Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Valores e racionalidade

Frequentemente ouço falar que não há valores ou que os valores estão em crise. Neste pequeno texto proponho-me defender que a análise dos valores enquanto crise ou não crise não é da competência da filosofia. Do ponto de vista filosófico a análise que deverá ser feita é a racional. Deste modo distancio-me do discurso pseudo filosófico pessimista que defende que o mundo está em crise porque não existem valores. Que razões tenho para pensar assim? Por regra entendo que, quando uma pessoa afirma que os valores estão em crise, significa que houve um tempo mais ou menos recente em que não estiveram em crise. O mesmo acontece com a economia. A economia está em crise em comparação com tempos recentes e só aí é que faz sentido falar de crise. De muitos outros pontos de vista a economia ocidental não está em crise alguma.
Rolando Almeida

E para perceber este elemento basta pensar que se contássemos a vida que temos em Portugal à maior parte da população dos países do 3º mundo, essas pessoas olhariam para Portugal como o El Dourado. Por muito que nos custe admitir esta verdade, é uma boa forma de compreendermos de que é que falamos quando dizemos que atravessamos uma crise económica. Ora, se concordo facilmente que atravessamos uma crise económica comparando com os tempos passados recentes, tenho maior dificuldade em assentir gratuitamente que atravessamos uma crise de valores comparando com um passado recente e até menos recente. Em síntese, não me parece que o mundo, hoje, seja substancialmente pior do que o era há uns 50 anos atrás. Mas este é o discurso da sociologia, o de fazer esta análise da suposta crise de valores. É um discurso muito útil para compreender o sentido e orientação das sociedades, mas quando aplicado à filosofia transforma a filosofia em pseudo filosofia, ainda por cima se o usamos por conveniência para mostrar que temos sentido crítico apurado e faro para detectar problemas. Por que razão, então, sucede do modo como aqui refiro? Tomemos um exemplo prático. Muitas vezes ouvimos este argumento: “hoje em dia não existem valores. Há mais crime, pedofilia….”
há mais crime e mais pedofilia
logo, não existem valores
Quando problemas como o crime e a pedofilia são analisados do ponto de vista filosófico, não podemos inferir que eles existem porque a sociedade não tem valores. Ainda que a premissa seja verdadeira (parece muito discutível, uma vez que temos a noção que há mais crime e pedofilia porque tal nos é quotidianamente contado pelos meios de comunicação), a conclusão não é necessariamente verdadeira. Para tal dou um contra exemplo: existem sociedades primitivas nas quais a pedofilia é uma prática em tudo condizente com os valores defendidos e não constitui em si qualquer ataque aos valores. Existem sociedades que tem no quadro de referências dos seus valores religiosos apedrejar publicamente mulheres infiéis até à morte. Não podemos afirmar que essas sociedades não possuem valores, entendendo que valor é a capacidade de agregar as diversas vontades humanas. Para um radical islâmico é um valor fundamental consagrado no texto bíblico fazer a guerra santa e por essa razão é um herói quando se faz homem bomba, em nome de Maomé. A bíblia dos cristãos afirma que se deve matar os infiéis, só que, para os cristãos ocidentais esse já não é um valor (provavelmente porque desconhecemos a bíblia ou porque estamos protegidos pelos caças americanos que se encarregam da matança). Do ponto de vista da filosofia moral este discurso dos valores não possui qualquer relevância. Ao filósofo moral interessa saber se a pedofilia, por exemplo, é moralmente aceitável ou não. Se a guerra é moralmente aceitável ou não. E o filósofo moral o que busca na sua investigação é a verdade. Claro que o filósofo moral se depara com uma dificuldade de base, que é a de saber se existem ou não verdades morais universais, mas o sentido da sua busca é precisamente esse, que é o mesmo sentido da busca que existe em qualquer tipo de investigação racional. Para o filósofo o problema da pedofilia é um problema moral e não um problema de valores. Por esta razão também não faz qualquer sentido o cliché da sociologia sistematicamente usado em muitos manuais de filosofia para o ensino secundário. Para além de darem uma noção completamente errada do que é a análise filosófica, cometem o desastre de formal mal os alunos. É muito fácil seduzir alguém com o discurso de catequese de que se existissem valores, estaríamos todos em terra firme, em porto seguro e que andamos todos à pedrada porque já não há valores. Este discurso é ilusionismo puro, uma vez que o que temos de mais chocante no mundo é a matança em nome de valores que se defendem irracionalmente, como o caso dos valores religiosos. Portanto, toda esta conversa dos valores, que se inicia com conversa da treta em programas escolares, não só de filosofia como de todas as outras disciplinas, conversas onde se promove um infantil e inocente “we are the world”, não passa de propaganda escolar que nada tem que ver com racionalidade e cultura do saber e conhecimento. É um discurso mais apoiado na fé do que na razão. Inacreditavelmente, o programa de filosofia tem sido um alvo particularmente vulnerável a estes ataques irracionais e propagandísticos. Numa cultura de ensino democratizada e livre, preparam-se os jovens para a autonomia de pensar racionalmente sobre os problemas e não impingindo propaganda, orientando pelo medo. Se desejamos uma cultura emancipada, antes de tudo, temos de ensinar as pessoas a pensar com a sua cabeça, o mesmo é dizer, racionalmente.


