Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Tantas vezes o cântaro vai à fonte, até que parte

Com o Percursos estamos perante  um manual que me parece levantar algumas limitações na prática lectiva. A composição do texto dos autores tem erros pontuais o que lhe confere alguma falta de rigor. É com alguma frequência que encontramos frases como esta: "o raciocínio científico, (que infere teorias gerais a partir de observações particulares) é frequentemente apresentado como paradigma de raciocínio indutivo"(p.12).trata-se de uma ideia enganadora. As teorias gerais não se inferem por indução de observações particulares. A observação de casos particulares é um dos elementos da elaboração das teorias científicas, mas não é o único. As teorias são também fortemente dedutivas. As coisas estão misturadas. Para explicar aos alunos o que é a indução, mais vale dar exemplos. Se queremos depois dizer que as ciências empíricas usam muito a indução, temos de o dizer assim e não do modo enganador acima.
Rolando Almeida

 O potencial didáctico do manual deixa muitas vezes a desejar. Fico com um ponto de interrogação de como funcionará a compreensão do aluno na leitura de passagens como esta que escolhi: “A questão está em saber não o que torna uma cadeira real por oposição a uma mesa real, mas em saber o que torna uma cadeira e uma mesa reais, por oposição a uma cadeira e a uma mesa não reais, imaginadas, por exemplo.” Isto para iniciar o ponto sobre a natureza e possibilidades do conhecimento. O texto arranca logo assim, de rompante, após um excerto vago e claro de Nigel Warburton, uma livro com mais de 10 anos de edição portuguesa, mas que somente em anos mais recentes aparece em abundância nos manuais, mas isto é motivo para outra discussão. Prossegue o texto, “desde já, o que distingue a cadeira ou a mesa reais da cadeira ou da mesa imaginadas não reais, é que estas existem apenas nas nossas mentes e as primeiras existem no mundo independentemente das nossas mentes”. Por acaso as coisas até podem nem se passar bem assim, uma vez que podemos ter uma existência virtual sem o sabermos. Isto são outras conversas. Arrisco a afirmar que se trata de uma opção pouco intuitiva, para além de que este tipo de conversa soa mal aos estudantes. Vamos seguir um pouco mais no exemplo que escolhi. Mais à frente diz-se: “quando olhamos para uma cadeira, a nossa experiência tem uma unidade e uma estabilidade. Não somente vemos e pensamos, vemos a cadeira como um todo independentemente das suas diversas partes que a constituem”. (p.148) Não sei qual a necessidade de todo este discurso para colocar ao estudante um problema filosófico como: Como conhecemos os objectos externos? Após um longo texto de Javier Sábada (mais bibliografia secundária), o cepticismo é exposto como uma teoria realista ingénua, ao mesmo tempo que, na mesmíssima página se inclui um capítulo pequeno no qual se compara o senso comum ao realismo ingénuo. Ou seja, o cepticismo é senso comum? È precisamente o contrário: o senso comum é, antes de tudo, dogmatismo. As parcas linhas (meia página) dedicadas ao cepticismo é a identificação do inimigo. Após ler este texto, duvido que algum aluno alguma vez sinta curiosidade pelos cépticos e é pena porque os cépticos desenvolveram argumentos fabulosos e que ainda hoje dão muito que pensar aos filósofos. Mas o Percursos precisa de identificar alguns inimigos para impor as suas teses. Um manual deve expor uma teoria ou tese sem fazer considerações de maior. Mas o manual insiste em confusões que algumas leituras poderiam ter desfeito. Ora vejamos: primeiro aquela conversa que citei acima, depois apresenta o cepticismo como realismo ingénuo para, logo a seguir apresentar duas teorias que fazem frente ao realismo ingénuo do cepticismo: o realismo ingénuo do senso comum e o idealismo. Mas depois não explica por que é que estas teorias procuram objectar o cepticismo. Confuso? Também eu! Fique o leitor com este exemplo e continue a folhear o manual que vai certamente ao encontro de outras incoerências.
 
