Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Bons e maus manuais

Considero que, neste momento, existem dois grandes tipos de manuais de filosofia para adopção por parte dos professores. Vou arranjar aqui duas categorias que são obviamente discutíveis como quaisquer outras, mas que servem como guia para ter nomes para chamar às coisas. Temos, então, os manuais da tradição hermenêutica com muito «eduquês» à mistura e os manuais do mais moderno corte filosófico que aparecem no mundo anglo saxónico. Os leitores deste blog sabem perfeitamente que a minha opção vai para os segundos. Acontece que eu aprendi a ensinar filosofia pelos primeiros. Porquê? Porque pura e simplesmente quando comecei a ensinar os segundos não existiam no ensino português.
Rolando Almeida

Em 1998 quando saiu em língua portuguesa o livro de Nigel warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva, Filosofia Aberta, 1ª ed., é que tive o meu primeiro e verdadeiro manual de filosofia. O livro ensina a pensar, confrontando o leitor directamente com os problemas da filosofia. Passei a usar inúmeros exemplos desse livro nas minhas aulas, mas não sabia muito bem como orientar esse trabalho, uma vez que existia um choque razoável na forma como o livro trata a filosofia (por tu) e os manuais a tratam (por interposta pessoa). Na altura andava numa espécie de híbrido entre aquilo que é a chamada tradição hermenêutica, versão pimba e a frescura anglo saxónica. Claro que poderia sempre ter tomado a opção de ensinar a metro, isto é, preparava muito bem as aulas, com acetatos por exemplo, despejava lotes de matéria que os alunos teriam de decorar acriticamente e despejar, por sua vez, nos testes. Acontece que eu estava realmente interessado em ensinar filosofia e o primeiro passo a dar como certo para conseguir algum bom efeito era nem sequer abrir os manuais, que convidavam a tudo menos a pensar criticamente. Mas também se quisesse ensinar a metro, dava-me igual que fosse um manual assim, assim-assim ou assado. Só por dizer que um manual que viesse de encontro aos meus próprios clichés estaria muito mais adaptado às minhas aulas do que um manual que mexesse com os meus preconceitos filosóficos. Claro que todos conhecem as cenas futuras que me poupo aqui de contar, até porque se trata de uma experiência que muitos professores de filosofia deste país sentiram na pele. E isto que estou a dizer é realmente tramado. Estou a insinuar que há professores de filosofia que não querem ensinar filosofia! Por acaso até acho que há e não acho que isso seja particularmente grave, até porque serão em número muito reduzido. Não, o que quero aqui dizer é que acho perfeitamente normal que estejamos habituados a um sistema de ensino que nos habituou a ser de determinada maneira. E isso não tem tudo de errado em si, mas pode acusar desgaste. E é precisamente isto que defendo: que o nosso sistema de ensino foi porta aberta aos manuais do «eduquês», que eu não gosto do «eduquês», nem lhe reconheço qualquer qualidade especial para os dias que correm e que existe melhor alternativa para se ensinar filosofia. Hoje em dia, após muita gente se ter apercebido dos fracassos do «eduquês», começam a aparecer alternativas viáveis. Claro que as alternativas ainda não chegam da parte do Ministério da Educação. A actual ministra, quando chegou ao poder, confrontada com os nossos resultados nos exames dos países da OCDE, limitou-se a desvalorizar os exames e a ingenuidade dos professores, na altura, aplaudiu largamente a dita desvalorização. Acontece que um sistema de ensino sem exames funciona mal, a menos que fossemos todos muito geniais e dispensássemos exames. Viver num sistema de ensino sem exames é viver no mundo da fantasia. Pouco tempo mais tarde, a máquina ministerial virou a luta armada para as questões profissionais dos professores e esqueceu por completo a reforma do sistema de ensino, assim como os professores se esqueceram das questões mais centrais (e, diga-se, com tanto ataque e ódio aos professores é perfeitamente legítima toda a luta. Eu próprio participei dela). Foi nessa altura, ainda muito cedo, que percebi que este Ministério nada iria fazer pela educação, pelo que mais valia esquecer e deitar mãos ao trabalho, isto é, continuar a formar-me em filosofia. Provavelmente é isto que algumas pessoas têm em mente quando resolvem estar-se nas tintas para o eduquês e contribuir mais para um ensino sério do que qualquer Ministério dos últimos 30 anos. Para isso fazem obra, no caso, bons manuais. E o que é um bom manual? É, com certeza, aquele que se coloca a par do que hoje em dia se faz, que acompanha os melhores modelos e os sabe adaptar à nossa realidade. Para isso não podemos andar de costas viradas para o mundo. Se os finlandeses obtém melhores