Sexta-feira, 14 de Março de 2008

Diz-me que manual preferes e dir-te-ei como ensinas

Depois do desafio que lancei aos professores de filosofia para a crítica pública de manuais, é chegada uma segunda resposta, após a da Cátia Faria, desta vez do professor Valter Boita, professor de filosofia do ensino secundário. Fica o texto para apreciação de todos e a palavra de agradecimento da minha parte.

Diz-me que manual preferes e dir-te-ei como ensinas
 
            Têm proliferado os comentários, uns mais argutos outros mais incautos, sobre a avaliação dos professores. Não há avaliação dos professores em abstracto, dever-se-ia falar de avaliação dos professores de Educação Visual, de Português ou de História, em particular. E uma boa régua para medir a qualidade dos professores é a adopção de manuais. Ainda que jocosa, pretendo esclarecer a seguinte afirmação: diz-me que manual adoptas, dir-te-ei que professor és. Talvez esteja a incorrer numa hipérbole, contudo, irei apresentar razões que mostram que esta minha posição pode ser aceitável. Por outro lado, irei apenas ater-me aos manuais de filosofia, a fim de evitar generalizações precipitadas.
            Valter Boita

Aquando da apreciação de um manual e o subsequente juízo que dele faremos, há indícios que se revelam do perfil de um professor de filosofia: a sua preparação científica, a sua concepção da filosofia no ensino secundário, a sua concepção da didáctica de filosofia, a sua visão da aprendizagem e a sua interpretação do Programa homologado. Esclarecerei, de seguida, cada um destes indícios.
  1. Preparação científica. A qualificação científica de um professor de ensino secundário é ainda mais premente que noutros níveis de ensino, nomeadamente o superior. Como o professor do ensino secundário é, acima de tudo, um divulgador e um exemplo do filosofar, a sua competência está causalmente conectada à sua preparação científica. Um professor com uma formação filosófica consolidada, que estuda diariamente a matéria que lecciona, que adquire toda a bibliografia existente sobre um dado problema, que pensa por si mesmo e tem um projecto filosófico firmado no esforço, da dedicação e no estudo exaustivo e diário, estará mais apto a explicar um determinado problema filosófico a quem nunca o ouviu nem está, por enquanto, minimanente interessado, do que alguém que foi para o ensino porque nenhuma outra alternativa lhe pareceu satisfatória.
 
Também é verdade que os jovens professores, quando iniciam o seu trabalho de leccionação, comentam uns para os outros: “Tenho a sensação de que nunca dei isto na universidade”. E têm razão. Nos cursos superiores, partimos do pressuposto que determinadas noções elementares, ou determinados problemas fundamentais, estão mais do que percebidos e vamo-nos preocupando por adquirir certos vícios: como citar na primeira edição, como traduzir determinado termo do grego ou do francês, ... relegando para um segundo plano aqueles velhos problemas, os únicos, claro está, que têm relevância filosófica. Assim, se em vez de nos determos sobre o problema da natureza da arte, por exemplo, discutindo-a, avaliando criticamente argumentos e as novas teorias existentes, somos forçados a ler Deleuze e a aplicar tudo o que Deleuze escreveu à arte, por isso, deixamos de ser críticos e passamos a querer ver arte em tudo, correndo o risco de deixarmos de parte o pensamento filosófico sobre a arte para redigirmos textos que pretendem ser obras de arte.
 
Por estas razões, a apreciação de um manual, e posterior adopção, reflectirão a preparação científica, que não se prende com a classificação final no curso, mas com o trabalho diário e persistente de continuar a querer compreender o modo mais claro e distinto de esclarecer um determinado conceito, problema ou teoria filosóficos, distinguindo o acessório, tomado por genial em alguns contextos, do essencial. E a grande exigência que se pode pedir quer a um filósofo quer a um professor é a clareza. Ora, isso não acontece na grande maioria dos manuais. Pois, certos autores não respeitam o facto de a filosofia continuar viva e de haver filósofos com novas propostas de reflexão, preferindo redigir discursos laudatórios à atitude filosófica em vez de ensinar como se pratica essa atitude. Por outro lado, ainda há professores que vêem na filosofia uma arte, quando a sua utilidade no ensino secundário é, precisamente, a de ser uma técnica que auxilie os alunos a adquirir determinadas competências fundamentais que legitimem a aquisição de competências secundárias.
 
 
2.    Concepção de filosofia no ensino secundário. Nem todos os professores têm uma concepção do que deve ser o ensino da filosofia. Porquê? Por um lado, o Programa não fornece grandes linhas de orientação e de pensamento com as quais os professores delimitem a sua prática, por outro, a escassez de bibliografia de apoio à didáctica da filosofia permite que em vez de critério e método, prevaleça a arbitrariedade, que legitima qualquer estratégia a adoptar, bem como instrumentos a avaliar e respectivos pesos: uns dão preferência à maneira de escrever do aluno, o que faz com que se enraíze a ideia de que para se ter boas notas a filosofia é suficiente escrever bem (confundindo-se escrever bem com reflectir correctamente); uns fazem da filosofia uma ramificação da literatura, não distinguido claramente a análise filosófica de um texto (e guião) da mera interpretação. Outros preferem os velhos chavões da filosofia do ensino secundário e, aquando da apreciação de um manual, mal reparam num determinado autor e imediatamente consideram que o manual é bom porque contém textos do autor X ou Y, quando estes autores se tornaram menores na filosofia por terem sido ultrapassados por outros mais recentes. Naturalmente que me refiro a autores de bibliografia secundária, cuja selecção é uma prioridade para a qualidade de um manual, devendo-se optar por autores que divulgam a filosofia a outros que querem impor-se na filosofia como génios incompreendidos.
 
