Terça-feira, 1 de Abril de 2008

Esclarecimentos sobre o programa – qual o valor da crítica pública?

Recentemente um leitor escreveu-me em particular (a quem desde já agradeço) defendendo que se o ensino da filosofia possui problemas, tal não se deve ao programa. Ora bem, apesar de não concordar com este argumento, quero esclarecer alguns pontos que me parecem importantes e que se relacionam com um programa de uma disciplina do ensino secundário.
Rolando Almeida

1º Não existe causa rainha que explique um ensino da filosofia menos rigoroso e menos bom. Existem causas, multifactores, muito embora no caso os programas curriculares me parecem directamente responsáveis pela falta de qualidade no ensino, pelo menos, claro está, os programas menos bons. Quando comecei a ensinar conheci muitos professores que só conheciam levemente o programa de filosofia. Na altura achei estranho. Mas depois percebi: é que não existe nada em concreto para conhecer. Tudo o que lá está são princípios sobre o que se deve ensinar e alguma metodologia. Mas um programa deve contemplar conteúdos. O programa que temos é um programa que passa a unidade da estética (filosofia da arte), religião (filosofia da…), etc… sem expor um único argumento filosófico como conteúdo. Aliás, o programa chama “percursos de aprendizagem” no lugar onde deveriam estar “conteúdos”. Ora, seguir um programa destes sem correcções é que me parece que desvirtua facilmente a filosofia dos seus conteúdos. É um pouco como o mestre Mamadu que coloca papelinhos no para brisa do meu carro e que se auto denomina cientista espiritual. Não podemos de leve ânimo encarreirar no espírito pós modernaço de admitir que o mestre Mamadu afinal é cientista, mas ao modo dele. Não é por trocar a lâmpada na sala da minha casa que sou electricista. Eu não tenho nada contra o que o mestre Mamadu faz, mas de uma coisa tenho a certeza, que ele não faz ciência, mas chama ao que faz de ciência para dar ar sério à sua actividade.  Do mesmo modo defendo que é errado estar a dizer que o programa de filosofia é filosófico, porque lá faltam os conteúdos.
2º Não me passaria pela cabeça que os autores do actual programa tivessem em mente um mau ensino da filosofia. O programa reflecte uma visão não só da filosofia, como também do seu próprio ensino. Eu próprio aplaudi este programa quando ele foi homologado. Acontece que a prática revela-me que este programa não passou os testes em alguns pontos cardeais e, portanto, merece ser revisto. Por outro lado existe o argumento que o programa, sendo aberto, contempla a diversidade de contextos escolares. Mas isso não será supor que o conhecimento é mais conhecimento nuns lugares que noutros? E mesmo que assim fosse, retirar os conteúdos ao programa é a melhor solução? Existem razões para pensar que o programa merece ser revisto melhorando a qualidade da oferta no ensino da filosofia. O programa do 12º ano foi, como hoje sabemos, um desastre, contribuindo de forma decisiva para o quase completo desaparecimento da disciplina nesse ano de ensino.
3º Não proponho em algum momento que se “deite ao lixo” o programa em vigor. A base está lá. Mas por que razão é que não posso defender que o programa deva ser revisto? A inclusão das Orientações para a Leccionação do Programa de Filosofia constituíram um bom avanço que, entretanto, por decisão ministerial, foram suspensas (ver todo o processo clicando aqui). Mas as Orientações solidificam com conteúdos próprios um programa aberto. Ora, defendo que um programa aberto produz resultados menos interessantes que um programa com conteúdos específicos. Por programa aberto quero dizer um programa que orienta para ensinar a filosofia moral, sem especificar conteúdos, que orienta para ensinar a filosofia da religião sem passar pelos autores centrais, etc… para além de que o programa contém em si erros que merecem revisão, como o caso da lógica aparecer a meio do percurso, quando deve aparecer no início e o caso da lógica silogística que só tem um interesse histórico, sem qualquer aplicação prática, quer aos conteúdos, quer à vida dos estudantes e que, em via disso, deveria ser excluída do programa.
4º Há uma confusão entre o que é a crítica pública e o que é a hipocrisia pública. Quando se crítica, apresentam-se razões. Quer isto dizer que não vejo intrinsecamente qualquer problema em apontar limitações a um determinado programa ou qualquer trabalho ou projecto, a menos que a crítica apareça com interesses ou finalidades bem definidos, como, por exemplo, o de vender um determinado produto e, para tal, ter que apontar limitações ao seu rival. Não são raras as vezes que sou acusado de proteger um manual, por exemplo, em detrimento de outro. Mas certo estou que se tivesse um blog no qual defendesse manuais que ensinam a história da Carochinha, também seria acusado de querer vender os manuais das histórias da Carochinha. Por essa razão creio haver ainda um 5º ponto de esclarecimento:
5º Tenho o maior respeito pelos colegas que produzem materiais didácticos, incluindo os programas e orientações, etc… Sem esses colegas é que o ensino da filosofia estaria mesmo mal. Não considero que o ensino da filosofia seja mais dramático que o ensino em geral. Acontece que a filosofia tem sido uma disciplina visada negativamente no sistema de ensino e creio que quando assim é, devemos discutir os seus problemas no sentido de solidificarmos a posição da disciplina no corpo curricular do ensino secundário. O que devemos fazer para isso? Intervir junto dos colegas, colocando à discussão a opção pelo manual X ou Y, apontando revisões para o programa, produzindo materiais, etc… Do mesmo modo poderia aqui dizer que não estou de acordo com o argumento de Descartes para justificar a crença na existência de Deus, mas daí não se segue que não goste da filosofia de Descartes ou que não lhe tenha respeito enquanto filósofo. Descartes escreveu um dos melhores livros de filosofia que já li, As meditações. Não tenho é razão alguma em especial para concordar com todos os argumentos de Descartes, por uma razão: o que está em causa são os problemas e não a pessoa de Descartes. O mesmo acontece com a crítica de manuais ou dos programas, o que está em causa é o ensino da filosofia e não a pessoa X ou Y.
Finalmente: o blog, A Filosofia no Ensino Secundário, está aberto à publicação de textos que apresentem os problemas relacionados com o ensino da disciplina, discutindo-os com razões sem qualquer pretensão de profundidade, desde que as ideias sejam expostas de forma clara e com a objectividade possível.


 
publicado por rolandoa às 01:08

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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