, e na viagem relatada por Wiesel em A Noite? Como esquecer os episódios da grande peregrinação relatada por Robert Antelme, n’A Espécie Humana?
            O seu insustentável nazismo filosófico pode encontrar uma defesa acérrima por parte dos ortodoxos; porém, o retrato de Heidegger acabará por se sobrepor ao de Hitler, mantendo-se numa zona cinzenta e ambígua, e aqui Faye indubitavelmente marca pontos. Faye avança teses bem arrojadas, chegando a afirmar que Heidegger escrevia alguns discursos de Hitler e que pretendia mudar-se para Munique para estar mais próximo do seu Führer.
Polémica é ainda a colagem que Faye leva a cabo de todo o pensamento de Heidegger, desde Sein und Zeit às conferências inéditas, à ontologia racista e eugénica. Dá o exemplo do §74 daquela obra, onde o individualismo é rechaçado em favor da comunidade e o Mitsein mais não é do que o pensamento da Volksgemeinschaft, essa comunidade do povo alemão perspectivada como «raça dura». De facto, fazer corresponder a diferença ontológica entre o ser e o ente à relação entre o Estado e o povo para concluir que o Estado é o Ser do indivíduo, é uma autêntica estatização da vida, conceito que dá origem à noção de biopoder em Foucault. O povo deve amar o Estado, reger-se por um eros face ao Estado; trata-se do Estado total, o Estado do Führer (Führerstaat) que deve alargar o seu espaço vital. Nesta apologia do Estado total, Heidegger parece não ter percebido a realidade do político na sua época, ao contrário da sua aluna predilecta, Hannah Arendt. Na verdade, o nazismo constituiu um Estado-Partido e em muitos aspectos era o partido que controlava a economia. Hitler passeava-se com Göring nas montanhas e definia a política económica sem que o ministro da economia, Schacht, soubesse o que se estava a passar. O memorando de Hitler para a economia, um dos documentos mais extensos que ele escreveu como ditador (6 pags.), foi primeiro divulgado no comício anual do partido. [Cf. Richard Overy, The Dictators, p. 414] Para a questão do Estado, presente na sua conferência inédita, Hegel, über den Staat, Heidegger vai buscar inspiração em Hegel e à obra racista de Schmitt, Staat, Bewegung, Volk, para concluir, não sem equívoco, que a essência do político se confunde com a essência do Estado como afirmação de si (Selbstbehauptung). (p. 383/390) Na verdade, nos doze anos do regime nazi, Estado e Partido atropelaram-se num caos burocrático permanente. Mas isto não impedia a visão apologética do Estado nacional-socialista como realização e fim da História.
Deixem-me citar, pelo menos, uma inquietação heideggeriana, uma pequena aflição sobre a perda do líder, capaz de nos provocar agora um sorriso: «Dentro de sessenta anos, o nosso Estado já não será certamente conduzido pelo Führer. Assim o que ele se tornará então, depende de nós. É por isso que devemos filosofar.» (p. 359)
Heidegger preocupou-se politicamente com o destino da Alemanha enquanto Estado e com a sua marca (Prägung) no povo. Para ele o sentido da dominação (Herrschaft) apenas poderia resultar da ligação entre uma forma de conduta (Führung) e a submissão (Gefolgschaft). É esta articulação entre liderança e submissão que reflecte o princípio hitleriano, com a recusa do individualismo, do liberalismo, do marxismo e da democracia parlamentar. A «saúde do povo», conclui ele, reside na unidade do sangue e da linhagem com a raça. (p. 195) Daí a alusão ao laço vivo (lebendige Verbundenheit) que une a vontade do Führer à sua Gefolgschaft para a coesão da comunidade. Como escreve ness a conferência inédita: “Só no momento em que o Führer e aqueles que ele conduz se unem num único destino e combatem para a realização de uma ideia é que cresce a verdadeira ordem.” (p. 230) Não poderia estar mais explícita a relação Führung-Gefolgschaft para a ordem do Estado nazi, mas é preciso acrescentar que daqui derivou a exclusão dos impuros, dos doentes, daquelas vidas que não mereciam viver, enfim, da eugenia que levou à Shoah. Terá Heidegger pactuado conscientemente com este princípio de exclusão e de extermínio, a ponto de comprometer a filosofia neste desígnio? O apelo à submissão à vontade do Führer, originador da comunidade, é igualmente uma mobilização guerreira contra os que não partilham desse destino völkisch. Daí o tema de um novo começo nacional-socialista, que deve assumir a confrontação com o «Asiático», que mais não é do que o judeu e o bolchevista. Disse Heidegger: “Mas a verdadeira liberdade histórica dos povos da Europa é a condição prévia para que o Ocidente venha uma vez mais a si próprio de maneira histórico-espiritual, para assegurar o seu destino na grande decisão da Terra contra o Asiático.” (p. 183) Isto significa uma germanização da Europa e do mundo, bem presente nas propostas de Hitler em Mein Kampf.
Faye relata as amizades nazis entre o filósofo e Staddelmann, Rothacker, Rosenberg, Oskar Becker e Schmitt, sendo que este último o leva ao tema da luta das raças onde a distinção política amigo/inimigo impõe o aniquilamento do estrangeiro, o que pertence a outra raça (andersgeartet). Nestes cursos existe claramente uma apologia da guerra, recolhida na noção polemos do fragmento 53 de Heraclito e identificada à guerra (Krieg). Qual o sentido desta confrontação? Como escreve Heidegger: “A essência do ser é o combate; todo o ser passa pela decisão, pela vitória e pela derrota.” (p. 277) Num texto de 1941-1942, A Metafísica de Nietzsche, é dito que o princípio de instituição de uma selecção racial é «metafisicamente necessário». (p. 440) Todavia, o princípio mais devastador que é avançado é o pensamento da raça (Rassegedanke), identificado não ao biologismo mas à subjectividade e à afirmação de si (Selbstbehauptung) como dominação de um povo e, simultaneamente, essência da metafísica. Neste contexto surgem episódios verdadeiramente cómicos, quando Heidegger declara que a motorização da Wehrmacht não era um fenómeno ligado ao tecnicismo mas um «acto metafísico».
No entanto, este afã de desacreditar a obra de Heidegger comporta os seus riscos. Deveremos lançar aviões contra um edifício cheio de heideggerianos reunidos em congresso? A liberdade que Heidegger refutou não pode ser-lhe agora retirada com o mesmo ímpeto discriminatório, a coberto de uma vontade de linchamento. Subsiste, no entanto, uma inquietante pergunta: é a filosofia, enquanto pergunta fundamental sobre o ser, compatível com o totalitarismo e com o extermínio?
Acusando Heidegger de ser um destruidor da moral devido à sua influência perniciosa sobre os espíritos, Faye remata com uma conclusão que releva de uma tonalidade algo patética. Para ele, importa escorraçar Heidegger do círculo dos filósofos porque “Se os seus escritos continuarem a ser difundidos à escala planetária sem que seja possível travar esta intrusão do nazismo na educação humana, como não esperar que isso conduza a uma nova tradução em factos, da qual a humanidade, desta vez, poderá não se reerguer?” (p. 518)
Agamben defende que, depois dos campos de concentração, a política tradicional não pode voltar a ser a mesma. E a filosofia?
 
 
JOSÉ CASELAS
Professor de Filosofia - Lisboa
publicado por rolandoa às 21:34

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