 Por vezes, o manual pode não ir ao encontro da nossa suposta concepção do ensino de filosofia, no entanto, tal atitude não justifica o medo de arriscar, de mudar de método a mor da aprendizagem dos alunos. Um exemplo: quando comecei a leccionar, já existiam os manuais do Desidério Murcho, Aires de Almeida (entre outros) e do Luis Rodrigues. Quando os li, verifiquei que eles não se coadunavam com o que eu julgava que seria o ensino de filosofia. Ora, quando os testei com os alunos, constatei que tinha de mudar de concepção, pois a verdade é que estes percursos didácticos não sõ eram motivantes para os alunos como para mim, enquanto professor. Por isso, passei a inspirar-me nesses manuais e a julgar que contêm um bom método de ensino de filosofia e de aprendizagem. Ora, este exemplo sugere que nunca estamos na posse de modelos infalíveis, e que estes manuais funcionaram e funcionam como uma revitalização do ensino da filosofia, sem os histerismos verborreicos de alguns manuais que em detrimento do rigor conceptual, que os professores de filosofia tanto prezam, confundem os alunos e os professores com uma amálgama de palavreado completamente inútil. Aliás, muito desse palavreado é incrementado pelo Programa.
 
3.    Concepção de didáctica. Não há consenso quanto à melhor forma de ensinar, nem quanto às melhores estratégias a gizar. Contudo, existem técnicas que fomentam o filosofar e o pensamento crítico que são inultrapassáveis, tais como: seleccionar um bom texto e acompanhá-lo com boas questões de interpretação e de discussão. É inevitável que se ensine filosofia a partir de bons textos e de boas questões. Podemos projectar imagens ou filmes, os alunos agradecem, pois a aula torna-se menos aborrecida, no entanto, o resultado dessas estratégias não é tão eficiente se procedermos a uma avaliação escrita ou oral dos alunos, como quando se trabalha textos e se discutem problemas. A imagem ou o filme, necessários para a compreensão de um problema, tornam-se meros adereços que não sendo de evitar, também não são para se abusar. Assim, na apreciação de um manual, está em jogo o estilo de ensino de um professor. Se pedirmos a um colega para nos dizer qual dos manuais ele prefere, certamente que na sua escolha está o seu estilo de ensino a desvelar-se. Daí que a discussão dos manuais é fundamental para se discutirem métodos de ensino, estratégias e recursos. Um bom manual é aquele que contém um bom percurso didáctico, ou seja, o que melhor fornece instrumentos de exercitação do pensamento autónomo, crítico e criativo e não um arrazoado de definições, de historietas da filosofia, sem permitir que os alunos reflictam sobre problemas que tanto lhes dizem respeito e se confrontem com objecções que os façam vacilar na crença que possuíam inicialmente. A meu ver, um bom manual é o que segue a didáctica socrática. Contudo, há professores que preferem determinados manuais que não seguem este modelo didáctico, no entanto, alegam que, mesmo que o manual não faça isso, não seja um diálogo permanente entre os alunos e as suas crenças com as teorias filosóficas que mostram que muitas dessas crenças são erradas, cabe ao professor fazê-lo oralmente. Em relação a esta ideia, estou um pouco incrédulo, pois com a experiência que tenho tido com manuais pouco socráticos e mesmo que assuma um estilo mais socrático no modo como oriento o diálogo com os alunos, é muito fácil que as aulas se tornem conversas de café. Por outro lado, os alunos até podem apreciar essas aulas, mas chegarão a um momento em que concluirão que foram aulas completamente inúteis.
 
 
4.    A visão da aprendizagem. A todos os professores lhes interessa que os seus alunos aprendam. Isto é indiscutível. O modo mais exequível de fazer com que os alunos aprendam é que é fonte de controvérsia. Cada manual define um percurso didáctico em consonância com um método de aprendizagem, o que exige que os professores analisem profundamente um manual e identifiquem o método de ensino e de aprendizagem nele contido e, de seguida, excluam os manuais que apresentam percursos pouco viáveis ao ensino do filosofar, do pensamento crítico e autónomo, que são exigências intrinsecamente relacionadas com a boa prática filosófica.
 
5.    Interpretação do Programa. Uma das exigências que se faz, no decurso da apreciação de um manual, é que este esteja em consonância com o Programa. Em relação a este princípio pouco há a acrescentar, embora eu tenha a seguinte convicção: melhores são os manuais que se desvinculam do Programa e que apresentam problemas filosóficos para discutir (que no Programa estão apenas implícitos), teorias filosóficas que se adeqúem ao nível cognitivo dos alunos e de argumentos válidos, claros e rigorosos, já que pretendemos que os nossos alunos redijam textos que contenham argumentos válidos e evitem as falácias. Ora, para tal é necessário que aprendam com exemplos de como se argumenta de um modo claro e pertinente, confrontando-se com contra-exemplos e objecções e respondendo-lhes. Se o Programa pouco nos diz como devemos ensinar filosofia aos nossos alunos, apenas contém um leque disperso de temas, os professores devem escolher o manual que traga uma imagem fiel da filosofia, ou seja, como algo vivo e de plena saúde e evitem o mero manual de história das ideias, que não fornece quaisquer pistas para que um aluno pense com qualidade.
 