resultados que nós quando o raciocínio é testado, porque não saber quais os modelos que eles aplicam em matéria educativa e procurar implementar alguns entre nós? Se queríamos fazer isso com a flexisegurança, implementando alguns dos seus traços principais, tal não é possível fazer no ensino? Deve ser, pois foi isso que toda a vida os manuais de inspiração hermenêutica fizeram dos manuais franceses, apesar de exagerarem – no caso português – do «eduquês». Para sintetizar: criamos uma tradição entre nós de fazer manuais de tradição hermenêutica e, volvidos uns anos, aceitamos a fórmula passivamente. Só que existe um dado novo: a disciplina de filosofia está sob ameaça. O mundo mudou e as exigências são outras. Os manuais do «eduquês» podem até funcionar muito bem com a matemática ou o português, mas funcionam mal com a filosofia que não goza do prestígio social das suas congéneres. A ameaça de que a filosofia no ensino secundário acaba paira sob a consciência de todos os profissionais de filosofia. Muitos não se importam esperançados que manterão os seus empregos no ensino. Mas basta olhar para as mudanças do Portugal de hoje e perceber que isso pode não ser verdade, que o fim da filosofia pode significar o desemprego para mais gente da filosofia, pode significar ainda menos interesse pela disciplina, o fechamento de cursos, o fim de muitas possíveis traduções, de publicações, etc… eu não sei se é boa ideia assistir a esta morte lenta da disciplina de braços cruzados, pelo que é melhor actuar enquanto temos a massa na mão. Mas fazer o quê? Só temos um caminho a seguir: primeiro que tudo saber e informar-nos do que fazem e do que se produz de melhor, hoje em dia, com gente viva, filósofos que ainda ouvem o batimento do seu coração. O que se pensa e como se pensa hoje em dia a filosofia? Segundo saber como se ensina e o que se ensina e o que é verdadeiramente relevante para uma formação transversal (a disciplina é, no nosso sistema de ensino, transversal, de formação geral). Terceiro, traduzir bons livros, aproveitar ao máximo as novas tecnologias para trocarmos ideias e, sobretudo, aprender (sozinhos andamos muito mais perdidos) e começar a alertar os colegas para o que se passa. Temos, nós os profissionais da filosofia, mostrar à sociedade o que é e o que vale a nossa disciplina, qual o seu lugar e a sua importância e o que é que ela produz de bom. Vamos pensar que o mundo inteiro começava a desinteressar-se pelo pão e deixava progressivamente de comprar pão. Ora, as pessoas comuns não sabem como se faz o pão nem como ele é constituído. Que teriam de fazer os padeiros? Mostrar ao mundo o valor intrínseco do pão, mostrar e dar razões às pessoas para comprarem e consumirem pão. E é algo semelhante que temos a fazer pela filosofia. Essa é a razão da existência deste blog. Não sou pago para estar aqui a altas horas da madrugada, com aulas pela manhã, a escrever este texto. Escrevo porque o mundo mexe comigo e eu acredito que posso mexer no mundo. Há dezenas de coisas que podemos fazer, talvez até mais importantes que a escolha de um manual mas é indubitável que é pelos manuais que milhares de jovens portugueses vão pela primeira vez olhar para a filosofia. E, como o padeiro gostaria de nos oferecer o melhor pão para nos convencer a comprar pão, é natural que queiramos oferecer o melhor manual aos nossos alunos para que possam aprender bem, ainda que tal exija a coragem de deixarmos os nossos preconceitos filosóficos de lado. Uma palavra ainda em relação à concepção de manuais, no meu ponto de vista, completamente desastrosa: começam a aparecer alguns manuais que misturam o estilo hermenêutico com o estilo anglo saxónico. O resultado tem sido mau, ainda que alguns desses manuais tenham constituído a preferência de uma boa parte dos professores. Com efeito há um aspecto bom: pode adivinhar-se algum sinal de mudança, que se pretende mais urgente.
Um aparte para terminar: até ao dia de hoje só recebi um manual. Vou, com efeito, esforçar-me por apresentar as minhas críticas aos manuais ao ritmo que eles forem chegando e eu tiver disponibilidade para os analisar nos seus pontos essências. Por muito desagradável que possa parecer para alguns autores e com todo o respeito que lhe guardo pelo seu trabalho, continuarei a apontar os erros na medida em que me é possível. De resto, insisto, a crítica não deve ser desagradável, deve ser útil. Segundo: todos estão convidados ao debate, para não me sentir muito só.
É claro que a escolha que fiz para distinguir os dois grandes tipos de manuais pode não ser exacta, mas creio que serve como orientação.


publicado por rolandoa às 02:42

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6 comentários:
De Valter Boita a 9 de Abril de 2008 às 19:00
Olá Rolando!