O manual está cheio de exemplos desta natureza. Falta-lhe tempero na escrita e apuro em clareza. Na lógica proposicional os argumentos são apresentados quase como se fossem todos silogismos, com duas premissas e uma conclusão. Errado? Não me parece, mas podemos simplificar as coisas na base para exigir mais sofistificação mais adiante. Mas é verdade que as sínteses, por exemplo, são úteis para as aulas e estão globalmente correctas, como é o caso da que aparece na página 13. Este é um manual que precisará sempre de algumas notas complementares do professor como, por exemplo, que um argumento pode ter premissas e conclusão falsas e ser válido, que pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido ou ainda que pode ter premissas e conclusão verdadeiras e ser inválido. Creio também que é altura de muitos manuais abandonarem a ideia feita (por acaso muito devedora de Platão) que os Sofistas eram uns vendedores da verdade, relativistas e simplistas. Basta pensar que 1) os sofistas escreveram textos filosoficamente sofisticados e 2) que o próprio Sócrates foi muitas vezes acusado de Sofista.
Avanço que ainda há mais manuais em espera.
Em termos organizativos, o manual é ainda apoiado por uma bibliografia bastante limitada, além de ser bibliografia secundária. O autores em cada capítulo agarram-se a um ou dois livros e pouco saem dali. O manual contém muitos capítulos cuja desproporção entre o texto dos autores e os textos citados é demasiado evidente. Para o professor que pretende preconizar um ensino muito ligeirinho e, eventualmente, deparando-se com erros básicos, para além de explorar as aulas com poucos exercícios e interactividade, mesmo com muita confusão à mistura, o manual até pode ser operacional. Até tem pequenos pontos de interesse como algumas objecções às teses principais e existe no manual alguma preocupação em actualiza-lo filosoficamente, o que lhe dá uma pontuação acima de alguns congéneres, mas não lhe perdoa a ligeireza com que os problemas são apresentados.
Nos temas e problemas da cultura científica, o primeiro problema em análise é sobre as alterações climáticas. Das 14 páginas que são dedicadas ao problema, 5 páginas são textos de um único autor, 5 de uma cronologia climática , 1 de exercícios. Ou seja, mais as imagens, o qu sobra de texto do manual? Praticamente nada. E o que há para criticar? Nada. E este é o único tema problema proposto pelo manual. Todo o tema problema é passado sem citar um único filósofo.
Quanto à unidade final é uma pequena história de Galileu. Tudo fica por fazer neste capítulo. Exagera-se mais uma vez num único livro de consulta, neste caso, de Claude Allegre, um divulgador da ciência. O capítulo final, A filosofia na cidade, é a história da vida de Sócrates contada em algumas páginas.
Graficamente o manual tem uma capa elegante, mas o interior deixa a desejar, apesar de funcional. O manual acaba a perder por ainda seguir muito de perto o método de corta e cola, um método que funciona nas artes, mas não para conceber bons manuais escolares. É um manual que trata as matérias de um modo, por vezes, muito ligeiro e insuficiente.
O manual vem munido dos matérias complementares habituais, sem grande interesse. Uma palavra de destaque para o programador do cd rom que fez um trabalho acima da média do que tem aparecido em manuais de filosofia.
Carlos Amorim e Catarina Pires, Percursos, Areal Editores, 2008