 
Estes cinco princípios são apenas alguns que, a meu ver, deverão presidir à apreciação de manuais pelos professores de filosofia. A adopção de um bom manual, mesmo que não se enquadre integralmente no perfil do professor, deverá ser feita de um modo imparcial e objectivo, para se conseguir melhorar as capacidades crítica, argumentativa e problematizadora dos alunos portugueses. Consequentemente, a par da selecção de um manual, define-se o perfil de professor de filosofia que se é ou que se pretende ser.
 


publicado por rolandoa às 00:03

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37 comentários:
De Miguel Ângelo a 14 de Março de 2008 às 00:34
Meu caro amigo/colega, o livro - dito o manual adoptado - deve ser um instrumento de trabalho e, não, um guia espiritual. Há professores, ou melhor, docentes, que não sabem dar uma aula sem o respectivo manual. Eu conheço somente dois tipos de professores: operadores de manuais escolares e professores na verdadeira acepção da palavra. Por outras palavras, ou dito de outro modo, mais inteligível, passo a concretizar a minha afirmação: Há aqueles professores que não conseguem dar uma aula sem o respectivo manual adoptado e há, por outro lado, professores que, na ausência do manual, conseguem engendrar uma aula articulada na sua sequência pedagógica e propondo simultaneamente actividades práticas a desenvolver pelos seus alunos. Qual dos dois tipos é o verdadeiro docente?
De Desidério a 14 de Março de 2008 às 01:44
Caro Miguel

Sempre defendi e continuo a defender que a legislação devia permitir que uma escola não adoptasse manuais, desta ou daquela disciplina, sem precisar de qualquer justificação.

Mas o seu comentário é falacioso porque não há apenas professores incompetentes que usam manuais e professores competentes que não usam manuais. Também há professores competentes que usam manuais e professores incompetentes que não usam manuais. A realidade é um bocadinho mais complexa do que o Miguel pretende.

Além disso, o seu comentário mostra um vício típico sempre que se fala em ensino. Centra-se exclusivamente no professor e esquece-se do aluno. Sem acesso fácil a boa bibliografia, o aluno fica nas mãos da autoridade do professor. Se este quiser passar o ano a versejar, que pode ele fazer? Sobretudo os alunos de famílias culturalmente carentes não têm nem livros em casa nem a autonomia para ir a uma biblioteca. Por isso é importante haver livros na sala de aula. Se são manuais ou automáticos, tanto se me faz. Mas sem livros o ensino é uma treta. E um dos papéis fundamentais do ensino deve ser dar a conhecer livros e estimular os estudantes a ler livros. E se um manual for bem feito, é apenas um livro, e um livro que remete para outros livros e ajuda a ler outros livros.
De rolandoa a 14 de Março de 2008 às 11:38
Caro Miguel,
Um aspecto apenas: claro que o manual é importante para o professor conduzir as suas aulas, mas deve ser importante, antes disso, para um jovem adolescente aprender filosofia. De resto não me parece que um manual determine o mérito de um professor, mas determina com certeza a qualidade das suas aulas. E existem demasiados manuais manifestamente maus que obrigam um professor que esteja interessado em dar boas aulas (porque o programa não implica boas aulas de filosofia) a ter de recorrer a fotocópias ilegais para melhorar a qualidade didáctica da filosofia. Defendo que a aula de filosofia não deve potenciar a qualidade do professor, mas a própria qualidade da filosofia. Se ensinássemos filosofia em vez de sociologia as nossas aulas tornar-se-iam muito mais proveitosas e agradáveis para os alunos. Acontece que o nosso sistema deensino tem medo da objectividade e do rigor, temendo perder alunos, o que é um disparate nos dias que correm.
Obrigado
Rolando Almeida
De Valter Boita a 14 de Março de 2008 às 14:20
Olá Miguel,
A questão que coloca é interessante e não acredito que haja uma resposta infalível, apenas acredito que exista uma resposta mais credível do que outra. Não sei o que é ser um bom professor de filosofia, mas sei o que é ser um mau professor de filosofia.

Também considero que se deve respeitar o estilo de ensino dos professores que consigam ensinar filosofia com qualidade, ou seja, aquele que potencia nos alunos o interesse pela discussão racional, pelo debate crítico e discernimento entre problemas filosóficos e problemas pseudo-filosóficos, façam-no eles colados ao manual ou não.
No entanto, por muito interrogativo que o professor possa ser, sem legitimar a sua tarefa por um manual, as suas perguntas, do ponto de vista do aluno, caem na mera curiosidade displicente. E por isso, há alunos que dizem que gostam de filosofia porque nessas aulas podem falar dos seus problemas. Mas repare-se, não acredito que uma aula de filosofia seja espaço para falar dos problemas dos alunos, quando nem sequer se conseguiu distinguir claramente os problemas que interessam para a disciplina e os que não interessam. Por isso, vou ouvindo pessoas, quando sabem que estudei filosofia, a dizer-me que até gostaram, mas que não perceberam nada.

