Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

DILEMA DE ÊUTIFRON

Dilema apresentado pela primeira vez por Platão no diálogo Êutifron. Este dilema proporciona um argumento poderoso contra a teoria dos mandamentos divinos. Podemos introduzi-lo através desta pergunta, onde x é um acto como matar, roubar ou mentir: x é errado porque Deus julga que x é errado, ou Deus julga que x é errado porque x é errado? Se optarmos pela segunda hipótese, temos de rejeitar a teoria dos mandamentos divinos, porque estamos a presumir, afinal, que certas coisas são erradas independentemente do que Deus pensa sobre elas. Se optarmos pela primeira hipótese, temos de concluir que, se Deus considerasse bom fazer coisas como matar, roubar ou mentir, então seria bom fazer essas coisas.
 
Pedro Galvão, «Dilema de Êutifron», in. Dicionário Escolar de Filosofia, Org. Aires Almeida, Ed Plátano, CEF-SPF, p.51 (o artigo, apesar de curto, foi reduzido para publicação no Blog)
 
PLATÃO - ÊUTIFRON
 
Sócrates – Então, a piedade é amada pelos deuses, porque é piedade, ou é piedade, porque é amada pelos deuses?
(…)
Sócrates – O que eu quero dizer é isto: se alguma coisa age ou é afectada, não é por ser agente que ela age, mas é porque age que ela é agente; nem é por ser uma coisa afectada que ela é afectada, mas é porque é afectada que ela é uma coisa afectada. Concordas com isto?
Êutifron – Concordo.
Sócrates – Então, o que é amado, ou age sobre algo, ou é afectado por algo?
Êutifron – Decerto.
Sócrates – Portanto é como anteriormente: não é por ser uma coisa amada que uma coisa é amada pelos que a amam, mas é porque a amam que ela é uma coisa que é amada.
 
Platão, Êutifron, INCM, p. 44-45 10-b, 10-c
publicado por rolandoa às 00:55

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7 comentários:
De Carlos a 8 de Abril de 2008 às 23:35
Professor tenho uma duvida em relaçao ao dialago de Socartes ...
Quando Socrates diz "não é possivel ser uma coisa amada que uma coisa é amada pelos que a amam, mas é porque a amam que ela é amada"...
Por exemplo se dizer que uma pessoa é amada mas nao é amada so porque as outras pessoas a amam, mas é porque a amam que é amada... Será que nao ha contradiçao aqui?
De rolandoa a 9 de Abril de 2008 às 02:49
Caro Carlos,
Não há contradição alguma. O que Sócrates está a colocar - e bem - é o problema. Se Deus existe estamos determinados, mas se não estamos determiandos que razão temos para pensar que existe?
abraço
Rolando A
De bruna a 19 de Junho de 2008 às 16:46
Bom tenho uma dúvida!

(Eutifron)

Professor o que de fato é a piedade?
e a justiça?
De Dina a 18 de Março de 2009 às 14:12
O problema aquilo levantado parece ter que ver com a questão do "ser-em-si " . Há realmente algo que possa ser designado como justo, bom, amável, piedoso em si mesmo? Ou o que é designado como justo, bom, amável e piedoso apenas o é se existir um sujeito que assim o determine? Esse sujeito pode ser qualquer sujeito (Deus, homens...). Uma acção é justa porque alguém a considera justa ou ela é justa em si mesma? Matar é injusto em si mesmo ou apenas o é porque há um sujeito que valida um juízo acerca dessa acção? Se "x" é amado significa que a essência de "x" é ser amado ou "x" apenas é amado se houver um sujeito que o ame e determine por estar numa relação de amor com "x"? As coisas são algo em si mesmas, fora de uma relação com qualquer outra coisa, ou apenas são determináveis numa relação com um sujeito que determina o seu sentido?
Em todos os diálogos de Platão encontramos a aporia, a ausência de resposta definitiva e a insistência no levantamento de questões que promovem o reconhecimento da nossa ignorância a respeito do tema. Por outro lado, sabemos que Platão, a todo o momento insiste no facto de apesar do desconhecimento dos termos que utilizamos pressupomos a existência de uma realidade para a qual eles remetem, e é à luz dessa realidade que categorizamos os fenómenos. Consideramos acções como justas e piedosas por termos em nós a ideia de justiça e piedade neste diálogo aponta-se para outro facto: sem um sujeito que reconheça coisas piedosas os justas essas acções prevaleceriam como justas ou piedosas em si mesmas? Há justiça, piedade, amor sem um sujeito que reconheça isso? Se há não é algo que pertença à nossa experiência porque tudo o que determinamos como sendo "a" ou "b" está numa relação de conhecimento connosco... Muito mais haveria a dizer, e assumo que está muito mal exposto, peço desculpa!
De rolandoa a 18 de Março de 2009 às 14:16
Dina,
Pelo contrário, expôs muito bem o problema, segundo aquilo que sei de Platão, da teoria das formas e do dilema em causa neste post.
Obrigado e abraço
De Edvander a 14 de Agosto de 2009 às 19:20

Se a base é o pensamento humano, digo que as duas proposições são corretas.
Pois algumas coisas são amadas pela maioria.
Outras amadas por uma minoria.
De Gessé Antônio de Souza a 2 de Janeiro de 2012 às 18:06
Para entender o dilema de Êutifron é necessário entender o modelo filosófico platônico. Para Platão existia o mundo inteligível e o mundo sensível. o mundo inteligível é o mundo das ideias - o mundo perfeito. O mundo sensível é o mundo das formas, da ação, dos fatos concretos - são as ideias materializadas. Fazer uma dicotomia entre o mundo do pensamento e o mundo da ação parece ter a ver com esquisofrenia. Para ilustrar  a questão, colocaria um dilema mais simples: quem fez a Monaliza foi Leonardo da Vince ou foi a Monaliza que fez o Leonardo da Vince? Parece óbvio que Leonardo da Vince fez Monaliza, porém, sem Monliza, Leonardo da Vince não seria Leonardo da Vince e sim um Leonarde qualquer - um desconhecido. Portanto, quem fez Leonardo da Vince foi Monliza. Ideias e ações se constroem e se teconstroem ao longo da história individual e coletiva da humanidade.

Gessé Antônio de Souza

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