publicado por rolandoa às 22:28

link do post | favorito
23 comentários:
De Catarina Pires a 15 de Abril de 2008 às 23:38
Caro Rolando
Parece-me que começa a fazer as coisas com alguma precipitação e esta, diz a sabedoria popular, é inimiga da perfeição. Acontece… Diz o Rolando: “Este é um manual que precisará sempre de algumas notas complementares do professor como, por exemplo, que um argumento pode ter premissas e conclusão falsas e ser válido, que pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido ou ainda que pode ter premissas e conclusão verdadeiras e ser inválido.” Dizemos nós: “Estes exemplos mostram-nos, portanto, que um mau argumento pode ter premissas e conclusão verdadeiras, tal como um bom argumento pode ser constituído por premissas e conclusão falsas.” (pp. 10-11) E acrescentamos: “Não precisamos sequer de saber o que as premissas e a conclusão querem significar para podermos determinar a validade de um argumento.” (pág. 11) Continua o Rolando: “Creio também que é altura de muitos manuais abandonarem a ideia feita (por acaso muito devedora de Platão) que os Sofistas eram uns vendedores da verdade, relativistas e simplistas. Basta pensar que 1) os sofistas escreveram textos filosoficamente sofisticados e 2) que o próprio Sócrates foi muitas vezes acusado de Sofista.” Se há manual para o qual tal acusação é simplesmente leviana é este. Recomendo-lhe uma leitura mais cuidada e respeitosa do trabalho dos outros para que não deixe escapar que: “Os sofistas respondem às necessidades e exigências do novo regime democrático. A revolução pedagógica que transportam tem um carácter mais técnico do que político. Elaboram uma técnica nova, um ensino mais completo, mais ambicioso e mais eficaz do que aquele que existia.” (pág. 85) “Contudo, da sofística não há que registar apenas os defeitos, mas também as virtudes. Para além da visão negativa da retórica, que chega até nós, fundamentalmente através de Platão, temos também de ver nela a dimensão de liberdade que a palavra concede a quem a domina.” (pág. 88)
“Podemos reconhecer aos sofistas os seguintes méritos:
Iniciaram uma reflexão sistemática sobre os problemas antropológicos;
Desenvolveram a discussão crítica sobre as limitações e o valor do conhecimento;
Destacaram o carácter diverso e relativo das leis, próprias de cada cidade;
Defenderam o conceito de natureza comum a todos os homens, o que serviu para fundamentar a lei de modo mais igualitário e universalista;
Incrementaram princípios educativos para o ensino da gramática e da retórica; Protágoras considerava-se um mestre da sabedoria e da virtude política (politike arete), formando os jovens para o debate público e o governo do Estado.Deram início à ciência pedagógica e à formação humanista na antiguidade, através do ideal sofístico de uma natureza humana que pode ser educada e constantemente aperfeiçoada.” (pág. 88)
“A oposição platónica à retórica e ao relativismo dos sofistas é também uma reacção contra o regime democrático e é clara e explícita.” (102)
Catarina Pires
De Catarina Pires a 16 de Abril de 2008 às 00:06
Afirma o Rolando: “O capítulo final, A filosofia na cidade, é a história da vida de Sócrates contada em algumas páginas.” Ups… Bastava ter passado os olhos pelo Índice para ter percebido que não se trata do “capítulo final”. Há mais. Verifique porque há. Quanto à sua afirmação “E este é o único tema problema proposto pelo manual. Todo o tema problema é passado sem citar um único filósofo.” Acho que lhe escapou também qualquer coisa… (Tantas vezes o cântaro vai à fonte…) Verifique se quiser. Fico-me por aqui.
Catarina Pires
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 00:14
Cara Catarina,
Agradeço o seu comentário, mas diz algumas falsidades que espero esclarecer:

“Estes exemplos mostram-nos, portanto, que um mau argumento pode ter premissas e conclusão verdadeiras, tal como um bom argumento pode ser constituído por premissas e conclusão falsas.” (pp. 10-11)
Acontece que um argumento pode ser válido e nem por isso ser um bom argumento. E um bom argumento jamais poderá ter premissas e conclusão falsas, porque nem é sólido, muito menos cogente. Portanto,. Catarina, não estamos a falar da mesma coisa e o seu manual tem isto errado. A validade por si só não garante que um argumento seja bom. Um argumento é bom quando convence. A validade é uma condição necessária, mas não suficiente para um argumento ser bom. Olhe lá: Lisboa é a capital de Espanha. A Espanha faz parte da Itália. Logo, Lisboa faz parte da Itália.Acha que alguém é capaz de aceitar este argumento como bom?Logo, um bom argumento não pode ser constituído por premissas e conclusão falsas, como refere no seu manual.
Em relação aos Sofistas. O seu manual aborda esta questão em muitas páginas. Em muitas páginas creio que diz mais verdades que falsidades, mas essa não é a razão pela qual 30 verdades eliminam uma falsidade. Isto é como dizer uma mentira e depois andar a tentar mostrar que se diz muitas verdades para tentar esquecer a mentira.
Em relação à pressa ser inimiga da perfeição eu não me preocupo com isso por uma razão: porque não sou obrigado a ler tudo no tempo que tenho e uma afirmação falsa não deixa de ser falsa por ler tudo.
Abraço