Por outro lado, os professores não têm alternativa: são obrigados a escolher um manual. A escolha do manual, como já foi referido nos comentários anteriores, não é para o professor mas para os alunos, ainda que haja manuais que podem ajudar muito um professor. Não tenho quaisquer pruridos em confessar que têm havido manuais que me têm ensinado duas coisas: o que devo fazer e o que devo evitar.
Se me diz que ser um bom professor é não dar aulas pelo manual, não estou em desacordo e até os alunos mais inteligentes poderão apreciar essa "anarquia" do professor. Mas esse perfil de professor, por muito excelente que seja, não respeita o valor da honestidade em relação aos seus alunos, pois prefere trabalhar para se mostrar superior a tudo o que tem sido feito pela filosofia. Por outro lado, suponhamos que se trata de um professor cientificamente excelente, tão excelente que se torna superior a qualquer manual, que traduz textos para os alunos, que escreve textos para os alunos, etc. Contudo, continua a ser desonesto, pois não está a pensar que a aquisição de um manual é um investimento que os alunos e pais fizeram.

Naturalmente que o cenário mudaria, se houvesse a possibilidade de não adoptar um manual.

Também concordo que ensinar não significa estar colado ao manual. E aí o professor tem de se esforçar por não fazer das aulas leitura do manual e pedir aos alunos para sublinharem o que ele considera mais importante. Mas repare que existem manuais no mercado, actualmente, que retiram o sentido a todo esse método de ensino, na medida em que exigem dos alunos mais do que um mero sublinhar e tagarelar conteúdos.

Em conclusão, a questão que coloca é uma falácia do falso dilema. Claro que há outras alternativas de se ser bom professor, sem se cair nesses dois casos extremos.
Um abraço
De catia faria a 14 de Março de 2008 às 18:12
Olá a todos,

A propósito de:
Diz-me que manual usas, dir-te-ei quem és/
Gostaria de acrescentar:
Diz-me que manual usarás, dir-te-ei quem poderás ser

E partilhar convosco:

Conheci há uns anos numa escola, no meu fatídico ano de estágio, uma professora de filosofia, no seio da fraude da planificação das unidades didácticas. Esta professora dava aulas, na altura, há mais de 15 anos e era reconhecidamente excelente. Os alunos chamavam-na nos corredores, as suas aulas eram faladas como das mais interessantes de sempre e todos os professores de filosofia a invejavam pela sua capacidade de improvisar e leccionar sem rede. Nunca cingiu o seu trabalho ao manual adoptado e podia facilmente discorrer com algum rigor sobre qualquer assunto filosófico que se colocasse em cima da mesa.
Contudo, de há uns anos para cá, mudou radicalmente o seu tão brilhante método. O que aconteceu? Fez uma acção de formação com o Desidério, começou a ler livros sobre didáctica da filosofia e filosofia actualizados e percebeu que andava há anos a dizer, no seio de tanta paixão, muitíssimas asneiras, tais como que a validade é propriedade exclusiva dos raciocínios dedutivos ou que, nestes, partimos do geral para o particular.

Mas ao contrário de outros, esta professora fez o único possível para quem se pretende intelectualmente honesto: reviu as suas crenças, detectou fracas justificações para elas e percebeu que, muitas, não passavam de puras falsidades, acriticamente repetidas durante anos, gravemente alimentadas por manuais muito bem cotados no mercado. Mas, por que o fez, se já todos a consideravam uma excelente professora?

Fê-lo, porque percebeu, que, por muito que assim parecesse, ela não era uma excelente professora. Uma professora, como qualquer humano, quer que gostem de si, mas uma excelente professora está disposta a arriscar o seu ego, se em jogo estiver a verdade.

Manual adoptado: Arte de Pensar, 10º e 11º anos.
De Marília Carrilho a 16 de Março de 2008 às 21:57
Bem...

1. Sinceramente, o manual q escolho não é o claro reflexo da docente que sou. Só o seria se fosse eu a elaborá-lo. É q, na minha experiência, nunca nenhum me "roubou a paixão" por inteiro!

2. Se o programa orienta, é porque não é flexivel; se não orienta, é porque não orienta e deixa-nos "à deriva". Há sempre a ponta da critica na maioria de nós.

3. Temos de pensar q um manual é escolhido por aquilo q mais priveligiamos... sim, mas também aquilo q julgamos ser o trabalho dos alunos (tendo em conta a sua idade, meio social, etc).
De catia faria a 17 de Março de 2008 às 00:43
Olá Marília,

Não sei se percebi exactamente a sua posição quanto ao problema dos manuais escolares, de todas as formas deixe-me dizer-lhe que ainda bem que o manual que usa não é o reflexo daquilo que é enquanto professora, caso contrário, seria de esperar que a sua prática docente não saísse um mm. fora dos limites do manual, o que seria extremamente pobre, principalmente se o manual que usa não for o Arte de Pensar.

Mas o que mais me preocupa das suas palavras é quando diz que nenhum manual lhe tenha «roubado a paixão por inteiro». De certo modo, compreendo, pois não é difícil no meio de tanta palha encontrar um ou outro texto interessante, sobretudo se a pessoa que olha para o manual for um especialista – o professor de filosofia. Mas e, como tão bem coloca o problema, serão esses textos adequados para os seus alunos? E, com que direito espera dos seus alunos que saibam cuidadosamente seleccionar, o filosoficamente relevante do acessório? Não será esse um dever dos autores do manual?