Este teu texto que serve de repto, de lamento, de apelo, fundamenta de um modo preciso a urgência em se debater publicamente as ideias em torno do ensino e da necessidade de se trabalhar mais em equipa a fim de se melhorar e lutar por um ensino de filosofia de qualidade. Sem dúvida que temos de nos preocupar com a situação a que esta disciplina tem chegado nos últimos anos, sobretudo pelo facto de não estar sujeita a exame nacional nem a servir de específica para muitos cursos superiores como sempre tinha sido. Não se percebe por que razão a filosofia, sendo ela uma disiciplina de carácter geral (que muito poderia servir o princípio de que um aluno do agrupamento de ciências e tecnologias pudesse decidir por um curso superior de ciências sociais e humanas, por exemplo), não seja objecto de avaliação externa, quando os resultados nunca foram maus. Não se percebe por que razão o seu papel está a ser diminuído, contribuindo para a sua anulação na sociedade portuguesa e nos meios académicos, quando estes prosperam noutros países.

Depois de ler o teu texto, fiquei com algumas dúvidas que talvez mas possas esclarecer.

Distingues duas concepções de didáctica da filosofia: a hermenêutica e a socrática. Vais demasiado longe ao inferires que a hermenêutica aparece em alguns manuais (quando pretendes dizer que estes manuais seguem um modelo de filosofia mais francófono) e o socratico é apanágio de outros (mais próximos do anglo-saxónico). Não estou de acordo com estas asseverações, talvez por não perceber o que entendes por método hermenêutico e socrático. Aliás, há umas semanas, neste mesmo blogue, interroguei o Desidério sobre isso e ele nada me disse.
Vamos lá ver se concordas comigo:

1) Método hermenêutico.
O método hermenêutico de ensino de filosofia consiste em centrar a actividade lectiva nos textos dos filósofos. Isto é, fazer das aulas análise de texto.
Se esta for uma aproximação ao que entendes por metodo hermenêutico, então não se podem distinguir os manuais como o fizeste, pois todos eles apresentam textos e questões de análise. O que poucos fazem é apresentarem questões que dignificam uma análise filosófica dos textos, identificando problemas, teses, argumentos, contra-argumentos, exemplos, contra-exemplos; questões que privilegiam as competências de conceptualização, problematização e argumentação. De facto, a maioria dos manuais, mesmo os novos do 11º ano, continuam a não saber distinguir análise de texto de análise filosófica de texto. Mas a hermenêutica é a análise filosófica de um texto. E parece-me fundamental aproximar os alunos com a literatura filosófica, com os argumentos deixados pelos filósofos ao invés de se passar a maior parte do tempo a analisar bibliografia secundária.
Em todo o mundo, persiga-se um modelo mais continental de fazer filosofia ou um modelo mais anglo-saxónico (isso parece-me irrelevante), filosofa-se a partir dos argumentos que os filósofos redigiram. Certo que devemos arranjar outras alternativas a fim de enriquecer as nossas aulas atraves de uma diversificação de estratégias e de recursos, no entanto, partir de um texto bem orientado por questões de respeitem as competências filosóficas não me parece que o ensino de filosofia fique prejudicado.

2) Método socrático.
Este método consiste num trabalho construtivo a fazer com alunos, confrontando-os com um problema, levá-los a considerar a posição que aceitam acriticamente e fazermos o exercício mental de confrontar estas posições com contra-exemplos e contra-argumentos, com o objectivo de permitir que os alunos ajuízem autónoma e criticamente sobre as crenças que possuiam.
Este, a meu ver, é um método fundamental do ensino de filosofia. Será que este método é viável? CLaro que é, motiva os alunos, motiva o trabalho do professor, promove técnicas de argumentação filosófica e de pensamento crítico. É fácil de fazer? Com o número de alunos numa turma é praticamente impossível fazê-lo com todos os alunos. Este método aplicado individualmente a cada aluno é impossível, quando se tem um programa para cumprir.
Será que este método anula ou leva-nos a prescindir do hermenêutico? Creio que não. Mas gostaria de saber a tua opinião sobre este aspecto.
De Valter Boita a 9 de Abril de 2008 às 19:06
Só mais uma questão que não tive espaço de colocar no comentário anterior!

