Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Filosofia aplicada à Gestão

Recentemente descobri um interessante livro que deveria constituir a regra, mas que, curiosamente, é uma excepção. Já aqui referi sobre a importância do pensamento crítico e da sua transversalidade no conjunto dos saberes (ver aqui, aqui, aqui e aqui). O pensamento crítico é transversal pois é ele quem fornece as ferramentas para o raciocínio consequente. No nosso país, o pensamento crítico aparece já nos currículos de alguns cursos superiores, como os de engenharia, mas é ensinado pelos professores de matemática, o que é manifestamente errado.
Rolando Almeida
Para alguém com formação em filosofia é algo chocante saber que os filósofos andam no desemprego, ao passo que o mercado que lhes é próprio é absorvido por outras formações. Uma pessoa com formação em matemática ensinar pensamento crítico é tão aberrante como alguém com formação em filosofia ensinar geografia ou biologia. O pensamento crítico consiste basicamente no conhecimento das regras da lógica informal que são aplicadas ao raciocínio em geral. Paulo Proença de Moura, o autor deste Persuacção, O que não se aprende nos cursos de gestão (Edições Sílabo, 2005) apercebeu-se das potencialidades do pensamento crítico e da filosofia para o ramo da gestão. A tomada de decisões do gestor é mais segura se o mesmo possuir uma formação sólida no raciocínio e, acima de tudo, souber pensar com consequência. O autor ficou admirado quando percebeu que o pensamento crítico praticamente não se ensina nos cursos de gestão em Portugal e resolveu publicar este livro que é também o resultado da sua tese de mestrado. Todo o capítulo 2 , que leva o título, «A filosofia e argumentação na gestão» é um pequeno tratado de filosofia e de lógica formal e informal. O livro é útil, sobretudo, para nos revelar as potencialidades da filosofia e a sua aplicabilidade prática numa área tão pouco dada a especulações como a da gestão. No início deste texto mencionei que este género de livros deveria constituir a regra, isto se a filosofia que se tem praticado em Portugal acordar para a realidade e deixar de ser uma formação só ao alcance dos ricos e do carreirismo. Na verdade, estas obras abundam no mercado anglo saxão e com resultados evidentes, enquanto nós por cá vamos alimentando a ideia que a filosofia é só investigação pura e dura completamente avessa à divulgação pública. É pena! Dei-me conta deste livro tardiamente (a edição é de 2005), mas não podia deixar passar em branco esta assinalável coragem do autor.
Paulo Proença de Moura, Persuacção, o que não se aprende nos cursos de gestão, Sílabo, 2005


publicado por rolandoa às 00:32

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4 comentários:
De Porfírio Silva a 4 de Abril de 2008 às 09:12
Arrisco pensar que pode interessar aos leitores deste blogue: é já na segunda-feira 7 de Abril a primeira conferência do ciclo "Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais". Mais informação: Economia, Instituições e Sociedades Artificiais (http://institutionalrobotics.wordpress.com/1ª-conferencia/).
Como chegar? Clicar aqui (http://institutionalrobotics.files.wordpress.com/2008/02/local.jpg).
De Anónimo a 5 de Abril de 2008 às 11:36
Não entendo como é possível ao mesmo tempo defender a transversalidade do pensamento crítico (o que é uma ideia acertada) e que "uma pessoa com formação em Matemática ensinar pensamento crítico é tão aberrante como alguém com formação em filosofia ensinar geografia ou biologia". Esta afirmação é, para além do mais, em si mesma aberrante. Primeiro, porque um professor de Matemática com uma sólida formação no âmbito do pensamento crítico pode ensinar pensamento crítico, depois porque ensinar pensamento crítico não é o mesmo que um professor de Filosofia ensinar Geografia ou Biologia, pelo simples facto da Geografia e da Biologia não serem áreas transversais . Como já dizia B . de Jesus Caraça, devemos comparar batatas com batatas e bacalhau com bacalhau.
Depois diz-se "O pensamento crítico consiste basicamente no conhecimento das regras da lógica informal que são aplicadas ao raciocínio em geral." Será? Não sei, basta folhear os melhores manuais de pensamento crítico disponíveis para testar a verdade desta afirmação. A não ser que o "basicamente" seja assim tão flexível que possa afinal incorporar também aspectos da lógica formal.
De rolandoa a 5 de Abril de 2008 às 13:11
Caro Anónimo,
Da próxima agradeço que assine os seus comentários. O Anónimo acha aberrante porque não compreende algo fundamental: uma coisa é divulgação da filosofia e ourtra é fazer filosofia. E confunde ainda outra coisa: a aplicação do pensamento crítico e o que é o pensamento crítico. Uma sólida formação em pensamento critico exige uma sólida formação em filosofia, mas o pensamento crítico é transversal porque ensina as pessoas a pensar com rigor. Com efeito, para pensar com rigor não podemos ser todos filósofos. De resto, claro que até um mineiro pode estudar pensamento crítico e saber mais pensamento crítico que um estudante de filosofia, mas isso só acontece em desfavor do estudante de filosofia. Conheço boa gente que sabe mais de filosofia analítica, por exemplo, que os próprios profissionais de filosofia, que a desprezam sem sequer a conhecer, por puro preconceito. O livro em causa é um belissimo exemplo da aplicação do que a filosofia pode oferecer de melhor como transversal, que é o pensamento crítico, isto porque a filosofia, como sabemos, não se reduz ao pensamento crítico. Como vê, caro Anónimo, dois neurónios a funcionar desfazem em 2 segundos as alegadas aberrações.
Rolando Almeida
De rolandoa a 5 de Abril de 2008 às 13:15
Anónimo,
ainda outro reparo: afirma que a Geografia e a biologia não são saberes transversais, mas a sua afirmação é pura e simplesmente falsa. Todos os saberes são transversias. Acontece que possuem métodos específicos e ferramentas próprias para se desenvolverem. Conhece, por exemplo, a filosofia da biologia? Portanto, a sua afirmação é falsa.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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