E, mais ainda, se nenhum manual lhe roubou inteiramente a paixão, como consegue lidar com os graves e reincidentes erros científicos que deambulam por esses manuais fora? O que diz aos seus alunos? Que não leiam essas partes? Faz censura do manual?

Quanto à oposição que vê entre aquilo que «mais privilegiamos (…) ou aquilo que julgamos ser o trabalho dos alunos», não crê ser essa uma disjunção artificiosa? Não deverá ser aquilo que privilegiamos precisamente aquilo que julgamos ser o trabalho dos alunos? E crê a Marília que um manual como o Arte não pressupõe isso? E não perceberá a Marília que é exactamente essa uma das principais razões que o distingue de todos os outros manuais? Mas se não ficar convencida, faça você mesma o teste. Utilize o manual com os seus alunos e eles dirão de sua justiça. No fim, estou certa que a própria Marília agradecerá.

Um abraço, Cátia
De Valter Boita a 17 de Março de 2008 às 13:51
Olá Marília, agradeço-te o teu comentário!

Reflectir sobre a apreciação de manuais é bastante importante, pois dessas reflexões faremos os juízos que temos a fazer sobre o nosso método de ensino, a nossa concepção de filosofia no ensino secundário e, sobretudo, o modo como os alunos aprendem.

«Sinceramente, o manual q escolho não é o claro reflexo da docente que sou. Só o seria se fosse eu a elaborá-lo. É q, na minha experiência, nunca nenhum me "roubou a paixão" por inteiro!»

Se todos pensássemos assim, então o melhor a fazer seria estarmo-nos nas tintas para o manual e enveredar por uma atitude de indiferença perante o trabalho que está a ser feito pelos autores de manuais. O manual é, além das aulas que o professor dá, que não implica que estejam coladas ao manual, um dos rostos com que os alunos ficam da filosofia. Digo isto porque tenho alunos já mais velhos que estudaram por outros manuais e outros programas, e lembram-se perfeitamente do manual que tinham e ouço-os dizer que o manual que temos (por acaso é o Arte, mas isso não interessa, porque não estou aqui a defender um manual) é muito mais compreensível do que outros (redigidos por autores de manuais consagrados).

Imaginemos um professor, no início do ano, que assume perante os alunos que não gosta do manual, embora o tenha preferido a outros, e que não vai dar aulas por ele. Então previne os alunos para não adquirirem o manual. Muito bem, ainda que esteja a ser desonesto e incorrecto na sua prática, já que a adopção de um manual é obrigatória, parece-me adoptar uma atitude bastante auto-centrada ao julgar que só aquilo que ele faz é que tem qualidade, não permitindo aos alunos fazer esse juízo, confrontando-os com que está a ser feito pela filosofia.

Ainda bem que nenhum manual te roubou a paixão de ensinar. Os manuais, sejam eles bons ou maus, não existem para isso. Eles existem para que os alunos aprendam e nada mais do que isso.

Finalmente, concordo quando dizes que na selecção de um manual devemos pensar nos alunos. Ora, aí já se vai definindo o perfil de um professor, ou seja, qual é o seu método de ensino e qual a sua concepção de aprendizagem da filosofia. Cada manual apresenta percursos didáctico-pedagógicos diferentes. Poucos, lamentavelmente, apresentam a filosofia dedicada aos jovens adolescentes. São muitos os que tratam os alunos como impúberes, como uns analfabetos, quando os alunos são bem mais exigentes e reparam quando um manual é mau.
Beijinhos
De Valter Boita a 17 de Março de 2008 às 14:06
Marília, só uma palavrinha sobre o Programa.

Repara que temos ensinado a partir deste programa, e acho-o pobre para as exigências dos alunos e dos seus interesses. Os alunos, como bem sabes, não querem ouvir conversa da treta, nem lições de uma moral laica. Os discursos filosóficos que aparecem na grande maioria dos manuais estão desajustados da curiosidade intelectual de alunos de 15 e 16 anos. Quando comecei a orientar-me por alguns manuais que não seguem escrupulosamente o programa, apenas o itinerário temático, comecei a sentir-me mais motivado em ensinar (aí a minha "paixão", se quiseres, duplicou) e o interesse dos alunos a aumentar. Os alunos começam a perceber que a filosofia não é só conversa da treta sobre o ser humano e o sentido da vida, mas que pode ser útil para a sua construção enquanto indivíduos atentos, críticos e curiosos. Discutir problemas filósoficos, em detrimento dos temas apresentados pelo programa, completamente "a-filosoficos", que não respeita o trabalho filosófico ele mesmo, dando lugar a uma filosofia mestiça com a psicologia, a sociologia e a antropologia, revela o medo que se tem em mostrar o que é, de facto, a filosofia, sem o preconceito de que ela seja inacessível aos alunos. Por isso, apreciei o título de um texto publicado ontem na revista Publica, "Filosofia sai do armáriio" e repara que ela ´já deveria ter saído do armário há muito tempo, pois há muito tempo que ela existe no nosso sistema educativo. E não acho bem, quando pessoas bem intencionadas, a vão limitando e a vão apagando. Felizmente, têm surgido propostas de revitalização da filosofia, que, a meu ver, do ponto de vista dos alunos, têm surtido em bons efeitos. Já não se anda a papaguear coisas sobre o que é a filosofia, para depois se concluir que ela é indefinível e disparates que tais. Ensina-se problemas filosóficos e aprende-se a avaliar criticamente argumentos. Não é esse o papel da filosofia? Não é essa a utilidade da filosofia no ensino secundário?