publicado por rolandoa às 04:23

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5 comentários:
De Paulo Rolim a 27 de Março de 2008 às 19:07
Caro colega Rolando,
Não posso estar mais de acordo com o seu texto. Acrescento ainda mais: dizer que não há valores é uma contradição em si mesma, pois isso significaria que a pessoa que afirma tal não estivesse ela própria a fazer uma valoração, o que não me parece claro.
Mas, além disso, quem poderia imaginar o que fariam algumas pseudo ciências - hoje tão na moda - se lhes tirássemos esses lugares vazios com que se dedicam ao matricídio da própria Filosofia? Elas têm uma necessidade enorme de se justificarem, pois, como todos já viram, sem elas estaríamos um pouco melhores! A começar pelo ensino, claro!!!
De rolandoa a 27 de Março de 2008 às 23:37
Olá Paulo,
A melhor prova que lhe dou que tem razão no seu comentário é que se me tivesse lembrado que afirmar que existe uma crise de valores é uma contradição lógica, tê-lo-ia escrito no meu texto. Acertou em cheio e é exactamente isso que está em causa.
Abraço e obrigado
Rolando Almeida
De Luís Vilela a 28 de Março de 2008 às 16:13
Rolando,
Já tive a oportunidade de o felicitar pela acutilância dos seus textos e este não é excepção. Tenho feito inclusive - espero que compreenda e aceite - uma selecção de textos que vou lendo e enviando para a minha lista de contactos. Textos muito variados (vários autores que são identificados e mesmo com perspectivas com as quais posso não concordar), mas que têm esse brilho e inteligência argumentativa. De procura de uma discussão e análise mais funda das coisas.
Embora aquilo que hoje muita gente apelida de "crise de valores" seja reforçada (para que exista, talvez!!) pelos próprios. Um exemplo: o tema do aquecimento global; no momento em que abordamos a Racionalidade Científica com os alunos do 11º ano, propus que avaliassem criticamente a informação que nos chega pelos meios de comunicação. E recomendei um documentário que desmonta a falácia da argumentação dos defensores do aquecimento global. Quando a minha colega de Geografia soube desta minha "leviandade" disse aos meus alunos: sabem como é os profs. de filosofia são malucos.
Aprofundar conhecimentos, reconhecer modos de inferência válidas, desenvolver o celebrado espírito crítico, ter, no fundo, a humildade de aprender... isso são valores em crise. Pudera!!! Com reforços como aquele!
Continue, a bem da agilidade do pensar!
Saudações,
Luís Vilela.
De rolandoa a 28 de Março de 2008 às 19:03
Olá Luís,
Somos colegas. Acho que nos podemos tratar por tu. Antes de tudo, agradeço as tuas as palavras e sim, podes usar e distribuir os textos como quiseres e eu é que agradeço. O blog serve mesmo para esse fim: divulgar a filosofia e partilhá-la com os colegas.
O relato que me fazes da colega de geografia é muito útil e deu-me a ideia de escrever um texteco para breve sobre a mania que existe quanto ao cientismo, que passo a explicar: imensas pessoas, quando aplicamos regras minímas de lógica aos argumentos acusam-nos logo de cientismo. Mas o exemplo que dás é que é cientismo, que consiste em pensar que as ~grandes questões da ciência são a preto e branco e ponto final. Esta falta de formação vem ao de cima imensas vezes. Pensa-se que os problemas da ciência não possuem qualquer discussão, que é tudo muito mecânico e certinho. Nada mais tolo. A ciência, antes de apresentar os seus resultados, faz-se em discussão e a filosofia está aí implicada. A colega de geografia disse o que disse porque para ela o saber é algo já acabado, mas ela pensa assim porque sempre conheceu o resultado final sem nunca ter sido envolvida nos debates em torno dos problemas. Grande parte do nosso trabalho com a filosofia consiste precisamente em mostrar aos alunos que o saber e o conhecimento resulta do esforço humano em querer saber cada vez mais. Isso seria o mesmo que um professor de física chamasse tolo a um colega de filosofia somente porque esse propôs uma discussão em torno do problema da estrutura última da realidade. Sem especulação filosófica, caramba, o saber do físico jamais progrederia. Temos de mostrar às pessoas que elas estão erradas e começamos a fazê-lo com os nossos alunos. Depois, porque a maioria das pessoas aceita acriticamente aquilo que lhe aparece pela frente nos meios de comunicação. Assim, não é de estranhar que a colega pense que o aquecimento do planeta é uma tragédia e ponto final. tem a mente formatada pelo que a TV lhe mostra. O que fizeste com os teus alunos parece-me mesmo muito bem, que é mostrar-lhes outros pontos de vista. Afinal, essa é uma questão em aberto. Repara: será que se mostrasses alguns argumentos sobre a não existência de deus, a colega de geografia iria logo dizer aos alunos: "mas que tolice dos filósofos! é claro que deus existe". Enfim...
Obrigado pelo teu útil comentário e um forte abraço
Bom trabalho
Rolando
De Márcia Adriana a 14 de Abril de 2008 às 13:21
Bom dia Luís Vilela
Por gentileza , poderia me enviar esse documentário q vc sugeriu ou o endereço eletrônico onde posso encontra-lo? Achei muito interessante.
Se puder agradeço muito
Márcia
marcia_pdlg@ig.com.br

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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