Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Manuais - Crítica Pública

Mais abaixo está um post meu com um apelo aos colegas e interessados para redigirem as vossas críticas aos manuais, positivas ou negativas, indicando porque preferem um e não outro. Eu publicarei as criticas em post próprio desde que minimamente fundamentadas e assinadas. Tenho observado muitos palpites nas caixas de comentários, mas à excepção de um colega que procurou fazer uma critica com mais detalhe a um manual (mesmo que eu não concordasse com ela quase na totalidade) mais ninguém enviou críticas e já me apercebi que muitos colegas tem apreciações a fazer sobre os manuais. Este espaço está assim com a porta aberta. Consultar mais abaixo os meus contactos. Creio que esta é a melhor prova que dou que este blog não serve os intentos do manual X ou Y, mas da crítica fundamentada aos manuais. Além disso um blog é informal e aproveito a informalidade para o partilhar com todos os meus colegas.

publicado por rolandoa às 01:39

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24 comentários:
De Anónimo a 18 de Abril de 2008 às 16:47
Porque é que eu não vou adoptar o Arte?

1- Porque o manual , ao contrário do que afirmam, não é minimamente estimulante, quer do ponto vista gráfico, quer do ponto de vista de como o conteúdo nos é apresentado

Daí decorrente:
1.1- Porque o Arte assemelha-se a uma Bíblia e p mim a Filosofia não endoutrina
1.2- Porque os autores e apoiantes do Arte formam uma escola "analítica" directamente importada da grã-Bretanha e procuram subjugar e discriminar todos os que com essa visão não se identifiquem
1.3- Porque o ensino de Filosofia propugnado pelo manual é redutor, e assente num mero debate argumentativo = estéril?
1.4- Porque se tivesse 15 e 16 anos, gostaria que me mostrassem de forma simples em que consiste a Filosofia e em que pode realmente contribuir para a minha vida. Ora isso não se deve ao Arte ( nem a alguns dos restantes manuais existentes), mas ao Professor de Filosofia que me calhar por sorte.
1.5- Porque se adoptar o Arte estou a dar um tiro no pé da própria Filosofia
1.6- Porque não quero ser colonizada pelos mentores da analítica. Já lá vai o tempo do tratado de Methuen :P e além do mais, sempre estive com os olhos postos na Europa!

2- Não vou adoptar o Arte, porque navego contra a corrente e é entediante verificar que essa praga da "filosofia analítica" estendeu os seus tentáculos a quase tudo, ministério, editoras, cabeças de professores incapazes de compreender o significado do "ousar pensar por si".

3- Sou assumidamente anónima, pq neste ponto simplesmente me apetece. Além de que sou contratada e não sei qd irei parar a uma escola que esteja repleta de LOBOS DA ANALÍTICA. Ora como quero sobreviver,p o ano com a avaliação, eis o motivo pelo qual não me identifico.
Agradeço a vossa compreensão,
De rolandoa a 18 de Abril de 2008 às 16:57
Cara leitora anónima,
Agradeço a sua crítica. Só quer mesmo falar do arte? Compreendo a sua situação. Sou professor há 12 anos e efectivo em QZP há 4, pelo que me senti muitas vezes colonizado por muitos manuais, ideologias e injustiças. Se pretender identicar-se assumindo as posições e pretender que publique os seus pontos, terei gosto em fazê-lo. Mas deixe-me fazer só um apontamento: então a colega acha que o arte é feito por um bando de colonizadores da Grã Bretanha? E os outros manuais de onde é que nos estão a colonizar? Creio que a sua teoria da conspiração é profundamente falsa e incorrecta, a menos que demonstre que há manuais de filosofia que são profundamente inspirados na filosofia portuguesa. De resto se me disser que o Arte é profundamente inspirado na filosofia tal qual ela se pratica nas maiores universiades do mundo e se investiga pelos maiores filósofos actuais, aí sim, aceito a sua teoria da conspiração. E na física? Será que também somos colonizados por um bando de cientistas horrorosos de Oxford e Rutgers? Repito que terei gost em publicar a sua apreciação, mas adianto-lhe que o que manifesta é um preconceito e não um argumento. Mais um aspecto: não é o arte que é um mero e redutor debate de argumentos. É a filosofia que assim se fez e faz. Provavelmente a colega acha a filosofia um mero e redutor debate de teses e argumentos, mas aí não lhe posso fazer nada. O que é que fazia Sócrates? Um mero e redutor debate de argumentos que, com efeito, ampliou muito a nossa visão do mundo.
De Anónimo a 18 de Abril de 2008 às 17:12
Rolando,