Já li no teu blogue uma tese interessante e dinamizadora do ensino de filosofia: fazer-se um manual que não contivesse textos e assumisse o modelo socrático. Contudo, parece-me que esta ideia é bastante limitadora do ponto de vista teórico, uma vez que pretende ultrapassar o modelo hermenêutico quando não o faz. Ou seja, substitui o método hermenêutico impondo uma nova forma de ensinar através do método hermenêutico. Se até agora trabalhamos textos de filósofos (que me parece uma boa opção), deixaríamos de o fazer para passarmos a trabalhar textos de divulgadores, o que não deixava de ser hermenêutica. Portanto, não me parece que o modelo hermenêutico e socrático se anulem como me pareceu ler no teu texto.

Rolando, desculpa lá este testamento! :)
Um abraço
De rolandoa a 9 de Abril de 2008 às 21:13
Olá Valter,
Tu desdramatizas o problema e as duas abordagens. Concordo parcialmente contigo num aspecto: as duas abordagen não tem que se excluir. Mas diz-me lá Valter, será isso que a maior parte dos manuais disponíveis fazem? È verdade que alguns já o fazem, uns mais confusamente que outros Recordo os casos do Contextos e Pensar Azul que adoptam uma postura híbrida e procuram inovar e estar a par do que melhor se faz. Claro que o que está em causa e é mais grave é a exclusão total de um método. Por acaso estou em crer que a filosofia vive bem sem o método hermenêutico. Mas também me parece que estás a fazer uma confusão pensando que o método hermenêutico, aplicado ao ensino secundário, consiste na interpretação de textos, ponto. O método hermenêutico será a interpretação de textos filosóficos com os métodos filosóficos. O problema é quando o método hermenêutico está minado pelo pós moderno «eduquês», o que deteora claramente o ensino da filosofia. Bem, mas vamos lá tentar ser práticos. Dizer que não se aprende filosofia sem interpretar textos é o equivalente a dizer que não se faz filosofia sem saber uma língua e as palavras. Claro, isto parece-me evidente. Reduzir o seu ensino a essa actividade parece-me um erro e uma confusão do que é o ensino da filosofia. Por essa razão, durante anos, ouvia os professores de filosofia e português confessarem as afinidades de avaliação nas duas disciplinas. Mas ensinar filosofia não é ensinar a interpretar textos, ainda que se interprete textos para se filosofar. Imagina lá a História ou até a Física. Também, nessas disciplinas se interpretam textos. Imagina agora a matemática: também aí se interpretam textos mas escritos com números. Mas nessas disciplinas não se está a discutir estas coisas, como discutimos na filosofia. Nelas, os professores tem as coisas bem assentes. Pensar que o método hermenêutico é central na filosofia parece-me um erro. E ainda há um outro aspecto prática: imagina lá que apresentas lá um texto de Kant aos alunos. Perguntas aos alunos qual é a tese do filósofo. Depois perguntas quais as premissas que sustentam essa tese. E, finalmente, colocas objecções e perguntas aos alunos em que é que ficamos afinal? Tens os alunos a pensar. Olhar para o texto como tese-argumentos- objecções é hermenêutico? Tenho sérias dúvidas. Não fui muito explícito nesse aspecto no meu texto, mas creio que a hermenêutica é uma espécie de exegese do texto filosófico muito pós moderna sem expressão suficiente para erguer a filosofia na sua dignidade. Se resumes a filosofia à interpretação, nesse caso estamos sujeitos a ter 20 leituras diferentes em 20 leitores. Deve ser por essa razão que eu não entendo muita gente a falar de filosofia, precisamente porque cada um anda a tentar ver lá o mais fundo do fundo do fundo e ficam a falar para o seu umbigo. Pessoalmente não encontro qualquer valor nisto para alunos de 15, 16 anos, pelo que não tenho qualquer razão especial para defender um método hermenêutico.
Em relação ao manual sem textos. Creio que o melhor exemplo que tenho é do Nigel Warburton. Usei muito partes desse livro nas minhas aulas e os alunos entraram nos problemas até com muito maior facilidade que com os textos dos filósofos. Para que tenho eu de dar sempre o diálogo do Teeteto para explicar a tese da CVJ se o posso fazer com um texto mais acessível para a idade dos alunos? Claro que isto tem de ser feito com rigor, caso contrário, quando tal estou a mostrar a Formiga Z para mostrar a CVJ, o que me parece disparatado. Um dos problemas é que muitas pessoas tem uma tendência a ver a realidade a preto e branco, isto é, ou 8 ou 80, sem poder ser 30. Há livros de filosofia de divulgação que são maus e outros que são bons, assim como há obras de filósofos que são más e outras que são boas, assim como há composições de Mozart que são boas e outras nem tanto. Ainda recentemente li um texto do Grayling que não achei grande coisa e, com efeito, gosto do Grayling. Também escrevo muita coisa que não acho grande coisa e outras que gosto mais. Acho que isto é mais ou menos claro, não?
Não sei se respondi às tuas questões, como sempre, bem interessantes e bem pensadas.
Abraço
Manda sempre
De Valter Boita a 10 de Abril de 2008 às 12:56
Olá Rolando! Fiquei mais esclarecido com a tua resposta, embora pressinta que, como mostraste na tua entrada, é discutível se alguns manuais são mais hermenêuticos do que socráticos ou mais socráticos do que hermenêuticos e associar cada um desses métodos a uma tradição filosófica. Academicamente, faria sentido, na medida em que há professores universitários que recorrem mais à hermenêutica do que outros. Conheço casos de professores que excluem qualquer interpretação que não fosse a deles e que não estivesse o mais colada possível ao autor. Será que é assim que se ensina/aprende a filosofar? Pois, eu também creio que não.
O que pretendi mostrar no meu comentário é que, quer queiramos quer não, o método hermenêutico está presente na filosofia e, contrariamente ao que dizes, os matemáticos, os físicos ou os biólogos não precisam nada dele ainda que escrevam textos. Usar um método hermenêutico não significa apenas lidar com textos, é mais do que isso. Se eu aceitar a tua interpretação de método hermenêutico, então vejo que é dispensável do ensino secundário.
É também verdade que muitos manuais enveredam por uma apresentação da filosofia pouco filosófica, por vezes, com receio de a tornar ininteligível aos alunos. Ultimamente, com novos manuais que seguem uma linha mais socrática, mas que não excluem a hermenêutica, esse velho preconceito da ininteligibilidade da filosofia caiu por terra, pelas seguintes razões:
1. pode-se filosofar com jovens adolescentes se trabalharmos socraticamente os problemas filosóficos;
2. pode-se mobilizar competências filosóficas (que não se restringuem apenas à capacidade de interpretar um texto).