No entanto, se aprecias o programa, gostaria que me mostrasses razões para eu passar a apreciá-lo também!
Beijos
De rolandoa a 17 de Março de 2008 às 15:07
Valter,
Há um pormenor muito subtil quando afirmamos que os alunos não querem ouvir conversa da treta. Na realidade eles satisfazem-se com isso e com uma classificação que lhes dê para passar de ano. Acontece que ao fazermos isso aos alunos estamos não só a substimar a sua inteligência, ao tratá-los como umas bestazinhas, como também a desprotegê-los de conhecimento. A minha experiência diz-me claramente que os alunos apreciam muito mais as aulas, a escola e os professores quando exigimos que aprendam e discutam seriamente os problemas da filosofia. Claro que não estão habitaudos a isso, mas somos pagos para quê?
Abraço
Rolando Almeida
De Valter Boita a 17 de Março de 2008 às 16:52
Olá Rolando, obrigado pelo reparo. No entanto, parece-me que apresentas duas afirmações inconsistentes:

a) "Na realidade eles satisfazem-se com isso [conversa da treta] e com uma classificação que lhes dê para passar de ano."

b) "A minha experiência diz-me claramente que os alunos apreciam muito mais as aulas, a escola e os professores quando exigimos que aprendam e discutam seriamente os problemas da filosofia. "

Como me parecem inconsistentes, considero que a segunda é verdadeira e a primeira é tão verdadeira quanto falsa. Eles até podem satisfazer-se durante um período de tempo bastante escasso; até podem apreciar que nas aulas se fale dos seus problemas (como por vezes tenho escutado). Também acredito na boa vontade de muitos professores que aproveitam o primeiro módulo do 10º ano para inventar tudo quanto são estratégias com o objectivo de cativar os alunos e de os motivar para a disciplina.

A verdade é que o desencanto vem depois, quando os professores não continuam a dar-lhes palmadinhas nas costas e a aceitar todas as afirmações que eles proferem. O desencanto começa quando vêem que a filosofia, afinal, exige mais deles do que inicialmente parecia. Por isso, é que é importante insistir nos problemas filosóficos, mostrando-lhes que as suas crenças são bastante limitadas e que, partindo das várias posições que foram surgindo, a sua posição também interessa desde que fundamentada e sustentada pelos conceitos e argumentos relevantes. É aqui que entra a filosofia e se impõe o respeito pelo aluno.
Rolando, eu tenho menos experiência do que tu, por isso, espero que tenhas razão, que os alunos prefiram professores exigentes e mais filosóficos que psicólogos, pois essa é também a minha convicção. O respeito que se pode ter pela disciplina, tem de ser dado em primeiro lugar pelo professor.
Um abraço
De rolandoa a 17 de Março de 2008 às 22:58
Ah pois, Valter. realmente tens razão. Da maneira como escrevi soa a contradição. Vamos ver se me explico melhor: os alunos apreciam saber e conhecer, mas quando os deixamos no seu laxismo não se auto motivam, ao contrário do que as pedagogias em prática em Portugal apregoam. Nós é que devemos motivá-los, não com fotografias e fantochadas, mas com os conteúdos próprios das disciplinas. Não é de facto um exercício fácil, mas é perfeitamente possível e desejável.
Abraço
Rolando
De David Duarte a 18 de Março de 2008 às 14:48
Assim, se em vez de nos determos sobre o problema da natureza da arte, por exemplo, discutindo-a, avaliando criticamente argumentos e as novas teorias existentes, somos forçados a ler Deleuze e a aplicar tudo o que Deleuze escreveu à arte, por isso, deixamos de ser críticos e passamos a querer ver arte em tudo, correndo o risco de deixarmos de parte o pensamento filosófico sobre a arte para redigirmos textos que pretendem ser obras de arte.
Penso que te estejas a referir à tua propria experiência. Tenho a sensação que passaste ao lado do teu curso. Tenho a sensação que deduziste que para teres boas notas era necessario "marrares". Tenho pena que tenha sido isso a tua vida na universidade. Andei na mesma universidade que tu, fizemos o mesmo curso e nunca e nunca tive a sensação de estar a reproduzir aquilo que os outros, neste teu exemplo Deleuze, disseram. E sobretudo, se pensas que com Deleuze não se falar do que é a arte, então é porque, finalmente não o leste! E ainda, o facto de um professor aconselhar um autor não significa que ele te o esteja a impingir. Significa simplesmente que ele servira para que entres no tema em causa. Depois, porque estamos na Universidade e somos pessoas grandes, temos a liberdade de fazer as nossas proprias investigações, procurar outras referências. Nunca fui impedido de o fazer.
Sobre o facto de certos professores dizerem que aquilo que dão no secundario não terem dado na universidade, isso parece-me logico. Mal sinal seria se o nivel de dificuldade e de exigência entre o secundario e a universidade fosse o mesmo.
Vou lendo o teu texto e respondendo se algo mais merecer um comentario.
De Valter Boita a 18 de Março de 2008 às 14:56
Olá David!