Relativamente ao meu post, o que eu crítico no Arte é a exclusividade de textos provenientes de pensadores e professores britânicos. Além do mais não me admira muito tendo em conta que um dos seus autores se encontra lá e que todos os restantes são da Universidade de Lisboa, o antro em Portugal onde se forja e espalha a corrente analítica.
Eu não afirmei que a Filosofia e o seu discurso não passam por problemas, teses e argumentos. Acho é limitado concebê-la exclusivamente assim como o Arte faz em todas as unidades programáticas. O Arte pode ser bom para o professor fazer um brilharete nas aulas e tentar mostar aos seus alunos o que não sabe. Mas não nos podemos esquecer do essêncial: UM MANUAL É FUNDAMENTALMENTE DIRECCIONADO PARA OS ALUNOS E NÃO PARA O PROFESSOR. Mal do professor que prepare as suas aulas por um manual exclusivamente.
Aqui aproveito e deixo a crítica ao Contextos da Porto Editora. Acho vergonhoso que os professores adoptem manuais que tenham nas bandas laterais respostas a exercícios ou fórmulas para "dirigir" uma aula. Este tipo de manuais como o Contextos é bom para o professor preguiçoso ou para o professor incompetente. Além de ser igualmente bom para o aluno envergonhar publicamente o professor: como se os alunos não tivessem pais, tios, primos, avôs professores e por isso manuais Iguais ao do seu professor!
Aceite os meus cumprimentos,
De Samuel Matos a 18 de Abril de 2008 às 17:21
O comentário da colega anónima dá-me vontade de rir!

Ora vejam:
« Porque se tivesse 15 e 16 anos, gostaria que me mostrassem de forma simples em que consiste a Filosofia e em que pode realmente contribuir para a minha vida. Ora isso não se deve ao Arte ( nem a alguns dos restantes manuais existentes), mas ao Professor de Filosofia que me calhar por sorte.»
Pois este manual mostra precisamente como é que a filosofia pode ser útil para a vida, em vez de se fazer da aulas de filosofia consultórios psicológicos e apresentar-se ideias muito bonitas, muitas vezes sem nexo, só para os alunos ficarem motivados. Nestes anos que ando de escola em escola, vejo com cada um... como é que não hão-de dizer que os professores de filosofia ou são poetas frustrados ou malucos?
Basta de tanta confusão! Basta de a filosofia ser ensinada como se de um passatempo se tratasse. Ela é uma disciplina séria, rigorosa e tem de ser ensinda como tal. Os alunos, E.E., sociedade em geral exigem de nós esse trabalho, ensinar a filosofar e não ensinar a estética a partir de músicas e de poemas. Musica e poemas nada têm a ver com a estética.

Mas fico feliz por esta colega: é que se está mesmo a ver que se acha o máximo de professora de filosofia! Ainda bem, pois entra no perfil das colegas que conheço que estão em desacordo com tudo menos com uma coisa: de que filosofia se ensina à maneira deles. Ora, isto é pretensiosismo, incapacidade de ir além das aparências, arrogância intelectual.
Rolando, parabéns por este trabalho de dignificar um trabalho que tem sido destruído pelos próprios professores. E os que andam de escola em escola, sabem perfeitamente do que estou a falar. Avaliem-se os professores de filosofia e expulsem-se os que andam a ensinar tudo e nada em vez de filosofia.
De Anónimo a 18 de Abril de 2008 às 17:36
Caro Samuel

