Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Filosofia ou não filosofia, eis a questão

O Filosofia 11 é um manual competente e pode competir com os melhores porque é um dos melhores manuais que vi( até hoje, ainda me faltam uns 4 manuais). Em comparação com a edição anterior esta está até muito mais cuidada, sem grandes nódoas a manchar o trabalho. O que é que me faz considerar este um bom manual para ensinar filosofia? Os ingredientes habituais que fazem dum manual um bom manual. É rigoroso e muito certo, não lhe encontrando falhas significativas e é dotado de uma linguagem clara. Este é um ponto particularmente interessante por uma razão: há quem defenda que os manuais devem propor actividades diversificadas. Ora, questiono o que se entende por tal? Filmes? Pintar o muro da escola? Fazer a árvore de natal com as caras dos filósofos no lugar das bolas?
Rolando Almeida
Um manual de filosofia deve ensinar, em primeiro lugar, filosofia. De acordo com o seu talento o professor pode exibir um filme, comentar um texto extra filosófico, etc… se para tal tiver tempo e achar que com isso ganha alguma coisa de útil em termos de ensino da filosofia. Um manual não tem de propor isso e muito menos tem de o propor no lugar onde devem aparecer os conteúdos da filosofia. Mas o mais estranho é que quem defende uma coisa dessas não se dá conta que está a contribuir decisivamente para o desaparecimento da filosofia. Aliás essa foi a linha de orientação para o 12 º ano: dar a maior liberdade possível ao professor. Deu-se tanta que os alunos pura e simplesmente se desinteressaram pela disciplina e hoje em dia não se matriculam em filosofia. E fico sempre agradado com manuais que ensinem filosofia. De resto também eu li as Encíclicas Papais na disciplina de filosofia política na universidade, mas isso não implica que as Encíclicas sejam filosofia política. Mas regresso ao manual: Não aprecio especialmente o grafismo no interior do manual, apesar de ter uma capa bonita. Fundamentalmente é um manual que ensina filosofia com os filósofos e os problemas da filosofia. O facto de ser escrito com um bom suporte bibliográfico ajuda a compreender porque é que estamos perante um manual competente. Um dos aspectos que me saltou de imediato à vista com a leitura das primeiras páginas é que não há lugar à divagação e isso é revelador da capacidade didáctica do manual, pois evitar a divagação se é importante para um filósofo, que fará para um aprendiz de filosofia. A inclusão de Kant na filosofia do conhecimento parece-me sempre discutível, apesar de saber que muitos professores não concordam comigo. Mas tenho uma razão para pensar assim: nesta unidade o que se pretende é esclarecer o aluno sobre empirismo e racionalismo. Ok, Kant aparece como a ponte, mas, nesse caso, também se poderia incluir Kripke que dá um avanço a Kant. Mas trata-se obviamente de uma posição que não desmerece em nada o manual. Por exemplo, acharia muito mais importante a inclusão das derivadas na lógica formal. De um ponto de vista mais prático o manual tem bons exercícios e um bom caderno do professor com as soluções dos exercícios. Uma opção que não aprecio tanto é a inclusão, na retórica, do pathos, ethos e logos. Não se trata de um conhecimento instrumental sequer, mas o professor pode ser optar por dá-lo a título informativo, como eu próprio tenho feito. A virtude é que estes conteúdos não anularam o lugar dos conteúdos mais essenciais. Em relação à edição anterior algumas partes foram cortadas e bem, como o caso da retórica que estava demasiado extensa. Tenho experiência de trabalhar com manuais deste autor e sempre senti que poderia desenvolver um trabalho seguro sem atropelos de maior. Se a edição anterior pecava por ter alguns capítulos de dificuldade mais elevada e parte significativa do manual ser ocupado com a lógica formal e informal, para esta edição esses defeitos foram colmatados e o produto final é consistente e seguro e fiável para ensinar filosofia. A título exemplificativo, basta abrir este manual nas primeiras páginas e comparar com os seus pares para observar a diferença que nele ocorre.
O manual vem ainda apetrechado com o habitual caderno do professor e do aluno, cd rom e site, sendo que neste caso o caderno do professor tem todas as soluções dos exercícios propostos, o que é útil.
Luís Rodrigues, Filosofia 11, Plátano, 2008


publicado por rolandoa às 02:36

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14 comentários:
De Valter Boita a 16 de Abril de 2008 às 12:24
Olá Rolando, que grande debate que por aqui vai! :)

Eu também gostei do manual "Filosofia 11" do Luís Rodrigues e não achei, graficamente, inestético. Gosto dos esquemas sintéticos no final de cada tema, mas já não gosto das ideias síntese, pois vai levar os alunos a contactarem apenas com estas ideias já resumidas e pré-fabricadas em vez de serem eles a fazê-las.