De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 00:52
Mas Rolando o que você diz é e cito "Este é um manual que precisará sempre de algumas notas complementares do professor como, por exemplo, que um argumento pode ter premissas e conclusão falsas e ser válido, que pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido ou ainda que pode ter premissas e conclusão verdadeiras e ser inválido." Permita-me a franqueza, mas não há aqui qualquer consideração sobre a bondade ou a cogência do argumento. O Rolando está a referir-se SEMPRE à validade. Mais uma vez errou, mas isso não interessa nada, pois, como já reconheceu que erra, está absoltuamente legitimado para expor os erros (ou pseudo-erros?) dos outros.
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 01:23
Caro Anónimo,
O que eu aformei é que é errado confundir validade com argumentos bons ou cogentes e isso é o que aparece no manual. Isto não é um pseudo erro e demonstrei-o na minha resposta à Catarina. Venha-me lá agora dizer que o manual tem muita coisa certa!!! Pois tem. Isso também eu o disse no meu texto. Eu disse que a afirmação P é falsa e o anónimo está a querer dizer, tal como a Catarina, que estão lá as afirmações Q, R, S que são verdadeiras. E isso invalida que P continue falsa? É um pseudo erro?
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 01:32
Não estou a querer dizer o que quer que seja. Estou a dizer que você disse "Este é um manual que precisará sempre de algumas notas complementares do professor como, por exemplo, que um argumento pode ter premissas e conclusão falsas e ser válido, que pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido ou ainda que pode ter premissas e conclusão verdadeiras e ser inválido." Portanto, disse referindo-se APENAS à validade. Não se refere à solidez nem à cogência. Disse até que "pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido" e isso em qualquer parte do mundo é uma palermice. Mas isso agora não interessa nada, pois,não?
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 01:38
Caro anónimo,
Estou com algumas dificuldades em compreender o que pretende. Pretende dizer que é palerma afirmar que um argumento pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido, por exemplo? Não, não é palerma e dou-lhe um exemplo: Sócrates era alemão ou Platão era grego, logo Platão era grego. tem premissa V e conclusão F e é dedutivamente válido. O que eu disse está claramente correcto e qualquer boa introdução à lógica explica isso.
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 01:41
Irra! Você disse "um argumento pode ter premissas falsas e conclusão verdadeira e ser válido", O que é que isso tem que ver com "era alemão ou Platão era grego, logo Platão era grego. tem premissa V e conclusão F e é dedutivamente válido"?!
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 02:17
Pois enganei-me, mas você não topou que o argumento é dedutivamente válido só que tem é premissa F e conclusão V. Obviamente o contrário não seria possível. Mas diga-me lá, qual é o problema disto? Não sabe que isto é perfeitamente possível na validade? Irra digo eu, homem.
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 11:06
Caro anónimo,
Até me enganei outra vez. É o que faz responder a tantos comentários seguidos. Se tivermos a premissa “Sócrates é grego e Aristóteles alemão” e a conclusão “logo, Sócrates é grego”, o argumento é dedutivamente válido apesar de ter a premissa falsa e a conclusão verdadeira. A regra da validade dedutiva não é violada pois se a premissa fosse verdadeira, a verdade da conclusão seria preservada. Agradeço ao anónimo que se tiver algo a corrigir, faça-o. Não atire os dados ao ar, pois a minha vida é muito mais coisas do que estar a adivinhar o que os anónimos querem dizer no blog.
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 00:17
Tem razão Catarina. Não é o capítulo final. É a unidade final.
De Anónimo a 7 de Maio de 2010 às 20:07

Concordo inteiramente com os comentários, de facto o manual Percursos é miserável, é um atentado à Filosofia, o rigor devia ser uma palavra de ordem aquando da construção de um manual, infelizmente nos tempos que correm qualquer badameco se atreve a elaborar manuais...