Aqui o pretensioso e arrogante é o Samuel. Lamento as suas tristes experiências e o facto de não ter tido sorte nos colegas de grupo que por aí tem encontrado. Talvez porque essses grupos ainda não foram contaminados pelo bacilo analítico...
O Arte não mostra nada daquilo que afirma. Se quisesse seguir um manual da corrente analítica digo-lhe já em qual é que apostava: no de Luís Rodrigues. Embora ache que há coisas para melhorar (como em quase todos os manuais).
É obvio que o ensino da Filosofia é personalizado, tal como o ensino da Matemática, do Português e do Ingês. Como tudo na vida, é um dom, com o qual se nasce ou , com sorte, se aperfeiçoa. É por isso que pessoas como o Samuel, que tratam a Filosofia como se de uma ciência se tratasse (tal como a corrente analítica) dificilmente poderão ter sucesso. E já agora, antes de mais, a sociedade o que lhe exige de si é que forme e instrua os seus alunos. E formar e instruir seres humanos é não esquecer como nos diria Kant que há que ir além da pura animalidade e da pura racionalidade. Há que trabalhar a personalidade e se quiser saber, quando se ensina estética a partir de uma música ou a partir de uma visita a um museu, garanto-lhe que esse tempo valeu muito mais do que dois blocos carregados de teses argumentos e contra-argumentos. Isso seria regressar à idade da pedra lascada, numa vertente bem mais sofisticada!


Atenciosamente,
De rolandoa a 18 de Abril de 2008 às 17:46
Colegas,
Agradeço o comentário do segundo anónimo. Tem um fundamento o seu comentário.
Agradeço as palavras do Samuel.
Em relação à anónima 1, que creio não ser a mesma pessoa do anónimo 2, creio que devo esclarecer aqui uma outra coisa mais. Ora bem, tudo o que é filosofia bretanha não é boa coisa. Ora bem, a ideia de conhecimento proposicional, por exemplo, foi muito usada por Russell, bem como o conceito de proposição molecular e composta. Quando falava da tese de Platão de CVJ toda a gente me dizia que era a interpretação analítica, inclusivé, alguns professores universitários que contactei. Ora, agora posso verificar que praticamente todos os manuais abordam o conhecimento com estes conteúdos. Que retirar daí? que os manuais são todos analíticos? Esta coisa do analítico e sintético não faz sentido algum e mais parece uma coisa tipo guerra Porto - Benfica. Mais um aspecto: eu gosto especialmente do Arte de Pensar, é verdade, mas na minha escola temos o Arte adoptado no 10º ano e o manual do Luis Rodrigues no 11º. A adopção do manual é feita democraticamente sem atropelos e eu respeito a vontade dos colegas, por muito que nalgumas vezes , em grupo, discordemos uns dos outros. mas não nos ofendemos nem tratamos as coisas como capelas.
Abraço a todos
PS- Samuel, ainda não conheço os manuais da Porto Editora, mas olhe que o Contextos provavelmente só tem essa barra lateral na edição para o professor. A versão dos alunos não tem a barra.
De rolandoa a 18 de Abril de 2008 às 17:54
Cara colega anónima,
Se é da opinião que o ensino da filosofia ou da matemática depende de professor para professor não vejo qual é o seu problema em que um professor aprecie ensinar a filosofia analítica, sintética ou chinesa. Está a contradizer-se racionalmente. Se para si o que está em causa é o estilo, o Arte não viola o meu estilo, portante deixe-me referir o Arte como um bom manual. Não percebe que a sua tese é racionalmente insustentável?
Obrigado
De Samuel a 18 de Abril de 2008 às 19:08
Anónima, então os alunos aprendem mais de estética do que ir ao museu!!! E se leccionar a filosofia da religião, cara colega, leva-os à Igreja?

Eu até compreendo que me veja como um analítico, mas não advogo por nenhum tipo de filosofia parcelar nem clubístico. A mim, interessam-me os alunos e que eles aprendam filosofia. Acredite que se lhes dermos filosofia, eles apreciam-na. Talvez a colega confunda uma coisa: os alunos até podem gostar de um professor (da sua personalidade, do seu estilo, etc), mas se não gostam da disciplina que o professor lecciona, a meu ver, vê-se que esse professor não andou a fazer nada a não ser a brincar à cabra cega com os alunos.
Não se sinta ofendida com o tom do meu comentário anterior, foi mais irónico do que pretendia ser ofensivo. Mas, de uma forma serena, repare que filosofar é argumentar de um modo crítico. E para o fazer com os seus alunos, terá de lhes apresentar os argumentos e discuti-los racionalmente, sem favoritismos. Eu não concorda com este tópico?
Claro que a colega tem todo o direito a nao preferir um manual bom. Claro que a colega pode ter tido mais sorte do que eu ao chegar a uma escola e verificar que escolheram um bom manual. Infelizmente, isso ainda não aconteceu comigo. Assim, até me abstenho de votar em qualquer manual, se sei que no ano seguinte não vou trabalhar com ele.