Outra desvantagem que vejo neste manual é na Unidade 3: "Horizontes e desafios da Filosofia". Este manual, à semelhança de tantos outros, selecciona dos três temas previstos pelo programa a "Filosofia e os outros saberes" e a "Finitude e temporalidade". Esta opção é sempre limitadora porque não dá liberdade aos professores que prefiram leccionar o tema Filosofia na Cidade guiarem-se por este manual. É tao incorrecto apresentar apenas duas vias opcionais, quando são três, como se se eliminasse outros temas opcionais do programa - omitir a lógica proposicional ou a filosofia da religião, por exemplo.

Analisando mais aprofundadamente estes temas, o primeiro parece redundante com o que se tem estudado em capítulos anteriores. Repare-se que começa por repetir o problema do relativismo epistémico, da especificidade da filosofia e do seu discurso, ficando muito aquém do que o Programa indica.

O tema "Finitude e Temporalidade" está igualmente bastante incompleto, confrontando a posição de Kierkegaard com a de Camus, o que já fazia no manual anterior, sem dar grandes oportunidades para os alunos tomarem uma posição sobre um problema que lhe diz tanto: "Será que a existência tem sentido?".

Um abraço
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 15:21
Olá Valter,
Na realidade apressei-me a escrever sobre o manual de LR porque o conheço bem, um avez que tenho trabalhado com a edição anterior e é curioso que todos aqueles momentos menos bons do manual e que eu estava prontoa disparar, foram alterados para bem melhor. Com certeza que ainda há opções discutíveis, como há em todos. Há professores, por exemplo, que acham que o Arte deveria incluir o Kant na epistemologia. É perfeitamente legítimo que o defendam. Nada a opor. Mesmo assim, esta edição do LR está claramente entre os melhores. Aliás, do que vi, além do Arte, esta parece ser uma opção segura, pelo menos para quem quer realemente ensinar filosofia com a filosofia.
Abraço
De António Paulo a 16 de Abril de 2008 às 15:47
Caro Valter
A opção "Filosofia na cidade" aparece no Cd de apoio ao professor.
Cumprimentos
António Paulo
De Valter Boita a 16 de Abril de 2008 às 16:55
António Paulo,
Agradeço-lhe a informação. Infelizmente, recebi apenas o manual.
Um abraço
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 17:02
Olá António,
É verdade, o Cd vem cheio de bons materiais e eu tinha esquecido de referir isso ao Valter. obrigado
De JP Simões a 22 de Abril de 2008 às 22:53
Uma desvantagem clara deste manual parece-me ser o facto de recorrer, muito para além do razoável na minha opinião, aos textos adaptados (mais de 30 textos adaptados em cerca de meia centena de textos, incluindo diversos textos de clássicos). Parece-me, claramente, uma má opção, um ponto a desfavor do rigor. Por outro lado, não consigo compreender a razão pela qual se pega numa edição em francês de David Hume, havendo tradução portuguesa, a partir do original.
Um abraço
JP
De rolandoa a 23 de Abril de 2008 às 00:24
Caro JP,
Obviamente não posso responder pelos autores dos manuais, mas creio que praticamente todos os autores adaptam textos, quando os traduzem. Mas por regra a maior parte dos autores não se dão ao trabalho de traduzir, servindo-se das traduções existentes. O reparo do David Hume é um bom reparo.
Obrigado e abraço
De JP Simões a 23 de Abril de 2008 às 10:29
Caro Rolando,
Primeiro, mesmo que, hipoteticamente, TODOS os autores adaptem textos quando os traduzem, este facto, só por si, está longe de poder legitimar o que quer que fosse, parece-me.
Segundo, basta folhear as primeiras páginas do FILOSOFIA 11 para percebermos que a opção por adaptar textos em Luís Rodrigues não está directamente relacionada (ou não o está exclusivamente) com as suas respectivas traduções.
Terceiro, parece-me, para além de má, uma opção perigosa do ponto de vista da mensagem que se transmite aos alunos.
Obrigado
Abraço
De rolandoa a 23 de Abril de 2008 às 11:17
Caro JP,