Assinado: Pedro Silva
De Pedro Lopes a 16 de Abril de 2008 às 01:38
Cara Catarina, em primeiro lugar desejo-lhe sucesso para este manual.
Este não será um manual pelo qual debaterei a sua adopção, pelas seguintes razões:

- Unidade "Argumentação e Retórica"
O programa indica 3 aulas para esta unidade. Os autores do "Percursos" imbuídos de um espírito historiográfico que se manterá por todo o manual, deveriam ser mais sucintos na distinção entre argumentação e demonstração. Sem se formular correctamente o problema a tratar, iniciam este tema com um texto de P. Breton e alt. que nenhuma relevância tem para uma aproximação a técnicas de argumentação e mobilização de competências filosóficas que pretendem saber distinguir argumentos não dedutivos de falácias. Na página 58 é escusada a explanação histórica do desenvolvimento da retórica. A estrutura da retórica, apresentada na p. 62, é irrelevante para o que queremos trabalhar com alunos. O que pretendem que eles saibam? A estrutura de um discurso argumentativo tão complexa e pouco usada? Porque não ser-se mais simples e apresentar regras para a redacção de discursos argumentativos filosóficos mais aproximados ao nível etário dos alunos? Sobre a distinção entre argumentos nao dedutivos e falácias informais existem bons exercicios.

- O capítulo Argumentação e Retórica (5 aulas)
Contém muita informação que auxilia os alunos a confundirem filosofia com historia. O percurso feito: Sofistas, Platão e Aristóteles não está mal pensado, mas é muito insistente na história em detrimento da reflexão filosófica. Veja-se, a este título, as actividades propostas. Foi uma ideia infeliz, terminar este tema com a solução aristotélica no que toca ao problema da relação entre argumentação filosófica e verdade. Porque não uma aproximação às democracias actuais e a que concepção de verdade nos pode o discurso filosófico conduzir nos dias de hoje. Este capítulo tem interesse para um ensino centrado na história das ideias em vez de se pensar em exercitar o trabalho filosófico com os alunos.

- Os problemas do conhecimento
Não percebo a necessidade de relacionar a teoria da CVJ com o "arquipélado do conhecimento no séculoXX". Com esta teoria, os exercícios poderiam ter sido mais criativos, exigindo dos alunos uma tomada de posição.
Dão uma liberdade parcial aos professores para decidirem entre confrontar Descartes e Hume, Descartes e Kant, Hume e Kant. No entanto, os professores que optarem pela primeira possibilidade vêem-se seriamente comprometidos quando a apresentação de Hume é finalizada pelo problema: "Como ultrapassar este abismo?". Regressamos à historia da filosofia e não ao exercício do filosofar. Por outro lado, quase que se está a impor que os professores tenham de leccionar Kant, pois se não o fizeram a curiosidade dos alunos, apos a evidência desta pergunta, fica insatisfeita.

- Conhecimento científico
É dos temas mais bem conseguidos. Os diálogos do Carlos Café podem ser uteis aos alunos no início deste tema. Além disso, a apresentação do falsificacionismo e da filosofia da ciência de Kuhn estão redigidas de uma forma aceitavel.

- Temas-problemas da cultura científico-tecnológica
Muito pobre. O objectivo deste tema é permitir que os alunos redijam um ensaio filosófico. Como o poderão fazer se não são apresentados de uma forma clara argumentos e objecções. E, pior que tudo, o problema não chega a ser formulado. E repare-se que no final do 11 ano exige-se que os alunos saibam distinguir problemas filosoficos de pseudo-problemas.
As páginas 218-222 são pura historia, nada relevante para a consecução dos objectivos deste tema.