Até percebo que a colega não aprecie de todo os manuais e parece-me que recorre a vários. Mas é essa a sua função. Nenhum professor trabalhará o manual como se fosse matéria-prima. A matéria-prima são fundamentalmente os alunos. E o manual que respeita, construtivamente, os alunos é o Arte. Leia-o atentamente, se ainda não trabalhou com ele com os alunos, ou experimente trabalhar um capítulo com os seus alunos, como por vezes chego a fazer, e verá a atitude dos seus alunos. Talvez os seus alunos já não a respeitem pela personalidade que tem, mas agradecer-lhe-ão uma vida inteira pelas coisas que lhes ensinou. É tão bom ouvir os alunos dizerem: "Nunca tinha pensado nisso!" É este o objectivo da nossa mui amada disciplina, fazer os alunos pensarem sobre coisas que nunca haviam pensado.
De rolandoa a 18 de Abril de 2008 às 19:33
Anónimo 2,
eu não tinha reparado bem numa coisa que disse: exclusividade no arte de pensadores britânicos!!! Isso é falso. Tem menos britânicos que de todas as outras nacionalidades juntas. O que tem é bibliografia em inglês, como outros manuais tem. E é natural que assim seja porque o mercado hoje em dia é incomensuravelmente maior em língua inglesa do que em francesa ou alemão, pelo que é natural que assim seja. Qualquer filósofo hoje em dia quando publica um artigo fa-lo na sua lingua de origem e em ingles, tal como noutros tempos o fazia em francês ou alemão. Mas sinceramente não vejo qual o problema que possa haver nisso. Talvez porque nos habituamos nos cursos ao franco germanismo dos nossos professores, mantemos uma ideia errada do que o que é produzido nessas línguas é que é bom. Certamente que terá coisas boas, claro. Acontece que hoje dia publica-se maioritariamente em inglês. Mas que dá isso??? Depois alguns colegas tem a tendência de ver nisto tudo uma conspiração. Pessoalemente não vejo nisto uma conspiração. E se visse nisto uma conspiração, por que razão não veria uma conspiração no que aprendi na faculdade? mas isso soa um bocado a esquizofrenia, o de ver conspirações em tudo. A bibliografia do Arte não tem nada de especial. Bem, mas temos mais manuais para falar, não?
abraço
De Conceição Sousa a 18 de Abril de 2008 às 19:28
Caro Rolando,

Mais uma vez obrigada por não deixar nenhum comentário sem uma resposta sua! Admiro a sua gestão do tempo. Não vou responder ao seu apelo de crítica de manuais pelas seguintes razões:
1. Não me sinto habilitada para o fazer; 2. Não conheço em profundidade cada um deles;3. Conheço melhor aqueles com que já trabalhei; 4. Não tenho o tempo necessário para a exigência da tarefa.
Procuro, no entanto, manter-me informada (até porque tenho de escolher). Não me parece existir um manual que se destaque de todos nem pela positiva, nem pela negativa - todos eles são aproveitáveis e adaptáveis. Aproveito ideias do arte de pensar (sobretudo da metodologia a usar em sala de aula), formas interessantes de apresentação de temas do Contextos, algumas boas sistematizações do Pensar Azul, textos do Logos, exercícios do Percursos, etc.

Gostaria, no entanto, de deixar algumas perguntas para discussão (tendo por objectivo a melhoria das aulas de filosofia):
1. O que é verdadeiramente um manual analítico e um do eduquês e porque é que ambos se excluem?
2. Devem os manuais de filosofia conter soluções das actividades propostas, bem como outros materiais de apoio?
3. Devem as actividades dos manuais ser diversificadas?
4. Devem os professores analisar textos nas suas aulas?
5. O que se deve privilegiar mais na escolha de um manual?