O teu comentário não respeitou um princípio básico da interpretação que é o da contextualização. Quando mencionei o exemplo de Deleuze, tratava-se de um exemplo de como determinados autores são desadequados ao ensino secundário. Existe um tema do programa que se intitula de "Experiência estética". Alguns manuais, tratam este tema de um modo bastante desadequado, partindo de autores em que se torna pouco clara a sua posição e argumentos sobre a natureza da arte, por exemplo. Era neste contexto que vinha o exemplo de Deleuze e não uma confissão da minha experiência na universidade.
Um abraço
De David Duarte a 18 de Março de 2008 às 15:17
Da mesma forma que disse que pensava que o teu exemplo de Deleuze foi tirado da tua experiência, digo agora que penso que és sincero quando dizes que não tomaste a tua experiência da licenciatura em Evora e das aulas de estética que deste sobre Deleuze como exemplo.
Assim sendo, ficou claro.
Abraço!
De rolandoa a 18 de Março de 2008 às 19:34
David e Valter,
Vou meter uma colherada: o importante num curso não é discutir deleuze, mas aprender a discutir os problemas da filosofia, para tal, se necessário, conhecendo os argumentos centrais que enquadram os problemas. E isso, David, pura e simplesmente não se faz nas Universidades portuguesas, seja em Évora, Lisboa, Porto ou Açores. Não é prática fazê-lo activamente, ainda que quase toda a gente apregoe que é isso que se faz. Diga lá, david, quantas vezes teve grupos de discussão organizados nas aulas para dicutir o problema da existencia de deus na filsoofia da religião, por exemplo????
abraço aos dois
Rolando Almeida
De Miguel Ângelo a 18 de Março de 2008 às 16:08
Nunca pensei que este post suscitasse tanta discussão e polémica. Acho uma boa ideia. Boas Páscoas e deixem de filosofar um bocadinho. Isso ficará para o 3º período...
De David Duarte a 18 de Março de 2008 às 22:10
Rolando Almeida,

Claro que o importante não é discutir um autor, mas os temas essenciais da filosofia. Não é isso que se encontra em causa. O que se encontra em casa é que para discutirmos esses temas essenciais da filosofia temos que recorrer à historia da filosofia para ver o que aqueles que dedicaram a sua vida a pensa-los dizem sobre o assunto. Não é uma questão de autoridade, mas pura e simplesmente o assumir a nossa ignorância e de procurar ideias naqueles que as têm. Isto porque as ideias não aperecem exnihilo. Isto não significa que temos que nos submetermos a eles. Quem assim pensa, quem se encontra nessa logica e aceita o que outros dizem sem critica ou recusam sem critica, então têm problemas com a autoridade e esse problema nem é da Universidade de Evora nem dos seus professores (falo de Evora porque é aquela que eu conheço meljhor).
Sobre essa dos temas de discussão, felizmente não precisavamos de marca-los pois as aulas eram exactamente isso. Talvez porque eramos poucos (no maximo uns quinze) uma certa atmosfera informal se criava que ajudava à discussão. Obvio, esses temas eram enquadrados, contextualizados pelo pensamento de um autor, mas ninguém era obrigado a ficar nele. Felizmente não tive uma disciplina de chicote como aquela que o Sr. manifesta ter tido. Resta apenas saber se tal experiência que teve corresponde à realidade, ou aquela realidade que o Sr. criou para si mesmo.
Cumprimentos
De rolandoa a 19 de Março de 2008 às 00:11
Caro David,
O conhecimento que tenho do funcionamento dos cursos de filosofia é suficientemente claro e justo para afirmar o que afirmo e se o David encara que discutiu muito os problemas da filosofia é porque vive no mundo da fantasia e não eu. Existem casos pontuais, em quase todas as universidades, onde isso é prática, mas nem sequer é prática institucionalizada uma vez que não temos como obrigatório, por exemplo, um sistema de tutorias. Por muito que lhe desconforte afirmar isto, eu não tive um professor que me atormentou, tive vários, a maior parte. A mim e a todos os alunos. O problema é que as pessoas não estão habituadas a lidar com a verdade e a poder encará-la e o que se passa na cultura universitária tem óbvias consequências na cultura popular. Talvez por essa razão é que quando discordo do David, o David parece tomar-me como inimigo, quando tal não é verdade. Discordo frontalmente de algumas das suas afirmações e o David, com a formação que diz ter, não devia estranhar.
Rolando Almeida
De catia faria a 19 de Março de 2008 às 11:45


Caro David,

Permita-me que entre na discussão, apesar de me ter parecido, desde o início, que a sua discussão com o Valter é gerada por razões muito alheias à discussão filosófica. Digo isto, sobretudo, pelo tom agressivo com que tem dirigido os comentários ao seu colega e pela defesa acérrima que tem feito da sua experiência na Universidade de Évora, como se o que estivesse em causa aqui fosse o valor da sua formação.

Ora, a partir do momento em que transfere uma discussão pessoal para o espaço público de um blog, terá forçosamente que aceitar alguns princípios básicos da discussão racional, sem os quais as suas posições não poderão ser levadas a sério: i) Dominar elementos básicos da lógica que lhe permitam evitar as falácias ad hominem que tem subtilmente introduzido no seu discurso; ii) Ser imparcial na defesa das suas posições; iii) Apresentar-se disponível para mudar de ideias.