Se não legitima o que quer que seja, porque é que levantou a questão? Por acaso eu acho que legitima: legitima o trabalho que um autor tem ou não para conceber um manual.
E é perigoso para o aluno porquê? Não disse porquê....
De JP Simões a 23 de Abril de 2008 às 12:20
Caro Rolando,
Irra homem!, por vezes é mesmo difícil dialogar consigo: "ouve", mas tem grande dificuldade em "escutar", principalmente se se discordar de si... O que eu disse é que o facto de todos fazerem x, y ou z não transforma, só por este facto, x, y ou z em algo correcto. Ou seja, o que eu disse foi que utilizou um argumento fraco para justificar as adaptações. Não questionei nem questiono o mérito de os autores recorrerem a adaptações próprias, a não ser que estas visem alterar o sentido dos textos para que estes digam, não o que dizem, mas aquilo que pretendemos que dizem. E é neste ponto que a mensagem a passar aos alunos pode ser perigosa. Creio que não é difícil de entender a minha objecção às adaptações.
Um Abraço.
De JP Simões a 23 de Abril de 2008 às 12:23
Onde se lê "adaptações próprias" deveria esta TRADUÇÕES próprias e onde se lê "pretendemos que dizem" deve ler-se pretendemos que DIGAM.
De rolandoa a 23 de Abril de 2008 às 13:06
JP Simões,
Posso estar a ver mal a coisa, mas vamos lá a mais uma tentativa. Se não resultar, viramos a página, ok?
1º disse:
“Uma desvantagem clara deste manual parece-me ser o facto de recorrer, muito para além do razoável na minha opinião, aos textos adaptados (mais de 30 textos adaptados em cerca de meia centena de textos, incluindo diversos textos de clássicos). Parece-me, claramente, uma má opção, um ponto a desfavor do rigor.”
Logo, as adaptações é uma desvantagem clara do manual.
“Primeiro, mesmo que, hipoteticamente, TODOS os autores adaptem textos quando os traduzem, este facto, só por si, está longe de poder legitimar o que quer que fosse, parece-me.”
Creio que pretende dizer que “o que quer que fosse” é a eventual opção de adopção por este manual, ou a falta de qualidade dele, ou então, que não é por se usar adaptações que podemos dizer que o manual é mau. Concordo, mas não tinha dito que as adaptações do manual é uma clara desvantagem?
“Não questionei nem questiono o mérito de os autores recorrerem a adaptações próprias, a não ser que estas visem alterar o sentido dos textos para que estes digam, não o que dizem, mas aquilo que pretendemos que dizem. E é neste ponto que a mensagem a passar aos alunos pode ser perigosa.”
Pois, a verdade é que baralhou-me e eu já não sei se as adaptações são uma opção boa ou má. Pessoalmente, como lhe disse de forma clara, não vejo problema algum nessa opção.
“Creio que não é difícil de entender a minha objecção às adaptações.”
Não, não é difícil. Difícil é entender se de facto é uma objecção ou não.
“O que eu disse é que o facto de todos fazerem x, y ou z não transforma, só por este facto, x, y ou z em algo correcto.”
Então JP Simões e não é isso que ando a dizer há meses no meu blog?
Espero ter sido mais claro
Abraço
De JP Simões a 23 de Abril de 2008 às 13:34
Caro Rolando, não quer perceber: (1) Eu não questiono o mérito das traduções por parte dos autores, mas questiono as adaptações (tive oportunidade de corrigir logo depois do post a gralha, mas não viu); (2) Uma boa tradução não adapta, traduz; (3) Adaptações excepcionais não me parecem erradas, por regra sim, insinuam falta de rigor; (4) Mesmo que todos os autores adaptassem as respectivas traduções, isso continuaria a parecer-me errado, principalmente se o objectivo for apropriar-me de um texto para fazer o seu autor dizer aquilo que pretendo que diga e não o que diz. Não vejo onde possa estar a falta de clareza.
Abraço
De rolandoa a 23 de Abril de 2008 às 16:13
Olá JP,
a verdade é que me fez lembrar agora um sketch do Gato Fedorento a ironizar com o Scolari, "e o burro sou eu?"
Ok, vire-se a página.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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