Interessa-me mais esta discussão do que aquela que tem sido aqui encetada. Se o Rolando tiver paciência e tempo para me responder, agradeço desde já. Gostava, inclusive, de ouvir outros intervenientes no blog. Cordialmente

Conceição
De Anónimo a 18 de Abril de 2008 às 19:32
Só uma observação: a anónima 1, 2 e 3 são a mesma! Este é o 4 e último post. Não adianta tentar falar com um grupo que se acha o máximo, o mais inteligente e que vive numa masturbação colectiva insuportável. Será orgásmico o constatar que o Arte de Pensar foi o manual mais adoptado? E será isso um "critério de cientificidade" que ateste realmente a qualidade do manual?
Quem me diz que o rebanho que o selecciona, não se encontra a dormir e que poucas são as ovelhas acordadas?

Com os melhores cumprimentos,
A ovelha que berra (contra a colonização analítica).
De Anónimo que não o "Anónimo" a 18 de Abril de 2008 às 19:47
Tenho que reconhecer: esta intervenção tem piada....
De catia faria a 18 de Abril de 2008 às 20:13

Cara anónima:

Defende que:

1) «não vou adoptar o Arte porque não é minimamente estimulante, quer do ponto de vista gráfico quer do ponto de vista de como o conteúdo nos é apresentado»

Perguntas:

Por que razão o Arte não é estimulante do ponto de vista gráfico? (não responde)
Por que razão o Arte não é estimulante do ponto de vista do conteúdo? (não responde)

O seu «Daí decorrente» remete evidentemente para consequências e não para razões que suportem aquilo que afirmou. Mas ignoremos isso. Vejamos então, se as razões que apresenta a seguir são de facto boas razões para defender o que defende em 1)

«1.1- Porque o Arte assemelha-se a uma Bíblia e p mim a Filosofia não endoutrina.»
Antes de mais, por que razão o Arte se assemelha a uma Bíblia?
Se pretende defender isso, não basta atirar categoricamente à parede afirmações discutíveis. Terá que justificar a sua afirmação, uma exigência básica, não só para alun@s como professor@s

«1.2- Porque os autores e apoiantes do Arte formam uma escola "analítica" directamente importada da grã-Bretanha e procuram subjugar e discriminar todos os que com essa visão não se identifiquem.»
Uma vez mais: justifique as suas afirmações. Um mero conjunto de afirmações desconexas não é um argumento.

«1.3- Porque o ensino de Filosofia propugnado pelo manual é redutor, e assente num mero debate argumentativo = estéril?»

Por que razão é redutor? Aqui não é claro se pretende justificar esta afirmação com a que adiciona de seguida e, como tal, não se percebe se estamos apenas perante um mau argumento ou se não estamos perante argumento algum.
Se não há argumento, peço-lhe que apresente um. Se, pelo contrário, pretende justificar a visão redutora do ensino da filosofia, apresentando como razão o facto de essa visão assentar no debate argumentativo (infiro isto da escolha de palavras como «mera» ou «estéril?»), pergunto-lhe: há outra forma de ensinar filosofia senão aquela de «ensinar a filosofar»?

E ensinar a filosofar é ensinar a arte de pensar e não terá sido por acaso que esse foi escolhido como nome do manual em questão. Mas se o nome é irrelevante, não é certamente a justiça que a ele faz na forma como apresenta a filosofia ao aluno, sem subterfúgios, sem enganos. Os conteúdos da filosofia são os seus problemas, teorias e argumentos. E isso está lá. E também está lá, como trabalhar esses conteúdos – o método – no final de cada exposição, uma secção dedicada à discussão desses problemas, teorias e argumentos. O mote para esse debate argumentativo a que a anónima chama de estéril – a esterilidade da filosofia.

«1.4- Porque se tivesse 15 e 16 anos, gostaria que me mostrassem de forma simples em que consiste a Filosofia e em que pode realmente contribuir para a minha vida. Ora isso não se deve ao Arte ( nem a alguns dos restantes manuais existentes), mas ao Professor de Filosofia que me calhar por sorte.»

Se defende que isso não se deve ao manual, para quê apresentar falaciosamente essa como uma razão para não adoptar o Arte? Onde é que está a ligação? Não entendo.

«1.5- Porque se adoptar o Arte estou a dar um tiro no pé da própria Filosofia.» Porquê?

«Não vou adoptar o Arte, porque navego contra a corrente»
Pergunto: mesmo quando a corrente está no caminho certo? Se estivesse perdida no meio de um rio e a corrente a levasse para a margem, insistiria em navegar contra ela apenas porque sim?