Parece-me que certas questões que apresenta seriam tanto mais interessantes para a nossa discussão quanto menor fosse o manto pessoalizado em que parece assenta-las. Parece-me fantástico que o David esteja satisfeito com o curso que frequentou em Évora, mas isso é irrelevante para uma discussão sobre ensino, tanto mais quando as razões em que sustenta essa satisfação são de longe boas razões para defender a alegada qualidade de ensino que teve.

Claro que ninguém, mesmo quando teve um péssimo ensino na faculdade, é impedido de pensar por si, aliás, penso ser isso que acabamos por fazer uns e outros, mas, a verdade é que o fizemos à revelia do ensino que tivemos. E é urgente, hoje, enquanto professores de filosofia, travar essa tendência. E só uma discussão imparcial sobre as condições que deverão estar reunidas para que um ensino da filosofia – universitário ou secundário – esteja garantido com qualidade nos poderá ajudar.

Obrigada e um abraço,

Cátia
De David Duarte a 19 de Março de 2008 às 21:37
Catia,

O meu objectivo, quando comentei o texto do Valter, não foi o de falar sobre o estado do ensino da filosofia no secundario. A unica experiência que tive foi a de aluno e não a vossa de professores.

Sobre a pressuposta agressividade, ela néao existe. Conheço o Valter ha alguns anos e permito-me de lhe escrever, mesmo que tal seja em publico, como lhe falaria se estivesse num café com ele. Onde leu agressividade nas minhas palavras eu transmitia decepçao. Uma decepção que deixou de existir a partir do momento que ele me respondeu elucidando-me no seu proprio texto.

Sobre a minha defesa do curso de Evora, bom, faço-a porque ultimamente tem sido criada a imagem que o ensino da filosofia nas Universidades portuguesas é mau, que os professores so trabalham para o seu umbigo. Não tive essa experiência e porque não a tive exprimo-a quando existe quem generaliza a sua ma experiência, real ou criada pela sua propria frustração, a todo o pais. E sobretudo quando se idealiza o que se passa la fora querendo impo-lo ao nosso pais. O ensino em Portugal não é perfeito, longe disso. Mas não penso que seja positivo colar o que se faz la fora, sobretudo no mundo anglo-saxão, que tem uma visão do mundo muito diferente da nossa. O que se passa bem la fora não resulta necessariamente em Portugal, sobretudo quando falamos de realidades diferentes. Crer que sim não é mais que manifestar que o provincianismo continua a ser, cem anos depois do texto de Pessoa, a maior doença portuguesa.

Finalmente, sobre o facto de não ter seguido certas regras da logia, apenas me preocupei em ser compreendido pelo Valter, o que aconteceu. Se me dirigisse a todos os que visitam este blog, necessariamente teria seguido regras "mais universais".

Cumprimentos
De rolandoa a 20 de Março de 2008 às 00:37
David,
Cordialemente gostaria de lhe dizer uma coisa: não vejo que a ideia de defesa do subjectivismo de que existe uma filosofia no mundo anglo saxão e outra no mundo da europa continental tenha parido algo de interessante para a filosofia. O que se passa é algo tão simples quanto isto: a esmagadora maioria da filosofia que se produz hoje em dia vem do mundo anglo saxão, por razões muito práticas: dão mais emprego com melhores condições aos investigadores. A maioria das grandes universidades mundiais estuda a filosofia de tradição analítica, custe a quem custar. Isto que eu afirmo não implica qualquer divisão. Nessas universidades também se estudam autores singulares como Derrida ou o pos modernismo ou filosofia chinesa. E há lugar para tudo e todos. Se o David quiser estudar filosofia chinesa pode fazê-lo. acontece é que a filosofia chinesa não tem a expressão da filosofia de tradição analítica, que é, como sabe, a Socrática e não a do circulo de viena. Portanto, ninguém quer impor este ou aquele modelo. as pessoas estão interessadas em fazer as suas investigações, nada mais. O que eu achei frustrante no meu curso foi a forma como a filosofia analítica era denegrida. Enão me venha com histórias que o curso em Évora era a maravilha topo de gama da filosofia nacional. Quantos filósofos produziu a universidade? tal como as outras produziu mais astrólogos que filósofos e gente realmente interessada na filosofia.
Abraço
Rolando Almeida
De rolandoa a 20 de Março de 2008 às 00:39
antes onde se lê, " e gente realmente interessada na filosofia" queria escrever " e gente realmente interssada na filosofia, ninguém."
RA
De catia faria a 20 de Março de 2008 às 01:31
David,

Cada um contenta-se com o que quer e é certo que não precisa de se justificar por isso. Contudo, a quem exige mais de uma licenciatura em filosofia, colocam-se outros problemas e há que encontrar soluções para essas pessoas e procurar saber até que ponto estão a exigir algo a que têm direito. É certo que quem quer mais deve procurá-lo, embora presuma, pelas suas palavras, que mesmo nessa pesquisa deverá haver restrições, nomeadamente no que diz respeito aos livros provenientes do mundo anglo-saxónico. Ora, a mim parece-me uma limitação grotesca, atendendo a que a maior parte da produção filosófica contemporânea se faz em língua inglesa.

Sobre o facto de não ter seguido certas regras da lógica, na anterior discussão, parece-me natural que assim seja, nunca foi hábito entre nós, portugueses, de seguirmos essas importações estrangeiradas.

Um abraço, Cátia

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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