Por estas razões, não duvido de que o método hermenêutico seja prescindível do ensino secundário, por isso é que precisava de saber o que entendes por método hermenêutico.
Mas ao defender-se o método socrático, substituindo a análise de textos de filósofos por textos de divulgação, não continuaríamos noutra espécie de hermenêutica? A meu ver, quando dizes que preferes trabalhar com os alunos um texto de Warburton em vez de um filósofo qualquer, nada altera o facto de continuares a usar o método hermenêutico, o que aconteceu foi encontrares um texto mais acessível aos alunos e que seja mais propício à aquisição de determinadas competências filosóficas. Mas continuas fiel ao método hermenêutico, porque este ao ser bem usado não exclui o socrático e até o favorece. Por seu turno, o método socrático aplicado numa aula contém bastantes limitações como as que apresentei no comentário anterior.

Um abraço e obrigado pela resposta!
De Desidério a 10 de Abril de 2008 às 13:20
Caros Valter e Rolando

Antes de mais as minhas desculpas ao Valter por não ter respondido ao repto — a verdade é que não consigo acompanhar tudo o que se escreve neste blog nem todas as discussões. Tenho um tempo limitado. Contudo, convido quem quer que seja que por acaso fizer uma pergunta a que eu não respondo a chamar-me a atenção para isso pessoalmente por email. Pois pode acontecer, como neste caso, que eu pura e simplesmente não tenha lido o comentário em causa!