Não posso deixar de me espantar com a sua declaração final de orgulho anónimo «3- Sou assumidamente anónima (…)»
Diga-me, como qualificaria, sob o ponto de vista imparcial, alguém que defende isto?
Hipótese: «professor incapaz de compreender o significado do "ousar pensar por si".»?

Um abraço,

Cátia Faria


De Paulo Saraiva a 18 de Abril de 2008 às 21:01
Alguns dos melhores argumentos do Rolando a favor do Arte:

- Didacticamente os pontos fortes é que o manual é muito motivador para o aluno se confrontar directamente com os problemas e se questionar usando a sua cabeça.
(MUITO ESCLARECEDOR)

- Tem ainda as soluções de todos os exercícios do manual.
(SUPER ORIGINAL... É QUE MAIS NENHUM TEM!)

- O caderno do aluno tem muitas fichas que ora podem ser usadas para TPC, ora para realizar trabalhos e pequenos ensaios filosóficos.
(JURA?)

- O manual não devia ser tão bom para não provocar muita onda.
(ESPECTACULAR, ARGUMENTO SUPER FORTE)
De Valter Boita a 18 de Abril de 2008 às 21:20
Cara Conceição,
Partilho do mesmo ponto de vista que o seu. Este espaço deve ser de troca de impressões e não de insinuações. Esta caixa de comentários está a ficar muito indisciplinada! :)

Eu também não sou a melhor pessoa para responder às suas questões, mas acredito que aprendo mais reflectindo sobre elas do que pensar que tenho a resposta. Assim, para colaborar num debate racional e sério vou tentar apresentar algumas hipóteses.

1. O que é verdadeiramente um manual analítico e um do eduquês e porque é que ambos se excluem?
Não sei. Nem me parece relevante tais rótulos. Interessa-me um bom manual que apresente a disciplina de uma forma correcta e rigorosa cientificamente e que se adapte aos alunos. Por outro lado, aprecio um manual que desenvolva nos alunos o pensamento crítico e autónomo.

2. Devem os manuais de filosofia conter soluções das actividades propostas, bem como outros materiais de apoio?
Os manuais devem conter soluções das actividades propostas no Livro do Professor. Isto não significa que as respostas do manual sejam as únicas a ter em consideração. Os professores são autónomos e reponsáveis e ajuizarão se essa resposta é ou não adequada. Mas ajuda na preparação das aulas, confrontar a sua resposta com a dos autores do manual. Afinal, o professor também se pode enganar e os autores do manual também. Se um professor se enganar, a resolução dos exercícios evita tal deslize. Se os autores se enganarem, há manuais que disponibilizam fóruns e blogues para que estas dúvidas se dissipam.

3. Devem as actividades dos manuais ser diversificadas?
As actividades de um manual devem ser as que o professor privilegiará na avaliação sumativa. Outras actividades que não constem do manual, podem ser criadas pelos professores de acordo com as necessidades dos seus alunos. Um manual não é bom porque inventaria uma série de actividades que muitas delas nem sequer fazem sentido. Um bom manual deve centrar actividades na aquisição de conhecimentos e mobilização de competências filosóficas. Todas as actividades extraordinárias bem podem ser planificadas pelos professores, depois de conhecerem os seus alunos. E quantas vezes não temos de arranjar estratégias diferentes para diferentes turmas do mesmo ano?

4. Devem os professores analisar textos nas suas aulas?
Na minha opinião, o texto deve ser encarado como um meio, mas não como um fim. Justifica-se o trabalho de texto nos momentos em que se está a analisar e comaparar teorias específicas de um filósofo. Embora acredite que nem sempre é fácil encontrar um texto de um filósofo acessível aos alunos do 10 e 11 anos.

As aulas, a meu ver, e gostaria de ler outros pontos de vista, não devem centrar-se em textos, mas em problemas e argumentos. Os alunos aprendem melhor a filosofar analisando argumentos mesmo que estejam reescritos na sua linguagem do que a extraí-los de um texto. Mas trata-se de uma mera hipótese. Embora seja verdade que quando planifico as aulas já não tenho tanta preocupação com os textos como antes.

5. O que se deve privilegiar mais na escolha de um manual?
Boa pergunta! Apresentação dos conteúdos filosóficos numa linguagem clara, rigorosa e estimulantes para os alunos.