- Filosofia e outros saberes
A questão de Galileu tem interesse para a disciplina de História, mais até do que para a filosofia. Como relacionar logicamente o processo de Galileu com o problema da relação entre a filosofia e outros saberes?
Mais uma vez, argumentos filosóficos são completamente descartados para que as informações historicas possam brilhar.
As últimas páginas deste livro parecem seguir uma voracidade historiográfica em detrimento do filosofar.

- Filosofia na cidade
A acusação de Sócrates pode ser uma situação-problema interessante como ponto de partida para a discussão deste tema. Mas em nada cumpre os requisitos programáticos.

Esta é a minha opinião e vale como tal.
Um abraço
-
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 02:35
Caro Pedro
Agradeço-lhe, especialmente a forma como a expõe.
Catarina Pires
De Catarina Pires a 16 de Abril de 2008 às 03:11
Caro Pedro
Agradeço-lhe, especialmente a forma como a expõe.
Catarina Pires
PS: post repetido porque, por qualquer razão irritante, o anterior aparece como anónimo.
De Pedro Lopes a 16 de Abril de 2008 às 12:25
Olá Catarina! Eu é que lhe agradeço a atenção prestada!

Um abraço
De Marta Isidoro a 16 de Abril de 2008 às 13:54
" após um excerto vago e claro de Nigel Warburton"? Em que ficamos? Vago ou claro?
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 14:34
Cara Marta,
Apesar de vago, é claro, o que é difícil conseguir, mas perfeitamente possível. Do mesmo modo há textos profundos, mas obscuros. Há alguma incompatibilidade nisto?
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 14:54
Vagueza e claridade são incompatíveis. Será que não queria dizer superficial?
De rolandoa a 16 de Abril de 2008 às 15:13
Talvez não tivesse expressado a ideia com clareza suficiente :-) O texto que ali aparece de Warbuton é vago para o problema em questão a tratar-se no manual, mas expressa uma ideia clara. Naquele contexto é vago. Aceito que não o possa ter expresso com clareza. Mas também não vejo que daí decorra grandes problemas para o que pretendi dizer.
Obrigado
De Marta Isidoro a 17 de Abril de 2008 às 12:55
Diz o dicionário:
Vago - aquilo que é indefinido ou indeciso; falta de clareza;
confusão; incerteza;

Claro - que não apresenta dúvida, certo; compreensível, fácil de entender;

Parece haver incompatibilidade, não? Quanto ao exemplo que dá (que neste como nestes casos baralha mais do que explica), voltemos ao dicionário:

Profundo - muito intenso; que vem do íntimo, entranhado;
que é difícil de compreender ou de expor;

Obscuro - sombrio; tenebroso; confuso; difícil de entender;
enigmático; secreto; oculto;

E aqui qual é a confusão? Precisamente nenhuma, daí o exemplo ser o que é....
De Marta Isidoro a 17 de Abril de 2008 às 12:55
* "que nestes como noutros"...
De rolandoa a 17 de Abril de 2008 às 13:55
Cara Marta,
Agradeço o seu reparo que para o que queria dizer no exemplo, é mesmo relevante. Com efeito, é escusado citar os dicionários uma vez que já lhe respondi. Talvez não tenha lido a resposta, mas faço copy para que a leia:
"Talvez não tivesse expressado a ideia com clareza suficiente :-) O texto que ali aparece de Warbuton é vago para o problema em questão a tratar-se no manual, mas expressa uma ideia clara. Naquele contexto é vago. Aceito que não o possa ter expresso com clareza. Mas também não vejo que daí decorra grandes problemas para o que pretendi dizer.
Obrigado"
Mas já agora tente lá mostrar que o claro e vagoreferido por mim invalida a questão em análise.

Comentar post

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS