Quarta-feira, 19 de Março de 2008

O que é que a história pode fazer pela filosofia?

Apresento a seguir o texto que deu origem à minha comunicação na Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco, na semana da história.
'If you can't say it clearly, you don't understand it yourself' John Searle[1]
 
O ensino da filosofia tem sido fortemente marcado por uma confusão que pretendo desfazer nesta minha exposição. Frequentemente se confunde entre ensinar história da filosofia e filosofia. Para desfazer as confusões e ideias falsas vou apresentar algumas objecções ao argumento de que ensinando a história da filosofia, ao mesmo tempo ensina-se filosofia.
Rolando Almeida

Para tal proponho-me defender que a história possui um valor instrumental para a filosofia, mas não valor intrínseco. Por valor instrumental entendo uma ferramenta auxiliar a um conhecimento. Por valor intrínseco entendo o valor que um saber possui em si e por si mesmo. Mas para responder à questão sobre o que é que pode a história fazer pela filosofia, temos de situar o problema, tentando saber se é possível saber filosofia sem saber história? Uma resposta simplificada é obtida se levantarmos a mesma questão relacionada com outros saberes: é possível saber física sem saber história? E biologia? Se o estudo da física ou da biologia se resumir ao conhecimento da história da física ou da biologia, então não se está a estudar propriamente física ou biologia, não se está a aprender física ou biologia, mas sim história da física ou história da biologia. Existe uma diferença entre situar historicamente a física de Newton e aplicar à experiência a física de Newton. Em física é relevante explorar pela experiência os conceitos da física de Newton, testando-os. Com a filosofia passa-se exactamente o mesmo. Situar historicamente Platão e a sua filosofia, não é a mesma coisa que discutir os seus argumentos sobre problemas filosóficos. Assim, fazer filosofia é discutir activamente os argumentos e não reproduzir acriticamente as ideias do filósofo X ou Y, pelo que, conhecer a história da filosofia é um elemento precioso para se discutir os argumentos, mas distancia-se a todo o custo daquilo que é a filosofia enquanto actividade crítica. E o inverso provavelmente também é igual, isto é: para se fazer história é necessário saber pensar, mas saber pensar, por si só, não é fazer história. O ensino da filosofia tem sido sistematicamente minado por esta confusão elementar, que consiste na confusão entre história da filosofia e filosofia. Mas tomemos um exemplo. Vamos pegar no argumento em favor da existência de deus de Descartes e sujeitá-lo aos dois tratamentos, primeiro ao tratamento histórico e, em segundo lugar, ao tratamento filosófico.
 Tratamento histórico:
Para Descartes a verdade é proveniente da razão e derivada do cálculo matemático, portanto, a verdade é conhecida, a priori, sem depender dos dados dos sentidos. A experiência sensorial é enganosa, pelo que, para Descartes, é uma fonte de conhecimentos pouco fiável. Só a razão nos possibilita conhecimento perfeito, a Mathesis Universalis (Matemática Universal). Descartes pensava que a verdade só era captável pela razão e que era absoluta, acabada e perfeita. Ao duvidar dos sentidos Descartes pretende alcançar uma crença básica, elementar. Essa crença de que Descartes não pode duvidar é a de que o “eu pensante” não pode ser colocado em dúvida. Se eu duvido, este eu que duvida não pode ser colocado em dúvida senão não faz sentido, sequer, duvidar. Mas este eu que duvida, não podendo ser colocado em causa, tem de ser perfeito, uma vez que é universal e não se destrói. O que é que justifica a perfeição do eu pensante, perante a imperfeição da experiência? Só pode ser Deus que é a entidade mais perfeita de todas, a perfeição das perfeições.
 
Vejamos agora o que acontece no tratamento filosófico da argumentação para a existência de deus cartesiana:
Considere-se a perspectiva segundo a qual se percepcionamos clara e distintamente uma proposição p, então é verdade que p. Abreviemos isto para (CDp ® Vp), que se lê assim: se p é clara e distinta («CD»), então é verdadeira («V»). E suponhamos que simbolizamos «Deus existe e não nos engana» por «G». Então, o círculo consiste em que, a determinada altura, Descartes afirma: posso saber que (CDp ® Vp) só se primeiro souber que G. Mas, noutros pontos ele afirma: posso saber que G só se primeiro souber (CDp ® Vp). É como o conhecido impasse matinal, em que precisamos de café para sair da cama e temos de sair da cama para fazer o café.[2]
      Para se compreender melhor a falácia da circularidade, veja-se o seguinte diálogo:
 
— Deus existe?
— Sim, existe.
— Como sabes que existe?
— Sei que existe porque concebo clara e distintamente a sua existência.
— Mas como sabes que aquilo que concebes clara e distintamente é verdadeiro?
— Porque Deus me garante tal coisa.
 
            Assim, para saber que as ideias claras e distintas são verdadeiras, tenho primeiro de saber que Deus existe, mas para saber que Deus existe tenho primeiro de ter a ideia clara e distinta da sua existência. Há filósofos que pensam que Descartes cai nesta falácia, que se tornou conhecida como círculo cartesiano.[3]
 
 
E o que é que acontece, por exemplo, se temos de elaborar uma questão num teste. Se o tratamento a dar é histórico, podemos elaborar uma questão do modo seguinte:
- Refira o percurso de Descartes para justificar a existência de deus?
Neste tipo de pergunta o aluno somente tem de saber acriticamente o que Descartes pensou sem discutir os seus argumentos.
Vejamos agora a pergunta feita no modo filosófico?
Descartes refere que Deus existe porque o mundo imperfeito tem de ser justificado por algo perfeito. Concorda com o argumento? Porquê?
No caso do tratamento filosófico, o que estamos a fazer é discutir os argumentos filosóficos de Descartes em favor da existência de Deus. No tratamento histórico não é isto que se espera.
Em conclusão: a filosofia utiliza métodos diversos daqueles que são recorrentes na investigação em história. Se a história constitui um indispensável recurso para a filosofia uma vez que sem algum conhecimento da história da filosofia não possuímos acesso aos argumentos dos filósofos do passado, com efeito, os métodos da filosofia são bem diversos. Assim, para filosofar, temos de saber:
- Noções básicas de lógica – ferramenta que nos permite discutir os argumentos. É essencial, por exemplo, saber distinguir, num argumento, premissas de conclusão, validade de verdade, saber calcular derivações na lógica formal, etc…
- Saber que a filosofia é um saber a priori, tal como a matemática, visto que a natureza dos problemas empíricos não é provável pela experiência (daí também a necessidade da lógica para discutir os argumentos)
- É de notar também que muita da produção filosófica está nos livros, mas ficou registada em diálogo, como os casos mais clássicos de Platão, David Hume ou Leibniz. Sócrates, o modelo da filosofia mais exemplar, não escreveu um único livro em toda a sua vida e despendia todo o tempo para conversar com os seus alunos.
Com a minha modesta exposição espero ter contribuído para melhor clarificar as relações existentes entre a história e a filosofia. Sabendo que a filosofia é a minha área de raiz e a minha matéria de ensino e estudo, gostaria de ressalvar que sem o estudo da história o mundo não seria tal como é.
Agradeço ao Grupo de História da Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco a oportunidade que me deu de fazer esta exposição, prova que a interdisciplinaridade é possível e desejável. Ela começa a praticar-se nas escolas como a nossa.
Este texto será exposto na versão completa em:
A Filosofia no Ensino Secundário
http://rolandoa.blogs.sapo.pt/
Rolando Almeida
©2008
 


[1] A frase aparece como mote no blog de Nigel Warburton, http://nigelwarburton.typepad.com/virtualphilosopher/
[2] O exemplo é o que aparece em Simon Blackburn, Pense, Gradiva
[3] O texto e o exemplo é o que aparece no manual, A Arte de Pensar, 10º, V.A.


publicado por rolandoa às 13:53

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4 comentários:
De Miguel Ângelo a 20 de Março de 2008 às 01:33
A disciplina de História é feita de factos e consubstanciada em factos e actores dispersos por um tempo cronológico, enquanto que a Filosofia assenta em pensamentos/racionalismos/doutrinas de Sócrates, (Meu Deus - Cruz credo! - Abrenúncio), Platão e Aristóteles. Defendo, no entanto, que dissertar sobre a disciplina de História é falar de diferentes pontos de vista e variadas perspectivas dos acontecimentos; por outro lado, fazer uma filosofia da história, isso é outra coisa...
De rolandoa a 24 de Março de 2008 às 23:36
Caro Miguel,
O meu texto não pretende fazer filosofia da história. deixo isso para o Hegel. O meu texto pretende, simplesmente, dar-se conta do que a história pode fazer pela filosofia e, se o leu, percebeu que vai de encontro ao que o Miguel me diz neste seu comentário: a história, para além de me dar o contexto e os factos, não pode fazer muito mais pela filosofia. E já faz muito.
Abraço
Rolando Almeida
De Miguel Ângelo a 25 de Março de 2008 às 00:05
Escrevendo na língua de Camões, e considerando o gramaticalmente correcto, diria eu que é diminuir a História e a Filosofia, escrevê-las com minúscula, para além do mais, ir de encontro a coisas em relação às quais queremos ter encontro com.
Um abraço!
Miguel Ângelo
Não se detenha, nem se torne timorato, a laje de o sepulcro não cede, só cai até meio da perna....
Disponha!
De rolandoa a 25 de Março de 2008 às 00:31
Caro Miguel,
Essa fez-me lembrar aquelas da minha terra natal, uma vila nortenha: aos Artur, filhos de ricos, chamam-se "Arturinhos" e aos Artures, filhos de pobres, chama-se "Tures". A questão que citra é uma questão formal à qual não dou importância alguma. Aliás, esforço-me por tratar a filosofia por tu. O gramaticalmente correcto é importante se for verdade.
Pude notar que o Miguel tem um talento para a poesia, mas já agora explique se a laje so sepulcro cai a meio da perna do morto ou do vivo? É que, mesmo que use a língua de Camões, a usar metáforas atrás de metáforas, quando tal, estamos a concordar um com o outro sem saber sobre o que estamos a concordar.
Abraço
Rolando Almeida

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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