Um abraço Conceição!
Valter
De rolandoa a 18 de Abril de 2008 às 21:39

Cara Conceição,

1. O que é verdadeiramente um manual analítico e um do eduquês e porque é que ambos se excluem?
Não creio que existam manuais analíticos. Há manuais mais directamente inspirados na tradição socrática da argumentação e outros menos. Um manual do «eduquês» é um manual que faz a vénia aos princípios do romantismo rousseano, a aprendizagem centrada no aluno, o centramento nas competências em vez dos conteúdos, etc… torna-se difícil em poucas palavras explicar todo o contexto em que se move um sistema de ensino baseado no eduquês. Ao longo destes dois últimos anos tenho publicado uma série de textos que, melhor ou pior e com as limitações de sempre, denunciam o eduquês. Mas o melhor mesmo é ler os livros do Nuno Crato que contextualizam e muito bem as linhas com que se move o eduquês.
2. Devem os manuais de filosofia conter soluções das actividades propostas, bem como outros materiais de apoio?
Creio que sim por uma razão. Estou a lembrar-me quando comecei a leccionar a lógica proposicional. Como não estava muito a vontade a melhor estratégia é não inventar muito e pude sempre fazer os exercícios comparando os resultados com as soluções. Quando não dá certo tenho de procurar o que falhou. As soluções, para o professor, pode ser uma grande vantagem. Para os alunos não, é claro. Para isso tem o professor. Em relação aos materiais de apoio, depende do que se pretende fazer. Estou a lembrar-me quando peço aos meus alunos o ensaio argumentativo. Uma boa lista de obras na biblioteca da escola adequadas para as suas pesquisas é o ideal, mas isso nem sempre é possível. Se o manual oferecer bons materiais extra, ainda melhor. Há um livro de Nigel warburton (sem tradução ainda) que refere que um dos principais instrumentos de aprendizagem na filosofia, mesmo em idades muito jovens, é a redacção do ensaio argumentativo. Uma das coisas que dá muito jeito, por exemplo, é a inclusão no caderno do estudante de ensaios de alunos e de instruções para a redacção de um ensaio.
3. Devem as actividades dos manuais ser diversificadas?
Depende do que entende por diversificar actividades. O manual deve ensinar o aluno a um método, pelo que deve ser organizado e não inventar muito. No fundo todos os manuais fazem isso. Do meu ponto de vista não tem qualquer interesse para a filosofia propor actividades como pintar muros, etc. até porque qualquer professor pode fazer isso sem o manual (até gosto, como professor, de participar nas actividades dos alunos). Mas as actividades como organizar o debate com método próprio, questões de exploração, etc… parece-me positivo. Não há muita metafísica nisto. Os melhores manuais que conheço, mesmo estrangeiros, não inventam muito e propõem exercícios plausíveis.
4. Devem os professores analisar textos nas suas aulas?
Claro. A selecção de textos tem de ser cuidadosa e os textos não podem ser muito longos (a menos que sejam para realizar trabalhos escritos). Um texto pode ser lido, pode ser formalizado pela lógica (exercício muito complexo talvez para os nossos alunos), podemos perguntar qual a tese que se defende, quais as razões que estão por detrás dessas teses, discutir essas razões, pensar em soluções alternativas, etc…. mas também é possível apresentar os argumentos sem analisar textos. Eu faço, por exemplo, trabalhos de leitura com os alunos e posterior discussão. Um exemplo breve: quando leccionei Descartes este ano, como queria que os alunos estudassem na própria aula – para as turmas mais fracas – coloquei uma série de questões iniciais e seleccionei uma série de textos para que eles fossem respondendo às questões enquanto avançavam na leitura. O meu trabalho foi andar a acompanhar durante 90 minutos os alunos tirando dúvidas, ajudando-os no desenvolviemnto das suas leituras. Cerio que todos fazemos isto nas nossas aulas. Tá a ver uma razão pela qual o manual é um instrumento tão importante para mim?
(CONTINUA)
De rolandoa a 18 de Abril de 2008 às 21:39
(CONTINUAÇÃO)
5. O que se deve privilegiar mais na escolha de um manual?
Creio que um manual de filosofia deve contemplar, acima de tudo, a filosofia. Deve ser cientificamente rigoroso, sem disparates. Deve ser organizado e não uma manta de retalhos resultado de colagens que se guarda durante anos na gaveta. Deve ser escrito de raiz e não copiando aqui e ali. E deve ser feito com base numa bibliografia actualizada e credível, para além de ser primária e não secundária. Finalmente, deve ser escrito numa linguagem clara para o público a que se destina. Nisto, não há nada de metafísico.
Espero ter contribuído para a boa discussão. Tentei ser breve e objectivo nas minhas respostas. Claro está que estas são as linhas fortes, discutíveis é certo.
Abraço e thanks
De Conceição Sousa a 19 de Abril de 2008 às 01:08
Caro Rolando e Valter,