Valter, penso que caracterizas bem os dois métodos, apesar de me parecer que há algumas confusões. O que caracteriza o método socrático é a confrontação directa do aluno com os problemas filosóficos, tentativas teóricas de os resolver e a argumentação relevante. Esta confrontação faz-se sem recorrer aos locii classici onde tais problemas, teorias e argumentos são discutidos pelos filósofos. A vantagem deste método é pôr o aluno a filosofar directamente e confrontá-lo directamente com problemas vivos. Este modelo de ensino da filosofia é usado no livro Que Quer Dizer Tudo Isto?, de Thomas Nagel. Onde me pareces que fazes confusão é ao dizer que se usares este livro ou outro (Sabedoria Sem Respostas, de Kolak, é outro exemplo) estarás também necessariamente a usar um método hermenêutico porque obviamente os estudantes terão de ler e interpretar tais livros. Discordo disto pelas razões do Rolando: nesse caso, todo o ensino seria hermenêutico, incluindo o da física, o que é absurdo.

Eu não vejo mal algum em qualquer dos dois métodos. Mas discordo do Rolando quando ele diz que a generalidade dos manuais segue um modelo hermenêutico. Só num sentido muito fraco se pode dizer tal coisa. O que seguem é um modelo dogmático e musical. Dogmático, porque nunca dão aos estudantes instrumentos para pensar por si nos problemas, teorias e argumentos da filosofia; despejam-lhe para cima versões ridículas do que pretensamente os filósofos pensaram, para que eles decorem e ponham nos testes. E musical, porque contrabalançam este dogmatismo com discursos pretensamente edificantes, profundos, inspiradores, que pretendem fazer ver para lá do visível, pensar para lá do pensável, e outras tretas deste jaez. Dá vontade de citar Hegel: é um discurso edificante que nada edifica. Este discurso elitista, pacóvio e ultrapassado, além de escolarmente e academicamente indefensável, pois transforma a filosofia em catequese, tem ainda por cima a desvantagem de não ser estimulante para os alunos, que ficam na melhor das hipóteses confundidos com tanta conversa fiada e na pior com um profundo desprezo por uma disciplina que consiste largamente em discursos manipuladores.

Num verdadeiro método hermenêutico os estudantes contactam com a bibliografia primária, cuidadosamente escolhida, mas o trabalho que fazem é à mesma o único trabalho que é específico da filosofia: discutir ideias filosóficas. Como é óbvio, nunca foi essa a tradição portuguesa. O Rolando relembra e bem como estudantes e professores durante décadas sempre conceberam a disciplina de Filosofia como uma espécie de Português. O que é um perfeito disparate, que mostra bem que não se seguia de modo algum um método hermenêutico mas uma imitação de contrabando, que tinha por único objectivo esconder o facto de que os professores e autores de manuais não faziam a mínima ideia de como se discute problemas filosóficos. Papagaios sempre tivemos muitos, uns com mais outros com menos recursos de retórica, mas gente capaz de pensar filosoficamente pela sua própria cabeça nunca foi coisa abundante. Citar sempre foi visto com bons olhos e argumentar como redutor. Isto diz tudo.
De Valter Boita a 14 de Abril de 2008 às 21:02
Olá Rolando e Desidério!

Fiquei mais esclarecido sobre as diferenças entre os dois métodos. Após a leitura dos vossos comentários, fico com a impressão de que o método socrático é mais eficiente do que o hermenêutico, apesar de estar convencido, até há bem pouco tempo, de que os textos eram uma ferramenta básica para o ensino de filosofia, quando a sua discussão estava devidamente orientada por boas questões.

As questões que mobilizam competências filosóficas são mais importantes do que os textos, e com o conhecimento efectivo dos principais argumentos e objecções, sem a historiografia como suporte, pode-se fazer um trabalho que privilegie a autonomia dos alunos e o melhoramento da capacidade de reflexão e posicionamento crítico. Infelizmente os manuais tomam o texto como fim em si mesmo. Isto é notório se nos detivermos na análise das questões que acompanham os textos. Nestas, ainda se exige que os alunos "comentem", "explicitem o que o autor quis dizer", "Esclareçam as afirmações X e Y do autor". Ainda que estas questões sejam úteis para uma aproximação ao conteúdo de um texto, em nada contribuem para a proficiência filosófica dos alunos. Este cenário tem como pano de fundo a consideração quase generalizada de que os alunos do secundário são incapazes de filosofar!

Rolando, é verdade que o método hermêutico é tão usado nas aulas de História como de Fisica e Quimica A. E os professores de História e de Física e Química A queixam-se de que os alunos não conseguem reflectir e posicionar-se criticamente sobre um texto. Os exames de Fisica e Quimica até contêm questões de análise de texto ou de hermenêutica.

Um abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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