Obrigada pela vossa resposta tão breve. Concordo com muitas coisas que dizem e passarei a expor, também, como eu própria responderia às questões que formulei. Será que concordam?

1. Pelo que percebi, o rótulo de analítico terá mais que ver com uma orientação filosófica mais anglo-saxónica. Se a filosofia de ponta, na vossa perspectiva, vem de lá, então estes manuais é que ensinam conteúdos relevantes. Quanto ao eduquês, creio não estar muito esclarecida. Pelo que me lembro, o termo foi usado por Marçal Grilo como reacção às críticas que lhe foram dirigidas pelos teóricos das ciências da educação , mais particularmente, dos sociólogos da educação, pelas suas reformas. Uma vez que as diferentes áreas disciplinares usam vocabulários próprios, não acessíveis ao público em geral, esses teóricos foram, assim, acusados de falarem o eduquês, uma espécie de língua hermética e vazia de conteúdo. O que N Crato faz no livro que refere é a recolha de textos oriundos das ciências da educação (mais até da pedagogia) para exemplificar esse eduquês. Um pouco na linha de Filomena Mónica, que entrou há uns tempos em discussão pública (no Público) com aqueles que ela apelidou de filhos de Rousseau, N Crato considera que a mediocridade na educação e a descida dos níveis educativos se deve a uma postura construtivista e rousseauiana da pedagogia moderna que promove o facilitismo e o vale tudo em sala de aula, desde que o aluno aprenda a aprender, mesmo que não aprenda qualquer conteúdo. Recordo-me também de aqueles que foram chamados de eduqueses terem dito que o insucesso escolar não se devia à introdução das novas pedagogias mas sim à massificação e democratização da escola, pós-25 de Abril, que passou a ser frequentada por alunos provenientes de outros estratos sociais que não a tradicional – da classe média alta. Assim, os níveis educativos baixaram porque o background cultural dos alunos que puderam passar a frequentar a escola era mais baixo do que acontecia antes.
Curiosamente, depois de muito criticar o construtivismo, Crato acaba por referir que não é o construtivismo que está em causa, mas sim os exageros (por exemplo, o de concluir que não deve haver transmissão de conhecimentos, mas apenas construções do aluno). Devemos, na sua perspectiva, adoptar um construtivismo moderado. Nas suas próprias palavras,

«Aqui surge uma ideia que parece consensual: é importante ir ao encontro dos interesses dos alunos. De uma forma moderada, tem alguma razão de ser: é de facto importante tentar chegar aos assuntos que interessam aos jovens. Mas uma coisa é tentar perceber os estudantes para conseguir levá-los às formulações matemáticas, ou seja, partir de coisas concretas para elevar o seu grau de abstracção - sendo assim, tratar-se-ia de uma actuação pedagógica frente a um objectivo fixado; outra coisa é exagerar a ideia (uma Matemática para cada aluno) e promover a fragmentação do conhecimento. Nesta versão radical, não há objectivos nem conteúdos curriculares fixados: cada aluno avança por si, pois naturalmente apenas se pretende o desenvolvimento dos seus interesses. É a redução ao concreto, numa atitude anti-intelectual tipicamente rousseauniana.Como resultado tolhe-se, naturalmente, a capacidade de abstracção dos estudantes».

Neste sentido, gosto dos manuais que partem dos interesses dos alunos para depois os colocar face à Filosofia, e, com efeito, creio que não existem no mercado verdadeiros manuais do eduquês – pretende-se ensinar filosofia a partir de diferentes estratégias, umas mais moderadas, outras menos, mas creio que todos se propõem atingir metas!

p.s. às outras perguntas tentarei responder mais tarde.
Cordialmente

Conceição

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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